Entre a fidelidade às
Escrituras, a responsabilidade hermenêutica e o primado do amor
... A pergunta
decisiva não deveria ser simplesmente: «Existe o inferno?», mas antes: que
realidade designam as diferentes palavras que as traduções acabaram por reunir
sob a única palavra “inferno”? E, mais profundamente ainda: como podem as
afirmações bíblicas acerca do juízo ser compreendidas à luz do centro da
revelação cristã que é Jesus Cristo crucificado e ressuscitado, no qual Deus
reconcilia o mundo consigo?...
O Sheol hebraico
designa, sobretudo nas camadas mais antigas do Antigo Testamento, a morada dos
mortos...
É significativo
que a própria tradição católica reconheça esta distinção: ao explicar a
expressão do Credo segundo a qual Cristo «desceu aos infernos», o Catecismo
identifica esses «infernos» com o Sheol hebraico e o Hades grego, isto é, a
morada dos mortos e não com o inferno dos condenados... Confessamos que entrou
verdadeiramente na morte humana e que nenhuma profundidade da existência
permaneceu exterior à ação salvadora de Deus.
A antiga imagem
cristã da “descensus ad ínferos” possui, portanto, uma extraordinária força
teológica: Cristo procura o ser humano precisamente onde este parece
definitivamente perdido...
Jesus emprega
hipérbole, parábola, imagens apocalípticas e linguagem simbólica. O fogo pode
representar julgamento, destruição, purificação, manifestação da verdade ou
consumação. O contexto e que deve decidir o seu significado...
No centro da
discussão encontra-se o adjetivo grego αἰώνιος (aiōnios), particularmente
importante em Mateus 25,46: “E irão estes para o castigo aiōnios e os justos
para a vida aiōnios.”... As palavras adquirem significado dentro das frases,
dos textos e dos universos culturais. A questão de Mateus 25,46 não pode,
portanto, ser resolvida apenas por etimologia... No Evangelho de João, a vida
eterna começa já na comunhão com Deus. É uma qualidade de existência antes de
ser simplesmente uma quantidade infinita de tempo...
Para o
cristianismo, Deus não é uma hipótese metafísica acerca da qual Jesus nos
fornece posteriormente algumas informações. Deus revela-se em Jesus Cristo e
por isso, toda a escatologia cristã deve ser cristológica... Paulo escreve que
aprouve a Deus «reconciliar consigo todas as coisas» por Cristo, «pacificando
pelo sangue da sua cruz tanto as coisas da terra como as dos céus» (Cl
1,19-20).
Em 1 Coríntios,
depois de apresentar Cristo como o novo Adão, Paulo conduz a história da
salvação para uma extraordinária conclusão: “para que Deus seja tudo em todos”
(1 Cor 15,28)... E a carta aos Romanos desenvolve uma impressionante simetria
entre Adão e Cristo: se a humanidade é atingida pela solidariedade do pecado, muito
mais radical é a graça manifestada no novo Adão.
É impossível
construir honestamente uma teologia do destino humano considerando apenas os
textos de julgamento e silenciando estes textos de universalidade... Existem
textos de advertência radical e existem textos de esperança universal. Uma
teologia madura não mutila nenhum deles...
Uma intuição,
permanece teologicamente provocadora. Se Deus é realmente Deus, poderá o mal
possuir a última palavra sobre uma parte da criação? Se Cristo veio vencer o
pecado e a morte, será a vitória escatológica de Cristo apenas parcial? Se Deus
é amor, em que sentido deve ser compreendida a justiça divina?...
O universalismo
cristão não pode significar que o mal seja irrelevante... A reconciliação exige
justiça, mas a justiça de Deus não necessita de ser concebida segundo a lógica
humana da vingança.
Na cruz, Deus não
derrota os inimigos, tornando-se semelhante a eles. Cristo vence o ódio
suportando-o sem devolver ódio; responde à violência sem reproduzir a
violência; entra na morte e transforma-a a partir de dentro.
A cruz é,
portanto, a crítica cristã definitiva de qualquer representação de Deus como
vingador...
A objeção
clássica ao universalismo é a liberdade. Deus oferece amor, mas o ser humano
pode recusá-lo. Se Deus obrigasse finalmente todos a aceitá-lo, não destruiria
a liberdade que ele próprio criou?...
A tradição cristã
oferece outra possibilidade. Quanto mais alguém conhece a verdade e ama o bem,
mais livre se torna. Mas deste modo, Deus não é uma opção arbitrária entre
outras, porque se Deus é o Bem absoluto, a Verdade e o fundamento do nosso ser,
então afastar-se definitivamente de Deus não seria a perfeição da liberdade,
mas a sua tragédia.
O pecado é
entendido precisamente como liberdade ferida porque escolhemos contra nós
próprios... O medo pode produzir submissão, não pode produzir amor, como refere
João: «no amor não há temor; o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor
supõe castigo» (1 Jo 4,18)...
Uma criança que
aprende que Deus observa os seus pensamentos para puni-la pode tornar-se adulta
e continuar interiormente diante de um tribunal. A imagem de Deus converte-se
então numa voz interior acusadora e pode atravessar gerações... a maneira como
falamos de Deus entra na estrutura psíquica das pessoas e por isso, a linguagem
nunca é inocente. Quem prega possui uma responsabilidade enorme...
Também merece
atenção a linguagem de Deus como Pai; o aramaico Abba significa
linguisticamente «pai» e exprime relação filial e proximidade... Deus
transcende masculino e feminino e ambos pertencem à criação.
Além disso, a
própria Bíblia utiliza imagens maternas para falar de Deus: Deus consola como
uma mãe (Is 66,13); não esquece o filho do seu ventre (Is 49,15); Jesus compara
o seu desejo de reunir Jerusalém ao de uma ave que recolhe os pintainhos
debaixo das asas (Mt 23,37)... Deus é chamado Pai não porque seja homem, mas
porque é origem, relação, dom e amor e até a palavra «Pai» permanece uma
analogia. Deus é sempre maior do que os nossos nomes para Deus e o nosso falar
sobre Deus é sempre de caracter humano...
Na tradição dos
evangelhos, misericórdia não significa relativismo moral. Significa que a
verdade sobre uma pessoa nunca se reduz ao seu pecado.
«Não julgueis,
para não serdes julgados» (Mt 7,1) não elimina o discernimento moral. Elimina a
pretensão de ocuparmos o lugar último de Deus perante outra consciência...
A doutrina do
inferno deve recordar ao ser humano que Deus é o juiz, não podendo declarar
quem estaria condenado...
A doutrina oficial
da Igreja Católica continua a afirmar a existência e a eternidade do inferno,
entendido fundamentalmente como “separação eterna de Deus”. Afirma igualmente
que Deus não predestina ninguém ao inferno e relaciona a perdição com a recusa
livre e definitiva da misericórdia... O cristão não necessita de afirmar
dogmaticamente: “Eu sei que todos serão salvos.” E também não tem qualquer
obrigação espiritual de desejar que alguém seja condenado...
O universalismo
dogmático afirmaria possuir conhecimento antecipado do destino final de todas
as criaturas. A esperança universal entrega esse destino ao mistério de Deus,
mas atreve-se a esperar que a misericórdia consiga aquilo que nós julgamos
impossível.
A esperança não
elimina o julgamento, porque espera que o julgamento pertença à misericórdia.
Não elimina o
inferno, mas espera que o inferno não tenha a última palavra. Não elimina a
liberdade, esperando que a graça possa finalmente libertar toda a liberdade
escravizada. Também não chama bem ao mal, na esperança que Deus vença o mal sem
perder eternamente aquele que o praticou...
A frase mais
audaciosa de toda a escatologia cristã permanece certamente a de Paulo: “Para
que Deus seja tudo em todos.” (1 Cor 15,28) ... Paulo na carta aos Colossenses
emprega linguagem semelhante quando fala da reconciliação de «todas as coisas»
em Cristo. Isto não permite resolver mecanicamente todos os textos bíblicos de
julgamento, mas impede-nos de transformar a condenação numa espécie de segundo
princípio eterno ao lado da redenção... Paulo diz que o último inimigo a ser
destruído é precisamente a morte (1 Cor 15,26) ... Se existisse eternamente uma
região da criação definitivamente entregue à morte, ao ódio e ao desespero, em
que sentido poderia dizer-se que “a morte foi destruída” e que Deus é «tudo em
todos»?...
Uma pastoral
contemporânea responsável não necessita de apagar a palavra inferno; o que
necessita é de purificá-la... Não existe região humana tão escura que Cristo
não possa atravessar...
A questão última
é cristológica. O Deus dos cristãos possui o rosto daquele que come com
pecadores, toca leprosos, procura a ovelha perdida, conta a parábola do pai que
corre ao encontro do filho antes que este consiga terminar a sua confissão,
perdoa os inimigos e entra na própria morte para a vencer.
Isto não torna o
pecado pequeno e torna a graça imensa. Uma Igreja que esquece o juízo
transforma a graça em banalidade. Mas uma Igreja que esquece a graça transforma
Deus num tirano. A mensagem cristã encontra-se para além dessas duas
deformações. O juízo significa que a nossa vida importa eternamente e a
misericórdia significa que o nosso pecado não é maior do que Deus.
Por isso, talvez
a pergunta pastoral mais cristã não seja: “Quem irá para o inferno?” Mais
adequada seria: “Até onde está Deus disposto a ir para encontrar aquilo que se
perdeu?”... A última palavra do Evangelho não é inferno, é Cristo e Cristo não
é condenação, mas sim ressurreição... A fé, quando finalmente se liberta do
desejo humano de condenar, descobre que não lhe compete estabelecer os limites
da misericórdia divina, mas sim anunciá-la, vivê-la e esperá-la...
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo © : https://antonio-justo.eu/?p=11330
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578