Será possível uma matriz de orientação onde alguém poderá falar ao humano na qualidade de humano sem o reduzir a função, massa ou rebanho?
Na continuação do que escrevi no artigo DA GEOPOLÍTICA À METAFÍSICA DO PODER não estamos apenas perante uma regressão histórica, mas perante uma mutação antropológica regressiva.
A sociedade tribal que estamos a forjar não é feita de clãs orgânicos, mas de arquipélagos funcionais, artificiais, regidos por algoritmos frios. Tome-se como exemplo certas expressões do fenómeno woke: erguem uma identidade que é pura superfície, sem interioridade colectiva autêntica. É uma militância sem comunhão, uma bandeira sem transcendência, uma tribo de código reducionista, não de sangue, terra ou mito.
Os indivíduos ganham visibilidade em grupos, mas perdem a sua ipseidade (1) e isto é decisivo. Sem singularidade e essência individual própria não há responsabilidade, não há consciência moral e não há liberdade verdadeira... E quando este eixo se perde, regressamos não à tribo natural, mas à horda administrada.
Modernidades múltiplas de pluralidade sem fundamento
A ideia de “modernidades múltiplas ou de interculturalismos” poderia ser fecunda se assentasse numa verdade comum (Logos), isto é, numa referência à natureza, e à tradição, numa ética do real e numa conceção do humano como medida (à imagem do protótipo Jesus Cristo).
Em vez disto observamos pluralidade sem verdade, diversidade sem critério e diferença sem orientação...
O verdadeiro “choque” não é entre civilizações, mas entre visões do humano como ser-com-sentido versus entidade moldável...
O papel do poder expressa-se em decompor para governar
A decomposição em via especialmente na civilização ocidental não é ingénua ao ser mais agressiva no ocidente...
O poder contemporâneo fomenta fragmentação, grupos reativos e espiritualidades neutralizadas, pervertendo o espiritual como pedagogia de submissão em vez de libertação.... Aqui entra a perversão do espiritual como pedagogia de submissão: não para libertar, mas para pacificar.
A questão decisiva: a Igreja católica percebeu o tempo?
É uma questão séria, mas justa: parece que o catolicismo não está a compreender o momento histórico que realmente está a acontecer, ao tratar a crise apenas como uma questão social. Historicamente, a Igreja foi a primeira instituição verdadeiramente global; foi a primeira a afirmar a dignidade universal da pessoa e foi a primeira a colocar limites éticos ao poder.
Hoje a Igreja católica vive uma tensão interna profunda que se poderia explicar com o seu desvio excessivamente pedagógico (oportuno para a época de civilizar os povos bárbaros na europa) mas com a negligência da missão mística e ontológica...
Quando a Igreja abdica de falar do ser e se limita ao agir, não responde aos sinais dos tempos que sopram especialmente na Europa e apontam para uma espiritualidade de caracter mais mística. O ponto chave da missão hodierna será complementar o ser com o estar...
O ser humano é fim em si em estado processual. Não é um fim fechado, mas um ser em caminho, aberto à divinização...
Pode o catolicismo oferecer uma matriz globalizante alternativa?
Sim, em potência tem tudo o que é preciso desde que não seja teocrática como é o caso do islão, mas que acentue a ralação humano-divina como se encontra expressa no protótipo Jesus Cristo. Não deve ser moralista nem disciplinadora. A nova era exige dela que acentue mais o aspecto antropológico e ontológico na perspectiva espiritual...
O risco e a oportunidade
A oportunidade da Igreja neste tempo histórico é ser a última garante da consciência humana num mundo funcionalizado...
Conclusão
Tratar-se-ia de uma transfiguração do papel do catolicismo, menos gestor de moral, menos pedagogo social, mais guardião do humano como lugar do divino num confronto entre antropologia cristã e antropologia tecnopolítica.
António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo social
Artigo completo em Pegadas do Tempo ©: https://antonio-justo.eu/?p=10605


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