O homem sofre, não tanto pelo real, mas pelas imagens que fabrica e pelas ideias que o aprisionam.
E eis que, no caminho, surge Cristo: não apenas mediador, mas o próprio Caminho que se faz passo, a Verdade que se faz relação, a Vida que se oferece.
A via crucis não é exaltação da dor, mas revelação do Amor que não devolve violência.
É a ruptura do ciclo antigo, onde a culpa exigia vítimas e o poder se alimentava do sacrifício.
Na cruz, Deus não pede sangue: desmascara-o; não condena mas liberta; não separa, integra.
Cristo, feito vítima, não legitima a violência, esvazia-a. Torna inútil o mecanismo do bode expiatório e abre, no coração da história, um espaço novo: o espaço da misericórdia.
Aqui, a realidade deixa de ser dual: já não há apenas culpa e castigo, nem bem contra mal, mas uma terceira dimensão irrompe: a da graça, onde tudo pode ser assumido e transfigurado.
O Calvário é, assim, um lugar teológico: não de punição, mas de revelação. Ali, o humano e o divino entrelaçam-se num silêncio mais eloquente que qualquer lei.
Cristo cala-se diante do julgamento, não por fraqueza, mas porque a Verdade não cabe nos tribunais da lógica fechada. A verdade é encontro, é comunhão, é o “nós” que nasce entre o eu e o tu.
E caminha. Carrega a cruz, não como culpa, mas como história assumida. Cai e no cair revela
a fragilidade que redime, não a força que domina.
No olhar com a Mãe, o amor dispensa palavras: é pura presença, lugar onde a dor se torna luz.
Nos gestos simples , um estrangeiro que ajuda, uma mulher que enxuga o rosto, irrompe o mistério: Deus acontece no humano que se deixa tocar.
Despido, pregado, elevado, Cristo leva tudo até ao fim, até ao abandono, até ao silêncio de Deus.
E, no entanto, é nesse abismo que se escuta o inaudível: o Amor é mais forte que a morte.
A cruz não é derrota, é páscoa em germinação.
Nada fica por saldar, nada por vingar: tudo é entregue, tudo é reconciliado.
E o túmulo abre-se, não como fuga, mas como plenitude.
Deus não habita os mortos, mas a vida que renasce. Não é destino, é relação.
A via crucis torna-se, então, caminho interior: um êxodo das imagens para a verdade, do medo para a liberdade, da lei para o amor.
Quem a percorre já não procura culpados, nem levanta muros, torna-se espaço.
Espaço onde o outro cabe, onde o sofrimento se transforma, onde Deus se revela como presença viva no coração da humanidade e do mundo.
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo da via-sacra em https://antonio-justo.eu/?p=3531


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