Quando o
Sagrado e o Profano se abraçam na Arte, no Desporto e na Comunidade
Vivemos um
paradoxo inquietante porque nunca a humanidade esteve tão sedenta de
transcendência e, no entanto, nunca as estruturas religiosas tradicionais
pareceram tão distantes do pulsar da vida quotidiana. Esta distância,
particularmente sentida pelas gerações mais jovens, não decorre de uma rejeição
do Mistério, mas, creio, de uma insatisfação crescente com as circunstâncias onde
lhes oferecemos esse Mistério. Os jovens não suportam rituais vazios, palavras
gastas (que já não interiorizaram nem conhecem devido ao apagamento de palavras
em via na sociedade) e estruturas que privilegiam o poder hierárquico e uma
tradição tornada formal em detrimento da autenticidade relacional. Se queremos
verdadeiramente presencializar o "protótipo JC", esse Jesus humano e
divino que caminhava na poeira dos caminhos, temos de ousar misturar o sagrado
e o profano, a liturgia e a vida, a arte e a ascese, sem medo de que o templo
se confunda com a praça. O templo tem espaços para a realização mística ritual
sacramental e espaços onde o sagrado e o profano se celebrem em inclusão. (Compreende-se
o receio dos mais tradicionalistas, face à hostilidade contra o cristianismo e
ao fechamento ideológico das organizações. Contudo, o cristão possui o fogo
pentecostal e um legado que perdura. O pároco e a comunidade não se devem
atemorizar porque a mensagem é de humanidade e confiança e a paróquia é a casa
aberta a todos os que, de boa vontade e espírito aberto, procuram a verdade).
1. Da Pirâmide
à Rede: A Urgente Descentralização das Comunidades
A primeira
grande transformação que se impõe é de cariz estrutural e espiritual. Durante
séculos, a paróquia funcionou como uma pirâmide: no topo, o clero; na base, os
fiéis expectantes. Esse modelo, que um dia cumpriu a sua função catequética e
unificadora, tornou-se, em grande medida, infrutífera para um mundo que respira
horizontalidade e conectividade. A descentralização de que falamos não é uma
capitulação à anarquia, mas um regresso às origens: a Igreja primitiva era uma
teia de comunidades interligadas, onde cada membro contribuía com o seu carisma
para o edifício comum.
Imagine-se que,
em vez de momentos de culto exclusivamente centrados no altar, as paróquias se
transformassem em laboratórios de
comunhão, espaços onde o regionalismo, as culturas locais e as vozes dos
leigos fossem verdadeiramente escutadas e integradas. Tal como a Igreja
católica, na sua sábia tradição, sempre contemplou o momento democrático e a
valorização das dimensões regionais, também nós, ao nível da paróquia, podemos
inspirar-nos nesse espírito sinodal. Não se trata de abolir a autoridade, mas
de a redimensionar como serviço. Trata-se de criar (paralelamente) redes
descentralizadas onde as decisões surjam a partir das necessidades e dos dons reais
das comunidades e não apenas dos decretos vindos de cima. O jovem de hoje não
quer ser um "espectador" passivo na missa; ele quer ser protagonista da sua fé, mesmo que
isso implique uma "sujeira" criativa e uma certa desordem aparente. (Neste
sentido ajudaria o espírito que se encontra no sistema preventivo salesiano (1).
2. A Arte e o
Teatro Improvisado como Liturgia de Cura e Catarse (redenção)
Se a estrutura
se descentraliza, os conteúdos e as formas de expressão também devem sofrer uma
autêntica revolução pedagógica. Urge focar a ação cultural e religiosa nas
artes, no cinema, no teatro espontâneo, nos concertos, na pintura ao vivo, mas
com uma condição fundamental: que a mensagem
esteja em primeiro plano, e não o intérprete! O palco não pode ser um altar
para a vaidade do artista, mas um espaço de kenosis, de esvaziamento do
ego. Quando o actor ou o músico se apaga em favor da obra, a arte deixa de ser
mero entretenimento para se tornar um canal de ressonância trinitária, uma
vibração onde o divino e o humano se tocam.
Ousemos
imaginar, nas próprias igrejas e sacristias, sessões de teatro de improvisação
onde se pudesse desenvolver uma verdadeira catarse de carácter psicológica,
espiritual e física. Nesses círculos improvisados, o indivíduo e o grupo, em
interação, expressariam o divino e o humano, a amargura e a alegria de viver,
numa autêntica expressão litúrgica de cura e redenção. Longe de ser um acto
profano, essa improvisação constituir-se-ia como um espaço de vulnerabilidade
sagrada. O ensaio, a falha, o gesto inesperado, tudo isso se tornaria matéria
litúrgica, porque aí, mais do que em qualquer rito perfeitamente coreografado,
se revela o humano tal como ele é: imperfeito, em busca, aberto ao sopro do
Espírito também na descoberta dos próprios dons. O "palco" da igreja
deixaria de ser um lugar de distância entre clero e fiéis para se tornar um
círculo onde todos são, ao mesmo tempo, actores e espetadores da Graça. O que
está em jogo não é a qualidade estética da representação, mas a verdade da
encarnação, o Verbo que se faz carne, de novo, em cada gesto partilhado.
3. O Desporto e
o Corpo como Liturgia Encarnada
Afastemo-nos,
contudo, do espaço físico da igreja por um instante. Quantas vezes relegamos o
desporto para o domínio do "mundano" ou do "distração",
quando ele é, potencialmente, um dos mais poderosos veículos de santidade e
comunhão? No desporto, o corpo humano é elevado à sua máxima potência:
disciplina, sacrifício, trabalho de equipa, celebração da vitória e acolhimento
da derrota. O que é a Eucaristia senão um banquete onde nos alimentamos do Corpo
de Cristo? E o que é o desporto senão a celebração do corpo que Deus nos deu,
tornado templo do Espírito Santo, precisando para tal de ser consciencializado?
O desporto,
quando vivido sem a obsessão da fama e da competitividade desumana, é uma
liturgia encarnada. Ele exige precisamente aquela kenosis de que
falávamos: o atleta que se apaga em prol da equipa; o corredor que se entrega à
fadiga para ultrapassar os seus limites; o adversário que, no final da partida,
se abraça ao seu oponente num gesto de respeito mútuo. As paróquias e grupos
juvenis deveriam abraçar o desporto como espaço de missão, criando torneios,
campos de férias e encontros desportivos onde a competição seja um meio de
crescimento pessoal e não de exclusão. Não são rituais de sacristia, mas sim
momentos estruturados de paragem, escuta, esforço partilhado e autenticidade,
que os jovens possam levar consigo para o seu quotidiano.
4. A
Espiritualidade Despojada: Sem Cheiro a Velas Nem Vénias ao Zeitgeist
Para que esta
revolução aconteça, é imperativo que a espiritualidade que a acompanha seja
despojada de dois pesos mortos: o "cheiro a velas" (o pieguismo
devocional, os rituais vazios e a parafernália que substitui o essencial (2) e
as "vénias ao Zeitgeist" (o servilismo acrítico às modas políticas,
intelectuais ou tecnológicas do momento). Uma espiritualidade autenticamente
evangélica não se pode esgotar na encenação piedosa nem no activismo
superficial.
Esta
espiritualidade exige uma ascese de atenção: estar no mundo sem lhe
prestar vassalagem, habitar a tradição sem a mumificar, e acolher o novo sem se
render ao fetiche da novidade. É uma espiritualidade de "cura humana
integral", não alicerçada em definições sobretudo de pertença, mas num
carácter simultaneamente corporal e espiritual. É a certeza de que o encontro
com Deus não acontece apenas nos momentos de recolhimento individual, mas
também no embate dos corpos no jogo de futebol, no silêncio que se segue a uma
peça de teatro intensa, na partilha da refeição após um ensaio. A cura integral
de que a nossa civilização necessita para não sucumbir à mecanização
existencial passa pela redescoberta do "nós" em redes
descentralizadas que gerem experiências reais de comunhão.
Conclusão: O
Protótipo JC em Cada Gesto
O desafio que
lanço a cada pároco, catequista e animador juvenil é este: ousem. Ousem
transformar a sacristia numa sala de ensaios. Ousem abençoar os campos de
desporto como se abençoam os altares. Ousem misturar o sagrado e o profano,
porque, para Jesus, o que era "profano" (a mesa do publicano, o toque
no leproso, a conversa com a samaritana) tornou-se o lugar privilegiado da
Revelação. O "protótipo JC" não se presencializa em templos
imaculados e silenciosos, mas na poeira da estrada, no suor do atleta, na
lágrima do actor e no abraço do irmão. A Igreja precisa de menos guardiães de
museu e mais jardineiros do humano. As famílias são também lugares
privilegiados, que se podem tornar em verdadeiros alfobres de espiritualidade.
O momento axial em que nos encontramos pede a visão de um pragmatismo
profético. Não tenhamos medo de experimentar, de falhar e de recomeçar. A
juventude não espera de nós respostas perfeitas, o que espera é autenticidade.
E a autenticidade é, afinal, o único caminho para a verdadeira Redenção.
O cristianismo
realizado e a realizar-se em Jesus Cristo encerra nos seus mistérios, que são verdadeira
fórmulas da realidade, toda a filosofia e mística, desde a Trindade e a
Encarnação-Ressurreição até ao «No princípio era a Palavra», o Logos de João e
ao «Eu sou o que sou, sou o tornar-se» no Horeb. Tudo isto envolve o peregrinar
humano e a própria
caminhada do universo.
António da
Cunha Duarte Justo
Teólogo e
Pedagogo
Pegadas do Tempo©: https://antonio-justo.eu/?p=11106
(1) Sistema preventivo na educação dos jovens: https://antonio-justo.eu/?p=1305
(2) . Deve notar-se que o pieguismo, tal como as
especificidades de outros grupos, merece espaço na paróquia, já que o sentido é
servir as necessidades individuais em processo. Numa sociedade que, em reação à
atual tendência para despersonalizar e desautorizar o indivíduo, se terá de
orientar cada vez mais para a formação de agrupamentos, a solução passa por as
pessoas se organizarem em grupos para poderem ter visibilidade, voz e espaço na sociedade.