quarta-feira, 17 de junho de 2026

A REDESCOBERTA DE CABO VERDE PELO FUTEBOL


A história tem destas coisas inteligentes que é nunca se deixar encerrar numa só narrativa, por vezes confinada pelos grandes. Para ser verdadeiramente fiel à cronologia e a uma consciência sempre reavivada, a História serve-se, também da FIFA para mostrar o mundo na perspectiva de um outro jogo...
No dia 13 de outubro de 2025, os "Tubarões Azuis" escreveram a página mais bonita da sua história desportiva. Ao vencer o Essuatíni por 3-0, no Estádio Nacional da Cidade da Praia, a seleção cabo-verdiana garantiu, pela primeira vez, um lugar no Campeonato do Mundo da FIFA... Uma conquista ainda mais notável se considerarmos que Cabo Verde, com os seus cerca de 525 mil habitantes, se torna, depois da Islândia, o país menos populoso de sempre a marcar presença num Mundial...
Este feito desportivo ecoa, de forma poética, a própria história do arquipélago. Cabo Verde foi descoberto em 1460 por Diogo Gomes e António da Noli, ao serviço do Infante D. Henrique. Quando chegaram, as ilhas estavam habitadas apenas por aves e vegetação selvagem, sem qualquer indício de presença humana anterior. A primeira ilha a ser descoberta foi a de Santiago, e em 1462 teve início o povoamento, com a fundação da Ribeira Grande, hoje Cidade Velha, a primeira cidade europeia nos trópicos. Durante séculos, o arquipélago foi um ponto estratégico nas rotas do Atlântico, mas permaneceu, durante muito tempo, uma realidade distante no imaginário global...
.... Tal como os islandeses, os cabo-verdianos provaram que a grandeza não se mede pelo tamanho do território ou pela população, mas pela força da vontade e pela união de um povo. A Islândia foi redescoberta no campeonato das nações e depois foi recompensada com muito turismo; o mesmo haverá de contar-se para Cabo Verde.
Agora que o futebol recolocou Cabo Verde no mapa do mundo, é tempo de olhar para os seus filhos que, tal como os navegadores de outrora, partiram à procura de um futuro melhor. A comunidade cabo-verdiana em Portugal é uma das mais expressivas e antigas, com cerca de 48 mil residentes legais só com nacionalidade cabo-verdiana, um número que ultrapassa largamente os 100 mil se contarmos os naturalizados e descendentes... Portugal teria, em consciência, o dever de beneficiar e privilegiar os migrantes das antigas colónias/províncias ultramarinas, promovendo mais construções que lhes facilite o viver. Afinal, a língua e a história comum são pontes que não podem ser ignoradas e, a partir da multipolaridade da mesma língua, até poderia ser o incentivo para se formar dos países lusófonos um novo polo num mundo geopolítico que se está a orquestrar.
Portugal tem de mostrar inteligência nas prioridades que coloca, mesmo em relação à imigração e não se deixar levar por políticas meramente económicas de Bruxelas... Que a redescoberta de Cabo Verde pelo desporto seja o prenúncio de uma redescoberta mais profunda, a descoberta de um povo que, tal como a sua seleção, merece um lugar de destaque no palco do mundo.
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11045

terça-feira, 16 de junho de 2026

O EMPATE DE CABO VERDE/ESPANHA QUE ABALOU ATLANTA

A Alma feminina no Coração do Futebol masculino e o Aviso a Portugal a reflectir a Lusofonia

Por António da Cunha Duarte Justo
O cronómetro do Mundial de Atlanta parecia ter engolido a lógica. Quando o árbitro apitou, o painel electrónico gritava um zero a zero que não era apenas um resultado, mas um terramoto sísmico no Olimpo do futebol. A Espanha, colosso de títulos e dona de uma posse de bola hipnótica, saiu de campo engolida pelo silêncio; do outro lado, Cabo Verde, essa nação de 500 mil almas e 64.º lugar no ranking FIFA, celebrava o maior sucesso da sua história desportiva.
Este empate não pode ser reduzido a uma anedota estatística, pelo significado que tem. Ele é, na realidade, um poema épico, um manifesto e, acima de tudo, um aviso cerrado a Portugal.
Enquanto as grandes nações, intoxicadas pelo “direito divino” de vencer, se transformam em vítimas da sua própria megalomania falhada, consumindo treinadores e atirando culpas ao vento, as pequenas nações ensinam a lição mais pura do desporto e Portugal é mestre nisto. O treinador cabo-verdiano, Pedro Leitão Brito, resumiu essa filosofia imortal antes do apito inicial ao dizer: «Não viemos aqui apenas para participar, viemos aqui para nos medirmos». E mediram-se, mostrando criatividade, ritmo e uma alma indomável que suplantara o medo. Cabo Verde não jogou com a obsessão do resultado; jogou com a arte de existir (aquele desejo natural do arbusto de também ele poder ser bafejado pelos raios do sol que brilha nas árvores grandes.
Este é o retrato do “Golias” moderno: Alemanha e Espanha, presas na armadura do favoritismo, esquecem-se que o futebol é feito de pés, mas vive de corações. Se o triunfo fácil corrompe, a luta pode dignificar. Um Cabo Verde feliz é um Cabo Verde unido.

A Oração de Curação e o Princípio feminino do Desporto
A noite de Atlanta ainda nos trouxe uma outra lição, ainda mais profunda, nos arredores do campo onde a Alemanha vencia Curação com soberania (1-7). Para os olhos do mundo, uma goleada, mas para a memória do coração e para os olhos do mundo foi uma pequena rebelião. Os jogadores de Curação perderam no marcador, mas venceram na eternidade.
No seu jogo aconteceu o sublime. Após o apito final, o alemão Felix Nmecha, autor do primeiro golo germânico na competição, não se dirigiu ao túnel para celebrar. Em vez disso, reuniu-se com os adversários de Curação, e junto com alguns, ergueram os braços e rezaram juntos. Ao fazê-lo, Nmecha proferiu palavras que deveriam ser inscrevidas nos portões de cada estádio do mundo: «No jogo somos adversários e, depois, todos cristãos e irmãos. Queremos futebol com visão!»
Eis onde o texto pretende chegar: Felix Nmecha, naquele gesto, não praticou apenas desporto masculino, a força, a penetração, a estratégia bélica do ataque e defesa. Ele juntou o princípio masculino da luta e da competição ao princípio feminino que habita a alma do jogo: a comunhão, a empatia, a religação espiritual e a memória afetiva. A mistura ajuda a vida e, sem dúvida, o bom viver.
E isto, até porque, o futebol, tal como a vida, é um grande teatro. Antes de a peça começar, os actores cruzam-se nos bastidores; carregam consigo a alma do povo, e essa alma é profundamente feminina. Ela é o útero onde germina a criatividade, a intuição que antecipa o passe, a ternura que transforma o rival em irmão. Quando o corpo (masculino) e o espírito (feminino) se alinham, as forças multiplicam-se. Os jogadores de Cabo Verde e Curação não corriam apenas com músculos; corriam com o sentimento profundo das suas diásporas, espalhadas pelo mundo.

O Apelo à Lusofonia: Uma Matriz masculino-feminina
E Portugal com os estados lusófonos não podem perder-se na encruzilhada histórica. Só juntos poderão tornar-se num polo relevante no xadrez geopolítico multipolar a desenhar-se.
Cabo Verde não empatou com a Espanha por acaso. Foi um sinal dos tempos, um espelho levantado à antiga metrópole. Portugal tem vivido encostado ao “Mamon” da União Europeia, de olhos postos na tecnocracia, na burocracia e no euro, enquanto os seus irmãos lusófonos navegam desgarrados no Atlântico e no Índico, e nós nos esquecemos da nossa missão histórica comum.
A Lusofonia não pode ser apenas uma linha geográfica ou um passado comum. Deve ser uma matriz social nova, onde o espírito masculino e o espírito feminino se fundem na ânsia de formar uma nação de corações unidos. É tempo de Portugal olhar para Cabo Verde e ver não um parceiro ao lado, mas um parceiro de alma e com a mesma alma. É tempo de perceber que, tal como no futebol, o talento brota quando os olhos da sociedade se viram para os seus talentos, independentemente do tamanho do país.
Que o empate em Atlanta sirva de epifania e que a oração ecuménica de Nmecha sirva de rito de passagem. Precisamos de um futebol com visão, mas também de uma política com alma. Abandonemos a megalomania estéril das grandes potências e abracemos a riqueza da pequenez unida. Corpo e alma, masculino e feminino, Portugal e a sua diáspora, Portugal e os países seus irmãos, todos unidos no mesmo ritmo crioulo.
E viva a LUSOFONIA! Que ela seja a nação de afetos conectados na mesma língua, que transcende os resultados e onde cada empate é uma vitória do espírito humano.
Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11041

sábado, 13 de junho de 2026

PORTUGAL E O NEVOEIRO EUROPEU


Não pergunteis quando deixarão as elites de atraiçoar a alma portuguesa: os avisos de Camões, Garrett e Vieira perderam-se no tempo e o mar ainda espera quem o entenda.

Por António da Cunha Duarte Justo

Vivemos um momento axial da história, um daqueles períodos de viragem em que as placas tectónicas da geopolítica global se movem e reconfiguram o mapa do poder. No entanto, ao olharmos para a Europa atual, o que vemos é um continente imerso num denso nevoeiro cultural e estratégico. Iludida pelo brilho do dinheiro e cega pela obsessão do poder material, que se expressa no "Mamon" dos nossos tempos, a União Europeia parece querer despedir-se de si mesma, esquecendo a sua matriz humanista original e a soberania inalienável da pessoa humana. E Portugal, infelizmente, tem-se deixado arrastar por esta entropia decadente, refugiando-se numa passividade burocrática que atraiçoa a sua vocação histórica de seguir o chamamento universalista contra o Império de Mamon.

Para compreendermos como o nosso país chegou a este estado de esvaziamento, é preciso puxar o fio de uma "meada" literária e profética que há séculos nos avisa sobre este perigo. No século XVI, Luís de Camões encerrou Os Lusíadas com uma admoestação severa aos reis, criticando a cobiça e a burocracia que já então cegavam a nação. No século XVII, o Padre António Vieira desenhou na sua História do Futuro o horizonte do "Quinto Império", onde resumia um desígnio que não se media pela força das armas, mas pela universalidade do espírito, da língua e do encontro ecuménico. Já no século XIX, Almeida Garrett, no drama Frei Luís de Sousa, encenou a nossa maior tragédia identitária através da figura d'O Romeiro. Ao regressar ao lar e ver que o seu lugar fora ocupado, D. João de Portugal assume-se como "Ninguém".

Esse "Ninguém" de Garrett tornou-se a metáfora perfeita para o Portugal contemporâneo. A forma atabalhoada e cega como o país se desligou das suas antigas colónias após o 25 de Abril de 1974, ao entregar esses povos e territórios, à pressa, ao xadrez bipolar da Guerra Fria (URSS e EUA), revelou um país que queimara os seus próprios retratos e ignorara os seus profetas. Em vez de fundar uma comunidade transcontinental e horizontal com a Lusofonia, Portugal escolheu "encostar-se" ao redil europeu em troca de fundos estruturais, diluindo a sua singularidade estatal e tornando-se um "Ninguém" institucional na periferia de Bruxelas.

O filósofo Agostinho da Silva, porém, ensinou-nos que a despossessão material de Portugal não tinha de ser uma tragédia, mas sim a condição para a nossa verdadeira libertação. Para Agostinho, numa perspetiva católica, a alma portuguesa realiza-se na renúncia à posse e na celebração da fraternidade. A Lusofonia, hoje com uma língua assumidamente pluricêntrica, é o laboratório dessa nova era.

Mas como pode Portugal reatar um diálogo sério e consequente com este Sul Global?

A resposta exige uma decisão decisiva e audaz nas instâncias europeias. Portugal só recuperará a sua relevância internacional se assumir na União Europeia uma posição autenticamente europeia, no seu pleno significado geográfico e cultural: uma visão que inclua a Rússia e promova uma política de irmandade continental. Ao defender uma ponte estratégica com Moscovo, Portugal não só ajuda a libertar a Europa do seu atual impasse e da cultura de guerra, como adquire a autoridade moral e a centralidade atlântica necessárias para se ligar, com força renovada, ao Sul Global e aos países lusófonos.

Neste momento de transição civilizacional, Portugal tem o dever de se erguer como o portador das grandes heranças que moldaram a Europa: a espiritualidade judaico-cristã, a jurisprudência e administração romanas, e a filosofia grega. Isto não para impor um novo império, mas para ser o timoneiro de uma cultura da paz. É tempo de rasgar o nevoeiro, rejeitar o pragmatismo cinzento dos novos atores da geopolítica expresso na dominância arrogante anglo-saxónica e recordar ao mundo que o verdadeiro tamanho de uma nação se mede pelo seu humanismo e pela defesa de uma autoridade humana e sadia que reconheça a dignidade de cada pessoa.

Nem Camões, nem Garrett, nem Vieira!... Os avisos dos escritores não entram no coração das elites. Por isso a alma portuguesa continuará a ressoar no mar, só, como um sino de naufrágio, até que um dia, cansados de esperar por quem nunca ouve, resolvamos todos, de baixo para cima, ensaiar o projeto universal português numa política finalmente virada para a Lusofonia.

Pegadas do Tempo ©: https://antonio-justo.eu/?p=11022

A UCRÂNIA ANUNCIA AUMENTO SALARIAL DOS SOLDADOS E PROMETE PAGAR OS MAIS ALTOS DO MUNDO

Soldados de infantaria receberão em média 6.800 euros, podendo chegar a 8.900 euros na linha da frente


Num contexto de escassez de efetivos e aumento das deserções, a Ucrânia anunciou esta semana um expressivo aumento salarial para os seus militares. De acordo com o Ministério da Defesa, em articulação com o presidente Volodymyr Zelensky, "os soldados de infantaria tornar-se-ão os militares especializados mais bem pagos do mundo".

Em média, os soldados de infantaria ucranianos deverão receber o equivalente a 6.800 euros mensais. Já o valor máximo para os combatentes destacados na linha da frente poderá aproximar-se dos 8.900 euros por mês, segundo relata a imprensa alemã.

Paralelamente, as autoridades pretendem recuperar os desertores com medidas de incentivo, como a isenção de pena e a liberdade de escolha da unidade onde desejam servir.

 

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11020

 

quarta-feira, 10 de junho de 2026

PARABÉNS, PORTUGAL

 

Diferença no trato ao cliente entre LIDL e ALDI em Portugal e na Alemanha 
 
Enquanto as grandes cadeias de supermercados europeias apostam na padronização de serviços, um olhar atento revela diferenças profundas entre a mesma empresa em dois países. Há um contraste de atitude entre a Alemanha e Portugal no que toca à forma como cadeias como o LIDL e o ALDI tratam os seus clientes.
... O exemplo mais gritante está num serviço básico, quase primário, como a disponibilização de casas de banho para clientes. Em Portugal, as lojas do LIDL e do ALDI disponibilizam, regra geral, sanitários acessíveis a quem está a fazer as suas compras. Na Alemanha, país de origem de ambas as cadeias, o mesmo não acontece. As casas de banho são, na sua maioria, exclusivas para funcionários, fechadas ao público.
A realidade é chocante: Na Alemanha não é raro ver-se atrás dos prédios das empresas excrementos de pessoas que não tiveram outro remédio senão correr para trás do edifício...
A lógica alemã é pragmaticamente financeira: abrir uma casa de banho ao público implica custos de limpeza, manutenção, segurança e maior desgaste das instalações. É um custo sem retorno direto e por isso, elimina-se. Portugal, país com menores recursos económicos, opta por manter esse serviço, não por lucro, mas por uma questão de atenção à pessoa...
Portugal, com uma cultura de proximidade e menor pressão de produtividade, mantém ainda resquícios de uma economia de base relacional.
A diferença não é de menosprezar. “É um termómetro da alma de um país", diz a socióloga Marta Figueiredo. "Uma empresa que fecha a porta da casa de banho a um cliente está a dizer-lhe: O que me interessa é o seu dinheiro, não a sua necessidade.”
Parabéns a Portugal... mas sem euforia
Parabéns Portugal pela diferença positiva, mas tem cautela e fica alerta. A pressão para adoptar modelos de gestão internacionais, a crise da habitação, o aumento do custo de vida e a crescente precariedade podem levar a que, num futuro próximo, os supermercados portugueses sigam o exemplo alemão, cortando nos bens de humanidade para poupar uns cêntimos; o problema maior virá da influência da Alemanha na Europa, que, de momento, se encontra exasperada...
LIDL e ALDI em Portugal parecem dispostos a manterem as casas de banho abertas ao público. Na Alemanha, as empresas quando questionadas remetem para a legislação local, que não obriga a esse serviço. Tal resposta revela a pobreza humana de ambas as partes.
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11015

segunda-feira, 8 de junho de 2026

EDUCAÇÃO SEXUAL SÓ COM O CONSENTIMENTO DOS PAIS

 

A batalha pelo poder trava-se, antes de tudo, no campo da sexualidade e da informação

 

Nas escolas italianas, a educação sexual só poderá ser ministrada no futuro com o consentimento expresso dos pais. A nova legislação reflete uma crescente resistência à ingerência do Estado em matérias consideradas da responsabilidade primária das famílias.

Nos jardins de infância e nas escolas primárias, a educação sexual fica mesmo proibida. A lei entrará em vigor durante as férias de verão e tem suscitado um amplo debate público.

Os defensores da medida argumentam que os pais são os primeiros responsáveis pela educação dos filhos e que questões relacionadas com a sexualidade, os valores morais e a identidade pessoal não devem ser impostos por programas estatais sem o conhecimento e a concordância das famílias...

Enquanto os setores mais conservadores tendem a defender a primazia dos direitos da pessoa, da família e das instituições da sociedade civil, os setores progressistas atribuem ao Estado o papel da promoção de valores, direitos e políticas educativas.

Quem molda a compreensão da sexualidade e orienta o fluxo da informação dispõe das duas alavancas mais profundas do poder político-social. Isto porque a sexualidade regula a vida privada e a informação regula a vida pública: o poder procura ter ambas na sua mão.

António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11010  

sexta-feira, 5 de junho de 2026

O GLOBALISMO ESTÁ A SER A INVERSÃO DO CRESCIMENTO


Globalismo é o poder que, dissolvendo o orgânico, desconstrói a pessoa e as sociedades na exacta medida da sua inversão.

 

Há uma patologia oculta no coração do globalismo contemporâneo: a inversão da direção natural do crescimento humano. Toda a civilização que floresceu organicamente construiu-se de baixo para cima, da aldeia à pólis, da família à nação, do indivíduo à humanidade. O que hoje nos é proposto não é crescimento, é engenharia, desconstrução e desnaturação...

Os governantes são transformados em meros administradores, aplicadores de agendas e directrizes e os parlamentos reduzidos a instrumentos do “sim, senhor”!...

O corpo social orgânico não nasce de cima; germina nas raízes. Quando se inverte esta ordem, não se obtém uma comunidade, obtém-se uma clientela.

A aliança estranha que governa este projeto é a do capitalismo liberalista com o dirigismo socialista: dois absolutismos que partilham, no fundo, o mesmo desprezo pelo particular, pelo local, pelo irredutível da pessoa humana. Um vende; o outro formata. Juntos, produzem o consumidor ideal: dependente, vigiado, e convencido de que escolhe livremente.

O instrumento invisível desta nova governação é o algoritmo... A questão demográfica expõe a contradição mais crua do sistema. A queda da natalidade, fenómeno profundamente ligado à precariedade existencial, ao adiamento do sentido, à mercantilização das relações, é respondida com importação humana. Como se uma pessoa descontextualizada, arrancada à sua terra por necessidade e não por vocação, pudesse substituir a continuidade cultural de um povo...

A resposta que as populações têm dado e que a nomenclatura europeia classifica precipitadamente de "extremismo", é, na sua essência, um grito de reconhecimento. O extremismo não nasce do nada; nasce sempre como resposta a outro extremismo, o de uma governação que deixou de reconhecer o seu povo como sujeito e o trata como objeto de gestão. Os partidos que hoje assustam as elites são o espelho incómodo do que essas elites criaram...

A alternativa ao globalismo que desumaniza não é o fechamento que empobrece, é a construção de uma ordem verdadeiramente subsidiária, onde o universal se edifica a partir do particular, e não contra ele. Onde se constroem fábricas nos países de origem em vez de explorar a pobreza alheia. Onde a democracia não é formato, mas sim substância viva.

António da Cunha Duarte Justo

Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11006

quinta-feira, 4 de junho de 2026

COMO SALVAR A TRADIÇÃO DO FOGO DE ARTIFÍCIO SEM ENLOUQUECER CÃES, PESSOAS SENSÍVEIS E BOMBEIROS

 O céu não precisa de gritar para ser bonito

Vamos combinar uma coisa: fogos de artifício são bonitos e sempre foram. Desde que um chinês qualquer, há mil anos, teve a brilhante ideia de enfiar pólvora num cano de bambu, a humanidade olha para o céu e suspira. Que magia e que cores! É aquele momento em que todos param, olham para cima e se sentem, por um segundo, num videoclip dos anos 80.

Mas há um pequeno problema, vizinhos. Na verdade, há vários e todos eles fazem Fch... pum.

Para nós, o céu é um palco, mas para o cão do lado, é o apocalipse

Comecemos pelos nossos amigos de quatro patas. Um cão ouve até quatro vezes melhor do que nós. O que para si é um "pum" simpático, para o seu labrador é um trovão do Juízo Final a explodir dentro do crânio. Enquanto você diz "oh, que lindo", o cão sente: "é agora, vou-me esconder atrás da máquina de lavar e rezar aos donos da ração". Não é bonito porque é um inferno de pânico, baba e arritmia canina. Causa pânico e stress mortal a cães, gatos, aves e animais selvagens.

E não são só os bichos. Há os bebés a acordar em pânico. Os idosos com o coração frágil. Os veteranos de guerra para quem um estampido não é festa, é uma reexperiência traumática. E os 20% da população mundial que é hipersensível e que, durante meia hora, sente cada rebentamento como uma agulha nos nervos. Por isso, quando dizemos "é tradição", estamos a dizer: "o seu desconforto é o preço da minha nostalgia". E isso é, pelos vistos, um bocado feio.

Tradição não tem de ser sinónimo de martírio acústico

Antigamente, os foguetes serviam para afastar maus espíritos e anunciar festas numa altura em que ninguém tinha relógio. Nesse tempo fazia sentido. Mas antigamente também se sangravam os doentes com sanguessugas e acreditava-se que tomar banho fazia mal. A humanidade evolui e a sensibilidade cresce também. E hoje sabemos que o que afasta os maus espíritos não é o barulho, mas sim a empatia.

Por isso, a pergunta é simples: podemos manter a festa sem a tortura? Claro que podemos. E a boa notícia é que a tecnologia já resolveu isto há anos, só ainda não chegou aos ouvidos da tia que compra rojões de pólvora no hipermercado para encantar o seu neto.

Alternativas? Há-as a montes e são fixes

Imagine o seguinte: noite de Passagem de Ano. Em vez de uma saraivada de explosões que faz os bombeiros correrem e os cavalos terem ataques cardíacos, temos projeções laser no céu. Lemas e fotos de luz, ou constelações feitas a pedido e até o rosto dos noivos a sobrevoar silenciosamente a aldeia enquanto os convidados bebem champanhe sem ter de gritar "ooh" por cima dos Fch... pum!  Isto não é só possível, é mais bonito, mais limpo e mais poético.

E nos casamentos? Em vez do tradicional "susto de pólvora" depois do "sim" ou do corte do bolo, que tal uma chuva de luzes silenciosas a desenhar corações, ou um balão com imagens do casal a flutuar? A emoção não perde nada e ganha até requinte. E os convidados não passam a noite a proteger o copo de cinzas e estilhaços nem os vizinhos a meterem tampões nos ouvidos.

Até a polícia e os bombeiros estão de saco cheio e com razão

Em Berlim, o sindicato da polícia já pediu a proibição dos foguetes no espaço privado. Porquê? Não é só por causa do lixo, que é uma vergonha, diga-se, nem da poluição do ar, que torna as zonas ambientais uma anedota fiada. É porque, em noites de loucura, as bombas são usadas como armas contra agentes e bombeiros. Mais de três milhões de pessoas assinaram abaixo-assinados contra o barulho infernal. Três milhões, não são três gatos-pingados num fórum de donos de caninos.

O sofrimento dos animais não é um detalhe! É uma emergência silenciosa que acontece todas as vezes que uma pessoa decide que o seu momento de prazer vale mais do que a sanidade de um ser vivo.

Não queremos proibir, mas queremos que a tradição se vista de novo

Ninguém aqui quer ser o "chato da festa que acabou com os foguetes". Não se trata de apagar o património cultural. Trata-se de vesti-lo com a roupa do nosso tempo. Temos exemplos de como se pega num baile medieval e se faz um festival de luzes. A tradição não morre por deixar de magoar. Morre quando se recusa a desenvolver.

As empresas que produzem foguetes sabem fazer silêncio. Têm a tecnologia e o know-how para isso. O que lhes falta é a motivação. Se a procura mudar, a oferta muda e se deixarmos de comprar barulho e passarmos a comprar beleza, o mercado adapta-se num instante.

E se não se adaptar? Bem, aí a proibição virá naturalmente. Porque a lei, mais cedo ou mais tarde, acompanha o bom senso. E o bom senso, hoje, diz: ninguém precisa de acordar 90% do bairro para celebrar.

Conclusão

Nós, humanos, temos o superpoder de reinventar o que amamos. Já transformámos o fogo numa lareira, o chumbo em letra de imprensa, e as músicas do Tony Carreira em melodias ringtones. Também podemos transformar um estouro num encanto.

Na próxima festa, escolha a luz sem o som. Olhe para o céu e para o seu cão a dormir sossegado ao seu lado. A festa será igualmente bonita e todos dormirão melhor.

E os maus espíritos? Esses, sem barulho para se esconderem, acabam por se evaporar na primeira constelação de laser.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11002

O CORPO QUE DILACERA O MUNDO

A quinta-feira que transcende o calendário
 
Há uma festa que a terra não ousaria inventar sozinha. É a Festa do Corpo de Deus. Nela, o Deus de Jesus Cristo, que os sábios dizem incriado e une Céu e Terra, revela-se de modo inesperado: tem corpo. Não um corpo cativo da matéria, mas a matéria redimida de ser apenas matéria. Ele é o alfa e o ómega do universo, o princípio onde tudo começa e o fim para onde tudo caminha, mas no meio do tempo faz-se pão.
Neste dia, as procissões deslizam pelas estradas do mundo como veias abertas de um corpo imenso. O povo caminha e cada passo é uma peregrinação silenciosa: as pessoas são peregrinos no seu próprio corpo, descobrindo que a carne não é prisão, mas véu luminoso. Há festa. Há cântico. Há pó nas sandálias e incenso no ar. E a rua, que tantos julgam território do poder, do comércio, da indiferença, torna-se templo sem muros.
Eis o sentido escondido, quase herético na sua simplicidade: a fé não se recolhe nas sacristias. Ela sai à rua e ocupa o que é de todos. Mostra que o sagrado não pede licença aos donos do mundo. A rua pertence ao corpo que ora, ao passo que louva, à terra que beija a hóstia que passa.
Corpus Christi é a festa da transubstanciação. Mas cuidado: não apenas do pão. O milagre que ali se anuncia é maior: toda a matéria é capaz de Deus. O vinho, o trigo, a água, o barro, a carne ferida e a alegria súbita, tudo pode tornar-se presença. A transubstanciação é um sinal e um mistério que envolve a vida inteira. É o céu que desce à terra sem a anular. É o espírito que abraça a matéria sem a negar. É a unidade entre o que vemos e o que esperamos, entre o que tocamos e o que nos toca para sempre.
Assim, o Corpo de Cristo não é uma ideia. É uma realidade que incorpora céu e terra, espírito e matéria. E quem caminha na procissão, mesmo sem saber, ensaia o gesto universal: a fraternidade que ainda não aprendemos, a união que o mundo despedaçou, o pão que será sempre partilhado, à maneira do gesto de Jesus na memorável quinta feira no jardim das oliveiras!
António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo

quarta-feira, 3 de junho de 2026

ALEMANHA PERDE PARA PORTUGAL A CORRIDA AO CONSELHO DE SEGURANÇA DA ONU


Parabéns a Portugal e a Paulo Rangel pelo sucesso da eleição

Portugal conseguiu um lugar como membro não-permanente do Conselho de Segurança da ONU para o biénio 2027/2028, numa eleição que afastou a Alemanha do órgão que ocupava há oito anos. Áustria e Portugal candidataram-se às duas vagas reservadas ao grupo dos Estados da Europa Ocidental e Outros Estados, tendo a Alemanha cedido o seu lugar.
Nos últimos tempos, a Alemanha tem sido criticada por não contribuir de forma suficiente para a prevenção de conflitos, mediação e ação humanitária, que são as áreas centrais do mandato do Conselho de Segurança. A sua posição no conflito do Médio Oriente (nomeadamente a não aceitação de um Estado palestiniano) e o forte envolvimento na guerra da Ucrânia terão pesado na decisão.
O Conselho de Segurança é composto por 15 Estados-membros e as suas decisões são vinculativas para todos os países da ONU. Este órgão máximo pode impor sanções, autorizar missões de manutenção da paz e até o uso da força militar. Os cinco membros permanentes: EUA, Reino Unido, França, China e Rússia, são potências nucleares e dispõem de poder de veto.
A vaga conquistada por Portugal para o período de 2027-2028 parece estar em boas mãos. Espera-se que o país não se alinhe acriticamente atrás de nenhum ator geopolítico, preservando assim a sua capacidade diplomática. O ministro Paulo Rangel teve a iniciativa de organizar a candidatura e, ao lado de tantas nações, Portugal revela-se mestre em diplomacia, tendo superado a forte Alemanha.


António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo:
https://antonio-justo.eu/?p=10991

 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

 

 
À MINA E A TODAS AS CRIANÇAS DO MUNDO

No dia em que a infância nos lembra quem somos

Há um tipo de luz que não vem do sol; vem dos olhos de uma criança quando te olha como se fosses o mundo inteiro. É uma luz sem filtro, sem medo, sem história que a manche. É o mundo como ele era antes de aprendermos a ter pressa e a correr atrás da sombra dos outros.
Penso na Mina e ao pensar nela, vejo-a em cada criança que ainda não aprendeu a fingir, que ri com o corpo todo, que chora sem vergonha, que ama sem condições nem com segundas intenções. Mina tem sete anos e uma sabedoria que a maioria de nós perdeu algures entre a infância e a idade adulta.
Às mães que constroem o primeiro fundamento firme, esse colo que é o berço da coragem, o meu louvor mais fundo. Mina recebeu todo o amor e dedicação que uma mãe pode dar a uma criança e uma criança que cresce no aconchego cresce com raízes. Tais raízes são o que nos permite, um dia, dobrar sem partir.
Há dias, a Mina fitou-me nos olhos. Não disse nada com a boca, mas disse tudo: eu não sou um projeto teu, sou vida que já acontece, presente e inteira. Ela é testemunha de algo que os adultos complicam: que a riqueza da vida está no começo, no agora, no simples. Algo que se expressa de forma diferente em cada estação, mas começa sempre ali, na pureza de quem ainda não sabe ter medo de amar.
Depois sentou-se numa escrevaninha ao lado e desenhou. Aí, com lápis de cor e com vontade, pintou-nos aos dois: ela e eu, de olhos arregalados para a vida. E no canto da folha, com a letra ainda irregular, mas absolutamente certa, escreveu: "Vovô, eu amo-te."
Há frases que não cabem num papel e esta é uma delas. Transbordou e chegou ao meu peito e ficou lá, bem aquecida.
Noutro dia, eu estava diante do computador, esse altar moderno onde sacrificamos o presente em nome do urgente e onde eu passo a vida a escrever. A Mina chegou, ficou à porta do meu escritório e disse com uma calma que envergonha:
"Queria brincar contigo. Mas não quero que venhas se não puderes."
Sete anos que falam assim!... Sete anos e já sabe que o amor não se pede à força e não se mendiga, pois oferece-se e respeita. Há adultos que levam décadas a aprender isso. Mas Mina já sabia. (Minha querida, és um amor e ensinas-me tanto da vida!)
Por isso, neste dia que é de todas as crianças, o meu abraço mais genuíno vai para a Mina e, nela, para cada pequeno ser que ainda olha o mundo de olhos luminosos e com espanto. Que as crianças nos lembrem, a nós adultos distraídos, que o brilho não se perde com os anos. Apenas se esquece e esquecer, felizmente, tem cura.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
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