domingo, 24 de abril de 2016

A ALEMANHA POLÍTICA ENCONTRA-SE INQUIETA E EM FERMENTAÇÃO

O novo Partido AfD afirma-se afirmando que o “Islão é incompatível com a Constituição”
Por António Justo
Passaram-se os tempos em que a opinião pública era determinada pela classe pensante. A passagem do Marco alemão para o Euro e em especial a política de boas-vindas aos refugiados, da Chanceler Merkel, secundada pelo seu governo (com alguns desacordes do CSU) e pela oposição, puxou muita gente para a rua que já há muito tempo sofria de dores abdominais e agora reage abruptamente num acto de insegurança perante o “terremoto” dos refugiados. 

Grande parte da população anda desconsolada com tanta abertura e compreensão da política para com os imigrantes de cultura árabe. Em 2014 tinham solicitado requerimento de asilo na Alemanha 202.645 refugiados e segundo os registos oficiais, a Alemanha em 2015 deu albergue a mais 1,1 milhão de refugiados. O coração das autoridades e do povo tinha-se aberto numa onda de filantropia sem igual. Uma tal subida, secundada de experiências menos positivas no contacto com muitos dos chegados, provocou um choque social, não se fazendo esperar a reacção

Surgiu o partido AfD (“Alternativa para a Alemanha”); este, em menos de um ano de existência; conseguiu superar os 10% nos estados federados onde houve eleições comunais. Os partidos estabelecidos, CDU/CSU, SPD e Verdes, já temem a nova força concorrente que se candidatará para as eleições federais em 2017. As estimativas de previsão para as eleições parlamentares federais de 2017 confirmam a tendência obtida nas eleições para as comarcas. O AfD beneficiará, também do contestado acordo com uma Turquia, de pouca credulidade, que, além do mais, a troco de muitos milhares de milhões de euros, impede os refugiados de virem para a Europa, ganhando assim uma posição de poder chantagear a UE. 

O AfD é recebido na praça da polis com semelhantes reacções como foi recebido, nos anos 80, o surgir do partido Os Verdes. Enfim: poder perturba poder, e os meios de uns e outros não conhecem as águas de uma moral pública onde se possam lavar.

De momento o AfD prepara-se para o seu congresso, onde elaborará o programa para as próximas legislativas. As suas afirmações sobre o Islão abanam a discussão pública e fazem tremer a alma de alguns mais sensíveis às intempéries. Uma sociedade mais preocupada e competente em princípios económicos do que em princípios de religiões parece acordar agora para a realidade da força da religião como factor fomentador de identidade. 

O AfD que também quer uma fatia do bolo do poder, polariza a discussão provocando a reacção da classe política e de muitos jornalistas do consenso. O AfD, que surge do meio da sociedade – facto que atemoriza os poderes já instalados - insurge-se publicamente contra o islão político e lá do alto do seu minarete, afirma: “A maior ameaça para a democracia e para a liberdade parte hoje do Islão político". A imprensa da praça insurge-se contra, afirmando que embora haja partidos muçulmanos que dão mais valor a princípios religiosos do que a direitos individuais de liberdade, na Alemanha não há partidos islâmicos e a maioria dos muçulmanos na Alemanha obedecem aos princípios democráticos. 

Um outro ponto de crítica a querer lugar no programa do partido regista: „o AfD rejeita os Minaretes como símbolo de dominação assim como o apelo do muezim (almuadem), segundo o qual, com excepção de Allah (deus) islâmico não há Deus ". Os críticos do AfD respondem comparando o Minarete islâmico com as torres cristãs. Quanto ao credo professado nas cinco vezes do apelo diário à oração, a saber: "Não há nenhum deus além de Deus (Allá) e Maomé é o seu profeta”, a opinião publicada desculpa-os argumentando que tal apelo e oração expressa convicções religiosas que contribuem para uma maior ligação dentro do islão (Cf. HNA 20.04.2016). (Devo pessoalmente confessar que este apelo repetido todos os dias publicamente em todo o mundo é um distúrbio da ordem pública e uma provocação, apesar da admiração que se possa ter pela voz do muezim!)

Quanto ao lenço de cabeça que muitas muçulmanas trazem, lê-se numa moção a apresentar no congresso: ” A integração e igualdade das mulheres e raparigas assim como o livre desenvolvimento da personalidade contradizem o lenço de cabeça como símbolo religioso-político de subordinação das mulheres muçulmanas aos homens ". Oponentes desta tese vêem no trazer do lenço um testemunho por uma norma moral de fundamentação religiosa. O HNA também relata que o vice-presidente do AfD afirma: “Eu creio que o Islão, na sua forma actual não é integrável numa sociedade ocidental, muitas pessoas sim mas o Islão não”
 Embora haja muitos fluxos islâmicos de salafistas crescentes, há também muitas outras comunidades religiosas islâmicas que não se opõem à ordem social em que vivem.

No projeto do programa também se lê "O Islão já se encontra no seu caminho declarado de domínio do mundo em 57 dos 190 países. Estes declararam a Sharia como o seu sistema legal na Declaração do Cairo de 1990 e, deste modo, a Carta de 1948 dos Direitos Humanos da ONU como irrelevante". Há quem contradiga fazendo a observação que a OIC (Organização de Cooperação Islâmica) não é uma aliança de estados mas apenas uma organização intergovernamental cujos acordos não são obrigatórios para cada Estado membro.

No passado o Estado Secular não tem tomado a sério a força religiosa imanente ao Homem e tem até procurado discriminá-la. Negar ou ignorar tal realidade contradiz o espírito democrático e um encontro de culturas de olhos nos olhos. A imprensa e os intelectuais não são amigos do Islão se o tratam como um coitadinho que só pode ser defendido e compreendido: querer-se-ia um islão de baixo sem compreender a sua verdadeira filosofia. 

Concretamente: seria incúria se o Estado secular e a intelectualidade europeia continuassem a ignorar o problema sem se ocupar de maneira científica e humana da questão da compatibilidade ou incompatibilidade do Islão com a Democracia; só assim se poderão fomentar a paz social e ajudar o mundo islâmico a uma revolução pacífica interna. Os Estados islâmicos terão de enfrentar o problema do seu autoritarismo e da sua desconsideração das necessidades de libertação do povo, como já se manifestou no movimento da primavera árabe. Urge a mudança no sentido de reconciliar as autoridades com o povo e os princípios com a vida. Sem a paz entre os muçulmanos não haverá paz mundial.
António da Cunha Duarte Justo

4 comentários:

Anónimo disse...

Ótima análise do sr. Antônio Justo.
Também não vejo possibilidades reais de uma integração entre o mundo islâmico e o ocidental cristão. A resposta vejo na própria formação da Europa cristã. Enquanto não ocorreu a subjugação dos povos e o aculturamento imposto da crença cristã sobre as populações européias, que nunca foram cristãs, até Constatintino decidir-se pela implantação massiva deste credo, a Europa não se constituiu da forma como hoje a conhecemos, mesmo tendo em parte o "tiro" saido pela "culatra", uma vez que a Unificação Romana pensada não ter sido atingida, mas seu esfacelamento , ao contrário do inicialmente pensado, ter sido acelerado pelo cristianismo.
Assim, ou a mundo islãmico teria que se tornar cristão, algo pouco provável, ou a Europa cristã torna-se islâmica, também pouco provável. Desde modo não vejo possibilidade real de uma integração de um modo com o outro. Além disso são religiões com tempos diferentes de amadurecimento. Uma já se imiscuiu com o poder e isso mostrou a necessidade de laicidade o outro ainda não passou por este aprendizado.
No filo mento abstrado isso é muito pouco provável, dai a necessidade do alavancamento do filo natural. Somente sob a naturalidade religiosa consegue-se uma integração harmoniosa e sustentável. Não por desejo ou vontade ou de forma autoproclamada (do tipo, eu sou, você não é), mas pelo fato do modelo religioso não contemplar construções artificiais (senão, cadê a naturalidade?).
Nisso vai inserir-se o Mundo Lusófono. Nisso Portugal foi pioneiro com suas descobertas e o sonho de construção de um novo mundo (claro que por alguns poucos, já que boa parte queria é realizar-se apenas na materialidade da vida).
Já comentei que uma das principais contribuições ao Brasil que Portugal deu foi sua capacidade de miscigenação (Portugal deveria fornecer a "estrutura", esta era a parte que lhe cabia, além de garantir a miscigenação, claro, escrevo aqui de forma bastante simplificada sem maiores aprofundamentos). Claro que não tinha muita escolha, com uma pequena população e vastos territórios o jeito era se miscigenar. Mas isso é o plano da naturalidade, a miscigenação da três raças, branca, negra e vermelha, garantida , para que os modelos civilizatórios monoétinicos , possam finalmente ter uma nova base de desenvolvimento, muito mais sustentável, e claro, em melhores bases religiosas (isso é necessário para que os velhos preconceitos não venham a ser reproduzidos). (Continua)

Anónimo disse...


Veja, é relativamente cedo para que fora do Brasil isso que digo seja entendido, mas com o tempo penso que a lição de desenvolvimento multietinico e em melhores bases religiosas se mostrará ao mundo. Quando isso ocorrer, o mundo lusófono estará no centro das reflexões e dos ventos da mudança.
Quanto ao termo democracia, ´participei de uma assembléia, entre três representantes de entidades de mobilizações sindicais (CSP-Conlutas, Intersindical e um representante de um sindicato de quimicos) e fiz exatamente esta pergunta: O que é democracia e qual sua representatividade?
Uma das respostas que tive foi: " A palavra é extremamente flexível e cabe no discurso de quem faz o poder. O golpe de 64 no Brasil foi declarado sob o manto da defesa da democracia. Na Coréia do Norte o discurso oficial é que são uma democracia. Agora, em nenhum lugar há de fato representatividade. A representatividade dita democrática é a de quem está no poder. Assim, se quem dà as cartas do jogo é o sistema capitalista, é dele a representatividade . Sob o ponto de vista do trabalhador, já que não é ele o representado, então vive em uma ditadura, uma vez que tem seu salário controlado pelo patrão, tem seus direitos de consumo restritos ao salário que o patrão lhe paga, etc. Já para aquele que pode pagar suas férias na Suiça, frequentar os melhores restaurantes e não se preocupar com trabalho, e ainda ter sua representatividade no poder a defender seus interesses, para ele é uma ótima democracia. Neste sentido não são as populações que fazem a democracia.
Com o Islã, o sentido é similar. São democracias de cléricos mas não dos povos. O mundo cristão amadureceu e soube mudar, ainda que sua democracia tenha sido alterada de representatividade clérica para econômica.
Por isso, hoje tenho muito cuidado com a definicião de democracia.
Hoje, por sinal, foi lembrado na Assembléia que participei, a "Revolução dos Cravos", de 25 de abril de 1974 em Portugal.
Saudações aos participantes,
Vilson
in Diálogos Lusófonos, 25.04.2

António da Cunha Duarte Justo disse...

Caro Vilson!
Muito obrigado pelo seu depoimento e pela oportunidade que dá de reflectir sobre ele. Fá-lo-ei de maneira directa e apressada devido ao tempo de que disponho.
A disputa e o alvorar de uma nova geração mais aberta ao mundo nas sociedades islâmicas possibilitarão a confluência e o desenvolvimento no sentido democrático (liberdade e direitos humanos). O tempo cura todas as feridas da História.
Quanto à mudança operada pelo édito de Milão (da tolerância 313) de Constantino que deu liberdade aos cristãos, deixando o impérioromano de os perseguir, com este facto deu-se realmente uma reviravolta na maneira de estar cristão, com o Édito passam a ser devolvidos “os lugares de culto e as propriedades que tinham sido confiscadas aos cristãos e vendidas em hasta pública”; Constantino desestabiliza o paganismo ao declará-lo como religião não oficial deixando de discriminar o cristianismo e outras religiões. Daqui se desenvolve o comprometimento da instituição eclesial com o Estado, com efeitos benéficos e maléficos para o cristianismo mas favorecedores da cristandade. O imperador Constantino via, no cristianismo seguido pelos escravos e também em parte por partes da classe média, a oportunidade de, através dele, impedir a derrocada do império romano ameaçada pelos bárbaros e pela degradação dos costumes das elites romanas. Constantino, nas suas andanças também pela Península Ibérica teve oportunidade de observar a energia renovadora e integral que vinha dos grupos cristãos e as potencialidades de futuro que incluíam ( O mote de Jesus “dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César” era uma orientação do cristianismo de que este não se pode identificar com uma cultura oferecendo assim os pressupostos para uma vida social pacífica entre a força política e a força religiosa). Constantino chegou já demasiado tarde (para salvar a queda do império) e a religião cristã nunca poderia substituir a religião do Estado pois apesar dos compromissos institucionais assumidos, ela reconhecia a consciência individual e a comunidade cristã como forma de estar em diferentes formas de Estado. A parte institucional da Igreja acomodou-se muitas vezes com os poderes praticando ela mesma o “pecado” de Simonia. O cristianismo genuíno manteve-se sempre nos centros monacais e nos conventos (= comunismo de vida de irmãos a realizar a comunhão e a comunidade: integração da força do polo individual com o comunitário). Dos conventos surgiu a civilização da Europa passando, por meio deles, a dignificação do trabalho que passa a não ser apenas apanágio dos escravos mas ganhando dignificação para todas as camadas sociais no “ora et labora”! O identificar o trabalhar com o rezar dá dignidade a toda a actividade e dignifica e coloca os servos, a nível de princípios, num estatuto nobre. (Continua)

António da Cunha Duarte Justo disse...

Naturalmente o poder e a violência, o bem e o mal, que se encontra, na base de cada humano, independentemente do seu ser religioso ou laico (instituição religiosa ou instituição laica), afirma-se sobretudo através da injustiça e do abuso. É da essência de toda a estrutura (instituição) viver de forças individuais de que se serve ou rouba.
O islão só surgiu 300 anos mais tarde, surgiu da necessidade das tribos árabes se unirem e afirmarem. É a religião que reduz a crença ao seguimento de uma cultura.
De facto, o respeito pela naturalidade religiosa e o direito à própria opinião deveriam consequentemente levar a humanidade a uma “integração harmoniosa e sustentável”. O problema surge já a nível de natureza devido ao seu impulso natural por identificação e às suas forças inerentes de se organizar através de estruturação (a nível cultural diríamos institucionalização) tendência inerente e necessária ao desenvolvimento.
De facto a miscigenação racial e cultural é o resultado do reconhecimento do desenvolvimento natural e cultural no sentido de optimação e organização de diferentes forças. O grande problema na orientação do desenvolvimento, penso encontrar-se na falta de “miscigenação” a nível de vida e ideológica; ficando cada grupo ou indivíduo demasiado tempo preso às forças da definição e identificação não deixando lugar para as forças comunitárias, de um diálogo são entre individuação e comunidade. O problema da relação entre individuação e estruturação (comunitaridade) é inerente ao desenvolvimento de contextura mecânica ou orgânico, o que torna tudo mais complexo, dado cada um (indivíduo ou grupo) se afirmar de forma mais ou menos exclusiva o seu ego sem reconhecer que a natureza e a sociedade só se desenvolvem no seguimento de um processo reconhecedor e integrador das duas tendências: egoísmo e altruísmo. O cristianismo vivido pelos monges nos conventos procura superar a dualidade integrando a tendência individual e comunitária na vivência da comunidade em que cada elemento é pessoa essencial na comunidade; esta transcende a vivência social.
A luta é uma das estratégias de desenvolvimento a um nível inferior da vivência da natureza e da cultura. São realidades que porém terão de se tornar forças integradores no sentido da comunidade global para o individual. Uma miscigenação a nível intercultural cultural consciente implica um estado superior de desenvolvimento.
Penso que o preconceito é um momento de passagem no processo de formação do conceito, um momento de afirmação de uma identidade ainda em estado precário que não reconheceu ainda o valor do comunitário porque o próprio horizonte se encontra demasiadamente limitado ao ego, à individuação.
Quanto aos aspectos referidos relativos a formas de governo ditadura, democracia comungo também das ideias do amigo. Penso que, na realidade, em vez de democracia seria mais próprio usar o termo democratura. Realmente, a Suíça, um país pequeno mas relevante, entre os grandes, devido ao compromisso e fidelidade entre povo e governantes tornou-se numa sociedade que dá cartas às grandes democracias e poderia ser um grande exemplo de concepção e desenvolvimento a seguir por países como Portugal. Se a Suíça que é pequena consegue dar exemplo ao mundo, porque não outros pequenos como ela?
Grande abraço e saudações a todos os participantes
António Justo