quarta-feira, 17 de junho de 2026
A REDESCOBERTA DE CABO VERDE PELO FUTEBOL
terça-feira, 16 de junho de 2026
O EMPATE DE CABO VERDE/ESPANHA QUE ABALOU ATLANTA
A Alma feminina no Coração do Futebol masculino e o Aviso a Portugal a reflectir a Lusofonia
Por António da Cunha Duarte Justo
O cronómetro do Mundial de Atlanta parecia ter engolido a lógica. Quando o árbitro apitou, o painel electrónico gritava um zero a zero que não era apenas um resultado, mas um terramoto sísmico no Olimpo do futebol. A Espanha, colosso de títulos e dona de uma posse de bola hipnótica, saiu de campo engolida pelo silêncio; do outro lado, Cabo Verde, essa nação de 500 mil almas e 64.º lugar no ranking FIFA, celebrava o maior sucesso da sua história desportiva.
Este empate não pode ser reduzido a uma anedota estatística, pelo significado que tem. Ele é, na realidade, um poema épico, um manifesto e, acima de tudo, um aviso cerrado a Portugal.
Enquanto as grandes nações, intoxicadas pelo “direito divino” de vencer, se transformam em vítimas da sua própria megalomania falhada, consumindo treinadores e atirando culpas ao vento, as pequenas nações ensinam a lição mais pura do desporto e Portugal é mestre nisto. O treinador cabo-verdiano, Pedro Leitão Brito, resumiu essa filosofia imortal antes do apito inicial ao dizer: «Não viemos aqui apenas para participar, viemos aqui para nos medirmos». E mediram-se, mostrando criatividade, ritmo e uma alma indomável que suplantara o medo. Cabo Verde não jogou com a obsessão do resultado; jogou com a arte de existir (aquele desejo natural do arbusto de também ele poder ser bafejado pelos raios do sol que brilha nas árvores grandes.
Este é o retrato do “Golias” moderno: Alemanha e Espanha, presas na armadura do favoritismo, esquecem-se que o futebol é feito de pés, mas vive de corações. Se o triunfo fácil corrompe, a luta pode dignificar. Um Cabo Verde feliz é um Cabo Verde unido.
A Oração de Curação e o Princípio feminino do Desporto
A noite de Atlanta ainda nos trouxe uma outra lição, ainda mais profunda, nos arredores do campo onde a Alemanha vencia Curação com soberania (1-7). Para os olhos do mundo, uma goleada, mas para a memória do coração e para os olhos do mundo foi uma pequena rebelião. Os jogadores de Curação perderam no marcador, mas venceram na eternidade.
No seu jogo aconteceu o sublime. Após o apito final, o alemão Felix Nmecha, autor do primeiro golo germânico na competição, não se dirigiu ao túnel para celebrar. Em vez disso, reuniu-se com os adversários de Curação, e junto com alguns, ergueram os braços e rezaram juntos. Ao fazê-lo, Nmecha proferiu palavras que deveriam ser inscrevidas nos portões de cada estádio do mundo: «No jogo somos adversários e, depois, todos cristãos e irmãos. Queremos futebol com visão!»
Eis onde o texto pretende chegar: Felix Nmecha, naquele gesto, não praticou apenas desporto masculino, a força, a penetração, a estratégia bélica do ataque e defesa. Ele juntou o princípio masculino da luta e da competição ao princípio feminino que habita a alma do jogo: a comunhão, a empatia, a religação espiritual e a memória afetiva. A mistura ajuda a vida e, sem dúvida, o bom viver.
E isto, até porque, o futebol, tal como a vida, é um grande teatro. Antes de a peça começar, os actores cruzam-se nos bastidores; carregam consigo a alma do povo, e essa alma é profundamente feminina. Ela é o útero onde germina a criatividade, a intuição que antecipa o passe, a ternura que transforma o rival em irmão. Quando o corpo (masculino) e o espírito (feminino) se alinham, as forças multiplicam-se. Os jogadores de Cabo Verde e Curação não corriam apenas com músculos; corriam com o sentimento profundo das suas diásporas, espalhadas pelo mundo.
O Apelo à Lusofonia: Uma Matriz masculino-feminina
E Portugal com os estados lusófonos não podem perder-se na encruzilhada histórica. Só juntos poderão tornar-se num polo relevante no xadrez geopolítico multipolar a desenhar-se.
Cabo Verde não empatou com a Espanha por acaso. Foi um sinal dos tempos, um espelho levantado à antiga metrópole. Portugal tem vivido encostado ao “Mamon” da União Europeia, de olhos postos na tecnocracia, na burocracia e no euro, enquanto os seus irmãos lusófonos navegam desgarrados no Atlântico e no Índico, e nós nos esquecemos da nossa missão histórica comum.
A Lusofonia não pode ser apenas uma linha geográfica ou um passado comum. Deve ser uma matriz social nova, onde o espírito masculino e o espírito feminino se fundem na ânsia de formar uma nação de corações unidos. É tempo de Portugal olhar para Cabo Verde e ver não um parceiro ao lado, mas um parceiro de alma e com a mesma alma. É tempo de perceber que, tal como no futebol, o talento brota quando os olhos da sociedade se viram para os seus talentos, independentemente do tamanho do país.
Que o empate em Atlanta sirva de epifania e que a oração ecuménica de Nmecha sirva de rito de passagem. Precisamos de um futebol com visão, mas também de uma política com alma. Abandonemos a megalomania estéril das grandes potências e abracemos a riqueza da pequenez unida. Corpo e alma, masculino e feminino, Portugal e a sua diáspora, Portugal e os países seus irmãos, todos unidos no mesmo ritmo crioulo.
E viva a LUSOFONIA! Que ela seja a nação de afetos conectados na mesma língua, que transcende os resultados e onde cada empate é uma vitória do espírito humano.
Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11041
sábado, 13 de junho de 2026
PORTUGAL E O NEVOEIRO EUROPEU
Não pergunteis quando deixarão as elites de atraiçoar a alma portuguesa: os avisos de Camões, Garrett e Vieira perderam-se no tempo e o mar ainda espera quem o entenda.
Por António da Cunha Duarte Justo
Vivemos um momento axial da história, um daqueles períodos de viragem em que as placas tectónicas da geopolítica global se movem e reconfiguram o mapa do poder. No entanto, ao olharmos para a Europa atual, o que vemos é um continente imerso num denso nevoeiro cultural e estratégico. Iludida pelo brilho do dinheiro e cega pela obsessão do poder material, que se expressa no "Mamon" dos nossos tempos, a União Europeia parece querer despedir-se de si mesma, esquecendo a sua matriz humanista original e a soberania inalienável da pessoa humana. E Portugal, infelizmente, tem-se deixado arrastar por esta entropia decadente, refugiando-se numa passividade burocrática que atraiçoa a sua vocação histórica de seguir o chamamento universalista contra o Império de Mamon.
Para compreendermos como o nosso país chegou a este estado de esvaziamento, é preciso puxar o fio de uma "meada" literária e profética que há séculos nos avisa sobre este perigo. No século XVI, Luís de Camões encerrou Os Lusíadas com uma admoestação severa aos reis, criticando a cobiça e a burocracia que já então cegavam a nação. No século XVII, o Padre António Vieira desenhou na sua História do Futuro o horizonte do "Quinto Império", onde resumia um desígnio que não se media pela força das armas, mas pela universalidade do espírito, da língua e do encontro ecuménico. Já no século XIX, Almeida Garrett, no drama Frei Luís de Sousa, encenou a nossa maior tragédia identitária através da figura d'O Romeiro. Ao regressar ao lar e ver que o seu lugar fora ocupado, D. João de Portugal assume-se como "Ninguém".
Esse "Ninguém" de Garrett tornou-se a metáfora perfeita para o Portugal contemporâneo. A forma atabalhoada e cega como o país se desligou das suas antigas colónias após o 25 de Abril de 1974, ao entregar esses povos e territórios, à pressa, ao xadrez bipolar da Guerra Fria (URSS e EUA), revelou um país que queimara os seus próprios retratos e ignorara os seus profetas. Em vez de fundar uma comunidade transcontinental e horizontal com a Lusofonia, Portugal escolheu "encostar-se" ao redil europeu em troca de fundos estruturais, diluindo a sua singularidade estatal e tornando-se um "Ninguém" institucional na periferia de Bruxelas.
O filósofo Agostinho da Silva, porém, ensinou-nos que a despossessão material de Portugal não tinha de ser uma tragédia, mas sim a condição para a nossa verdadeira libertação. Para Agostinho, numa perspetiva católica, a alma portuguesa realiza-se na renúncia à posse e na celebração da fraternidade. A Lusofonia, hoje com uma língua assumidamente pluricêntrica, é o laboratório dessa nova era.
Mas como pode Portugal reatar um diálogo sério e consequente com este Sul Global?
A resposta exige uma decisão decisiva e audaz nas instâncias europeias. Portugal só recuperará a sua relevância internacional se assumir na União Europeia uma posição autenticamente europeia, no seu pleno significado geográfico e cultural: uma visão que inclua a Rússia e promova uma política de irmandade continental. Ao defender uma ponte estratégica com Moscovo, Portugal não só ajuda a libertar a Europa do seu atual impasse e da cultura de guerra, como adquire a autoridade moral e a centralidade atlântica necessárias para se ligar, com força renovada, ao Sul Global e aos países lusófonos.
Neste momento de transição civilizacional, Portugal tem o dever de se erguer como o portador das grandes heranças que moldaram a Europa: a espiritualidade judaico-cristã, a jurisprudência e administração romanas, e a filosofia grega. Isto não para impor um novo império, mas para ser o timoneiro de uma cultura da paz. É tempo de rasgar o nevoeiro, rejeitar o pragmatismo cinzento dos novos atores da geopolítica expresso na dominância arrogante anglo-saxónica e recordar ao mundo que o verdadeiro tamanho de uma nação se mede pelo seu humanismo e pela defesa de uma autoridade humana e sadia que reconheça a dignidade de cada pessoa.
Nem Camões, nem Garrett, nem Vieira!... Os avisos dos escritores não entram no coração das elites. Por isso a alma portuguesa continuará a ressoar no mar, só, como um sino de naufrágio, até que um dia, cansados de esperar por quem nunca ouve, resolvamos todos, de baixo para cima, ensaiar o projeto universal português numa política finalmente virada para a Lusofonia.
Pegadas do Tempo ©: https://antonio-justo.eu/?p=11022
A UCRÂNIA ANUNCIA AUMENTO SALARIAL DOS SOLDADOS E PROMETE PAGAR OS MAIS ALTOS DO MUNDO
Soldados de infantaria receberão em média 6.800 euros, podendo chegar a 8.900 euros na linha da frente
Num contexto de escassez de efetivos e aumento das deserções, a Ucrânia
anunciou esta semana um expressivo aumento salarial para os seus militares. De
acordo com o Ministério da Defesa, em articulação com o presidente Volodymyr
Zelensky, "os soldados de infantaria tornar-se-ão os militares
especializados mais bem pagos do mundo".
Em média, os soldados de infantaria ucranianos deverão receber o equivalente a 6.800 euros mensais. Já o valor máximo para os combatentes destacados na linha da frente poderá aproximar-se dos 8.900 euros por mês, segundo relata a imprensa alemã.
Paralelamente, as autoridades pretendem recuperar os desertores com medidas de incentivo, como a isenção de pena e a liberdade de escolha da unidade onde desejam servir.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11020
quarta-feira, 10 de junho de 2026
PARABÉNS, PORTUGAL
segunda-feira, 8 de junho de 2026
EDUCAÇÃO SEXUAL SÓ COM O CONSENTIMENTO DOS PAIS
A batalha pelo poder trava-se, antes de tudo, no campo da sexualidade e da informação
Nas escolas italianas, a educação sexual só poderá ser ministrada no futuro com o consentimento expresso dos pais. A nova legislação reflete uma crescente resistência à ingerência do Estado em matérias consideradas da responsabilidade primária das famílias.
Nos jardins de infância e nas escolas primárias, a educação sexual fica mesmo proibida. A lei entrará em vigor durante as férias de verão e tem suscitado um amplo debate público.
Os defensores da medida argumentam que os pais são os primeiros responsáveis pela educação dos filhos e que questões relacionadas com a sexualidade, os valores morais e a identidade pessoal não devem ser impostos por programas estatais sem o conhecimento e a concordância das famílias...
Enquanto os setores mais conservadores tendem a defender a primazia dos direitos da pessoa, da família e das instituições da sociedade civil, os setores progressistas atribuem ao Estado o papel da promoção de valores, direitos e políticas educativas.
Quem molda a compreensão da sexualidade e orienta o fluxo da informação dispõe das duas alavancas mais profundas do poder político-social. Isto porque a sexualidade regula a vida privada e a informação regula a vida pública: o poder procura ter ambas na sua mão.
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11010
sexta-feira, 5 de junho de 2026
O GLOBALISMO ESTÁ A SER A INVERSÃO DO CRESCIMENTO
Globalismo é o poder que, dissolvendo o orgânico, desconstrói a pessoa e as sociedades na exacta medida da sua inversão.
Há uma patologia oculta no coração do globalismo contemporâneo: a inversão da direção natural do crescimento humano. Toda a civilização que floresceu organicamente construiu-se de baixo para cima, da aldeia à pólis, da família à nação, do indivíduo à humanidade. O que hoje nos é proposto não é crescimento, é engenharia, desconstrução e desnaturação...
Os governantes são transformados em meros administradores, aplicadores de agendas e directrizes e os parlamentos reduzidos a instrumentos do “sim, senhor”!...
O corpo social orgânico não nasce de cima; germina nas raízes. Quando se inverte esta ordem, não se obtém uma comunidade, obtém-se uma clientela.
A aliança estranha que governa este projeto é a do capitalismo liberalista com o dirigismo socialista: dois absolutismos que partilham, no fundo, o mesmo desprezo pelo particular, pelo local, pelo irredutível da pessoa humana. Um vende; o outro formata. Juntos, produzem o consumidor ideal: dependente, vigiado, e convencido de que escolhe livremente.
O instrumento invisível desta nova governação é o algoritmo... A questão demográfica expõe a contradição mais crua do sistema. A queda da natalidade, fenómeno profundamente ligado à precariedade existencial, ao adiamento do sentido, à mercantilização das relações, é respondida com importação humana. Como se uma pessoa descontextualizada, arrancada à sua terra por necessidade e não por vocação, pudesse substituir a continuidade cultural de um povo...
A resposta que as populações têm dado e que a nomenclatura europeia classifica precipitadamente de "extremismo", é, na sua essência, um grito de reconhecimento. O extremismo não nasce do nada; nasce sempre como resposta a outro extremismo, o de uma governação que deixou de reconhecer o seu povo como sujeito e o trata como objeto de gestão. Os partidos que hoje assustam as elites são o espelho incómodo do que essas elites criaram...
A alternativa ao globalismo que desumaniza não é o fechamento que empobrece, é a construção de uma ordem verdadeiramente subsidiária, onde o universal se edifica a partir do particular, e não contra ele. Onde se constroem fábricas nos países de origem em vez de explorar a pobreza alheia. Onde a democracia não é formato, mas sim substância viva.
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11006
quinta-feira, 4 de junho de 2026
COMO SALVAR A TRADIÇÃO DO FOGO DE ARTIFÍCIO SEM ENLOUQUECER CÃES, PESSOAS SENSÍVEIS E BOMBEIROS
O céu não precisa de gritar para ser bonito
Vamos combinar uma coisa: fogos de artifício são bonitos e sempre foram. Desde que um chinês qualquer, há mil anos, teve a brilhante ideia de enfiar pólvora num cano de bambu, a humanidade olha para o céu e suspira. Que magia e que cores! É aquele momento em que todos param, olham para cima e se sentem, por um segundo, num videoclip dos anos 80.
Mas há um pequeno problema, vizinhos. Na verdade, há vários e todos eles fazem Fch... pum.
Para nós, o céu é um palco, mas para o cão do lado, é o apocalipse
Comecemos pelos nossos amigos de quatro patas. Um cão ouve até quatro vezes melhor do que nós. O que para si é um "pum" simpático, para o seu labrador é um trovão do Juízo Final a explodir dentro do crânio. Enquanto você diz "oh, que lindo", o cão sente: "é agora, vou-me esconder atrás da máquina de lavar e rezar aos donos da ração". Não é bonito porque é um inferno de pânico, baba e arritmia canina. Causa pânico e stress mortal a cães, gatos, aves e animais selvagens.
E não são só os bichos. Há os bebés a acordar em pânico. Os idosos com o coração frágil. Os veteranos de guerra para quem um estampido não é festa, é uma reexperiência traumática. E os 20% da população mundial que é hipersensível e que, durante meia hora, sente cada rebentamento como uma agulha nos nervos. Por isso, quando dizemos "é tradição", estamos a dizer: "o seu desconforto é o preço da minha nostalgia". E isso é, pelos vistos, um bocado feio.
Tradição não tem de ser sinónimo de martírio acústico
Antigamente, os foguetes serviam para afastar maus espíritos e anunciar festas numa altura em que ninguém tinha relógio. Nesse tempo fazia sentido. Mas antigamente também se sangravam os doentes com sanguessugas e acreditava-se que tomar banho fazia mal. A humanidade evolui e a sensibilidade cresce também. E hoje sabemos que o que afasta os maus espíritos não é o barulho, mas sim a empatia.
Por isso, a pergunta é simples: podemos manter a festa sem a tortura? Claro que podemos. E a boa notícia é que a tecnologia já resolveu isto há anos, só ainda não chegou aos ouvidos da tia que compra rojões de pólvora no hipermercado para encantar o seu neto.
Alternativas? Há-as a montes e são fixes
Imagine o seguinte: noite de Passagem de Ano. Em vez de uma saraivada de explosões que faz os bombeiros correrem e os cavalos terem ataques cardíacos, temos projeções laser no céu. Lemas e fotos de luz, ou constelações feitas a pedido e até o rosto dos noivos a sobrevoar silenciosamente a aldeia enquanto os convidados bebem champanhe sem ter de gritar "ooh" por cima dos Fch... pum! Isto não é só possível, é mais bonito, mais limpo e mais poético.
E nos casamentos? Em vez do tradicional "susto de pólvora" depois do "sim" ou do corte do bolo, que tal uma chuva de luzes silenciosas a desenhar corações, ou um balão com imagens do casal a flutuar? A emoção não perde nada e ganha até requinte. E os convidados não passam a noite a proteger o copo de cinzas e estilhaços nem os vizinhos a meterem tampões nos ouvidos.
Até a polícia e os bombeiros estão de saco cheio e com razão
Em Berlim, o sindicato da polícia já pediu a proibição dos foguetes no espaço privado. Porquê? Não é só por causa do lixo, que é uma vergonha, diga-se, nem da poluição do ar, que torna as zonas ambientais uma anedota fiada. É porque, em noites de loucura, as bombas são usadas como armas contra agentes e bombeiros. Mais de três milhões de pessoas assinaram abaixo-assinados contra o barulho infernal. Três milhões, não são três gatos-pingados num fórum de donos de caninos.
O sofrimento dos animais não é um detalhe! É uma emergência silenciosa que acontece todas as vezes que uma pessoa decide que o seu momento de prazer vale mais do que a sanidade de um ser vivo.
Não queremos proibir, mas queremos que a tradição se vista de novo
Ninguém aqui quer ser o "chato da festa que acabou com os foguetes". Não se trata de apagar o património cultural. Trata-se de vesti-lo com a roupa do nosso tempo. Temos exemplos de como se pega num baile medieval e se faz um festival de luzes. A tradição não morre por deixar de magoar. Morre quando se recusa a desenvolver.
As empresas que produzem foguetes sabem fazer silêncio. Têm a tecnologia e o know-how para isso. O que lhes falta é a motivação. Se a procura mudar, a oferta muda e se deixarmos de comprar barulho e passarmos a comprar beleza, o mercado adapta-se num instante.
E se não se adaptar? Bem, aí a proibição virá naturalmente. Porque a lei, mais cedo ou mais tarde, acompanha o bom senso. E o bom senso, hoje, diz: ninguém precisa de acordar 90% do bairro para celebrar.
Conclusão
Nós, humanos, temos o superpoder de reinventar o que amamos. Já transformámos o fogo numa lareira, o chumbo em letra de imprensa, e as músicas do Tony Carreira em melodias ringtones. Também podemos transformar um estouro num encanto.
Na próxima festa, escolha a luz sem o som. Olhe para o céu e para o seu cão a dormir sossegado ao seu lado. A festa será igualmente bonita e todos dormirão melhor.
E os maus espíritos? Esses, sem barulho para se esconderem, acabam por se evaporar na primeira constelação de laser.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11002O CORPO QUE DILACERA O MUNDO
quarta-feira, 3 de junho de 2026
ALEMANHA PERDE PARA PORTUGAL A CORRIDA AO CONSELHO DE SEGURANÇA DA ONU
Parabéns a Portugal e a Paulo Rangel pelo sucesso da eleição
Portugal
conseguiu um lugar como membro não-permanente do Conselho de Segurança da ONU
para o biénio 2027/2028, numa eleição que afastou a Alemanha do órgão que
ocupava há oito anos. Áustria e Portugal candidataram-se às duas vagas
reservadas ao grupo dos Estados da Europa Ocidental e Outros Estados, tendo a
Alemanha cedido o seu lugar.
Nos últimos tempos, a Alemanha tem sido criticada por não contribuir de forma
suficiente para a prevenção de conflitos, mediação e ação humanitária, que são
as áreas centrais do mandato do Conselho de Segurança. A sua posição no
conflito do Médio Oriente (nomeadamente a não aceitação de um Estado
palestiniano) e o forte envolvimento na guerra da Ucrânia terão pesado na
decisão.
O Conselho de Segurança é composto por 15 Estados-membros e as suas decisões
são vinculativas para todos os países da ONU. Este órgão máximo pode impor
sanções, autorizar missões de manutenção da paz e até o uso da força militar.
Os cinco membros permanentes: EUA, Reino Unido, França, China e Rússia, são
potências nucleares e dispõem de poder de veto.
A vaga conquistada por Portugal para o período de 2027-2028 parece estar em
boas mãos. Espera-se que o país não se alinhe acriticamente atrás de nenhum
ator geopolítico, preservando assim a sua capacidade diplomática. O ministro
Paulo Rangel teve a iniciativa de organizar a candidatura e, ao lado de tantas
nações, Portugal revela-se mestre em diplomacia, tendo superado a forte
Alemanha.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10991
segunda-feira, 1 de junho de 2026
No dia em que a infância nos lembra quem somos
Há um tipo de luz que não vem do sol; vem dos olhos de uma criança quando te olha como se fosses o mundo inteiro. É uma luz sem filtro, sem medo, sem história que a manche. É o mundo como ele era antes de aprendermos a ter pressa e a correr atrás da sombra dos outros.
Penso na Mina e ao pensar nela, vejo-a em cada criança que ainda não aprendeu a fingir, que ri com o corpo todo, que chora sem vergonha, que ama sem condições nem com segundas intenções. Mina tem sete anos e uma sabedoria que a maioria de nós perdeu algures entre a infância e a idade adulta.
Às mães que constroem o primeiro fundamento firme, esse colo que é o berço da coragem, o meu louvor mais fundo. Mina recebeu todo o amor e dedicação que uma mãe pode dar a uma criança e uma criança que cresce no aconchego cresce com raízes. Tais raízes são o que nos permite, um dia, dobrar sem partir.
Há dias, a Mina fitou-me nos olhos. Não disse nada com a boca, mas disse tudo: eu não sou um projeto teu, sou vida que já acontece, presente e inteira. Ela é testemunha de algo que os adultos complicam: que a riqueza da vida está no começo, no agora, no simples. Algo que se expressa de forma diferente em cada estação, mas começa sempre ali, na pureza de quem ainda não sabe ter medo de amar.
Depois sentou-se numa escrevaninha ao lado e desenhou. Aí, com lápis de cor e com vontade, pintou-nos aos dois: ela e eu, de olhos arregalados para a vida. E no canto da folha, com a letra ainda irregular, mas absolutamente certa, escreveu: "Vovô, eu amo-te."
Há frases que não cabem num papel e esta é uma delas. Transbordou e chegou ao meu peito e ficou lá, bem aquecida.
Noutro dia, eu estava diante do computador, esse altar moderno onde sacrificamos o presente em nome do urgente e onde eu passo a vida a escrever. A Mina chegou, ficou à porta do meu escritório e disse com uma calma que envergonha:
"Queria brincar contigo. Mas não quero que venhas se não puderes."
Sete anos que falam assim!... Sete anos e já sabe que o amor não se pede à força e não se mendiga, pois oferece-se e respeita. Há adultos que levam décadas a aprender isso. Mas Mina já sabia. (Minha querida, és um amor e ensinas-me tanto da vida!)
Por isso, neste dia que é de todas as crianças, o meu abraço mais genuíno vai para a Mina e, nela, para cada pequeno ser que ainda olha o mundo de olhos luminosos e com espanto. Que as crianças nos lembrem, a nós adultos distraídos, que o brilho não se perde com os anos. Apenas se esquece e esquecer, felizmente, tem cura.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
sexta-feira, 29 de maio de 2026
A UE À MARGEM DA “PAZ” QUE FINANCIOU!
Bruxelas reclama lugar nas negociações, mas Moscovo recusa-a como mediadora e Washington já não a consulta
A nação que teme os seus inimigos busca amigos. A nação que confia nos seus amigos perde-se a si mesma. A Ucrânia fez as duas coisas ao esquecer que o que move Bruxelas são interesses alheios.
A União Europeia encontra-se hoje perante uma contradição diplomática de difícil resolução: após a escalada do conflito em 2022, os aliados ocidentais de Kiev romperam laços com Moscovo e adoptaram uma estratégia de isolamento total da Rússia, e agora vê-se excluída das negociações de paz que se desenvolvem sem a sua presença efectiva.
Estão em curso negociações trilaterais com os Estados Unidos, a Federação Russa e a Ucrânia nos Emirados Árabes Unidos, o que coloca em evidência o papel marginal da UE nos esforços diplomáticos para pôr termo à guerra que decorre no seu próprio continente. O Parlamento Europeu reconheceu formalmente que a marginalização da UE destas conversações é uma consequência directa da sua incapacidade de seguir uma estratégia diplomática autónoma, caracterizada pela ausência de iniciativa própria e por uma dependência excessiva de abordagens militarizadas, alinhadas pelos EUA e pela NATO...
Moscovo, pela voz do ministro Lavrov, classificou as condições impostas pela UE como "idióticas", e acusou a União Europeia de praticar "diplomacia de megafone", emitindo ultimatos públicos em vez de procurar negociações substantivas.
Internamente, a UE debate-se com a questão de quem a poderia representar junto de Moscovo...
... inteligentemente, o primeiro-ministro português Luís Montenegro voltou a defender que é preciso dialogar com a Rússia para alcançar "uma paz justa e duradoura na Ucrânia" e incentivou a Europa a "tomar a iniciativa" de um processo de paz bilateral (1)...
A população europeia não beneficia em nada desta estratégia e, pior ainda, terá de pagar a conta da guerra, como se vê no apelo de Von der Leyen de 135 mil milhões de euros aos Estados-membros para 2026-27. Sob a administração Trump, os Estados Unidos abandonaram a estratégia de isolamento da Rússia e reposicionaram-se como mediadores do processo de paz, deixando Bruxelas a reivindicar um papel central numa mesa que não preparou e por ora, não tem assento.
Resumindo: Há nações que morrem duas vezes: um ao lado dos seus inimigos, outra ao lado dos seus amigos. Havia um terceiro caminho, chamava-se neutralidade, mas ninguém lhes disse.
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10980
CONTRA A MUTILAÇÃO GENITAL
Um exemplo criativo de coragem e dignidade
Na revista Kontinente, da organização missionária missio, deparei com uma notícia que merece ser partilhada como exemplo luminoso de humanidade e transformação social.
Entre o povo Samburu, no Quénia, persiste ainda a dolorosa tradição da mutilação genital feminina, rito imposto a muitas meninas antes do casamento e considerado, durante gerações, condição para a entrada na vida adulta. Para milhares de jovens africanas, este costume representa sofrimento físico, trauma psicológico e a perda da própria autonomia sobre o corpo.
Foi neste contexto que surgiu a coragem serena e criativa da Irmã Theresa Nduku. Em vez de afrontar a cultura local com condenações exteriores ou discursos agressivos, procurou transformar a tradição a partir de dentro, respeitando a identidade do povo e oferecendo uma alternativa humana e digna.
A religiosa criou um novo ritual de passagem para a idade adulta. Durante uma semana, as raparigas participam em encontros de formação e reflexão sobre o corpo feminino, a saúde, a dignidade humana, os direitos da mulher, a fé, a cultura e os seus próprios sonhos de vida. Aprende-se ali não apenas a rejeitar a violência, mas sobretudo a descobrir valor, autoestima e liberdade interior.
No final da semana realiza-se uma cerimónia festiva e solene. Os anciãos da comunidade rezam pelas jovens, as famílias participam com orgulho e os pais assumem publicamente o compromisso de não submeter as filhas à mutilação genital. Segundo a Irmã Theresa, “é um momento de alegria e orgulho para todos”.
Este exemplo mostra como a mudança social profunda raramente nasce da humilhação cultural ou da confrontação ideológica. Muitas vezes, nasce da proximidade, da escuta, da educação paciente e do testemunho silencioso de pessoas que dedicam a vida aos outros.
Em muitos lugares esquecidos do mundo, milhares de irmãs, padres e missionários continuam diariamente a salvar vidas, ensinar crianças, cuidar de doentes, defender mulheres vulneráveis e combater práticas desumanas. Fazem-no longe das câmaras, sem protagonismo e, frequentemente, em condições extremamente difíceis mas sempre com dedicação e respeito pelo povo.
Por isso, causa estranheza ver tantas críticas generalizadas e ideológicas dirigidas à Igreja por sectores e grupos que, na prática, raramente assumem presença concreta junto dos mais pobres, dos abandonados e das vítimas de tantas formas de miséria humana.
Histórias como a da Irmã Theresa Nduku recordam-nos que a verdadeira transformação do mundo começa quase sempre em pequenos gestos de coragem, respeito e amor concreto pelas pessoas.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10978
quinta-feira, 28 de maio de 2026
CENTENÁRIO DO GOLPE DE ESTADO QUE INICIA A DITADURA MILITAR EM PORTUGAL
A História não deve ser esquecida, deve ser compreendida
Há 100 anos, a 28 de maio de 1926, Portugal assistia ao golpe militar que pôs fim à Primeira República que se encontrava em estado caótico e deu início a um período ditatorial. Liderado por Gomes da Costa, o movimento começou em Braga e rapidamente se espalhou pelo país, num contexto marcado pela instabilidade política e social da época. O início do período ditatorial deu lugar ao Estado Novo com a Constituição de 1933 resultado de plebiscito nacional e que durou até à Revolução dos Cravos em 1974.
Um século depois, recordar esta data é mais do que fazer uma visita ao passado! É refletir sobre os ciclos da nossa história, sobre as fragilidades da democracia e sobre a importância da memória histórica para não nos deixarmos levar por ideologias oportunistas!
Entre revoluções, regimes e mudanças de rumo, permanece o desafio de construir um país mais consciente, mais livre e politicamente mais maduro.
A história não deve ser esquecida, deve ser compreendida.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10970quarta-feira, 27 de maio de 2026
O DESARMAMAENTO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Um Chamamento de orientação para a Humanidade
Desarmar a inteligência artificial é mais urgente do que desarmar um míssil: o míssil mata o corpo; o algoritmo, sem freio, mata a alma da liberdade e destrói o humanismo integral.
E se a maior ameaça à nossa liberdade não viesse de um exército invasor, mas de um algoritmo? Esta questão incómoda atravessa a primeira encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas (1), um documento que surpreende não apenas pela sua profundidade teológica, mas pela coragem de colocar a ciência e a fé frente a frente com o monstro silencioso do nosso tempo que caracterizará uma nova época: a inteligência artificial.
O que torna este texto verdadeiramente único é o facto de não ter sido escrito num gabinete eclesiástico isolado. Ao lado do Papa, na sua apresentação, estavam cientistas de renome, como Christopher Olah (2), cofundador da Anthropic, numa demonstração clara de que o diálogo entre a razão técnica e a sabedoria humanista é não só possível, mas urgente. Leão XIV não condena a tecnologia; quer «desarmá-la». E desarmar a IA, como explica a encíclica, «significa retirá-la da lógica da competição armada». Tal como a energia nuclear, a inteligência artificial não pode ser refém de uma corrida insana pelo algoritmo mais potente ou pela base de dados mais gigantesca, movida por vantagens geopolíticas ou lucros obscuros...
Desarmar não é renunciar. É, antes, impedir que a tecnologia domine o ser humano. É humanizá-la, torná-la acessível a todos e aberta ao debate. Neste ponto, o Papa é incisivo: a transformação digital, com as suas promessas de eficiência e inovação, não pode servir de desculpa para «uma cadeia de exploração que é deliberadamente mantida na obscuridade» ...
O Papa Leao XIV, declara-se «chamado a contemplar outra grande transformação com os olhos da fé, com a clareza da razão, com a abertura ao mistério e com os clamores dos pobres e da terra que ressoam no meu coração». Não se trata apenas de evitar o mal. Trata-se de construir um futuro «para toda a família humana», onde os países ricos e pobres, as instituições e os indivíduos, os centros de poder e as periferias colaborem...
O Pontífice responde, sem os nomear diretamente, aos que como o presidente dos EUA, Trump, lhe querem negar o direito de se pronunciar sobre assuntos políticos. E, internamente, Leão XIV põe fim a discussões excessivamente centradas em questões internas da Igreja, afirmando que «há coisas mais importantes do que a moral sexual». Com esta encíclica, ele redefine prioridades: a proteção da pessoa humana na era digital é a grande causa comum.
«Se estivermos tão cheios das nossas próprias opiniões e ideias, será impossível descobrirmos o imenso valor que a história tem (e terá) e os tesouros escondidos que nela se encontram.» Lembra-nos, assim, que a humildade é a chave. Perante a avalanche da novidade tecnológica, talvez o mais revolucionário seja parar, ouvir e recordar o que nunca muda: a dignidade de cada ser humano, imagem de um Deus que não se deixa capturar por nenhum algoritmo...
Resumindo o conteúdo da encíclica: Leão XIV manifesta-se a favor dos pobres e marginalizados (aqueles que "não têm voz"); pelo bem comum e toda a família humana; é pelo diálogo entre a Igreja, a ciência, os governos e as empresas; pelo uso da IA para aliviar o sofrimento; pela dignidade da pessoa humana; pela colaboração entre países ricos e pobres e pelos trabalhadores deslocados pela IA!
A Encíclica manifesta-se contra o uso militar autónomo da IA ("sistemas de armas praticamente fora do controlo humano"); é contra o transhumanismo e o pós-humanismo; contra o colonialismo digital (apropriação de dados do Sul Global); contra Algoritmos que discriminam na saúde, no emprego e na segurança; contra a concentração do poder tecnológico nas mãos de poucos; contra a "libido dominandi" (desejo de dominar) disfarçada de progresso e contra a substituição da fé e da ética pela confiança cega na tecnologia.
A técnica sem humildade é um espelho que só reflete o nosso desejo de dominar. Só quando nos esvaziamos das nossas próprias opiniões conseguimos ver, no rosto do outro, o que nenhuma máquina jamais decifrará.
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo e Notas em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10968
domingo, 17 de maio de 2026
PARA LÁ DA ESPUMA DA ONDA
A verdadeira felicidade nasce da transparência. Nasce de sabermos quem somos, o que nos envolve e o que nos condiciona. Mas não basta conhecer esses limites, é preciso tentar ir além deles, com a lupa dos sentidos, da intuição e da alma. Só assim poderemos intuir a luminosidade que, como um véu, ainda os encobre. E só então trilharemos um caminho verdadeiramente nosso.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10961
terça-feira, 12 de maio de 2026
O REGIME DE SALAZAR ERA AUTORITÁRIO, MAS NÃO TOTALITÁRIO
A questão toca num debate importante e ligeiramente matizado na ciência
política. A resposta curta é que o Estado Novo foi, e é amplamente classificado
como, um regime autoritário, sendo esta a sua caracterização mais precisa e
específica do ponto de vista científico. Contudo, fazê-lo como uma ditadura não
é necessariamente errado, pois o termo "autoritário" pode ser visto
como um subtipo de "ditadura".
Uma sociedade adulta prima pela precisão terminológica e pela diferenciação
conceptual, recusando articulações adversativas que manipulem o discurso.
Passado meio século do golpe de 25 de Abril, impõe-se desideologizar e
despartidarizar o discurso público sobre a "revolução de Abril", dado
que a sociedade se encontra já numa fase estabilizada e merece um discurso mais
objectivo, menos manipulador.
Como se enquadra o Estado Novo
Analisemos as características do regime liderado pelo Dr. António de Oliveira Salazar à luz destas definições:
(a) Concentração de Poder: O Estado Novo foi, inegavelmente, um regime não democrático. A Constituição de 1933 criou um sistema que, na prática, concentrava enormes poderes no Presidente do Conselho (Salazar) e subordinava os poderes legislativo e judicial ao executivo. O Parlamento (Assembleia Nacional) e a Câmara Corporativa tinham funções extremamente limitadas.
(b) Partido Único e Desmobilização: A União Nacional, partido único do regime, não era um movimento de massas revolucionário. Pelo contrário, foi criado como uma plataforma de conservadorismo e controlo, não para mobilizar a população, mas para a manter passiva. Isto alinha-se perfeitamente com a ideia de "desmobilização política" típica de regimes autoritários.
(c) Ideologia e Legitimidade: A ideologia do Estado Novo, centrada no lema "Deus, Pátria e Família", era uma mistura de conservadorismo católico, nacionalismo e corporativismo. Ao contrário do que ocorre em regimes totalitários, a ideologia não era uma doutrina rígida que procurava transformar completamente a sociedade, mas sim um conjunto de valores tradicionais que legitimava o regime como um baluarte contra o "caos" da democracia liberal e do comunismo. Salazar rejeitou explicitamente o rótulo de "fascista", criticando o "culto da força" e a "exaltação da juventude" que caracterizavam regimes como o de Mussolini.
(d) Pluralismo Político Limitado: O regime de Salazar reprimiu ferozmente a oposição de esquerda, mas permitiu a existência de alguns grupos que aceitavam o status quo, como certos monárquicos ou conservadores, caracterizando o "pluralismo limitado" autoritário.
Exemplos
de oposição ao regime de Salazar:
- Movimento de Unidade Democrática (MUD): entre 1945 e 1948, funcionou como
estrutura de oposição tolerada, realizando comícios e publicando jornais. Foi
depois reprimida, mas existiu continuamente durante vários anos. Eu próprio
frequentei algumas conferências de Sá Carneiro.
- Candidaturas presidenciais de oposição: Norton de Matos (1949), Quintão Meireles (1951), Humberto Delgado (1958) e outros conseguiram, ainda que com limitações graves, fazer campanha pública. Lembra-me de ver a estrada que passa por Várzea para Arouca com frases de propaganda no asfalto, como “Viva Humberto Delgado”.
- A actividade do Partido Comunista Português (PCP): embora ilegal, manteve uma linha política divergente de forma contínua, com estruturas clandestinas e publicações periódicas, conseguindo influenciar sectores sociais como o movimento operário e estudantil. Penso que a ilegalidade do PCP se deve ao facto de defender a geopolítica da União Soviética contra a política de interesse nacional, pelo que estava sob especial vigilância da PIDE. O PCP não era democrático porque defendia a ditadura do proletariado.
- Greves e protestos públicos: a greve da CUF em 1962, as lutas académicas em Coimbra e Lisboa, a própria crise académica de 1969 são exemplos de acção colectiva que expressava uma linha política alternativa, mesmo que reprimida, com era o caso da atividade do Partido Comunista na clandestinidade.
No grupo dos regimes totalitários (como a Alemanha nazi ou a URSS estalinista), qualquer oposição organizada era sistematicamente aniquilada e não havia sequer candidaturas simbólicas. O facto de em Portugal terem existido eleições com listas de oposição (ainda que fraudulentas), jornais como o Diário de Lisboa ou República com críticas marginais, e movimentos como a Comissão Democrática Eleitoral, prova que o conceito de “oposição limitada” é adequado…
Concluindo
O Estado Novo de Salazar corresponde, com grande precisão, ao que a ciência política define como um regime autoritário. Embora seja também uma forma de ditadura porque a ausência de democracia é clara; o termo "autoritário" é o mais adequado cientificamente, pois capta as suas nuances específicas: a limitação do pluralismo, a desmobilização da sociedade e a legitimidade baseada em valores tradicionais. Neste contexto conta como atenuante o facto da disputa da independência das colónias se ter situado entre a defesa dos interesses de Portugal e os interesses das potências geopolíticas União Soviética e USA enquadrados na luta ideológica entre socialismo e capitalismo.
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em: Pegadas do Tempo https://antonio-justo.eu/?p=10944
