segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

SALAZARISMO ENTRE IDEOLOGIA E GEOPOLÍTICA

 

Substituição de soberanias em favor dos contraentes geopolíticos USA e União Soviética

O debate público e historiográfico tende a enquadrar o regime de Salazar quase exclusivamente numa oposição binária entre “fascismo” e “democracia” ...

Ao reduzir o salazarismo a uma etiqueta ideológica, perde-se a possibilidade de o analisar na sua totalidade histórica...

O efeito mais duradouro e, em certo sentido, mais trágico para a sociedade portuguesa foi o facto de a rivalidade entre o imperialismo americano e o imperialismo soviético ter sido internalizada no discurso político nacional após o 25 de Abril de 1974...

Assim Portugal foi condicionado nas últimas cinco décadas a uma cultura política ideológica enviesada e intolerante com a consequente perda de uma via própria e de uma desejável   maturidade na análise política...

O povo português libertou-se de um regime autoritário, mas não se libertou das lógicas ideológicas imperiais que continuaram a moldar o discurso político interno, apenas sob novas cores conotadas agora por um autoritarismo moralista e ideológico.

A metáfora do cravo é elucidativa: ao identificar a liberdade exclusivamente com o cravo vermelho (símbolo de ideais revolucionários), não reconheceu a riqueza multicolor da liberdade, feita de diversidade de interpretações, de memória crítica e de caminhos alternativos que não se esgotam numa única narrativa vencedora.     

O texto de Rui Ramos (1) que me motivou a fazer esta análise, tem o mérito de desmontar a redução simplista do Estado Novo a um “fascismo português” ...

No entanto, essa leitura permanece essencialmente interna ao espaço ideológico europeu, deixando em segundo plano um factor decisivo: a questão imperial e a posição estratégica de Portugal num mundo em recomposição.

O Império como chave de leitura central

Para Salazar, o império não foi um adorno ideológico nem um resíduo do passado, mas o fundamento material da soberania portuguesa. Num contexto em que as grandes potências emergentes, Estados Unidos e União Soviética, estruturavam a ordem mundial em torno de esferas de influência, Portugal surgia como uma anomalia: um pequeno país europeu com uma presença territorial transcontinental, estrategicamente localizada em África, no Atlântico e no Índico, o que impedia por si uma distribuição do território na política de confrontação entre os dois polos geopolíticos.

A resistência de Salazar à descolonização não pode ser compreendida apenas como conservadorismo ou cegueira ideológica, como apregoam ideologias partidárias. Ela inscreve-se numa percepção, discutível (vista da perspectiva geopolítica de hoje talvez profética), mas coerente, de que o fim do império português não conduziria à autodeterminação real dos povos coloniais, mas antes à substituição de uma soberania fraca por dependências fortes, fossem elas soviéticas ou norte-americanas...

Neste sentido, o salazarismo revela-se menos como um regime ideológico fechado e mais como uma estratégia defensiva de sobrevivência estatal, ancorada numa leitura profundamente desconfiada da ordem internacional emergente. Por isso embora Portugal tenha feito parte dos países fundadores da NATO, Salazar não se sentia bem com os parceiros porque como estadista sabia os interesses que os movia.

Autoritarismo como instrumento, não como fim

O autoritarismo salazarista foi, assim, minimalista e defensivo, orientado para a contenção da instabilidade social, da politização excessiva, da ingerência externa (União Soviética e USA) mais do que para a transformação revolucionária da sociedade. Não procurou criar um “homem novo”, nem um Estado total, mas antes congelar a história num ponto considerado seguro...

 

A Neutralidade estratégica e o jogo duplo das potências

Salazar cooperou com os Aliados sem se submeter politicamente a eles, acolheu refugiados sem abrir o sistema, cedeu bases nos Açores sem abdicar do império. A mesma inteligência política faz falta em Bruxelas nos dias de hoje. Hoje, na EU, temos administradores políticos e aplicadores de diretrizes e agendas globais a que falta legitimação democrática, mas não temos estadistas nem personalidades relevantes (mas disto falarão os nossos vindouros)!...

Após 1945, as mesmas potências que haviam tolerado e em certos momentos valorizado, a estabilidade autoritária portuguesa passaram a pressionar a descolonização. Esta viragem não foi motivada por um súbito despertar moral, mas por uma reconfiguração de interesses imperiais, agora exercidos sob formas económicas, militares e culturais mais sofisticadas.

Convém também notar que a Noruega possuidora da colónia  Gronelândia foi na altura contra Portugal e o discurso actual em torno da Gronelândia mostra como o exemplo permanece válido na medida em que o discurso anticolonial foi frequentemente seletivo e instrumental.

Para uma leitura não maniqueísta da História

O erro mais persistente nas discussões contemporâneas sobre o salazarismo não é a crítica moral ao regime, legítima e necessária (como o seria também ao de hoje), mas a confusão entre julgamento ético e compreensão histórica...

A História mostra-nos que o século XX não foi determinado pela vitória da democracia liberal sobre regimes “malignos”, mas por uma competição contínua entre impérios, em que ideologias funcionaram como linguagem legitimadora de interesses estratégicos mais profundos.

Nesse quadro, o salazarismo aparece menos como uma aberração fascista e mais como uma tentativa conservadora, autoritária e defensiva de resistir à absorção imperial num mundo bipolar...

Talvez o verdadeiro desafio historiográfico do nosso tempo seja este: libertar a análise do passado das polarizações do presente e dos interesses ideológicos de esquerda e direita...

A leitura categorial do autoritarismo estatal conservador tem sido feita e interpretada em favor do autoritarismo moral socialista.

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo social

Texto completo e nota em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10610

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