sábado, 25 de março de 2017

PRESIDENTE DA TURQUIA AMEAÇA OS EUROPEUS

A UE não regista insultos porque o registo não traz lucros

António Justo
O presidente da Turquia continuou o rol das suas ameaças grosseiras contra a Alemanha, contra a Holanda e contra a Europa. Vendo que países europeus impedem políticos turcos de fazerem comícios pelo “sultanado de Erdogan” a instalar através do referendo, Erdogan perdeu a decência política e depois das comparações da Alemanha com os tempos nazis, usa a linguagem do Daesh contra os europeus. No dia do atentado em Londres, Erdogan ameaça: "Se continuardes a comportar-vos assim, amanhã não haverá um único europeu, nem um único ocidental, que em qualquer lugar do mundo possa estar seguro e possa dar um passo com calma na rua".
 
Disse também que depois do referendo quer rever todos os acordos com a Europa, excepto os relativos à economia e administração. 

Erdogan fala assim porque sabe o potencial que tem espalhado pela Europa e (especialmente na Alemanha) e por outro lado conhece o interesse da Europa (dos países exportadores) no negócio de clientes que a Turquia representa com uma população de 80 milhões. A Turquia tem 1,5 milhões de eleitores turcos na Alemanha, numa população de cerca de 3,5 milhões. Nas últimas eleições da Turquia Erdogan conseguiu 60% dos votos da Alemanha, uma percentagem superior à que conseguiu na Turquia. Por isso aposta tanto nos turcos da diáspora que vivendo em países democratas não se importam com o fascismo crescente no seu país. Erdogan fala assim porque conta com a fidelidade dos turcos com dupla nacionalidade; ele sabe que o muezim (almuadem) já faz o apelo público para a oração três vezes ao dia em Rendsburg, Schleswig-Holstein na Alemanha. Tem os imames que são funcionários do Estado turco espalhados por toda a Alemanha nas mesquitas e estes são os garantes da turquidade e do islamismo na Alemanha.

Erdogan tem sucesso no seu intento fascista e na islamização da Turquia porque além de estimular a economia aposta na cultura turca.

O presidente turco está consciente que os europeus vendem a alma por dinheiro. Por isso não reagem contra Erdogan, apesar de tantas barbaridades cometidas nos últimos anos e de tantos ataques verbais à Europa. Os países europeus usam dois pesos e duas medidas em relação à Rússia e à Turquia, apesar de a Rússia ser o parceiro natural da Europa, ao contrário da Turquia.

A Turquia, embora seja membro da NATO, compra armas à Rússia e abusa das estacionadas da NATO para afirmar interesses turcos na Síria e Iraque.  Erdogan é um déspota que pode ser qualificado de grosseiro e mal-educado para com os parceiros europeus, mas como os conhece de ginjeira sabe que o que diz não terá consequências. Como demagogo está interessado em fomentar na Turquia uma imagem dos europeus como inimigos e bichos-papões; assim poderá mobilizar o nacionalismo, que descansa no povo, e alcançar mais adeptos para o seu projecto de obter poderes ditatoriais cobertos pela Constituição.
© António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Espírito no Tempo http://antonio-justo.eu/?p=4209

sexta-feira, 24 de março de 2017

DO TEMPO PÓS-FACTO PASSA-SE AO TEMPO PÓS-POLÍTICO - O TEMPO DA PÓS-RAZÃO




A União Europeia desorientada deita os Cães à solta


António Justo

Os factos

Sem o mencionar, nos bastidores da EU, os países de tradição protestante do Norte e os países de tradição católica do Sul encontram-se em guerra surdina (A França como potência do Sul joga dos dois lados). O que acontece é a continuação sub-reptícia de batalha cultural iniciada no século XVI: uma luta de mentalidades: o Norte mais empenhado em cuidar da vida e o Sul mais interessado no viver.

O povo do Norte vê os resultados do seu amealhado destruído pelo BCE e o do Sul sente-se supérfluo ao trabalhar para pagar os juros das dívidas. O descontentamento vai-se tornando no denominador comum.  Então fala-se da formação de uma EU a várias velocidades, que se concretizaria na formação do grupo núcleo dos países que apostam num euro forte e do grupo dos países de euro mole. O grupo do núcleo forte determinaria as regras do jogo e o outro, com um novo estatuto, ficaria a jogar, mas em “fora de jogo”. 

A Europa do Norte foi quem se aproveitou mais da União Europeia, mas, actualmente, encontra-se num empasse. A Europa do Sul foi a que mais se endividou. As dívidas e o problema dos juros a pagar incendeiam os ânimos dos concidadãos de hoje tal com incendiava em séculos passados os ânimos do povo contra os judeus. Chegamos ao fenómeno de os aguerridos de hoje nas suas críticas contra o Norte e contra a EU se encontrarem na mesma atitude dos anti-judeus de ontem. Como já não há razões comummente sustentáveis, as elites deitam os cães à solta, para assim o povo se ir entretendo em atitudes de gatos encrespados perante o perigo.

O fenómeno actual

Com a explosão dos refugiados na Europa inicia-se a era do tempo pós-facto, o tempo em que no Estado reina a confusão e na sociedade a emoção. Simultaneamente surge o tempo da pós-politica em que a emoção reina em baixo e em cima. O presidente turco Erdogan tornou-se no acabado exemplo deste tempo da pós-razão. Neste período a discussão tornou-se popular, tanto em cima como em baixo. Vivemos em tempos axiais de mudanças radicais, percecionadas como tempo do pós-facto, da pós-política e que em filosofia se poderia designar de tempo do pós-razão.

O socialista Dijsselbloem presidente do Eurogrupo acirrou os ânimos da Europa do Sul numa entrevista ao FAZ de 20.03 onde, com inveja do viver dos do Sul, diz inocentemente:

 “Na crise do euro os países do Norte mostraram solidariedade para com os países do Sul. Como social-democrata (socialista), a solidariedade é para mim extremamente importante. Mas quem a pede, tem também deveres. Não posso gastar todo o meu dinheiro em bebida e mulheres e depois disso ir pedir a sua ajuda. Este princípio vale para o nível pessoal, local, nacional e também europeu”.

A ideologia funcional instalada aproveita-se do lapso de Dijsselbloem para desviar as atenções do texto para a poesia. Assim não se olha ao conteúdo do que disse, mas fica-se apenas pela poesia do como disse.  É pena, porque a sanha satisfeita agora no ladrar e no latir é energia que depois falta para o agir. Nela se consola a política ao ver que o tubo de escape funcionou e que o povo até levanta a cauda do contentamento na agressão. Esta é uma atitude própria da política da era pós-política. A política e interesses de grupos políticos conseguem manter-se e afirmar-se nos acessórios do sentimento sem terem de recorrer a soluções objectivas e racionais.

O que conta é a conversa, não os factos… O discurso da mentira e das meias-verdades é cultivado por todo o lado. O povo já está de tal maneira habitado a elas que acharia incómoda a verdade.

Um descuido, para alguns, do tamanho da Europa, consegui transformar-se em causa de Estado. A política reagiu como as galinhas quando, de repente, deitadas à solta.

Jeroen Dijsselbloem ao perder as eleições na holanda perderá também a gerência do Eurogrupo que tem até janeiro de 2018.

Numa palavra, o problema não está no que disse, mas em ter ofendido a fé socialista que prefere a competência em ideologia à competência em economia. Assim, o Ministro dos Negócios Estrangeiros português Augusto Santos Silva juntou-se à crítica do líder do grupo socialista MEP Gianni Pittella que criticou Dijsselbloem arguindo que fez “comentários discriminatórios que estão abertamente em contradição com a linha da família progressiva Europeia." O Bloco de Esquerda, como de costume, colocou os óculos “de racismo, xenofobia e de sexismo”. Como se vê a Europa continua na guerra de fé!

Na era da pós-política, iniciam-se espirais de reacções sentimentais que substituem a política baseada na análise objetiva e racional de ponderação de interesses. Os partidos pegam na isca do sentimento para seu melhor profilamento bastando-lhe, para terem sucesso, atiçarem as emoções dos que se encontram debaixo de suas mesas.

De facto, “pela boca se apanha o peixe” e pelo sentimento se apanha o povo!
© António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Espírito no Tempo http://antonio-justo.eu/?p=4205

quinta-feira, 23 de março de 2017

REPENSANDO A EUROPA SOBERANA EM DÍVIDAS SOBERANAS

O velho Modelo acabou - Países lusófonos como Chance

António Justo

A situação europeia

A EU que temos é de há anos atrás e como tal já não existe. Temos a zona euro com uma economia que nos divide; temos a Ucrânia, os refugiados e a boa vizinhança com a Rússia perturbada; temos o Reino Unido fora, Ronald Trump a exigir o empenho dos europeus na NATO e a querer mudança de sentido na economia; temos também os países do Norte que com a saída do RU sentem o eixo de influência a deslocar-se para o sul; temos parte do povo, desiludida de uma EU de sobremaneira interessada nos magnates da economia, da administração e da ideologia, a revoltar-se contra a classe política e temos também um bom grupo de pessoas de estomago bem recheado em funções de partido ou do Estado interessado em manter o status quo que lhe confere regalias.

A situação portuguesa

Portugal encontra-se tradicionalmente numa fase de esgotamento prolongado. É um país irrelevante a nível de economia na EU. Embora tenha boas infraestruturas de autoestradas e internet é um país sem eficiência económica, e de mãos atadas por depender das políticas da EU feitas para macrosistemas sem que Portugal possa utilizar a moeda nem a banca como regularizadores da economia interna. Uma política europeia feita para “latifundiários” económicos nunca poderá servir um país como Portugal todo ele feito de minifúndios. Embora com um clima que dá saúde e conter um povo flexível aberto a tudo não consegue tornar-se competitivo. A transacção do Banif para o Santander custou 3,3 mil milhões de euros ao Estado português. Éste foi mais um passo da Europa em direcção à Espanha contra Lisboa.

A desregulação migratória desfavorece ainda mais Portugal, que se encontra numa zona mundialmente rica, a precisar de imigração de alta qualificação, mas a quem Portugal contraditoriamente cede especialistas, servindo os Estados mais ricos do seu bloco económico. O país não se preocupa em criar lugares de empregos para a massa cinzenta que produz e emigra para engrandecer e rejuvenescer povos mais ricos. Um país que não guia a economia é desviado para ela.  

Primeiro o estômago e depois a festa

Os países da margem ausentaram-se do processo europeu que é fundamentalmente económico e estratégico. Contentaram-se com as ajudas de fundos perdidos, os empréstimos da miséria e com lugares bem pagos, para os boys das corporações, na administração e na política europeia. Estes com os seus lacaios são os que mais protestam, contra os perdedores da EU que os contestam; são por isso, apelidados de populistas como se uma democracia não fosse formada por grupos de interesses rivais e só fosse constituída por donos e balbuciadores de améns. 

A política da mentira comprova-se

O Estado português perdeu a batuta da orquestra nacional, deixando-se levar pela da macroeconomia fomentada pela UE; esta, como funciona só fomenta os latifundiários. A classe política continua uma política da mentira em relação aos portugueses e de hipocrisia em relação à EU. Temos partidos e um parlamento que vão ocupando o tempo da opinião pública e o Estado com medidas de assuntos partidários e ideológicos; para desviarem o povo da realidade negra, armam cenas e gestos dirigidos à conversa fiada e à emoção, quando o que Portugal precisa é alimento para o estômago e para a razão. 

Na EU não é suficiente um projecto para contentar a todos. Também não é de contentar sermos uma União Europeia de estados com populações muito desiguais, e com igualdade apenas a nível de aparelhos de Estados e de altos funcionários; de facto importante seria ter populações menos desiguais e com uma igualdade em que as desigualdades dos funcionários do Estado estejam em proporção com a igualdade do povo. 

A EU precisaria de uma redefinição de estratégia geopolítica que englobe a Rússia como sua parte integrante.

Também Portugal precisaria, além de uma mudança de mentalidade política uma redefinição de estratégia geopolítica, mas cujo centro de gravidade deveria ser os países lusófonos; de resto temos como vizinhos a Espanha e o Atlântico. 

Seria catastrófico para Portugal continuar a seguir a ideologia funcional instalada no Estado com a República e continuar a meter a cabeça debaixo do tapete para não ter de enfrentar os desafios que acontecem ao seu redor. A lusofonia será a melhor resposta à globalização num Portugal a funcionar como ponte de continentes e culturas. Imigrantes do Brasil e dos PALOPs poderiam compensar a sangria da emigração nacional. Empresas interlusófonas poderiam formar-se de maneira a poderem aguentar a concorrência de potências fortes.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do espírito no Tempo http://antonio-justo.eu/?p=4201

terça-feira, 21 de março de 2017

PRESIDENTE DA REPÚBLICA DA ALEMNHA PADRINHO DE HONRA DE 2.711 CRIANÇAS

O Estado alemão cultiva a relação humana com os seus cidadãos



António Justo

Na Alemanha é tradição os presidentes da República apadrinharem crianças de famílias numerosas a partir do sétimo filho. O Presidente cessante Joachim Gauck tornou-se padrinho de honra de 2.711 crianças, durante o seu mandato. Trata-se de um apadrinhamento honorário tradicional que não implica automaticamente uma ajuda direta à criança ou à família.

A ajuda pode consistir na mediação entre os organismos competentes e a família numerosa. O Presidente assina um documento de apadrinhamento da criança, que é enviado à família, tal como acontece com os casais que celebram o 60° aniversário de casados.

Uma das últimas acções no cargo do Presidente foi o assumir o apadrinhamento de uma criança de dez meses de idade, de Fuldatal. Neste caso o presidente da Câmara de Fuldatal entregou o documento assinado pelo presidente e entregou 500€ para apoio de despesas no jardim infantil.
Os eventos são referidos na imprensa local. Deste modo a sociedade alemã presta homenagem aos eventos, à família e às crianças. Em tais circunstâncias a imprensa aproveita para referir problemas específicos, por exemplo: o problema da habitação, alojamentos e outras necessidades de famílias numerosas.

 A relação Estado-cidadão não se extingue no contribuinte-votante

Como se vê e noutros casos parecidos, o Estado alemão está a atento mesmo ao pormenor e interessado em manter o elo de ligação familiar entre a instituição Estado e o povo. Veja-se neste sentido também: “Os Municípios alemães empenham-se no Cultivo da Cidadania” http://antonio-justo.eu/?p=2317

A Alemanha revela, a nível institucional, uma responsabilidade e empenho que constitui exemplo para outros países.

Deixa-se orientar por valores fundamentais e costumes tradicionais que lhe conferem humanismo e consistência. Outros países, perderam certas tradições, por um lado, por inconsciência e por outro, por se terem aninhado nas suas estruturas estatais, forças ideológicas sem consciência do que é um Estado orgânico. Mais que um organismo funcional, é um organismo vivo, com funcionários pessoais. com instituições orgânicas e tradições, inseridas no povo que lhe dão personalidade natural e mítica.

A Alemanha, com a exceção da época nazista, sempre se orientou por vistas largas, realismo e acção que a coloca na vanguarda dos povos.  Consegue fazer uma união eficiente da consciência individual com a consciência social e da razão com o coração.

António da Cunha Duarte Justo
In Pegadas do Espírito no Tempo http://antonio-justo.eu/?p=4196

sábado, 18 de março de 2017

TRIBUNAL EUROPEU DE OLHOS VENDADOS PELO VÉU ISLÂMICO



Empresas poderão proibir o uso de símbolos religiosos, políticos ou filosóficos

António Justo
O Tribunal Europeu de Justiça, por decisão incontestável de 14.04.2017, deixa à discrição das empresas a decisão de proibir ou não o uso do lenço islâmico no trabalho, sob determinadas condições. Para os 28 juízes do tribunal europeu, os interesses da economia têm caracter prioritário em relação à confissão religiosa ou partidária; as empresas podem proibir o uso de símbolos religiosos, políticos ou filosóficos aos funcionários, no caso de estes se tornarem perturbadores do negócio no contacto com os clientes. 

A decisão do tribunal parece inocente, mas pode ter consequências alargadas, pois ao conceder às firmas privadas o direito de neutralidade, na consequência, mais obrigação terá o Estado de praticar a neutralidade nas suas instituições. A consequência que se pressupõe a entrar pela porta traseira é uma rígida separação entre estado e religião. Por outro lado, corresponde à privatização também da política e praticamente ao desfavorecimento da cultura autóctone. A justiça deu um tiro no próprio pé!

Em países civilizados a liberdade religiosa é um direito fundamental e ninguém deve ser discriminado por razões religiosas. A missão do estado é garantir a paz social e a neutralidade do Estado; consequentemente o direito de igualdade de trato (não discriminação) pressupõe que a maioria tenha de se colocar ao mesmo nível da minoria (tratamento igual para todos: um assunto que provocará insónias!). No caso, quem mais sofrerá, a longo prazo, são as instituições cristãs que viam muitos dos seus símbolos, costumes e hábitos tidos com coisa natural, em sociedades de reminiscência cristã, e como tal naturalmente apoiados por muitos Estados. Agora com os muçulmanos, que não só se entendem com direito ao espaço público, mas que também o exigem, surgirão problemas para a sociedade acolhedora para os quais não encontra resposta nem está preparada. O Estado laico e as organizações partidárias, como representantes de ideologias, terão também elas de se colocar no terreno das ideologias, ao terem de se defrontar perante o Islão que é uma religião-política que reúne num só sistema o foro mundano (César) e o foro divino. Numa sociedade, cada vez mais islamizada, isto trará consequências graves quer para o poder secular quer para a organização e agrupamento partidários do Estado. O factor religioso e ideológico ganharão mais espaço público e político e a atmosfera social assumirá um caracter mais jacobino. Por outro lado, o Estado secular, ao não ter em conta a tradição cultural dos autóctones, torna inoperante o equilíbrio até agora criado nas sociedades pelas forças da aculturação e inculturação.

Já vai sendo tempo de a Europa se ocupar dos aspectos negativos do islão e dos aspetos positivos que podem significar os muçulmanos. A política seguida de 1950 até agora tem sido irresponsável para com as sociedades acolhedoras e irrefletida para com os imigrantes muçulmanos ao preocupar-se apenas com o seu desenvolvimento económico e negligenciando a sua modernização religiosa e cultural.  Assim, em vez de se fomentar a visão da Turquia de Atatürk fomentou-se o islão do véu islâmico e dos interesses veiculados pelas associações turcas de interesse

No caso do islão tem-se a ver com uma religião política e o islão do lenço é, precisamente a representação de uma força politizada contra os muçulmanos modernistas e contra uma Europa consciente, que desejariam ver a afirmação de um islão europeu. Isto não quer dizer que se deva proibir o lenço muçulmano, embora seja símbolo da afirmação do islão retrógrado e contra os muçulmanos progressistas na Europa; no islão do lenço, trata-se de um islão à lá Erdogan, em que as comunidades muçulmanas turcas, a viver noutros países, correspondem a comarcas pessoais (não territoriais) no estrangeiro da turquidade e do avanço muçulmano. Como a verdadeira fidelidade é concebida em termos de religiosidade nacional, a dupla nacionalidade revela-se, em muitos casos,  num apelo à infidelidade para com os países de acolhimento. A realidade que se observa e constata: gerações turcas a viverem há 60 anos na Alemanha continuam imunes aos valores democráticos ocidentais ao votarem maioritariamente em Erdogan que desde o início da sua carreira política trabalha no sentido de destruir o estado moderno da Turquia criado por Atatürk para o transformar num fascismo religioso

Aqui só poderá ajudar uma relação motivada pela bilateralidade de direitos e deveres em relação (neste caso) à Turquia e ao Ocidente; e isto pelo simples facto de se ter de criar proporcionalidade e clareza na política e nos interesses (Não pode ser que os muçulmanos se considerem num país de acolhimento como grupo de identidade estrangeira - um estatuto religioso com direitos de afirmação grupal especial - enquanto os imigrantes na Turquia (ou país muçulmano) sejam considerados apenas como indivíduos e como tal sem direito a afirmarem-se como grupos. A Turquia e países muçulmanos teriam de dar os mesmos direitos às minorias imigrantes dos seus países tal como as suas minorias emigradas pretendem do estrangeiro. Doutro modo uns têm um livro que os defende e os outros encontram-se à chuva por não possuírem livro que os abrigue. Aqui teriam de entrar em acção os políticos com tratados bilaterais que consignem os mesmos direitos e oportunidades bilateralmente; doutro modo em vez de se proporcionar o desenvolvimento de uma interculturalidade respeitosa e mútua afinca-se a luta da multiculturalidade (uma guerrilha sub-reptícia).

O direito europeu não se deveria deixar levar pelas ondas emocionais do tempo. Com a decisão do Tribuna Europeu, os juízes submetem demasiadamente o direito ao critério do humor de opiniões e confissões que arbitrariamente poderão ser consideradas, em qualquer altura, como argumento de perturbação da ordem pública. A justiça terá de estar atenta para, também ela, não se turquizar, abandonando padrões racionais ocidentais pelo facto de se ver confrontada com novas realidades sociais.

Entretanto, é de referir que o tratamento não igual nem sempre é discriminador (idade, sexo…).
A discussão pública sobre o islão é superficial e inocente porque se prende em exterioridades como o bocado de pano que as mulheres muçulmanas colocam ou não na cabeça e como tal perde-se no acidental em vez de se dedicar à linha de princípios e práticas. Mais importante que o lenço a cobrir a cabeça seria pesquisar e falar do que o lenço encobre ou guarda dentro da cabeça. 

Importante seria que estado, religião e ideologias trabalhassem em estreita colaboração e m diálogo e na bilateralidade de reconhecimento de umas às outras, em benefício do povo e do país. Doutro modo a coexistência torna-se desconfortante e catastrófica porque se afirma o oportunista e a falsidade em vez do diálogo franco e aberto. Para isso teremos de nos deixar de olhar de lado uns aos outros. Temos de falar todos do essencial e deixarmos de andar a apresentar mezinhas com este ou aquele exemplo de pessoas individuais ou episódios esporádicos que não representam a instituição, mas servem em grande parte para se ir adiando a resolução do problema que terá de passar intelectualmente pela controvérsia para se poder chegar à concórdia. Não chega a boa vontade nem meias verdades; precisa-se também de vontades esclarecidas e de discernimento na procura de uma verdade que é complexa.
António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e pedagogo
In Pegadas do Espírito http://antonio-justo.eu/?p=4191