Uma Introdução ao Estado da nossa Sociedade
Como observador dos fluxos temporais e dos arquétipos que moldam o destino coletivo, cada vez constato mais que vivemos a era do "Profeta Ninguém".
Sob o brilho artificioso dos nossos foguetes, esses monumentos tecnológicos que riscam o céu noturno com promessas de fuga, descobrimos, não a claridade, mas a amplificação da escuridão que nos pesa. O próprio céu, outrora roteiro dos sonhos, tornou-se um espelho opaco que devolve o nosso próprio vazio e nos deixa atordoados por barulhos fúteis.
Uma Europa que já teve momentos brilhantes com contributos para o desenvolvimento humano e da humanidade, encontra-se num momento de apagara as próprias luzes. Temos assim uma tripulação humana à deriva, aprisionada num barco que avança sem bússola, sem cartas náuticas, sem horizonte visível. Navegamos em círculos no alto mar de dados infinitos e sentido finito. No convés, uma figura solitária, o Profeta Ninguém, ergue a voz, mas o seu discurso perde-se no ruído dos motores e no silêncio aturdido dos que deveriam ouvir.
Ao mesmo tempo, no porão do navio, essas profundezas sombrias da nossa existência coletiva, o povo, tomado por um medo primordial, recusa-se a subir. O medo do mar sem fim, do céu sem estrelas-guia, do futuro sem contornos, é mais forte que a vontade de tomar o leme. Preferem a trepidação conhecida do subterrâneo à vertigem incerta do convés.
Esta é a nossa condição: uma humanidade com instrumentos de deuses e a coragem de amebas. Capaz de iluminar a noite com foguetes, mas incapaz de iluminar a própria alma. Capaz de cruzar oceanos digitais, mas paralítica diante do abismo existencial.
O que o Profeta Ninguém vê, e o que seu discurso não consegue transmitir, é que o horizonte não desapareceu, apenas deixamos de saber como olhar. Reparámos o mundo à nossa imagem: um mar infinito, sem margens, onde cada rota é possível e, portanto, nenhuma é necessária.
Esta introdução ao ano serve, pois, como um espelho sonoro para o discurso não proferido. Um apelo, não para sairmos do barco, porque esse é nosso único lar, mas para ousarmos sair do porão. Para aprendermos a navegar, não em direção a um porto inexistente, mas na própria aceitação do mar aberto, recriando, juntos, a coragem do horizonte e tendo para isso a hombridade de pegar na bússola feita do material que deu origem à cultura europeia.
Assim começa a análise do nosso estado social: na tensão entre o brilho pirotécnico do nosso progresso e a escuridão orgânica do nosso medo e das instituições presas a uma matriz patriarcal fomentadora de uma cultura de guerra. Uma existência pautada entre o convés vazio do potencial e o porão cheio da resignação.
O futuro não está escrito, mas o presente revela-nos, através da voz do Profeta Ninguém: ou cuidamos da energia de subir ao convés guiados pela própria luz sem atender à ventania das ideologias do tempo, ou nos condenamos a afundar na segurança ilusória do porão.
Sem medo juntemo-nos para que a luz própria (o funk divino que em nós espera, como o profeta Ninguém) se torne a janela aberta para o convés.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10574
