Beijar é o melhor e mais divertido Remédio para o Corpo e para a Alma
O dia em que o comércio local esfrega as mãos de contentamento, os restaurantes duplicam os preços do menu e os corações (mesmo os mais empedernidos) fazem um esforço extra para se lembrarem de que, afinal, batem dentro do peito. Hoje é Dia dos Namorados, mas preferia chamar, o Dia Internacional do Beijo na Boca e da Troca de Embrulhos com Laço.
Há quem diga, e com toda a razão, que beijar é o melhor remédio. Mais barato que o Ben-u-ron e infinitamente mais agradável. É o santo comprimido efervescente que dissolve na boca e vai direto à alma. Os apaixonados lá andam, de nariz colado, a trocar carícias e pequenas lembranças, tudo numa nostalgia daquele tal de Valentim (1), que era um padre com veia poética e espírito de insubordinação que, em pleno império romano, teimou em casar os jovens apaixonados às escondidas. Como resultado teve a prisão. E isto compreende-se porque o amor sempre foi um assunto perigoso e subversivo!
Na minha modesta opinião de observador do mundo, a verdade é que para se ter um vislumbre de paraíso, é preciso primeiro ter os pés bem assentes na terra e não impedir sistematicamente que as suas energias subam. Os verdadeiros jardineiros do espírito, aqueles que tratam da horta da alma com carinho, sentem-no logo de manhã: há amor no ar. Um simples sorriso, sem segundas intenções nem expectativas, é capaz de iluminar a paisagem mais cinzenta. A Bíblia, que não é propriamente um livro de autoajuda barata, já o dizia: o amor não é uma roupa que se veste e despe ao sabor da moda. Não há que mudar de casaco conforme o tempo. O amor aplica-se à vida, mesmo quando ela resolve desabar numa tempestade de granizo. É um laço invisível, uma daquelas colas superpoderosas que unem o que parecia partido e que teimam em agarrar quando o mais fácil seria largar tudo e ir à vida.
Claro está que o amor não tem manual de instruções. Não vem com garantia de peças. É imperfeito, matreiro, cheio de falhas de fabrico. Mas atrai. Tem um íman qualquer. Talvez porque, no fundo, o amor seja um sem-abrigo de luxo: não tem morada fixa neste mundo e vive eternamente à procura de um lar onde possa pousar a cabeça. E é por isso que, quando encontra um, vale a pena festejar.
E como se festeja? Com um beijo, claro! Vale sempre a pena. Porque um beijo é um fator de felicidade, um estimulante cardíaco sem efeitos secundários (salvo talvez uma certa tontura, perfeitamente desculpável). É um ginásio para a alma. Precisa, sim, de ar fresco, de espaço para respirar, mas é a mais pura das comunicações. É dizer "gosto de ti" sem gastar um caractere. É a demonstração máxima de que, naquele momento, não há sítio melhor no mundo.
Do ponto de vista médico, então, o beijo é um espetáculo. Mobiliza 30 músculos faciais, acelera o pulso, põe o sistema imunitário em sentido e manda um fax ao cérebro a dizer que está tudo bem. É um verdadeiro "check-up" com sabor a framboesa. Pena é que, nos casamentos, com o passar dos anos, este remédio tão milagrosa tenda a ser receitado com menos frequência. A rotina instala-se, o sofá chama, e o beijo matinal passa a ser um gesto mecânico, um "bom-dia" seco dado de raspão, enquanto se procura os óculos em cima da mesa-de-cabeceira.
É uma lástima. Porque se há coisa que o Dia dos Namorados nos devia lembrar, para além da correria às floristas, é que o amor é um verbo e não um arquivo morto. E que um beijo, mesmo fora de época, é sempre a melhor forma de o conjugar.
António da Cunha Duarte Justo
Nota em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10770


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