quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

ÁUSTRIA: UM EXEMPLO DE COLIGAÇÃO PARA O FUTURO GOVERNO ALEMÃO?


 Coligação dos Partidos ÖVP e Verdes na Áustria

A formação do novo governo austríaco de coligação de Conservadores e Verdes, sob a orientação do novo Chanceler Sebastian Kurz, constitui uma novidade com caracter exemplar numa Europa onde passa a não haver regras para a mistura de cores políticas.

O governo empossado (07.01.2020) tem 17 membros, dos quais oito são ministras. A Coligação conseguiu aproximar os temas de política migratória com os planos de preservação do clima.

Kurz continua fiel ao seu tema político da imigração e tem a chance de ganhar terreno perdido em relação ao seu governo anterior de coligação com o FPÖ („populista“).

O mérito de Kurz vem da sua grande capacidade diplomática e da sua capacidade e vontade de compromisso.
 
Não será fácil a missão deste governo mas tem a grande vantagen de formar uma equipa capaz de puxar também o carro dos muitos  indignados.

O presidente federal Van der Bellen fez um apelo aos empossados acentuando: “E peço-vos que continuem em conversa, tanto com os vossos adversários como com os vossos fãs. Em resumo, mantenham-se em contato com a Áustria” (1).

Esta estreia na Áustria entre Conservadores  (ÖVP) e Verdes poderá ser um indício para o que acontecerá nas peróximas eleições alemãs (CDU/CSU, FDP e Verdes!). Os Verdes definem-se no seu programa no princípio “democracia de base, não violenta, ecológica, solidária, feminista, independente”. O partido ÖVP representa o espaço burguês, conservador e liberal tendo como fonte de orientação social a doutrina social católica.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo, https://antonio-justo.eu/?p=5768 

sábado, 4 de janeiro de 2020

A MODO DE BALANÇO ENTRE A ERA DA ENERGIA FÓSSIL E A ERA DA ENERGIA RENOVÁVEL

 Na Passagem da Era do Petróleo e do Carvão para a Era das Energias renováveis

Por António Justo
Com 2020 iniciamos um ano redondo de fim de década, o que convida a fazer tentativas de balanço sobre o passado e o que nos espera no futuro.

Como pontos relevantes de referência básica temos a primeira guerra mundial que iniciou o fim das nações na qualidade de potências individuais. Temos o comunismo a tornar-se no elo de ligação e coerência que deu expressão mundial à União Soviética como grande potência que hoje se prolonga na influência ideológica; por outro lado os USA com o capitalismo que deixaram de ser apenas um país para se tornarem na superpotência mundial, a partir da sua intervenção na I e II Guerra mundial. Ficou assim a atuar no subconsciente dos povos e nos bastidores do palco mundial, de um lado, o capitalismo americano e do outro, o socialismo facetado. 

A uma Europa enfraquecida pelas guerras e reduzida ao mero âmbito de nações, para poder sobreviver em relação aos USA, à Rússia, às potências surgentes da Ásia só lhe resta a alternativa de se organizar através de convenções e contratos na União Europeia. 

À II Guerra Mundial seguiu-se o grande crescimento económico europeu, tendo dado origem ao maior período de paz na História europeia e consequentemente houve um grande desenvolvimento no que se refere aos direitos humanos, responsabilidade social, espírito democrático, liberdade de imprensa e de mercado e à revolução tecnológica em via.

Temos pela frente o grande dilema climático e a necessidade de produção de energia sem base no carvão e no petróleo (grande problema tecnológico a solucionar será o do armazenamento de energia em baterias) para apostar certamente no desenvolvimento e construção de reatores de fusão à base de hidrogênio como os ingleses já procuram fazer.

Como a vida social e política costuma andar atrelada à económica, tudo dá a entender que, no futuro, as zonas geradoras de riqueza e de conflitos passarão do Ocidente para o Oriente, como se observa na afirmação mundial da China em relação aos USA. As tempestades económicas são sempre acompanhadas por devastações sociopolíticas.
 
A destruição do Globo não tem que acontecer, talvez as nossas esperanças se encontram mais flutuantes nesta era muito caracterizada pela mudança e pelo receio do domínio de “dinossauros „económico-políticos.

Já não serão as políticas nacionais a determinar o desenvolvimento das regiões, mas sim grandes empresas anónimas (Google, Apple, Facebook, Amazon, Tencent, Alibaba, Visa, AT&T e outros que surgirão, chamarão a si as atenções e os interesses); estas concorrerão entre elas na tentativa de concentração de capitais e de poder ao lado do poder ideológico político na disputa comum pelo domínio das grandes massas.

A inovação tecnológica necessária, se acompanhada por uma cultura do senso comum e da honestidade prometerá um futuro melhor e ainda mais agradável do que o de hoje. Para isso seria necessário que os valores surgidos da civilização judaico-cristã e greco-romana (baseados em relações pessoais humanas) não sejam substituídos por relações individuais baseadas no comercial.

A vida é contínua mudança e a plataforma que lhe dará consistência e sustentabilidade é a fé/esperança que nos acompanha no caminho, não nos deixando ficar sozinhos! Um povo, que não cultive a fé e a esperança, patina em si mesmo e não avança.

A esperança assemelha-se ao nadador que, para se afirmar em frente, se apoia na resistência que lhe oferece a fragilidade da própria água que o sustem. 

A atitude da classe política europeia ao transpor para o povo o peso das dívidas e ao reservar para as elites o luxo, fomenta assim a chamada reação do “populismo” e dos 'coletes amarelos'; estes são muito sensíveis à mudança axial que paira no ar e de que muitos ainda se não deram conta. 

O Brexit pode ser interpretado como uma reação de medo no mesmo contexto e também um sinal da falta de coesão de uma Europa envelhecida incapaz de dar respostas de caracter orientador e de sentido para o tipo de nova sociedade que vai surgindo (O Papa Francisco poderia servir de modelo para o novo homo politicus que urge criar – as peias ideológicas impedem, porém, os políticos de reagir aos sinais do tempo. A mentalidade extremista e exclusivista de uma esquerda ativista e de extremistas da direita mais não são que o fanatismo das antigas guerras de religião só que encoberto com indumentárias de democracia e de luta em nome de algum bem desgarrado.
 
Pelo seu lado, o mundo do operariado do sector produtivo sente-se inseguro perante a inteligência artificial que o vai arrumando pouco a pouco. O capital que o trabalhador possuía era a energia do seu trabalho sublimada no Dinheiro. Atendendo à dicotomia entre economia produtiva e a economia financeira e correspondente anulação dos juros, desvaloriza-se também a energia laboral do trabalhador em benefício da energia das máquinas e do anónimo. As inovações tecnológicas já se fazem sentir também no clima dos trabalhadores e seus receios em relação ao futuro; cada vez se torna mais seu anseio serem funcionários do aparelho estatal.

Por seu lado, as elites já incluem no seu agir a instabilidade social e o incómodo social; elas vão dando um passo de cada vez, tendo abdicado já da História.  

Embora a pobreza mundial diminua, nunca houve uma época com tão grandes desigualdades sociais como a de hoje: regentes e oligarquias permitem-se a nível de salários e de gestão da vida (energia desviada) o que não se permitiam reis em relação aos seus súbditos: hoje estamos a ser cada vez mais burilados como massa súbdita e anónima na grande máquina da anonimidade económica e política, que vê o seu trabalho simplificado através do controlo total de tecnologias e cabecilhas. 

Estamos a passar do século do petróleo para a era das energias renováveis… O expansionismo económico chinês em rivalidade com o americano obrigar-nos-á, pouco a pouco, a desquitarmo-nos do domínio americano e também de muitos dos valores da sociedade ocidental. A não ser que o poder asiático se torne tão forte que provoque a união dos povos do ocidente com a Rússia.

Por enquanto a sociedade ocidental encontra-se numa fase de desconstrução não só por fraqueza própria, mas pela concorrência de novos protagonistas mundiais e por interesses estratégicos da ONU, interessada em desvalorizar a influência cristã no mundo no sentido de adquirir o controlo total sobre as sociedades para ir substituindo a concepção cristã da pessoa pela de indivíduo da China (relação mais de serviço. Se olharmos para os dados estatísticos do desenvolvimento económico dos países neste século, será de esperar que depois dos anos 70 já não será relevante a problemática política e económica entre a China e os USA, mas sim entre a China e outros países asiáticos.

© António da Cunha Duarte Justo

sábado, 28 de dezembro de 2019

GRATIDÃO ALÉM DE VIRTUDE É UM REMÉDIO EFICAZ


Natal é Gratidão a vibrar no Coração

António Justo
Há dias, quando estava a preparar este texto sobre gratidão e a ler um livro de Robert A. Emmons, veio-me à mente algumas vivências que tive no mosteiro.

Quando entrei no mosteiro de Arouca (1960), dois acontecimentos me impressionaram em particular: o ritual de despedida do dia "Boa Noite", com uma duração máxima de cinco minutos, em que se expressava uma atitude de agradecimento pelo dia que terminava; o outro era o costume do "Dia da Boa Morte" no final de cada mês, onde através de meditação, oração e leitura espiritual se exercitava a “boa morte” como agradecimento pela vida presente no sentido de ser vivida mais intensa e conscientemente ao ser equacionada na perspetiva da boa morte como algo natural. 

Durante a "Boa Noite", o Director, na tradição salesiana, levava-nos a recordar as experiências do dia; depois de uma breve pausa, mencionava um pensamento feliz ou uma história edificante que terminava com a saudação "Boa Noite"; depois íamos para a cama relaxados e às vezes rindo ou contemplando, mas sempre envoltos em pensamentos alegres e de empatia espiritual. Gratos íamos todos dormir. É um facto que a energia da gratidão nos leva a uma nova visão das pessoas e das coisas, e permite-nos ampliar os nossos próprios horizontes.

Atualmente vivemos numa época em que até as coisas positivas e belas são tidas como perturbadoras. O espírito do tempo quer que, mesmo as coisas bem-sucedidas, devam ser embrulhadas com uma folha de pensamento crítico ou até negativo. Há como que um culto contra o belo, contra a harmonia e contra a sintonia; parece não se querer pessoas gratas.  

O pesquisador de gratidão Prof. Dr. Robert A. Emmons de psicologia positiva confirmou que praticar gratidão e registar coisas pelas quais se é grato promove saúde, bem-estar e amizade e que a gratidão reduz as emoções venenosas das pessoas e cria mais felicidade; isto também porque ativa no cérebro as "hormonas da felicidade" (serotonina e dopamina), que causam uma onda de bem-estar e alegria e têm um efeito relaxante. Isto também cria calma, o que leva à criatividade e abre caminhos para dar resposta a muitas questões da vida (1). 

A tristeza depressiva, o medo, a sensação de ser vítima ou a indignação provocam a libertação de hormonas de stress (cortisol e adrenalina) no nosso cérebro e leva-nos a um estado de luta pela sobrevivência. O pessimismo excessivo, é como o frio, encolhe-nos e pode enfraquecer o nosso sistema imunológico. 

A gratidão requer, certamente, sinceridade e humildade como diretrizes para se tornar mais eficaz e assim poder ativar a sintonia e a ressonância do amor; ela é mais espiritual que psicológica.

Somos transmissores e preceptores, como se estivéssemos equipados com antenas, que enviam e recebem sinais eletromagnéticos e espirituais com uma certa vibração e frequência.  Deste modo podemos influenciar o ambiente e ser influenciados imperceptivelmente por ele.

É significativo e necessário treinar a nossa consciência (espiritual) de tal forma que a nossa memória herdada e que funciona inconscientemente em nós, seja reescrita de modo a que o seu poder seja neutralizado.

O antropólogo Darrell S. Champlin fala da "memória ancestral e espiritual da consciência que vive fora do corpo". Está provado que mesmo três gerações de descendentes daqueles que sofreram os horrores do nazismo nos campos de concentração sofrem hoje de depressão, 78% mais frequentemente do que aqueles que não sofreram tal trauma. Como é que isto pode ter sobrevivido durante tantas gerações?

Darrell S. Champlin descreve no seu livro "The Dream Portal" (2) que eventos positivos, negativos ou traumáticos já influenciam a vida do bebé no útero, tal como o ambiente familiar posterior pode determinar a sua percepção da realidade. 

A gratidão pode ser experimentada como uma mistura de desejo de vida e amor que nos leva a uma melhor qualidade de vida natural e espiritual e geradoras de satisfação. A pessoa grata tem uma atitude positiva em relação à vida e às pessoas, surgindo nela, por vezes o impulso de inalar Deus que brilha na natureza e provoca no nosso íntimo um desejo de abençoar tudo. Este sentimento é como o Sol que ilumina todas as sombras; tem a magia de preencher até mesmo os pensamentos negativos com energia positiva e alegria de viver. Mesmo na noite, onde a tristeza, a negatividade, a raiva e os maus pensamentos insistem em aninhar-se na nossa consciência, a gratidão funciona como uma lua que ilumina o nosso caminho na noite. A mim ajuda-me nesse sentido exercícios de inspiração e expiração em consonância com a energia amorosa divina e em sintonia com a natureza. Então não há bem nem mal, há apenas a ressonância energética do amor que tudo inunda. Aí tudo é calor, luz, amor no sentimento de quem ama não julga. 

Viver com gratidão é viver em empatia numa atitude positiva para com as pessoas e o mundo. Em termos concretos, isto significa estar em harmonia com Deus e nele com o universo.  Então aceitamos em nós mesmos, a realidade e as circunstâncias que nos rodeiam; desta forma as energias negativas, a culpa, o papel de vítima, as más recordações que nos retêm, são libertadas pelo sentimento de perdão. (Um crente tem a vantagem de ter Deus também como companheiro e amigo, e embora sinta, por vezes o lado negro da vida, tem também a vivência de não estar sozinho). 

Concluindo
 
Em Português, quando nos sentimos gratos, agraciados, dizemos "Obrigado". Esta palavra vem do latim ("obligare") e significa: "Sinto-me ligado, responsável, reconhecido, valorizado", diria, em graça. 

A gratidão é uma pedra angular de todas as grandes religiões. Na civilização cristã ocidental, o Natal expressa de maneira especial a exuberância das pessoas gratas.
 
A pesquisa moderna confirmou que a gratidão interior tem o poder de mudar vidas (tal como é veiculado pela espiritualidade). A transformação dá-se através da mudança de pensamentos e atitudes; neste sentido o poder da espiritualidade religiosa pode ter mais eficiência do que estratagemas psicológicos. A energia da gratidão pode também ser usada como um remédio eficaz contra sentimentos e pensamentos negativos. Estes podem tornar-se num vírus sempre a zunzunar na mente a ponto de corromperem a própria pessoa. A gratidão é também um bom remédio contra a insatisfação de querer sempre mais ou de querer ser mais. É um sentimento de reconhecimento básico, um crédito pelo que recebemos e a confirmação de que somos interdependentes, aceitamos e nos aceitamos. Mas também há momentos em que as ideias de gratidão não penetram o sentimento (3)! Ser grato é muitas vezes um desafio devido às complicações da vida. Mas a gratidão também pode ser exercitada e aprendida, contribuindo para aumentar a qualidade de vida; apesar de um estado momentâneo difícil que se possa ter, podemos continuar a reconhecer o que se tem. Ao aceitar a nossa própria realidade (circunstâncias), marginalizamos as energias negativas, a culpa e o sentimento de ser vítima.

O filósofo Francis Bacon dizia: "Não são os felizes que estão gratos". São os gratos que estão felizes!

© António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo
(Este Texto é o resumo de uma palestra que fiz na Sociedade Alemã-Indiana)
Notas em Pegadas do Tempo, https://antonio-justo.eu/?p=5758