domingo, 6 de setembro de 2026

A ECOLOGIA ENTRA NO CORAÇÃO DA TEOLOGIA

O cuidado da criação não é um apêndice moral, mas uma dimensão constitutiva da fé cristã. O novo documento da CTI, aprovado por Leão XIV, insere a ecologia no núcleo da teologia trinitária.
 
Resumo
O presente artigo que apresenta as novas orientações da Comissão Teológica Internacional (CTI) procura mostrar como a ecologia entra hoje no coração da teologia, deixando de constituir um tema periférico para se tornar uma dimensão estruturante do pensar teológico e exige a reconfiguração dos seus próprios pressupostos ontológicos, antropológicos e sociais... O mistério trinitário revela o ser não como autossuficiência, mas como relação, alteridade, reciprocidade e dom... A questão ecológica revela-se, deste modo, inseparável da questão antropoginológica e social, porque a relação com a Terra prolonga e manifesta determinadas conceções de Deus, do ser e do humano. Uma teologia trinitária da criação desloca o paradigma da posse para o da pertença, da autonomia para a interdependência e do domínio para o cuidado. A criação emerge, assim, como tecido de relações e comunidade de vida e não como exterioridade disponível à soberania humana... É nesta transformação paradigmática que a ecologia deixa de ocupar as margens e entra verdadeiramente no coração da teologia.
 
O novo passo da Comissão Teológica Internacional
O novo texto da Comissão Teológica Internacional (CTI), “Cuidar da nossa Casa comum” é a resposta responsável e fraterna ao Deus trinitário, publicado com o visto de Leão XIV, após quatro anos de trabalho (2022-2026), o documento não se limita a ecoar a Laudato si’ de Francisco, pelo contrário, aprofunda as suas intuições mais radicais e confere-lhes um fundamento teológico sistemático que faltava.
A tese da Comissão é tão simples quanto revolucionária ao afirmar “o nosso relacionamento com a natureza (ecologia) é uma dimensão constitutiva do nosso relacionamento com Deus Criador (teologia)”. Dito de outro modo: a ecologia não é um tema periférico da doutrina social da Igreja, nem uma concessão ao espírito do tempo. É matéria teológica no sentido pleno...A questão ecológica deixa de poder ser considerada um tema simplesmente periférico da doutrina social da Igreja ou uma adaptação do cristianismo às preocupações ambientais contemporâneas.
 
De Francisco a Leão XIV há uma linha de continuidade que se torna doutrina
A ‘Laudato si’ foi, desde o início, um texto teológico, embora muitos tenham preferido lê-lo como um tratado de ecologia política...
O documento aprovado por Leão XIV não substitui a encíclica; apresenta-lhe o seu núcleo dogmático. A criação não é o palco onde decorre a história humana, mas sim a obra do Deus trinitário, marcada por uma «impressão trinitária» que torna toda a realidade relacional. Nada é uma mónada. Tudo está em relação, porque o próprio Deus é relação... Se a criação traz em si a marca da Trindade, então a interdependência ecológica não é apenas um dado da biologia ou da física, é também um dado teológico...
O ser humano possui uma dignidade singular porque é criado à imagem e semelhança de Deus. Mas essa dignidade não lhe confere um direito ilimitado de domínio. Pelo contrário, transforma-se em responsabilidade.
O homem não é proprietário absoluto da Casa comum. É o seu guardião, cultivador e servidor...
Neste ponto, o documento toca num dos nervos mais sensíveis da teologia contemporânea que é a relação entre a transcendência divina e a imanência do mundo. Ao afirmar que a criação é obra do Pai, por meio do Filho, no Espírito Santo, a CTI abre caminho a uma compreensão mais profunda da Encarnação. Jesus Cristo não vem salvar apenas as almas, mas toda a criação. E é nessa perspectiva que a ecologia se torna cristologia aplicada...
 
Do «pecado ecológico» ao pecado contra a criação e o Criador
Um dos contributos mais relevantes do documento é a reformulação do conceito de «pecado ecológico». A expressão, difundida após o Sínodo para a Amazónia (2019), era teologicamente ambígua. A CTI propõe agora uma formulação mais precisa expressando-o como pecado contra a criação e contra o Criador. A Comissão dá agora um passo de clarificação teológica. Em vez de se limitar à expressão «pecado ecológico» ou ao conceito secular de «ecocídio», propõe falar de: «pecado contra a criação e contra o Criador»...
O dano causado à natureza não é pecado simplesmente porque produz consequências ambientais negativas. Pode adquirir uma dimensão propriamente moral e teológica porque contradiz o sentido que Deus imprimiu à criação e a responsabilidade confiada ao ser humano... 
 
Ecologia integral e justiça social une o grito da terra ao dos pobres
A ecologia proposta pela Igreja não pode ser verde sem ser vermelha, por assim dizer, ou seja, não pode proteger a natureza esquecendo as pessoas, especialmente os mais pobres... as populações mais vulneráveis são as primeiras vítimas da degradação ambiental, da escassez de água, da desertificação e das alterações climáticas... E esta perspectiva conduz a uma crítica corajosa do modelo económico dominante, quando este transforma a natureza e as pessoas em meros recursos de produção e consumo. A CTI aponta mesmo para a necessidade de um sistema económico diferente, «ao serviço da vida de todos», orientado pela sustentabilidade e pelo respeito pelos ritmos da Casa comum... A crise ambiental é um «severo teste à nossa esperança», mas a esperança cristã não se confunde com optimismo superficial. A fé na redenção, que abrange toda a criação, é o horizonte último que dá sentido ao esforço presente...
 
A Eucaristia e a sacramentalidade da criação no mundo como dom e louvor
A reflexão não termina na ética... O mundo, sem se confundir com Deus, remete para Ele e manifesta algo da sua bondade e beleza. Esta «sacramentalidade» encontra na Eucaristia a sua expressão mais alta: o pão e o vinho, frutos da terra e do trabalho humano, tornam-se o corpo e o sangue de Cristo... O mundo é recebido antes de ser utilizado. É dom antes de ser recurso. E precisamente porque é dom, pode tornar-se louvor. Esta intuição litúrgica confere à ecológica uma profundidade espiritual que falta a muitos discursos ambientais, mesmo quando bem-intencionados...
 
A ecologia da esperança como questão teológica
... O documento evita finalmente duas tentações opostas que se expressam na indiferença e no catastrofismo... A Comissão escreve que a crise ambiental constitui «um severo teste à nossa esperança», mas acrescenta que essa esperança não é «um otimismo superficial» ...
A razão última encontra-se na fé cristã na redenção: o destino final querido por Deus não diz respeito apenas às almas humanas, mas à renovação da criação...
A ecologia deixa de ser um apêndice facultativo da vida cristã para se tornar parte integrante das grandes realidades da fé: Criação, Trindade, Encarnação, pecado, Eucaristia, justiça, conversão e esperança escatológica...
O desafio lançado à Igreja e ao mundo é viver a ecologia não como uma moda, mas como uma exigência da fé; não como uma preocupação secundária, mas como uma dimensão constitutiva do amor a Deus e ao próximo...
A ecologia não é apenas uma questão sobre aquilo que fazemos ao ambiente. É também uma questão sobre aquilo que acreditamos acerca de Deus, do mundo e do ser humano.
A pergunta ecológica transforma-se, assim, numa pergunta teológica: «Como nos relacionamos com a criação, nossa Casa comum, obra do Criador trinitário?»...
Esta orientação doutrinal, é mais que uma exigência porque faz parte integrante da teologia trinitária (Jesus Cristo como reunião da matéria e do espirito, que pressupõem a elaboração de uma nova matriz e consequente revisão da ontologia (demasiado masculina grega) e de uma antropoginelogia e correspondente sociologia que expressem a autentica identidade cristã.
António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo social
Texto completo em Pegadas do Tempo ©: https://antonio-justo.eu/?p=11378

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