Seu Efeito de Sinalização contra as Medidas anti Corona do Governo
Por António Justo
O Partido Comunista Português (PCP)
esfrega as mãos de contentamento, com tanto a favor e tanto contra a Festa do
Avante. O que importa é estar nas bocas do mundo, o resto é apagamento!
A festa do avante é o maior
evento político-cultural português (três dias) e na sua organização faz lembrar
o evento da Igreja (Kirchentag), na Alemanha! A Festa do Avante, como evento político-cultural, expressa a
relevância da Esquerda em Portugal e a importância de um voluntariado criativo
e idealista na organização do festival.
Desde 1990 o evento realiza-se na
Quinta da Atalaia (Amora, Seixal) que o PCP comprou. Este ano o festival é
realizado a 4, 5 e 6 de setembro.
A festa, é uma característica
muito querida dos portugueses; já que
não temos Fátima nem futebol nem arraiais, haja, pelo menos, festa para a
esquerda; caso contrário, em tempo de pandemia, até nos esqueceríamos que
vivemos num Estado partidário de crença secular que se empenha pelo cultivo do
seu credo! Doutro forma seria legítima a pergunta: Que tem a festa do
avante a ver com o beneplácito do PM e do Presidente da República e por que
terá este de promulgar um decreto que não questione a festa do avante, apesar
das massas de gente que congrega?(1) Ou
será que num meio político imune e descarado se torna irrelevante o andar ou
não com máscara!
Também gosto da festa e da
liberdade. Se é permitido festejar que seja
admitido para toda a gente! Regras,
quando muito, sejam iguais para todos.
A festa do Avante (em média
100.000 participantes) rendeu em 2019 mais de dois milhões de euros ao PC.
Apesar da pandemia, numa lógica antigovernamental, o Avante leva a sua
avante, o que vem confirmar a ideia dos que defendem que a conversa do governo em
torno do Coronavírus não é mais que um exercício para o confinamento da vontade
popular.
No fim da festa só haverá
contentamento: os comunistas com os lucros da festa e os adversários com a
esperança que o vírus também infeste os camaradas da festa!
Os Privilégios do PCP são os Garantes de uma Sociedade alinhada à Esquerda
A ação do PCP em Portugal pode resumir-se na seguinte
frase do Tenente Coronel João José Brandão: “o PCP não manda, no sentido em que não ocupa, nominalmente, as cadeiras
do Poder. Mas manda, no sentido em que condiciona tudo o que se passa” (2).
Ele condiciona tudo porque se
encontra instalado na administração estatal e em corporações nacionais de
maneira indelével e impercetível (3), possuindo ao mesmo tempo uma aura de
mártir fomentada na consciência popular pelo regime de abril.
Embora derrotado em 25 de
novembro de 1975 afirmou-se por simulação e infiltração no aparelho do Estado (constituição,
imprensa ideologicamente saneada,
instituições sociais, até na Caritas …). O
regime de abril sem a ideologia comunista seria, na praça pública, como um
galão feito com café de cevada! Por obra e graça da nova classe política
toda a informação social tem um sabor característico de abril (Se o aroma social anterior tinha um
cheirinho a Salazar o novo regime substituiu-o pelo cheirinho a comunismo; mas
em questão de cheiros não se discutem gostos!).
A direita que não conseguiu
sarar-se do complexo de culpa assumido no Regime de Salazar vindo-se aniquilada
também pela demonização de tudo o que era do antigo regime; isto aliado à
inteligência e experiência partidária do PCP e ao oportunismo de radicais de
esquerda favoreceu a estruturação da corrupção dos partidos a nível estatal. O
PCP foi açamado pela URSS que não queria que se estatuísse em Portugal um mau
exemplo (PC) comunista a nível internacional.
De facto, o PCP português talvez
seja o verdadeiro herdeiro de um socialismo que se queria também afirmar como
crença; tornar-se na nova religião, o que em grande parte conseguiu. Na europa
os partidos comunistas, no sentido tradicional, deixaram de existir, porque ao
perderem a fé nele já não são verdadeiramente comunistas – por isso preferem
optar pelo desvio socialista enquanto a recordação do bloco de leste durar; na
Europa só o PCP original se mantem.
A subsistência do PCP original na
sociedade portuguesa também tem certamente a ver com um certo sentido místico-poético
português e com a consistência ideológica conseguida pelos obreiros da
República portuguesa onde um corporativismo medievalista de elites cúmplices
entre si ainda hoje politicamente fomentada por uma prática de sigilo dos
homens do avental a atuar nos labirintos da República.
Para ver a sua capacidade de usar
a crença do povo para os seus objetivos lembro aqui um caso que se deu nos
primeiros tempos da revolução em que um militante delegado sindical de Lisboa, deslocado
ao norte, (certamente em missão de catequização) trazia nas mãos um Terço como meio de propaganda, quando o Terço
não era chamado, também no Norte, a comícios sindicais. (Tal era a ideia que se
tinha do Norte!).
O PCP tem a vantagem, em contraposição
a outros partidos da extrema esquerda, o facto de possuir uma certa
racionalidade e uma boa infraestrutura na estratégia de organização enquanto
outros só lhes resta a palavra e o oportunismo de que também muita da esquerda
moderada se serve.
O PCP, como opositor sistémico
convencido conseguiu, também a nível de opinião pública, um estatuto de
consciência nacional que dá expressão ao protesto popular de quase tudo o que
vai mal! Favorece-o ainda o facto de ser a ponta de lança da doutrina
socialista que, a nível de partidos moderados, cultiva um socialismo
envergonhado por terem de manter oculto o seu verdadeiro objetivo!
É triste a
situação política e económica portuguesa por temos a pouca sorte de termos uma
direita complexada e uma esquerda oportunista; uns e outros fechados em si
mesmos e como tal não atentos aos verdadeiros problemas nacionais. O medo
e o oportunismo revelam-se como garantes de um sistema partidário conivente ao
serviço de corporações, mas à custa do bem comum! Outra não será a razão pela
qual os partidos em vez de exercerem controlo efetivo sobre o Estado e o
Governo com ações concretas (denúncia das irregularidades à justiça, etc.)
apenas se interessam em comentar, na praça pública, os males do adversário
político. Homens do jeito de Sã Carneiro e de Ramalho Eanes não são bem vistos nas
elites de Portugal.
António da Cunha
Duarte Justo
Com notas em “Pegadas do Tempo” https://antonio-justo.eu/?p=6046
(1)
Marcelo promulga diploma que permite
festa do Avante! https://zap.aeiou.pt/marcelo-permite-festa-avante-326697?fbclid=IwAR1kwISrKfoOIhN7ARNk9tmQj5PgEfkfeivDgoESZZAyivEuQBjtep_fqzg
(2) PORTUGAL,
O PCP, IGNORÂNCIA, DISTRACÇÕES E MEMÓRIA CURTA em: https://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2008/11/portugal-o-pcp-ignor%C3%A2ncia-distrac%C3%A7%C3%B5es-e-mem%C3%B3ria-curta.html
(3) A este
respeito poderia dar um exemplo da maneira como elementos da administração de
uma secretaria de Estado conseguiram contrariar a vontade do Secretário de
Estado antecipando-se enviando para a imprensa dados inventados e difamadores
do assunto em questão: assim antecipa-se ao acontecimento e impede o seu
seguimento).