segunda-feira, 3 de agosto de 2026

CEUTA E O TEATRO DAS NARRATIVAS

 

50.000 almas entre o desespero e o xadrez geopolítico

Não eram cinquenta, nem quinhentas, mas sim cinquenta mil. Cinquenta mil almas que, enquanto o tempo abre e fecha os olhos, transpuseram a cerca que separa África da Europa, para, no dia seguinte, regressarem a Marrocos como se o mar tivesse devolvido aquilo que a terra emprestara. A imagem é tão surreal como a rapidez com que se desenrolou o tufão. Para o observador distraído, foi uma vaga migratória. Para o olhar crítico, um espelho que reflete as tensões submersas do Magrebe e, por arrasto, um aviso sombrio de que as fronteiras, quando abandonadas à geopolítica, se podem tornar em pólvora seca, tal como a Ucrânia nos ensinou.

A indiferença ou, mais provavelmente, a ação calculada das autoridades marroquinas torna evidente que não estamos perante um acaso climatérico ou uma falha de segurança. Rabat está irritado pelo restabelecimento de laços amigáveis entre Espanha e a Argélia, que é a sua rival histórica no tabuleiro norte-africano. Marrocos vê a aproximação de Espanha a Argélia, como uma provocação direta. Se a geopolítica é a arte de fazer o inimigo dançar, Ceuta foi o palco agora escolhido e as 50.000 pessoas, infelizmente, são apenas coreografia involuntária. O rasto das pegadas na areia não leva ao mar; leva, inequivocamente, aos corredores do poder em Marrocos.

Todavia, a questão não é, nunca foi, apenas migratória. No horizonte, o Saara Ocidental emerge como um fantasma que recusa descansar em paz. Ao facilitar a cidadania espanhola aos saharauis, que são os habitantes indígenas desse território disputado, Madrid atirou um dado sobre a mesa que Marrocos não podia ignorar. Apoiado pela Argélia, o movimento Polisário é a espinha dorsal da indignação marroquina. Assim, a crise de Ceuta não é uma crise de refugiados; é uma crise de soberania e de orgulho nacional ferido, que usa vidas humanas como massa de manobra numa negociação que se quer silenciosa, mas que explode em praça pública.

É aqui que o discurso público se desvirtua e a informação se transforma em arma de arremesso. Bruxelas tece indignações hipócritas, condimentadas com lágrimas de crocodilo, enquanto analistas de gabinete especulam sobre ligações obscuras entre Washington, Telavive e Rabat. Diz-se que Marrocos decidiu desestabilizar o governo de esquerda espanhol em retaliação pelas críticas de Madrid a Israel na Faixa de Gaza e aos ataques dos EUA ao Irão, ou pela resistência ibérica em aumentar aceleradamente as despesas de defesa perante as exigências de Trump. Haverá um fio condutor que liga a pressão sobre o défice militar à abertura súbita das portas de Ceuta? Esta especulação, por mais sedutora que seja, corre o risco de servir apenas os moinhos de quem procura simplificar o complexo. A verdade é que transformar 50.000 jovens desesperados num instrumento de chantagem diplomática revela uma crueldade tão gritante que ultrapassa qualquer intenção política racional.

Os rumores, esses, acrescentam pólvora ao debate. A ideia de que Israel ajudaria Marrocos a “recuperar” Ceuta e Melila para punir a Espanha circula nos bastidores como moeda corrente. Mas, mais do que a veracidade destas intenções, difícil de provar e fácil de desmentir, importa perceber quem as divulga e com que propósito. A informação, hoje, muitas vezes não ilumina porque deslumbra e cega. As redes sociais amplificam o eco da fronteira “aberta”, transformando o desalento estrutural dos jovens marroquinos, que veem no mar mais oportunidades do que na sua própria pátria, num espetáculo mediático que desvia o olhar do elefante na sala: a falta de oportunidades endémica nos países de origem e a hipocrisia europeia perante o drama humano, que só se comove quando as imagens entram pela sala de estar dentro.

Ceuta é, pois, o reflexo de um mundo onde as cortinas da geopolítica escondem palcos de miséria. As fronteiras, recordemo-lo, devem ser marcadas por boas relações entre vizinhos e não por notícias escandalosas ou informações manipuladas que procuram levar a água aos moinhos de agendas alheias. Ao lermos os factos, exijamos clareza: não nos deixemos afogar na espuma dos dias, mas antes aprendamos a ver o fundo do abismo, mas sem ganhar vertigens. Porque enquanto as grandes potências jogam xadrez com os territórios, os peões, esses cinquenta mil, continuam a olhar para o mar, não como uma fronteira, mas como a única promessa ténue de um futuro que, na terra firme, lhes foi negado.

Segundo fontes oficiais espanholas, pelo menos 67 pessoas morreram durante este episódio específico, que levou à chegada de cerca de 50.000 pessoas à cidade. Em 2026 morreram oficialmente 97 pessoas na tentativa de alcançar Ceuta. Números oficiais apontam para 46 mortos em 2025.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

domingo, 2 de agosto de 2026

O QUE UNE O ISLÃO E DIVIDE A EUROPA: LÍNGUA RITUAL E ANTROPOLOGIA

 Um dos fatores mais negligenciados no debate sobre a coesão social é o elemento linguístico e ritual. Enquanto a Igreja Católica, com o Concílio Vaticano II, optou por abandonar o latim na liturgia, o islão manteve o árabe como língua litúrgica comum, da Índia ao Egito. A repetição diária das suras do Alcorão, em escolas e mesquitas, cria uma universalidade intrínseca e uma pertença transnacional que a Igreja Católica perdeu ao democratizar excessivamente o rito. A defesa do latim na parte mística da missa é hoje questionada, mas não constitui mero saudosismo; seria antes um elemento estratégico de unidade doutrinal, um sinal externo capaz de gerar um sentimento de pertença forte numa época de fragmentação, visibilidade que, de resto, o Papa tem procurado recuperar.

No plano antropológico, a resiliência do islão radica, sobretudo, na afirmação inequívoca do princípio masculino sobre o feminino na dinâmica social. O Ocidente, mantendo um patriarcalismo mental por vezes inconsciente, mas contestado por ideologias concorrentes, acaba por acomodar internamente formas de machismo que reduzem a feminilidade a uma função reprodutora ao serviço do crescimento do grupo. Neste sentido, a Europa necessitaria de repensar a sua antropologia numa direção que integrasse verdadeiramente o princípio feminino, pacífico e agregado,  com o princípio masculino, estruturador e assertivo, em vez de os colocar em conflito, como sucede quando estes modelos coexistem sem mediação e, com esta prática fortalece ainda mais a masculinização da matriz ocidental sem que se contribua para uma maior valorização da feminilidade no islão .

A ambivalência europeia perante este fenómeno decorre, em parte, de uma confiança excessiva numa certa fadiga de pensamento, ou seja, a crença de que a história avança pela verdade, quando com frequência avança, quantitativamente, pela persistência e até pela distorção. Nesta leitura, o islão, oriundo de regiões áridas, chegaria ao "vale" fértil da Europa com uma energia sustentada pela consciência de grupo, forjada em contextos históricos de escassez; a Europa, por sua vez, instalada na abundância, tenderia a subestimar a intensidade dessa mesma consciência de grupo enquanto fator de sobrevivência e afirmação civilizacional. A construção de um diálogo genuíno exigiria, nesta ótica, que a Europa recuperasse a ligação às suas próprias raízes e princípios, superando a acomodação intelectual.

Note-se, aliás, que a ambivalência bastante característica do Islão não lhe é exclusiva porque instituições, religiosas, políticas, ideológicas, podem também, de forma mais ou menos deliberada, usar a ambiguidade doutrinal, social ou comportamental como estratégia de sobrevivência. O uso da ambivalência permite apresentar, consoante a audiência e o contexto, a face mais aceitável da doutrina, para efeitos de legitimação externa, diálogo inter-religioso ou relações diplomáticas, mantendo em reserva, para uso interno, interpretações mais rígidas ou instrumentais.

No islão é consensual o udo da distinção entre suras mecanas (reveladas antes da Hégira, geralmente mais breves, de tom espiritual, escatológico e conciliador) e a de suras medinenses (reveladas depois, quando Maomé passou a liderar uma comunidade política e militar em Medina, com conteúdo legislativo e também, relacionado com conflito armado). O uso de umas ou outras suras permite a ambivalência no uso estratégico que permite expressar a face mais bela da doutrina em argumentações ad extra, quando a nível interno se usa a interpretação mais dura. Daqui a razão de quando radicais islâmicos praticam atentados, o povo e as autoridades do islão geralmente se absterem de tomar partido e de fazer declarações inequívocas. Também os assassinos se sentem com razão porque encontram a sua ação coberta pelo Corão e como este foi ditado a Maomé deixa de ser de mão humana.

A presente reflexão dirige-se, pois, ao islão institucional, às suas estruturas hierárquicas e de poder e não aos muçulmanos enquanto tal. Esta distinção decorre do próprio enquadramento analítico adotado, centrado na analogia da dinâmica entre civilizações (e relações entre instituições onde se deveria pressupor bilateralidade política e cultural) e não em juízos sobre indivíduos ou comunidades religiosas.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11246

A NATUREZA DO DESAFIO - POLÍTICA CAMUFLADA DE RELIGIÃO

O debate sobre a diversidade nas sociedades europeias tem sido dominado por um discurso predominantemente emocional, onde qualquer análise estrutural sobre as diferentes matrizes culturais é rapidamente rotulada de intolerância. Ora, a defesa de um ecumenismo genuíno e da rica diversidade humana é um bem inestimável; contudo, a abertura desmedida, quando desprovida de consciência histórica, pode transformar-se numa perigosa abdicação do biótopo civilizacional europeu.

É imperativo reconhecer uma diferença ontológica: o Islão não é apenas uma religião no sentido ocidental do termo, ou seja, como um espaço privado de crença separado da esfera política. O Islão é, sobretudo, um projeto político e jurídico completo, camuflado de religiosidade, cujo grande mérito histórico foi unificar tribos árabes díspares sob uma identidade cultural coesa. Esse feito notável, no entanto, constitui uma provocação silenciosa para culturas mais abertas e individualistas, como a europeia.

A fragilidade do Ocidente reside na sua tendência para enfraquecer as suas próprias bases identitárias em nome de uma diversidade abstrata. Esta postura ingénua favorece a afirmação hegemónica de um Islão que define a dignidade da pessoa não pela sua individualidade, mas exclusivamente pela pertença ao grupo. Esta é uma antropologia de gueto, que cria laços de solidariedade interna fortíssimos, mas que se revela impermeável à sociedade civil envolvente.

Há ainda uma convergência trágica: o socialismo ideológico abre-lhe as portas porque vê no indivíduo uma função abstrata, o proletariado, uma visão que coincide com a redução da pessoa a mero membro da umma (comunidade islâmica). Esta aliança tácita entre o internacionalismo progressista e a estratégia identitária islâmica serve uma agenda comum fatal. A finalidade dessa agenda comum é decompor as comunidades tradicionais europeias para as substituir por estruturas de poder maleáveis. A civilização islâmica não é, por si só, um "inimigo", mas torna-se um perigo real para a civilização ocidental e para o catolicismo quando encontra no socialismo um aliado mais interessado em corroer do que em edificar.

A ilusão de que o Islão é "domesticável" ou de que se adequará, passivamente, ao secularismo europeu é uma crença frágil, que não tem em conta a sua origem desértica. Uma cultura treinada ao longo de séculos a afirmar as forças de sobrevivência, onde a geografia árida apenas permitia miragens, desenvolveu uma esperteza adaptativa que as culturas dos vales férteis, habituadas à abundância, raramente conseguem igualar. A Europa, que se debate internamente com o verme da decadência, exalta a diversidade pela diversidade, abrindo assim as gretas por onde a cunha identitária alheia se introduz.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11243

sábado, 1 de agosto de 2026

MONTENEGRO “PESSOA DO DIA”

Na imprensa alemã Montenegro foi mencionado «Pessoa do Dia» devido às medidas adotadas para combater a escalada dos preços dos combustíveis.

Face aos atuais lucros recorde das petrolíferas, o Governo português apresentou um projeto de lei que visa tributar os chamados «lucros extraordinários». As receitas desta taxa destinam-se a «apoiar as famílias e os setores económicos mais afetados pela subida dos preços dos combustíveis».

Em 2022, na sequência da guerra na Ucrânia e como medida de emergência contra a crise energética, a União Europeia já havia instituído um imposto sobre lucros extraordinários. Contudo, atualmente, Bruxelas rejeita esta mesma abordagem.


António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11241

sexta-feira, 31 de julho de 2026

UMA BOA AÇÃO

Naquela manhã, uma névoa densa pairava sobre Kassel. Aquele cinzento pesado que penetra até aos ossos e oprime a alma, ainda antes de o primeiro gole de café afastar o cansaço. Estavam agendadas as compras do dia: as incómodas e intermináveis obras em frente à loja, o carrinho de plástico a ranger, a luz fria do Aldi que iluminava a indiferença dos rostos apressados. Nada indicava que, entre as prateleiras de metal e o zumbido dos leitores de códigos de barras, um sol muito particular iria nascer.

A minha esposa, Carola, estava na fila do caixa, de olhar perdido no vaivém monótono das compras, quando reparou no rapaz jovem que a sucedia na fila da caixa. Não tinha carrinho, apenas os braços carregados com uma melancia e um pacote de bolachas, equilibrados com a perícia de quem não gosta de perder tempo. Num gesto de humanidade espontânea, ela sorriu-lhe e convidou-o a passar à sua frente. Era pouco, dir-se-ia, quase nada porque significava apenas um passo para o lado, um aceno de mão.

Mas o jovem, com uma serenidade desarmante, não se limitou a aceitar.  Apontou para a jovem que estava atrás dele e que segurava apenas três coisas na mão e pediu-lhe que a deixasse passar à frente em vez dele.  

Carola, gentil, abriu os braços num gesto largo e espontâneo disse:

 “Claro, passem os dois, à vontade.”

O Jovem e a jovem sorriram, daqueles sorrisos genuínos, sem pressa e sem máscaras. Foi como se uma pequena onda de calor tivesse varrido a fila da caixa e o corredor. Depois, como agradecimento ele quis ajudar a colocar os artigos da minha esposa na esteira rolante.

O jovem primeiro atravessou o caixa, pagou e, quedou-se pacientemente ao lado dos tapetes rolantes, à espera de Carola. Quando ela terminou, ele aproximou-se com uma oferta inesperada:

“Deixe-me levar-lhe as compras até ao carro.”

Ela recusou, por instinto, embora constrangida com o peso, porque afinal, levava dois pacotes de água, cada um com seis garrafas pesadas. Mas ele, que ainda não contava com décadas de peso da vida, não aceitou um "não" por resposta. Pegou nos pacotes com a firmeza de quem ainda carrega consigo a força das boas maneiras e seguiu-a até ao estacionamento, com passos seguros. Já junto ao carro quis oferecer-lhe um exemplar do nosso jornal regional, HNA, já que era distribuidor de jornais. Carola agradecida respondeu-lhe que era assinante do jornal.

Ele, limpando as mãos às calças e com um brilho maroto no olhar, confessou:

“Eu só queria fazer algo de bom e começar o dia com uma boa ação.”

Foi então que Carola, iluminada por aquela troca tão singela, lhe respondeu com a presteza e a ternura que já germinava no seu coração:

“Mas o senhor com a sua atitude gentil já fez a boa ação e não foi só uma, foram mais! Ao deixar a colega de trás passar, ao ajudar-me e ao sorrir-me com esta cordialidade tão pura, sem segundas intenções. Isso já era para mim o sol da manhã.”

Ele, por um instante, ficou em silêncio, como se estivesse a saborear o doce sabor residual das palavras dela. Depois, voltou a sorrir. Fazia parte daquelas raras pessoas que esquecem imediatamente cada boa ação assim que a praticam e pensam apenas na seguinte. Não contava as suas boas ações, limitava-se a deixá-las para trás e a seguir em frente.  

E acreditem: aquele sorriso, nascido no corredor de um supermercado qualquer, foi um clarão que desfez o nevoeiro cerrado que a manhã nos trouxera. Mas a magia não parou ali. Ao chegar a casa, a Carola contou-me tudo e as palavras dela envolveram-me como um cobertor ao lume. Ela, ao transmitir-me esse instante, praticou também a sua boa ação, fez com que a faísca saltasse para mim. E eu, agora, ao confiá-la a estas linhas, passo-lhe a chama a si, que me lê.

É assim o desabrochar do dia. Não vem num estrondo, nem num acontecimento grandioso. Vem num desvio de passo, numa cedência de lugar, num oferecimento de braços cansados, num sorriso que se atravessa no nosso caminho e nos deixa, sem pedir nada em troca, a sensação profunda e cálida de um amanhecer eterno.

Porque o que custa zero é, no fim, o que tem mais valor. E as pegadas que ficam no tempo não são as das pressas, mas as dos pequenos gestos que nos fazem parar e olhar o outro.

António da Cunha Duarte Justo,
Pegadas do Tempo:
https://antonio-justo.eu/?p=11231 
ORCID:
https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

quinta-feira, 30 de julho de 2026

A NATURZA COMO ESPELHO E IMAGEM DO PROCESSO QUE SE DESENROLA NO HUMANO

 

Natureza, Soberania humana e o Tecido institucional

A metáfora da natureza como espelho carrega uma longa linhagem filosófica, mas ganha uma urgência renovada na literatura contemporânea e no ensaísmo atual.  Na modernidade tardia, o espelho da natureza já não reflete apenas uma harmonia estética ou idílica, porque passou a funcionar como um tribunal ético.

A literatura contemporânea usa a biosfera para expor as neuroses e os preconceitos humanos: quando olhamos para a pluralidade espontânea do mundo natural e, em seguida, olhamos para a nossa intolerância social e cultural, o espelho devolve-nos uma imagem deformada da nossa própria humanidade. É o contraste entre a inocência da criação e a corrupção do preconceito humano.

Para compreender esta fratura, é necessário cruzar este conceito com a matriz da civilização ocidental, assente em três pilares fundamentais: Deus como Criador, o ser humano como soberano e as instituições como extensão do "Nós".

Deus como Criador e a Diversidade como Desígnio e não como Erro

A tradição judaico-cristã, fundadora do Ocidente, postula que o universo é uma obra deliberada de Deus. Se a natureza é o plano divino materializado, a sua diversidade intrínseca não pode ser vista como uma anomalia, mas sim como a própria assinatura do Criador.

Atacar a natureza identitária ou a orientação de um indivíduo é, numa perspetiva teológica profunda, questionar o próprio critério do Criador para viver no erro do preconceito.

A natureza (teológica) ensina que a unidade se faz na multiplicidade (diferentes espécies, cores e formas que coexistem num único ecossistema). Quando o discurso de ódio tenta homogeneizar a sociedade à força, ele tenta corrigir o plano divino, gerando o esgoto interior da hostilidade que nega a Criação.

O Ser humano como Soberano diante das Instituições

No pensamento ocidental, refinado pelo Iluminismo e pelo personalismo cristão, o ser humano possui uma dignidade intrínseca e inalienável. A pessoa humana é soberana em relação às estruturas que cria. As instituições (o Estado, as igrejas, os partidos, os movimentos sociais) existem para servir o ser humano e nunca o contrário.

Na sociedade moderna contemporânea assiste-se à exacerbação da coisificação do indivíduo rm nome do globalismo liberal. O grande perigo contemporâneo, visível tanto em visões radicalmente conservadoras como em concepções sociais progressistas, é a instrumentalização da vida individual. Quando termos como "trans", "homossexual" ou "diverso" se transformam em bandeiras de combate político, o indivíduo real desaparece. E isto porque o ser humano deixa de ser um fim em si mesmo (como exigia Kant) e passa a ser tratado como um objeto ou um peão por defensores e opositores. A soberania humana é aniquilada quando o indivíduo é forçado a submeter a sua verdade existencial à agenda de uma instituição ou ideologia.

As Instituições como Parte do "Nós" no Espaço sagrado da Humanidade

Embora o ser humano seja soberano, ele não vive isolado porque necessita das instituições para estruturar a vida comunitária. A civilização ocidental assenta na premissa de que as instituições não são inimigas externas, mas sim emanações do próprio "Nós" que se tornaram ferramentas coletivas para garantir a ordem, a justiça e a coesão.
Por um lado há o direito à regra e ao limite do Todo. Cada instituição tem o direito legítimo de estabelecer as suas próprias regras de funcionamento. Um estado, uma igreja, uma associação ou um clube podem ter os seus estatutos e dogmas. Contudo, na praça pública, ninguém é senhor absoluto da sociedade.
Por outro lado, para que as instituições façam parte de um "Nós" saudável, elas devem abdicar de colonizar a totalidade da vida pública. Deve haver sempre um espaço reservado e inviolável onde a humanidade em geral tenha lugar. Quando grupos ou instituições tentam criar zonas privadas de exclusão, onde determinados cidadãos são privados do direito à felicidade e à segurança, como no trágico atentado em Berlim, o pacto social que sustenta o Ocidente passa a ser quebrado.

 

O Reencontro no Reflexo

A literatura contemporânea propõe que a salvação da civilização ocidental reside em voltar a olhar para o espelho da natureza com os olhos desarmados. Ao aceitarmos que a criação de Deus é vasta e plural, resgatamos a soberania do indivíduo contra a tirania da instrumentalização ideológica.

As instituições regressam ao seu papel legítimo de proteger o "Nós", não através do silenciamento do "Outro", mas sim da garantia de que a dignidade humana básica é um solo sagrado onde todos, sem exceção, têm o direito inalienável de existir e florescer.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo:
https://antonio-justo.eu/?p=11221
ORCID:
https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

quarta-feira, 29 de julho de 2026

USO E ABUSO DA LINGUAGEM E REESCRITA DO PASSADO


Já não bastava reescrever as palavras, mas até se começa a querer reescrever a memória

Há alguns anos escrevi sobre o uso e sobretudo sobre o abuso da linguagem. Chamava a atenção para uma tendência que, entretanto, se tornou ainda mais visível: a necessidade de substituir palavras simples e diretas por expressões mais sofisticadas, aparentemente respeitadoras, mas muitas vezes destinadas apenas a tornar menos visível aquilo que continua a existir.

A criada passou a empregada doméstica; a empregada doméstica passou a auxiliar de apoio domiciliário; o contínuo transformou-se em auxiliar de ação educativa; o vendedor de medicamentos tornou-se delegado de informação médica; o operário passou a colaborador. Mudavam-se os nomes e, por vezes, parecia acreditar-se que também se tinha mudado a realidade. Era uma espécie de maquilhagem sem terapia.

Hoje, porém, parece-me que a questão ainda é mais grave porque ultrapassou a linguagem. Já não se trata apenas de mudar o nome às coisas. Começamos a querer mudar também a maneira como devemos olhar para aquilo que aconteceu antes de nós. Já não bastava reescrever as palavras e começa a querer-se reescrever a memória.

Vivemos numa época que se considera, justamente ou não, mais esclarecida do que muitas das anteriores. Conhecemos melhor inúmeras injustiças do passado e desenvolvemos uma sensibilidade mais atenta a formas de discriminação que anteriormente eram ignoradas ou aceites. Isto representa, em muitos aspetos, um progresso.

Mas existe uma tentação nesse progresso: a de olhar para trás e imaginar que todas as épocas anteriores foram apenas versões imperfeitas da nossa.

É aqui que aparece o anacronismo. Sentamo-nos confortavelmente no século XXI, munidos dos valores, conceitos e sensibilidades do nosso tempo e julgamos homens e mulheres que viveram há séculos como se tivessem recebido o mesmo manual moral que hoje temos à nossa disposição.

Depois admiramo-nos de descobrir que os gregos não eram modernos, que os romanos não pensavam como nós, que a Idade Média não conhecia as nossas categorias políticas e sociais e que Shakespeare e Camões não escreviam segundo os códigos culturais do nosso tempo.

Descobrimos, afinal, que o passado era passado e que por detrás dele há uma linha de verdade mítica a descobrir.

Estudar História, porém, não significa perguntar apenas se aquilo que aconteceu seria aceitável hoje. Significa também perguntar: como pensavam aquelas pessoas? Em que sociedade viviam? Que valores possuíam? Que conhecimentos tinham? Que alternativas conheciam?

Só depois poderemos formar um juízo.

Não se trata de suspender a moral, mas de não a confundir com a História. Podemos condenar a escravatura e estudar as sociedades escravistas; rejeitar a violência de uma guerra e procurar compreender por que aconteceu; defender hoje a igualdade entre homens e mulheres sem fingir que as sociedades antigas já funcionavam segundo os princípios que consideramos justos.

Podemos criticar o passado sem o falsificar nem abusar dele para fins de mero poder ideológico ou partidário. Esta distinção torna-se particularmente importante quando entramos no território da literatura, do cinema e das adaptações dos clássicos.

Pensemos em “A Odisseia”, que regressa agora ao grande cinema através de Christopher Nolan. Podemos fazer várias leituras dele e uma delas tem a ver com a crítica que aqui apresento e a que ele não resiste. Mas a própria obra de Homero permite colocar uma questão essencial: o que fazemos hoje com uma criação que nasceu num mundo tão distante do nosso? Na generalidade permanece o erro de obrigá-la a falar como nós. Ou podemos procurar descobrir o que ela ainda tem para nos dizer precisamente por não ser como nós.

O mundo de Homero não é o nosso. A sua concepção da honra, da guerra, da família, da hospitalidade, da vingança, do poder, dos deuses e do destino pertence a uma ordem cultural muito diferente.

Ulisses não é um cidadão europeu de 2026 perdido no Mediterrâneo. E, no entanto, reconhecemo-nos nele. Porquê? Porque por detrás da distância histórica existe aquilo a que poderíamos chamar o fundo mítico da experiência humana.

Em Homero além do mito que descreve a passagem axial de um mundo matriarcal para o patriarcal, na sua narrativa o homem regressa, perde-se, deseja,  combate na tentativa de procurar a sua casa. Porém o poder corrompe, a vaidade cega, a vingança destrói e a fidelidade é posta à prova.

O facto é que mudam as épocas e as instituições, mas certas estruturas profundas da condição humana reaparecem no espírito do tempo de cada época. É por isso que os mitos sobrevivem e por vezes transmitem uma verdade mais profunda do que as verdades históricas.

E é  aqui que uma cultura verdadeiramente moderna deveria ser mais criativa: em vez de adaptar o mito antigo aos preconceitos do presente, utilizá-lo para interrogar o presente.

Em vez de transformar Ulisses num homem contemporâneo, perguntar o que há de Ulisses no homem contemporâneo. Em vez de corrigir Penélope segundo as categorias atuais, perguntar o que continuam a significar a espera, a fidelidade e a resistência. Em vez de tornar Aquiles moralmente aceitável para nós, perguntar por que razão a sua cólera continua a ser reconhecível na actualidade. Isto seria uma verdadeira modernização.

Não modernizar o passado, mas modernizar o nosso olhar sobre nós próprios. Os clássicos não sobrevivem porque repetem o presente. Sobrevivem porque o transcendem.

Cada geração tem, naturalmente, o direito de os reinterpretar. A cultura só permanece viva porque é continuamente relida. O problema começa quando reinterpretar passa a significar corrigir e quando a interpretação de uma obra deixa de ser uma possibilidade para se transformar na única leitura moralmente autorizada.

A censura contemporânea nem sempre precisa de proibir. Pode simplesmente dizer: “Podes ler, mas deves compreender isto da maneira correta.” Uma cultura livre precisa, porém, de preservar não apenas a circulação das obras, mas também a liberdade de as interpretar, sem ter dre as difamar para fazer passar bem na fotografia o politicamente correcto actual.

É chegada a hora em que nos deveríamos desconfiar de uma cultura que se considera aberta à diferença, mas tem dificuldade em aceitar a diferença das épocas. Há ainda um paradoxo adicional. Nunca tivemos tanta informação e talvez nunca tenha sido tão fácil confundir informação com conhecimento. Uma frase, um vídeo de poucos segundos, uma imagem, uma opinião e uma indignação sucedem-se numa avalanche permanente. E o busílis da questão é que temos  apenas fragmentos e formamos certezas.

Vivemos numa época que exige muita atenção e espírito crítico porque a informação substitui o estudo, a opinião substitui a reflexão, a indignação substitui o argumento. Talvez este seja um dos novos analfabetismos do nosso tempo: não o de quem não sabe ler, mas o de quem lê incessantemente sem saber distinguir, contextualizar, comparar e pensar.

E assim o passado transforma-se facilmente num tribunal ou em instrumento de formatização à medida do momento ou da ideologia que se quer fazer passar. E então em vez de perguntarmos “Como foi possível que isto acontecesse?”, perguntamos apenas “Como puderam eles fazer isto, quando hoje sabemos que estava errado?”

A primeira pergunta procura compreender. A segunda procura confirmar a nossa superioridade. Maior prudência pressuporia mais sabedoria porque o passado não teve o nosso manual de instruções!

Todas as épocas acreditaram, em maior ou menor grau, que tinham finalmente compreendido o mundo. Também nós acreditamos. Também nós temos os nossos preconceitos, as nossas cegueiras e as nossas verdades que parecem tão evidentes precisamente porque pertencem ao nosso tempo e à formatação que inconscientemente nos obriga. Esquecemos que por detrás da distância histórica existe aquilo a que poderíamos chamar o fundo mítico da experiência humana.

Daqui a cem ou quinhentos anos, outros poderão olhar para as nossas certezas com o mesmo espanto com que hoje olhamos para as certezas dos outros. É essa possibilidade que deveria tornar-nos humildes perante a História, perante religiões, culturas e pessoas passadas. Não precisamos de absolver o passado. Mas também não precisamos de o reescrever. Não precisamos de transformar Homero, Shakespeare ou Cervantes em nossos contemporâneos. Precisamos de compreendê-los como diferentes e, depois, perguntar o que essa diferença revela sobre nós.

Porque o mito é também um espelho. De facto, o tirano muda de nome e o herói muda de roupa e a multidão muda de praça para rede social. A propaganda deixa o pergaminho e entra no algoritmo. Mas a ambição continua ambição, a vaidade continua vaidade, o medo continua medo, o amor continua amor e a traição não precisou de ser modernizada.

Talvez seja por isso que os clássicos continuam a incomodar-nos. Não porque estejam ultrapassados, mas porque não estão suficientemente ultrapassados. Continuam a reconhecer-nos. E um espelho que reconhece o nosso rosto pode ser mais perturbador do que aquele que apenas confirma a imagem que gostaríamos de ter.

Comecei por falar da mudança das palavras. Hoje parece-me que a questão é maior, porque primeiro mudámos os nomes das coisas, depois começámos a mudar o significado das coisas e agora corremos o risco de mudar a maneira como recordamos aquilo que aconteceu.

É aqui que o eufemismo pode transformar-se em algo mais perigoso, porque uma coisa é tornar a linguagem mais civilizada e outra é tornar a memória mais conveniente.

Talvez a verdadeira atitude moderna não seja obrigar o passado a usar as roupas do presente. Talvez seja ter imaginação suficiente para olhar para o presente através dos olhos do passado e descobrir que, apesar de todas as nossas máquinas, teorias e certezas, continuamos a representar muitos dos velhos dramas humanos.

Em vez de perguntarmos apenas o que há de errado com os clássicos à luz dos nossos valores, seria de  perguntar: O que é que eles conseguem revelar sobre os nossos próprios limites?

Essa pergunta exige mais conhecimento, mais imaginação, mais criatividade e, sobretudo, mais humildade, porque o passado não é um aluno atrasado que espera pela nossa correção.

Somos nós que, inevitavelmente, acabaremos por ser passado. O nosso paradoxo contemporâneo é sermos muito tolerantes com a diferença, mas só enquanto a diferença pensar como nós.

Penso que por trás de um discurso moderno e por vezes snobe se esconde uma modernidade que tem medo dos clássicos. Que modernidade é esta que pretende corrigir Homero para se sentir moralmente superior a Homero. Que modernidade é esta que transforma Shakespeare num acusado e Cervantes num suspeito!

O que falta no nosso tempo é uma modernidade suficientemente segura de si para escutar o passado sem o domesticar e que talvez seja capaz de dizer :“Não penso como tu. Mas quero compreender por que pensavas assim e deixa-me descobrir o que em ti continua a existir em mim.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©: https://antonio-justo.eu/?p=11217
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578