sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

QUARESMA É TEMPO DE JEJUM DE ILUMINAÇÃO E DE MUDANÇA

Jejum e Abstinência consolidam Corpo e Alma

António Justo
Segundo uma investigação do “Forsa-Institut”, 57% dos alemães acham bem reduzir o consumo de doces, álcool, carne ou TV, ou renunciar, totalmente a ele, durante a Quaresma.

Muitas das práticas e ritos da religião são expressão do anseio humano por um viver integral. Neste sentido, a cristandade, com a Quaresma, aponta especialmente para a dimensão espiritual humana no sentido de se transcender o mero caminhar individual e social, na tensão entre realidade e ideal de “alma sã em corpo são”! 

Com o tempo, muitos dos usos e ritos religiosos vão-se secularizando, perdendo de vista o seu aspecto espiritual, passando a ser utilizados apenas no sentido de mera funcionalidade e de optimização corporal e social. 

O que é bom para o corpo não precisa de concorrer com o que é melhor para a alma, dado sermos formados de corpo e alma e, nesse sentido, o esforço mais eficiente será contemplar os dois polos sem necessidade de os rivalizar ou hostilizar!

A Quaresma inicia-se com a Quarta-feira de Cinzas; “de cinzas”, porque os padres nas liturgias de Quarta-feira colocam cinza na testa das pessoas, dizendo: “lembra-te Homem que és pó, e em pó te hás de tornar” (Gênesis 3:19). Pressupõe-se, também ritualmente, a disposição para se deixar o que é velho (o Homem velho) para dar lugar ao novo, e, consequentemente, a prontidão para a metanoia, a mudança e o novo começo. A vida é um contínuo recomeçar! Parar é morrer ou endurecer!

A quaresma (40 dias) é o período que vai de Quarta-feira de Cinzas até Quinta-feira Santa. Estes são tempos de preparação para os grandes acontecimentos, que implicam sempre (Kairós) transformação: 40 dias de dilúvio, 40 dias de Moisés no Sinai da sarça ardente, 40 dias de Jesus no deserto (porque “o Homem não vive só de pão”) e os 40 dias que vão da morte à Ressurreição (preparação). Os Domingos não são considerados como tempos de jejum nem de abstinência. 

(Antigamente jejuava-se também em todas as Quartas-feiras do ano – como lembrança da traição de Jesus nesse dia) e em todas as sextas-feiras (como lembrança da crucifixão.)
O jejum e abstinência levam-nos a estar mais atentos a nós mesmos, ao próximo e à natureza; facilitam a meditação e a oração possibilitando a entrada numa terceira dimensão: a dimensão espiritual do silêncio onde o mistério divino sente, fala e age em nós. 

Na Quaresma dá-se a preparação da comunidade de fiéis para a celebração da festa pascal. Neste tempo da paixão, os cristãos sofrem com Cristo as dores da humanidade e do mundo (tempo da compaixão); daí o seu recurso mais intensivo ao exercício da caridade (sintonia e solidariedade) e da oração. O Papa Francisco sugere 15 actos (1) nesse sentido. 

A abstinência possibilita a concentração em algo melhor. Com o jejum mais facilmente se chega à visão do mistério da Páscoa e se fortalece a relação com Deus no próximo. Como efeito colateral dá-se a regeneração do organismo numa osmose de espírito e matéria. O facto de se tomarem mais líquidos e menos comidas sólidas obriga o corpo, com o tempo, a produzir mais serotonina e com isto mais contentamento e equilíbrio mental e espiritual.

A prática do jejum e da abstinência são exercícios de libertação
A prática do jejum e abstinência é comum em todas as culturas! No islão recorre-se à abstinência de comida e de sexo; no Budismo, os monges em vez de duas refeições diárias comem até às 12 horas uma refeição e à noite apenas bebidas.

O jejum e abstinência aponta para a necessidade de nos libertarmos não só das cargas do dia-a-dia, mas também da rotina do pensar e sentir, para entrarmos numa dimensão diferente e mais profunda!

Vivemos numa liberdade aparente, puxados pelo máximo desempenho até ao esgotamento, mas propriamente sem nos apercebermos do sentido de tal esforço.

Tempos como os da Quaresma são tempos de pausa, tempos de inspiração: uma oportunidade para se rever o sentido da caminhada e correrias em que andamos metidos. Jejuamos para nos consolidarmos na vida e através da acção, da reflexão e da oração nos situarmos num estádio fora da luta e da concorrência; deste modo, torna-se mais possível aceitar-se a si como se é e dar lugar à oportunidade para ser-se melhor do que se é.
O   Papa Francisco diz:” A Quaresma é a hora de respirar novamente”; isto implica um estado de abertura para si e para os outros. 

Exercício
O dentro e o fora tocam-se e cruzam-se, nos pulmões, numa troca de mistura de elementos tóxicos (CO2) e saudáveis (Oxigénio). Nos mesmos pulmões se junta o bom e o mau, que nos proporcionam o sentido da plenitude. (Respiração - inspiração e expiração – podem ser experimentadas como metáfora da interligação da vida espiritual e material.)

Num exercício simples de respiração (inspiração e expiração conscientes), poderíamos inspirar a alegria e expirar a energia negativa. Tal exercício, feito por cristãos, é aliado, muitas vezes, à concentração numa palavra ou jaculatória no ritmo da inspiração e da expiração. Este respirar leva-nos a desligarmo-nos dos pensamentos, do estresse e daquilo que nos ocupa e possui. Entramos num relaxe de corpo e alma que nos liberta e concede asas para melhor voar!

Uma respiração lenta e profunda, feita conscientemente, além de proporcionar muito mais oxigénio nos pulmões pode levar-nos à ressonância com o todo na vibração de Deus que se inspira e expira corporal e espiritualmente. Leva a desligar-nos das energias mentais para passarmos à pura experiência de se ser um só no inspirar e expirar Deus ou, também, no caso de crente ou não, inspirar a energia que é Sol que nos inebria e expirar a maldade que nos escurece.
© António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo

(1). Os 15 atos de caridade que o Papa mencionou para a Quaresma:
*1. Sorrir, um cristão é sempre alegre!
*2. Agradecer (embora não “precise” fazê-lo).
*3. Lembrar ao outro o quanto você o ama.
*4. Cumprimentar com alegria as pessoas que você vê todos os dias.
*5. Ouvir a história do outro, sem julgamento, com amor.
*6. Parar para ajudar. Estar atento a quem precisa de você.
*7. Animar a alguém.
*8. Reconhecer os sucessos e qualidades do outro.
*9. Separar o que você não usa e dar a quem precisa.
*10. Ajudar a alguém para que ele possa descansar.
*11. Corrigir com amor; não calar por medo.
*12. Ter delicadezas com os que estão perto de você.
*13. Limpar o que sujou, em casa.
*14. Ajudar os outros a superar os obstáculos.
*15. Telefonar ou Visitar + Seus Pais.

O MELHOR JEJUM

• Jejum de palavras negativas e dizer palavras bondosas.
• Jejum de descontentamento e encher-se de gratidão.
• Jejum de raiva e encher-se com mansidão e paciência.
• Jejum de pessimismo e encher-se de esperança e otimismo.
•Jejum de preocupações e encher-se de confiança em Deus.
• Jejum de queixas e encher-se com as coisas simples da vida.
• Jejum de tensões e encher-se com orações.
• Jejum de amargura e tristeza e encher o coração de alegria.
• Jejum de egoísmo e encher-se com compaixão pelos outros.
• Jejum de falta de perdão e encher-se de reconciliação.
• Jejum de palavras e encher-se de silêncio para ouvir os outros.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

MARTIN SCHULZ – UMA QUEDA INGLÓRIA – UMA VÍTIMA DO PARTIDO




O Governo de Coligação CDU/CSU e SPD será obviamente confirmado 

António Justo
A tragicomédia das conversações, na segunda rodada para a coligação de governo na Alemanha, atingiu o seu clímax quando se passou à distribuição dos ministérios e correspondentes postos.

Martin Schulz, apesar da vitória alcançada nas posições social-democratas no compromisso de governo, caiu por querer ser fiel aos barões do SPD e, o que é pior ainda, caiu devido a interesses masoquistas e a rivalidades pessoais entre eles! O limite da vergonha foi ultrapassado.

Com a renúncia de Schulz à participação no governo, este perdeu um amigo convencido da Europa, um amigo da Europa do Sul! Enfim, nem sempre o brilho das ideias e dos ideais se deixam afirmar na política concreta do dia-a-dia. 

O compromisso da coligação não agrada às linhas duras dos membros do CDU nem às linhas duras do SPD. Muitos quadros do CDU estão descontentes por considerarem o compromisso uma cedência às políticas do SPD; na distribuição dos postos de ministros incomoda-os, de maneira especial, o facto das Finanças passarem para o SPD; outros membros do CDU consideram, no compromisso da coligação, salvaguardados apenas os interesses da pessoa Merkel e não os do partido CDU. Os membros do CDU são, porém muito disciplinados e não criam muitas ondas na praça pública; esse é mais o negócio da esquerda.

Exige-se muita paciência aos eleitores habituados à discussão de conteúdos do que de pessoal já gasto. 

Os membros do partido pensavam com Martin Schulz tirar o partido da cave, mas quem ficou na cave foi Schulz, embora tenha sido eleito para presidente do partido com 100% de votos e tivesse conseguido, com a esquerda do partido, mais 24.000 membros para o partido. 

Quer com a Groko (coligação) quer com novas eleições, os extremos políticos da sociedade é que ganharão. A nação começa a acordar depois de um longo pesadelo… Depois da época da destruição sistemática da economia de mercado social na Alemanha e de terminada a política de segurança, e as consequências da abolição do serviço militar e do serviço alternativo, a Alemanha tem dificuldade em re-situar-se perante as novas exigências dos cidadãos e da EU que se quer transformar numa potência internacional política e militarmente mais activa.

Angela Merkel não se encontra em bons lençóis, mas conseguiu acentuar grandemente a desunião dentro do SPD. Com o compromisso do governo concluído, impede-se a “revolução”, mas faz-se uma grande e alargada distribuição do orçamento do Estado. A União Europeia pode respirar fundo!
O medo e o cálculo levarão muitos membros da esquerda do SPD a aprovar o governo de coligação.
António da Cunha Duarte Justo

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

A SOCIALDEMOCRACIA NA EUROPA ESTÁ EM CRISE E COM ELA O SPD

                   Depois do furacão no partido vem aí a hora das mulheres

Antóio Justo
Era uma vez a era dos grandes partidos populares na Alemanha, era uma vez em que a socialdemocracia queria renovar-se! 

No princípio Schulz disse que não queria, mas até quereria se o partido quisesse. O povo e o partido SPD, divididos entre os desconcertados com tanto querer de não querer e os que até queriam só crer por se encontrarem já no poder, passaram a viver em grande sobressalto; criou-se na população uma grande gritaria e no partido um grande alvoroço devido ao barulho do derrapar das cadeiras que levou Schulz a renunciar à posição de presidente do SPD e de futuro ministro dos Negócios Estrangeiros.
No SPD só se notam agora as penas dos galos e os chilrinhos dos pintainhos do partido.Estes decidirão sobre a formação do governo alemão, mas como o alarido é tão grande acabarão por dizer sim à coligação e confirmar Andrea Nahles como mãe no partido. 

Esta parece ser a melhor estratégica para chegar, um dia, à chancearia da nação! Numa era de aparência mais feminina só uma estratégia feminina poderá conseguir assumir as rédias de um poder masculino, tal como fez Merkel. Os erros masculinos da direcção do partido foram a melhor preparação para também o partido vir a ter uma mãe preparada para o posterior desquite da nação da sua amada mãe Merkel?

No SPD, à queda dos homens seguir-se-á a ascensão das mulheres.

Andrea Nahles embora com a concorrência de Diedrich Dirk e Simone Lange para a presidência do SPD será a melhor escolha. Numa hora de crise do Parido, Andrea Nahles, "Mulher, crente, à esquerda", outrora promovida por Oscar Lafontaine, será aquela que melhor conseguirá equilibrar as velas do partido, orientando-o certamente para um curso mais à esquerda, como quer a camada jovem do partido.

Katarina Barley está a ser negociada como ministra dos negócios estrangeiros…
António da Cunha Duarte Justo
http://antonio-justo.eu/?p=4657