sexta-feira, 6 de novembro de 2026

GRANDE PRÉMIO DA LITERATURA PORTUGUESA NA DIÁSPORA ATRIBUÍDO AO ESCRITOR ANTÓNIO JUSTO

 

ANTÓNIO DA CUNHA DUARTE JUSTO VENCE O 1.º PRÉMIO DE PROSA DO GRANDE PRÉMIO DA LITERATURA PORTUGUESA NA DIÁSPORA

Distinção atribuída na primeira edição do prémio reconhece o trabalho literário e intelectual desenvolvido pelo escritor português radicado na Alemanha. A cerimónia de entrega dos galardões decorre a 6 de novembro, em Thetford, no Reino Unido, integrada nas comemorações dos 20 anos do jornal AS NOTÍCIAS.

O escritor e ensaísta português António da Cunha Duarte Justo foi distinguido pela obra “A Corda e a Mala migrante”   na categoria de Prosa com o 1°  Grande Prémio da Literatura Portuguesa na Diáspora, uma iniciativa que pretende reconhecer e valorizar a criação literária em língua portuguesa desenvolvida por autores residentes fora de Portugal.

A distinção reveste-se de particular significado por assinalar a primeira edição do Grande Prémio da Literatura Portuguesa na Diáspora, uma iniciativa instituída e promovida pelo jornal AS NOTÍCIAS, sediado no Reino Unido, com o apoio da Direção-Geral dos Assuntos Consulares e das Comunidades Portuguesas (DGACCP) e do Santander.

O galardão, símbolo desta distinção literária, foi concebido por Joe Barreto, investigador em neurociência no Anschutz Medical Campus da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos da América, conferindo à iniciativa uma dimensão simbólica que une a criação artística, o reconhecimento literário e a valorização da cultura portuguesa além-fronteiras.

A cerimónia de entrega dos galardões de Prosa e Poesia a 6 de novembro, no Carnegie Room, no centro de Thetford, integrando o programa comemorativo do 20.º aniversário daquele órgão de comunicação social, que há duas décadas acompanha a vida das comunidades portuguesas no Reino Unido.

 

Um prémio que aproxima Portugal dos seus escritores espalhados pelo mundo

Sob o lema «A diáspora não é ausência. É a continuação de Portugal pelo mundo», o Grande Prémio da Literatura Portuguesa na Diáspora procura afirmar a língua portuguesa como espaço de encontro, identidade e criação cultural para além das fronteiras nacionais.

A primeira edição contou com candidaturas provenientes de diferentes geografias da emigração portuguesa, evidenciando a vitalidade da produção literária das comunidades lusófonas e a diversidade das experiências culturais que alimentam a escrita em português.

Entre os países representados encontram-se o Reino Unido, Alemanha, Luxemburgo, Bélgica, Suíça, França, Venezuela, Brasil, Estados Unidos da América, Canadá, Timor-Leste, Austrália, Japão, Emirados Árabes Unidos e Angola.

Mais do que uma competição literária, a iniciativa pretende dar visibilidade a autores que, vivendo longe do território português, continuam a contribuir para o enriquecimento da língua, da cultura e do pensamento nacionais.

Reconhecimento de uma vida dedicada à escrita e à reflexão

Para António da Cunha Duarte Justo, a atribuição do prémio representa um reconhecimento público particularmente significativo de uma atividade intelectual desenvolvida com perseverança, independência de pensamento e profundo sentido de pertença à comunidade portuguesa.

O escritor manifesta a sua satisfação e honra pela distinção, sublinhando que o galardão reconhece um trabalho realizado, em grande parte, longe da exposição pública e das instituições culturais.

«Isto constitui um elevado reconhecimento público do trabalho que desenvolvo no silêncio das quatro paredes do meu escritório, onde me dedico à escrita e à investigação pelo menos dez horas por dia, no desejo de bem servir o povo de que sou filho», afirma.

A sua produção escrita caracteriza-se por uma abordagem reflexiva e analítica de questões sociais, culturais, filosóficas e humanas, frequentemente marcada pelo questionamento das interpretações dominantes da realidade.

Consciente de que a reflexão crítica pode suscitar desconforto ou contrariar perspetivas estabelecidas, António Justo considera que a escrita deve contribuir para despertar a consciência individual e promover uma participação mais autónoma na construção da vida pessoal e coletiva.

Na sua perspetiva, se a sociedade se constrói também através das narrativas que produz e transmite, importa que cada pessoa desenvolva a capacidade de se tornar, progressivamente, autora da sua própria história.

O escritor reconhece igualmente que o caráter exigente da reflexão intelectual deve coexistir com a dimensão lúdica, afetiva e quotidiana da existência, indispensável ao equilíbrio humano e à convivência social.

Uma homenagem à cultura portuguesa além-fronteiras

Impossibilitado de estar pessoalmente presente na cerimónia, António da Cunha Duarte Justo faz-se representar pelo professor universitário José João Almeida, ligado à Universidade de Londres.

O escritor dirige um agradecimento especial ao Dr. João de Noronha, diretor do jornal AS NOTÍCIAS, ao Dr. Ígor Lopes e ao professor José João Almeida, pelo envolvimento na iniciativa e pela representação na entrega do galardão.

A cerimónia de entrega dos galardões realizou-se no dia 6 de novembro de 2026, no Carnegie Room, em Thetford, Reino Unido, integrada nas comemorações dos 20 anos do jornal AS NOTÍCIAS UK

A atribuição deste prémio evidencia também a importância dos órgãos de comunicação social da diáspora na preservação da língua portuguesa, na divulgação da criação intelectual e na construção de pontes entre Portugal e os portugueses espalhados pelo mundo.

Ao distinguir António da Cunha Duarte Justo na sua primeira edição, o Grande Prémio da Literatura Portuguesa na Diáspora coloca em destaque uma escrita que procura conciliar a fidelidade às raízes culturais portuguesas com a liberdade crítica e a abertura a uma reflexão de alcance universal.

Num tempo em que a identidade cultural se confronta com transformações sociais profundas, o reconhecimento do trabalho de escritores portugueses residentes no estrangeiro recorda que a cultura nacional não termina nas fronteiras geográficas do país.

A literatura portuguesa continua a escrever-se onde quer que haja uma voz capaz de pensar, sentir e criar em português.

Informações complementares e fontes

A consulta das notícias publicadas pelo jornal AS NOTÍCIAS permitiram acrescentar alguns elementos relevantes:

- O jornal foi fundado em 6 de novembro de 2006 e assinala exatamente 20 anos de existência.

- A cerimónia começou às 19 horas, com apresentação de José Figueiras, da SIC.

- O galardão físico foi concebido por Joe Barreto com a colaboração da oficina Inspire Focus Wood Works, da instituição Simple Norfolk Charity.

  asnoticias.co.uk

- Numa entrevista a Ígor Lopes, João de Noronha sublinhou a importância de preservar o amor das novas gerações por Portugal e pela língua portuguesa.

  asnoticias.co.uk

A notícia de 5 de novembro menciona cerca de 30 candidaturas recebidas, 19 obras validadas e participantes de 11 países.

asnoticias.co.uk+1

Um percurso entre a literatura, o ensino e o diálogo intercultural

António da Cunha Duarte Justo é um escritor, ensaísta e pensador português radicado na Alemanha, onde desenvolve uma intensa atividade de escrita, investigação e reflexão crítica sobre questões filosóficas, culturais, sociais, religiosas e políticas. 

A sua intervenção intelectual caracteriza-se por uma abordagem interdisciplinar, procurando estabelecer pontes entre a cultura portuguesa e o pensamento europeu, com particular atenção aos desafios da identidade, da condição humana, da ética e da vida em sociedade.

Através dos seus ensaios, artigos de opinião e reflexões, tem procurado contribuir para o debate público, privilegiando a independência de pensamento, o espírito crítico e a valorização da dignidade humana. A sua escrita, frequentemente analítica e questionadora, convida o leitor a ultrapassar interpretações convencionais da realidade e a assumir um papel consciente na construção da própria história.

A ligação a Portugal e às comunidades portuguesas no estrangeiro constitui uma dimensão importante da sua atividade intelectual, marcada pelo desejo de servir a cultura e a língua portuguesas e de promover o diálogo entre diferentes experiências e tradições culturais.

Em novembro de 2026, foi distinguido na primeira edição do Grande Prémio da Literatura Portuguesa na Diáspora, reconhecimento do seu contributo para a criação literária e para a presença da cultura portuguesa além-fronteiras.

Complemento bibliográfico e curricular

A consulta de fontes biográficas e bibliográficas permite acrescentar informações concretas à nota anterior.

Nascido em 12 de fevereiro de 1947, em Várzea, Arouca, António da Cunha Duarte Justo realizou estudos em Filosofia, Teologia, Ciências da Educação, Psicologia e Pedagogia Social, em instituições portuguesas e alemãs.

Exerceu funções docentes, pedagógicas e pastorais em Portugal, França e Alemanha, tendo lecionado Língua e Cultura Portuguesas e Ética, incluindo atividade docente ligada à Universidade de Kassel. Participou também em órgãos de representação dos estrangeiros na Alemanha e em iniciativas de diálogo intercultural.

Entre as suas publicações identificadas destacam-se:

- Nas Pegadas da Poesia - obra poética apresentada em 2018, em Branca, Albergaria-a-Velha.

  BOM DIA

- Lutero garante a Emancipação como Princípio Impulsionador da Idade Moderna - ensaio publicado em 2017, dedicado ao legado da Reforma Protestante e às relações entre religião, política e modernidade.

  BOM DIA Bélgica

- Participação em  Antologias de Poetas na Diáspora, além de colaboração em outras publicações coletivas, jornais e revistas.

Foi ainda chefe de redação da revista alemã Gemeinsam e desenvolveu atividade associativa e cultural, nomeadamente no âmbito da associação ARCADIA - Arte e Cultura em Diálogo.

A sua produção ensaística e de intervenção encontra-se igualmente divulgada no espaço digital Pegadas do Tempo, dedicado à reflexão sobre a atualidade, a sociedade e a condição humana.

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11486

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

TRUMP DERROTADO

 

TRUMP FOI DERROTADO, MAS OS EUA SÃO MAIS DO QUE CONSERVADORES E PROGRESSISTAS PINTAM

Nos USA, umas vezes o prato da balança pende mais para a esquerda, outras mais para a direita, mas os pesos pouco se distinguem.

Os democratas conquistaram as duas câmaras do Congresso. Trump fica com as mãos mais atadas internamente, mas poderá ter maior liberdade de ação externa. O próprio reconheceu que a guerra do Irão lhe valeu o atual castigo eleitoral.

Tendo em conta a nova geografia política, é natural que o Congresso limite o financiamento da guerra do Irão e aumente o da guerra na Ucrânia. A Europa continuará, assim, a ter motivos de preocupação, num tempo em que a China de Xi Jinping prossegue a sua afirmação e, com ela, a Ásia. Acresce que os EUA se encontram politicamente mais radicalizados, tanto à esquerda como à direita.

Dado o papel, muitas vezes discreto, que os EUA desempenham no mundo, o momento não é para divertimento. Se é verdade que a esquerda se sente mais entusiasmada, a verdade é que os EUA não mudam substancialmente, mesmo quando o mundo se fixa demasiado nos seus presidentes.

O poder de veto do presidente continua a ser um fator importante na determinação do folclore geopolítico.

O facto de os EUA terem virado mais à esquerda não significa apaziguamento para a Europa, que está a ser assolada por ventos contraditórios e se mostra mais instável do que os próprios EUA.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11482

terça-feira, 3 de novembro de 2026

PROCURA-SE SAÚDE MENTAL

  A crise do nosso tempo não reside na pluralidade das narrativas, mas na incapacidade de as submeter a uma realidade comum, onde a razão reconheça os seus limites, a justiça transcenda a mera legalidade e a dignidade humana permaneça superior aos interesses que pretendem representá-la...

A humanidade entre as narrativas do poder e o exílio da realidade

Há uma inquietação profunda a atravessar as sociedades contemporâneas. Não se trata apenas das guerras, das crises económicas ou dos conflitos políticos que dominam o espaço público. Trata-se de algo mais subtil e talvez mais perigoso, que é a crescente incapacidade de nos entendermos, apesar de nunca termos disposto de tantos meios de comunicação. Vivemos rodeados de informação, mas cada vez mais afastados da compreensão; multiplicamos discursos sobre a humanidade, enquanto perdemos de vista o ser humano concreto. A razão, que deveria aproximar-nos da realidade, parece frequentemente reduzida a uma lógica de interesses, tornando-se instrumento de legitimação daquilo que previamente se decidiu defender (ou organizar em narrativa).

Os povos e os seus governos constroem narrativas próprias para afirmarem a sua identidade, legitimarem as suas instituições e justificarem as suas opções. É um processo natural e até necessário. Nenhuma comunidade nasce no vazio. Cada povo desenvolve-se num determinado «biótopo cultural», condicionado pela geografia, pelo clima, pela língua, pelas tradições, pela memória histórica e até pelos ventos dominantes que, ao longo dos séculos, moldaram modos de viver e de sentir.
A cultura é também uma resposta humana à paisagem e às circunstâncias da existência. O problema começa quando essas narrativas, em vez de servirem a compreensão da realidade, passam a substituí-la, apresentando a sua visão particular como se fosse a única verdade possível.

No regime das narrativas dominantes, os factos tendem a receber reconhecimento não tanto pela sua consistência objetiva, mas pela utilidade que representam para determinada interpretação. Cada campo político, ideológico ou geoestratégico seleciona os acontecimentos que confirmam a sua posição, relativiza os que a contrariam e organiza a informação segundo os seus objetivos. Assim se criam mundos paralelos, cada um com a sua coerência interna, os seus heróis, os seus culpados e as suas justificações. Os factos deixam de dialogar entre si, porque as narrativas que os acolhem não procuram necessariamente compreender-se, mas impor-se umas às outras.

É neste ponto que a razão corre o risco de perder a sua vocação universal. Em vez de procurar a verdade através do confronto honesto com a realidade, transforma-se numa espécie de advogada dos interesses estabelecidos. Argumenta-se para vencer, não para compreender. Escuta-se para responder, não para aprender. E o adversário deixa de ser alguém com quem se partilha um mundo, para se tornar um obstáculo a eliminar, desacreditar ou silenciar. A diferença, que poderia enriquecer a experiência humana, converte-se em ameaça. Não faltam inteligências capazes de justificar posições contraditórias; o que falta, muitas vezes, é a sabedoria de reconhecer que nenhuma perspetiva esgota a realidade.

Esta situação torna-se particularmente visível no discurso público europeu e internacional. Em nome da paz justificam-se estratégias de confronto; em nome da liberdade defendem-se medidas que podem restringi-la; em nome da segurança aceitam-se sacrifícios humanos cuja gravidade se relativiza conforme a posição dos envolvidos. As grandes palavras continuam presentes, mas o seu significado oscila segundo as conveniências. A universalidade dos princípios corre o risco de se tornar seletiva, aplicada com rigor aos adversários e com indulgência aos aliados. Não significa isto que todas as responsabilidades sejam iguais ou que todas as posições tenham o mesmo fundamento. Significa, antes, que a credibilidade dos valores depende da coerência com que são aplicados, sobretudo quando essa coerência contraria os nossos próprios interesses.

Surge aqui uma contradição fundamental que é o abstrato, criado para esclarecer o concreto e acaba por se tornar seu adversário. Fala-se de povos, blocos, sistemas, civilizações e estratégias, enquanto desaparecem do horizonte as pessoas que suportam as consequências das decisões. Uma criança que perde a casa, uma mãe que teme pelo filho, um trabalhador que vê desaparecer o seu sustento ou um idoso que assiste à destruição do mundo que conheceu não são abstrações geopolíticas. São vidas concretas, irredutíveis às categorias em que o poder procura enquadrá-las. Que valor tem uma ideia de humanidade que não reconhece o sofrimento de um ser humano? E que espécie de razão é essa que consegue explicar tudo, mas parece incapaz de se deixar interpelar pela dor?

A aceleração do tempo agrava esta desorientação. Os acontecimentos sucedem-se a uma velocidade que dificulta a compreensão das suas origens. Uma notícia sepulta outra, uma indignação substitui a anterior e uma nova narrativa instala-se antes de a precedente ter sido devidamente examinada. A memória histórica fragmenta-se, tornando-se cada vez mais difícil reconstituir a terra que alimentou as raízes dos conflitos e das identidades. Conhecemos os efeitos imediatos, mas ignoramos frequentemente os processos que os produziram. A história transforma-se num armazém de argumentos disponíveis para utilização seletiva, quando deveria constituir uma escola de prudência e discernimento.

Sem memória crítica, a sociedade torna-se vulnerável à manipulação. Mas recordar não significa justificar tudo o que aconteceu, nem compreender equivale a desculpar. Compreender é reconhecer a complexidade das circunstâncias, distinguir causas de responsabilidades e resistir à tentação de dividir o mundo entre inocentes absolutos e culpados definitivos. Uma consciência histórica madura não elimina o juízo moral, mas torna-o mais exigente. Obriga-nos a reconhecer que os conflitos possuem raízes profundas e que a justiça não se alcança apagando a memória dos outros.

Também o direito participa desta problemática. Enquanto sistema de normas, constitui uma conquista indispensável da civilização, porque estabelece limites ao arbítrio e oferece condições de convivência. Contudo, o direito não pode ser confundido com a justiça. A legalidade de uma decisão não garante, por si só, a sua legitimidade moral. Uma norma pode ser corretamente aplicada e produzir consequências profundamente injustas. O direito, enquanto estrutura formal, não possui alma própria; a sua dimensão humana depende da consciência daqueles que o elaboram, interpretam e aplicam (o busílis da questão é que também aqui subsiste o hiato entre consciência própria e função). Por isso, a justiça deve permanecer como horizonte crítico da legalidade, sem que tal signifique entregar a convivência aos sentimentos subjetivos ou à arbitrariedade moral.

O mesmo acontece com a política quando se deixa dominar exclusivamente pela lógica da eficácia. Uma decisão pode ser estrategicamente vantajosa e humanamente desastrosa. Um discurso pode apresentar impecável coerência argumentativa e ocultar pressupostos moralmente questionáveis. A racionalidade técnica sabe calcular meios, prever consequências e organizar recursos, mas não responde, por si só, à pergunta essencial do para quê e para quem? Quando os fins deixam de ser interrogados, a inteligência pode tornar-se servidora de qualquer poder. E uma sociedade que confunde capacidade técnica com sabedoria corre o risco de aperfeiçoar os instrumentos enquanto perde a consciência do sentido da sua utilização.

Uma das enfermidades mais inquietantes da nossa época não é certamente a falta de razão, mas a sua fragmentação em lógicas fechadas, frequentemente incapazes de reconhecer uma realidade comum. Cada grupo procura confirmar a própria identidade, cada instituição defender a sua legitimidade, cada poder preservar a sua influência. Entretanto, o espaço público transforma-se numa arena de narrativas concorrentes, onde a verdade é muitas vezes tratada como pertença e a dúvida como fraqueza. A própria linguagem sofre as consequências, porque as palavras deixam de ser pontes entre experiências diferentes para se tornarem armas de demarcação.

É neste sentido que se torna pertinente perguntar pela saúde mental das nossas sociedades. Não se pretende, naturalmente, atribuir diagnósticos psiquiátricos a povos, governos ou instituições. A expressão é aqui uma metáfora filosófica e civilizacional, destinada a interrogar a qualidade da nossa relação coletiva com a realidade. Uma sociedade intelectualmente saudável não é aquela em que todos pensam da mesma maneira, mas aquela em que as diferenças podem confrontar-se sem destruir a possibilidade de entendimento. É aquela que distingue factos de interpretações, convicções de interesses e fidelidade às próprias raízes de hostilidade perante as raízes alheias.

A saúde de uma cultura democrática mede-se também pela capacidade de reconhecer os seus erros. Onde toda a autocrítica é entendida como traição, a identidade transforma-se em prisão. Onde toda a discordância é interpretada como ameaça, o diálogo torna-se impossível e onde a verdade depende exclusivamente da autoridade que a proclama, abre-se caminho à submissão intelectual. A coragem de pensar exige precisamente o contrário; exige disponibilidade para submeter as próprias certezas à experiência, reconhecer a parcialidade das perspetivas e aceitar que o outro pode revelar aspetos da realidade que não conseguimos alcançar a partir do nosso lugar.

Não se trata de procurar uma narrativa única que absorva todas as outras. Tal projeto seria tão perigoso como as exclusividades que pretende superar. A humanidade é constitutivamente plural e a diversidade das culturas representa uma riqueza que nenhuma uniformização deveria eliminar. O desafio consiste em construir uma razão dialogante, capaz de reconhecer a legitimidade das diferenças sem abdicar da procura de critérios comuns de verdade, justiça e dignidade. O universal não deve esmagar o particular, tal como o particular não pode reclamar o direito de negar a humanidade do outro.

Talvez precisemos, por isso, de regressar simbolicamente à terra. Não à terra convertida em propriedade exclusiva de uma identidade, mas à terra enquanto condição partilhada da existência. Todos nascemos (como que já vestidos) situados numa língua, numa história e numa cultura que nos precedem. Todos herdamos memórias, afetos e preconceitos que influenciam o nosso olhar. Mas todos partilhamos também a vulnerabilidade do corpo, a necessidade de reconhecimento, a experiência da perda e a consciência da finitude. É nesta condição comum que a razão pode reencontrar a sua dimensão humana, ultrapassando as fronteiras sem apagar as raízes.

A educação, a comunicação social, as instituições políticas e a própria vida quotidiana têm aqui uma responsabilidade decisiva. Educar não pode significar apenas transmitir conhecimentos ou preparar indivíduos para competir. Implica desenvolver a capacidade de distinguir informação de propaganda, argumento de manipulação, interesse de princípio. Implica ensinar a escutar sem submissão, a discordar sem desumanizar e a pensar sem transformar cada convicção numa fortaleza. Uma democracia não vive apenas de eleições e procedimentos; precisa de cidadãos capazes de resistir à simplificação e de reconhecer a dignidade daqueles com quem não concordam.

Procura-se, portanto, saúde mental no discurso público, nas relações internacionais, nas instituições e na consciência individual. Procura-se uma razão que não se limite a justificar interesses, uma política que não confunda poder com verdade, uma identidade que não necessite de inimigos para existir e uma justiça que não se esgote na aplicação formal da lei. Procura-se sobretudo a capacidade de devolver às palavras a responsabilidade pelas vidas que atingem. Isto pressupõe uma atitude hercúlea que será a capacidade de ajoelharmos perante os outros.

A grande crise do nosso tempo não é certamente a ausência de valores proclamados, mas a distância entre esses valores e a experiência concreta. Nunca se falou tanto de direitos, liberdade, paz e dignidade (a expressão “sepulcros caiados” de palavras até parece tornar-se, cada vez mais evidente); contudo, a sua invocação não impede que sejam instrumentalizados por interesses contraditórios. A verdadeira medida de uma civilização não reside apenas na inteligência com que organiza os seus sistemas, mas na sabedoria com que impede que esses sistemas se voltem contra o ser humano e se revelem uns contra os outros.

No fundo, a questão é simultaneamente simples e exigente: queremos compreender o mundo ou apenas vencer nele? Queremos uma razão ao serviço da vida ou uma vida submetida às razões do poder? Enquanto não enfrentarmos estas perguntas, continuaremos a multiplicar narrativas que se combatem, sem reconhecer a terra comum que as sustenta.

Procura-se saúde mental. E talvez ela comece quando a razão deixar de se considerar dona da verdade, aprender a escutar a realidade e descobrir, no rosto concreto do outro, o limite moral de todas as suas pretensões.

António da Cunha Duarte Justo

Resumo do texto de Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11480