quinta-feira, 30 de julho de 2026

A NATURZA COMO ESPELHO E IMAGEM DO PROCESSO QUE SE DESENROLA NO HUMANO

 

Natureza, Soberania humana e o Tecido institucional

A metáfora da natureza como espelho carrega uma longa linhagem filosófica, mas ganha uma urgência renovada na literatura contemporânea e no ensaísmo atual.  Na modernidade tardia, o espelho da natureza já não reflete apenas uma harmonia estética ou idílica, porque passou a funcionar como um tribunal ético.

A literatura contemporânea usa a biosfera para expor as neuroses e os preconceitos humanos: quando olhamos para a pluralidade espontânea do mundo natural e, em seguida, olhamos para a nossa intolerância social e cultural, o espelho devolve-nos uma imagem deformada da nossa própria humanidade. É o contraste entre a inocência da criação e a corrupção do preconceito humano.

Para compreender esta fratura, é necessário cruzar este conceito com a matriz da civilização ocidental, assente em três pilares fundamentais: Deus como Criador, o ser humano como soberano e as instituições como extensão do "Nós".

Deus como Criador e a Diversidade como Desígnio e não como Erro

A tradição judaico-cristã, fundadora do Ocidente, postula que o universo é uma obra deliberada de Deus. Se a natureza é o plano divino materializado, a sua diversidade intrínseca não pode ser vista como uma anomalia, mas sim como a própria assinatura do Criador.

Atacar a natureza identitária ou a orientação de um indivíduo é, numa perspetiva teológica profunda, questionar o próprio critério do Criador para viver no erro do preconceito.

A natureza (teológica) ensina que a unidade se faz na multiplicidade (diferentes espécies, cores e formas que coexistem num único ecossistema). Quando o discurso de ódio tenta homogeneizar a sociedade à força, ele tenta corrigir o plano divino, gerando o esgoto interior da hostilidade que nega a Criação.

O Ser humano como Soberano diante das Instituições

No pensamento ocidental, refinado pelo Iluminismo e pelo personalismo cristão, o ser humano possui uma dignidade intrínseca e inalienável. A pessoa humana é soberana em relação às estruturas que cria. As instituições (o Estado, as igrejas, os partidos, os movimentos sociais) existem para servir o ser humano e nunca o contrário.

Na sociedade moderna contemporânea assiste-se à exacerbação da coisificação do indivíduo rm nome do globalismo liberal. O grande perigo contemporâneo, visível tanto em visões radicalmente conservadoras como em concepções sociais progressistas, é a instrumentalização da vida individual. Quando termos como "trans", "homossexual" ou "diverso" se transformam em bandeiras de combate político, o indivíduo real desaparece. E isto porque o ser humano deixa de ser um fim em si mesmo (como exigia Kant) e passa a ser tratado como um objeto ou um peão por defensores e opositores. A soberania humana é aniquilada quando o indivíduo é forçado a submeter a sua verdade existencial à agenda de uma instituição ou ideologia.

As Instituições como Parte do "Nós" no Espaço sagrado da Humanidade

Embora o ser humano seja soberano, ele não vive isolado porque necessita das instituições para estruturar a vida comunitária. A civilização ocidental assenta na premissa de que as instituições não são inimigas externas, mas sim emanações do próprio "Nós" que se tornaram ferramentas coletivas para garantir a ordem, a justiça e a coesão.
Por um lado há o direito à regra e ao limite do Todo. Cada instituição tem o direito legítimo de estabelecer as suas próprias regras de funcionamento. Um estado, uma igreja, uma associação ou um clube podem ter os seus estatutos e dogmas. Contudo, na praça pública, ninguém é senhor absoluto da sociedade.
Por outro lado, para que as instituições façam parte de um "Nós" saudável, elas devem abdicar de colonizar a totalidade da vida pública. Deve haver sempre um espaço reservado e inviolável onde a humanidade em geral tenha lugar. Quando grupos ou instituições tentam criar zonas privadas de exclusão, onde determinados cidadãos são privados do direito à felicidade e à segurança, como no trágico atentado em Berlim, o pacto social que sustenta o Ocidente passa a ser quebrado.

 

O Reencontro no Reflexo

A literatura contemporânea propõe que a salvação da civilização ocidental reside em voltar a olhar para o espelho da natureza com os olhos desarmados. Ao aceitarmos que a criação de Deus é vasta e plural, resgatamos a soberania do indivíduo contra a tirania da instrumentalização ideológica.

As instituições regressam ao seu papel legítimo de proteger o "Nós", não através do silenciamento do "Outro", mas sim da garantia de que a dignidade humana básica é um solo sagrado onde todos, sem exceção, têm o direito inalienável de existir e florescer.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo:
https://antonio-justo.eu/?p=11221
ORCID:
https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

quarta-feira, 29 de julho de 2026

USO E ABUSO DA LINGUAGEM E REESCRITA DO PASSADO


Já não bastava reescrever as palavras, mas até se começa a querer reescrever a memória

Há alguns anos escrevi sobre o uso e sobretudo sobre o abuso da linguagem. Chamava a atenção para uma tendência que, entretanto, se tornou ainda mais visível: a necessidade de substituir palavras simples e diretas por expressões mais sofisticadas, aparentemente respeitadoras, mas muitas vezes destinadas apenas a tornar menos visível aquilo que continua a existir.

A criada passou a empregada doméstica; a empregada doméstica passou a auxiliar de apoio domiciliário; o contínuo transformou-se em auxiliar de ação educativa; o vendedor de medicamentos tornou-se delegado de informação médica; o operário passou a colaborador. Mudavam-se os nomes e, por vezes, parecia acreditar-se que também se tinha mudado a realidade. Era uma espécie de maquilhagem sem terapia.

Hoje, porém, parece-me que a questão ainda é mais grave porque ultrapassou a linguagem. Já não se trata apenas de mudar o nome às coisas. Começamos a querer mudar também a maneira como devemos olhar para aquilo que aconteceu antes de nós. Já não bastava reescrever as palavras e começa a querer-se reescrever a memória.

Vivemos numa época que se considera, justamente ou não, mais esclarecida do que muitas das anteriores. Conhecemos melhor inúmeras injustiças do passado e desenvolvemos uma sensibilidade mais atenta a formas de discriminação que anteriormente eram ignoradas ou aceites. Isto representa, em muitos aspetos, um progresso.

Mas existe uma tentação nesse progresso: a de olhar para trás e imaginar que todas as épocas anteriores foram apenas versões imperfeitas da nossa.

É aqui que aparece o anacronismo. Sentamo-nos confortavelmente no século XXI, munidos dos valores, conceitos e sensibilidades do nosso tempo e julgamos homens e mulheres que viveram há séculos como se tivessem recebido o mesmo manual moral que hoje temos à nossa disposição.

Depois admiramo-nos de descobrir que os gregos não eram modernos, que os romanos não pensavam como nós, que a Idade Média não conhecia as nossas categorias políticas e sociais e que Shakespeare e Camões não escreviam segundo os códigos culturais do nosso tempo.

Descobrimos, afinal, que o passado era passado e que por detrás dele há uma linha de verdade mítica a descobrir.

Estudar História, porém, não significa perguntar apenas se aquilo que aconteceu seria aceitável hoje. Significa também perguntar: como pensavam aquelas pessoas? Em que sociedade viviam? Que valores possuíam? Que conhecimentos tinham? Que alternativas conheciam?

Só depois poderemos formar um juízo.

Não se trata de suspender a moral, mas de não a confundir com a História. Podemos condenar a escravatura e estudar as sociedades escravistas; rejeitar a violência de uma guerra e procurar compreender por que aconteceu; defender hoje a igualdade entre homens e mulheres sem fingir que as sociedades antigas já funcionavam segundo os princípios que consideramos justos.

Podemos criticar o passado sem o falsificar nem abusar dele para fins de mero poder ideológico ou partidário. Esta distinção torna-se particularmente importante quando entramos no território da literatura, do cinema e das adaptações dos clássicos.

Pensemos em “A Odisseia”, que regressa agora ao grande cinema através de Christopher Nolan. Podemos fazer várias leituras dele e uma delas tem a ver com a crítica que aqui apresento e a que ele não resiste. Mas a própria obra de Homero permite colocar uma questão essencial: o que fazemos hoje com uma criação que nasceu num mundo tão distante do nosso? Na generalidade permanece o erro de obrigá-la a falar como nós. Ou podemos procurar descobrir o que ela ainda tem para nos dizer precisamente por não ser como nós.

O mundo de Homero não é o nosso. A sua concepção da honra, da guerra, da família, da hospitalidade, da vingança, do poder, dos deuses e do destino pertence a uma ordem cultural muito diferente.

Ulisses não é um cidadão europeu de 2026 perdido no Mediterrâneo. E, no entanto, reconhecemo-nos nele. Porquê? Porque por detrás da distância histórica existe aquilo a que poderíamos chamar o fundo mítico da experiência humana.

Em Homero além do mito que descreve a passagem axial de um mundo matriarcal para o patriarcal, na sua narrativa o homem regressa, perde-se, deseja,  combate na tentativa de procurar a sua casa. Porém o poder corrompe, a vaidade cega, a vingança destrói e a fidelidade é posta à prova.

O facto é que mudam as épocas e as instituições, mas certas estruturas profundas da condição humana reaparecem no espírito do tempo de cada época. É por isso que os mitos sobrevivem e por vezes transmitem uma verdade mais profunda do que as verdades históricas.

E é  aqui que uma cultura verdadeiramente moderna deveria ser mais criativa: em vez de adaptar o mito antigo aos preconceitos do presente, utilizá-lo para interrogar o presente.

Em vez de transformar Ulisses num homem contemporâneo, perguntar o que há de Ulisses no homem contemporâneo. Em vez de corrigir Penélope segundo as categorias atuais, perguntar o que continuam a significar a espera, a fidelidade e a resistência. Em vez de tornar Aquiles moralmente aceitável para nós, perguntar por que razão a sua cólera continua a ser reconhecível na actualidade. Isto seria uma verdadeira modernização.

Não modernizar o passado, mas modernizar o nosso olhar sobre nós próprios. Os clássicos não sobrevivem porque repetem o presente. Sobrevivem porque o transcendem.

Cada geração tem, naturalmente, o direito de os reinterpretar. A cultura só permanece viva porque é continuamente relida. O problema começa quando reinterpretar passa a significar corrigir e quando a interpretação de uma obra deixa de ser uma possibilidade para se transformar na única leitura moralmente autorizada.

A censura contemporânea nem sempre precisa de proibir. Pode simplesmente dizer: “Podes ler, mas deves compreender isto da maneira correta.” Uma cultura livre precisa, porém, de preservar não apenas a circulação das obras, mas também a liberdade de as interpretar, sem ter dre as difamar para fazer passar bem na fotografia o politicamente correcto actual.

É chegada a hora em que nos deveríamos desconfiar de uma cultura que se considera aberta à diferença, mas tem dificuldade em aceitar a diferença das épocas. Há ainda um paradoxo adicional. Nunca tivemos tanta informação e talvez nunca tenha sido tão fácil confundir informação com conhecimento. Uma frase, um vídeo de poucos segundos, uma imagem, uma opinião e uma indignação sucedem-se numa avalanche permanente. E o busílis da questão é que temos  apenas fragmentos e formamos certezas.

Vivemos numa época que exige muita atenção e espírito crítico porque a informação substitui o estudo, a opinião substitui a reflexão, a indignação substitui o argumento. Talvez este seja um dos novos analfabetismos do nosso tempo: não o de quem não sabe ler, mas o de quem lê incessantemente sem saber distinguir, contextualizar, comparar e pensar.

E assim o passado transforma-se facilmente num tribunal ou em instrumento de formatização à medida do momento ou da ideologia que se quer fazer passar. E então em vez de perguntarmos “Como foi possível que isto acontecesse?”, perguntamos apenas “Como puderam eles fazer isto, quando hoje sabemos que estava errado?”

A primeira pergunta procura compreender. A segunda procura confirmar a nossa superioridade. Maior prudência pressuporia mais sabedoria porque o passado não teve o nosso manual de instruções!

Todas as épocas acreditaram, em maior ou menor grau, que tinham finalmente compreendido o mundo. Também nós acreditamos. Também nós temos os nossos preconceitos, as nossas cegueiras e as nossas verdades que parecem tão evidentes precisamente porque pertencem ao nosso tempo e à formatação que inconscientemente nos obriga. Esquecemos que por detrás da distância histórica existe aquilo a que poderíamos chamar o fundo mítico da experiência humana.

Daqui a cem ou quinhentos anos, outros poderão olhar para as nossas certezas com o mesmo espanto com que hoje olhamos para as certezas dos outros. É essa possibilidade que deveria tornar-nos humildes perante a História, perante religiões, culturas e pessoas passadas. Não precisamos de absolver o passado. Mas também não precisamos de o reescrever. Não precisamos de transformar Homero, Shakespeare ou Cervantes em nossos contemporâneos. Precisamos de compreendê-los como diferentes e, depois, perguntar o que essa diferença revela sobre nós.

Porque o mito é também um espelho. De facto, o tirano muda de nome e o herói muda de roupa e a multidão muda de praça para rede social. A propaganda deixa o pergaminho e entra no algoritmo. Mas a ambição continua ambição, a vaidade continua vaidade, o medo continua medo, o amor continua amor e a traição não precisou de ser modernizada.

Talvez seja por isso que os clássicos continuam a incomodar-nos. Não porque estejam ultrapassados, mas porque não estão suficientemente ultrapassados. Continuam a reconhecer-nos. E um espelho que reconhece o nosso rosto pode ser mais perturbador do que aquele que apenas confirma a imagem que gostaríamos de ter.

Comecei por falar da mudança das palavras. Hoje parece-me que a questão é maior, porque primeiro mudámos os nomes das coisas, depois começámos a mudar o significado das coisas e agora corremos o risco de mudar a maneira como recordamos aquilo que aconteceu.

É aqui que o eufemismo pode transformar-se em algo mais perigoso, porque uma coisa é tornar a linguagem mais civilizada e outra é tornar a memória mais conveniente.

Talvez a verdadeira atitude moderna não seja obrigar o passado a usar as roupas do presente. Talvez seja ter imaginação suficiente para olhar para o presente através dos olhos do passado e descobrir que, apesar de todas as nossas máquinas, teorias e certezas, continuamos a representar muitos dos velhos dramas humanos.

Em vez de perguntarmos apenas o que há de errado com os clássicos à luz dos nossos valores, seria de  perguntar: O que é que eles conseguem revelar sobre os nossos próprios limites?

Essa pergunta exige mais conhecimento, mais imaginação, mais criatividade e, sobretudo, mais humildade, porque o passado não é um aluno atrasado que espera pela nossa correção.

Somos nós que, inevitavelmente, acabaremos por ser passado. O nosso paradoxo contemporâneo é sermos muito tolerantes com a diferença, mas só enquanto a diferença pensar como nós.

Penso que por trás de um discurso moderno e por vezes snobe se esconde uma modernidade que tem medo dos clássicos. Que modernidade é esta que pretende corrigir Homero para se sentir moralmente superior a Homero. Que modernidade é esta que transforma Shakespeare num acusado e Cervantes num suspeito!

O que falta no nosso tempo é uma modernidade suficientemente segura de si para escutar o passado sem o domesticar e que talvez seja capaz de dizer :“Não penso como tu. Mas quero compreender por que pensavas assim e deixa-me descobrir o que em ti continua a existir em mim.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©: https://antonio-justo.eu/?p=11217
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

domingo, 26 de julho de 2026

VOLTANDO AO ACORDO ORTOGRÁFICO

Para pessoas insatisfeitas com o AO e interessadas na discussão
 
Ao ler-se o artigo “O Acordo Ortográfico ainda não pode ser julgado” de Paulo Freitas do Amaral, no jornal “Correio de Lagos” https://correiodelagos.com/.../o-acordo-ortografico.../# , verifica-se que o artigo é um primor de retórica histórica, mas peca por determinismo tecnológico. Ele olha para as redes de informação como um mero eco do Acordo, quando, na verdade, elas são o seu principal campo de batalha. Longe de tornarem o Acordo irreversível, as novas tecnologias expõem as suas incongruências diariamente, mantendo viva a grafia anterior nos motores de busca e permitindo, pela primeira vez na História, uma flexibilidade ortográfica em tempo real. Se o autor estivesse certo, a inteligência artificial já teria resolvido a questão; mas a realidade é que a IA gera constantemente erros e confusões entre as variantes, provando que o Acordo não é uma realidade cultural consolidada, mas uma norma administrativa em permanente tensão com a prática viva da língua, uma tensão que a tecnologia, afinal, tornou mais visível, e não mais pacífica.
1. O "argumento da escala temporal" é uma falácia de autoridade ao apelar para a História. Quando afirma que 20 anos são "extremamente curtos" perante "nove séculos", ele está a cometer um sofisma. Este raciocínio é uma armadilha lógica que torna qualquer crítica eternamente prematura. Se 20 anos são curtos, 50 também o serão, e 100 também, porque a língua tem 900.
O que ele esconde com esta retórica é que a avaliação de um sistema não precisa de séculos. A coerência interna de uma língua avalia-se pela lógica, não pela cronologia. Se eu desenhar um mapa com coordenadas erradas, não preciso de esperar 50 anos para saber que os viajantes se vão perder; posso analisar a geometria do mapa no dia seguinte. O Acordo Ortográfico tem vícios lógicos que são atemporais e que a retórica do autor tenta abafar com a névoa do "tempo histórico".
2. A "coerência interna" e o pecado da exceção (O "deus dará")
O historiador deixa a coerência "ao deus dará". Coerência interna é a relação previsível entre a fonologia (o som) e a grafia (a escrita), e a relação morfológica entre palavras da mesma família (ex: eletricidade / elétrico). Se a língua não obedece a decretos, porque assume que obedece a este?
O Acordo Ortográfico, na sua aplicação prática, quebrou essa coerência em vez de a aperfeiçoar. Ele eliminou as consoantes mudas (ex: acção, ação), mas apenas quando não são pronunciadas. Contudo, na derivação, essas mesmas consoantes reaparecem porque são pronunciadas: escrevemos ação (sem 'c'), mas escrevemos acionista ou acionar (com 'c'? Não, espera, a regra é acionar sem 'c' também? Vamos a um exemplo mais claro: contacto, passou a contato em Portugal? Não, a regra diz que se a consoante for pronunciada, mantém-se. Então pacto mantém o 'c' porque se pronuncia? Com isto abre-se caminho à confusão.
O exemplo clássico é a dupla grafia de verbos que passaram a ter oscilações caóticas. Como já referi no artigo https://antonio-justo.eu/?p=11083 o que o Acordo fez foi substituir uma ortografia etimológica (com regras claras, ainda que complexas) por uma ortografia fonética superficial, mas cheia de exceções e casuísmos e empobrecimento das pessoas gramaticais. É exatamente o oposto de uma coerência interna, passando a ser uma colcha de retalhos. Ignorar esta análise técnica em nome de "já passou uma geração" é, de facto, deixar o rigor ao acaso.
3. A confusão entre "sucesso de implementação" e "qualidade sistémica"
O autor do texto troca os campos semânticos propositadamente. Ele diz que não se pode chamar "fracasso" porque as pessoas estão a escrever de acordo com a nova norma. Mas isso é confundir adesão forçada com qualidade linguística.
A escolaridade obrigatória e os dicionários institucionais impõem qualquer norma, mesmo que ela seja má. A questão nunca foi se as pessoas conseguem adaptar-se (elas conseguem porque os humanos são plásticos), mas sim o que se perdeu nessa adaptação. Perdeu-se a transparência etimológica (a ligação ao latim e grego, que ajudava na compreensão de palavras eruditas), perdeu-se a distinção gráfica entre palavras homófonas (ex: cesta e sexta já eram confusas, mas outras surgiram) e, sobretudo, perdeu-se a unicidade da raiz morfológica. Avaliar o sucesso ou fracasso sem passar pelo crivo da funcionalidade cognitiva e pedagógica é um debate vazio. O autor foge desse crivo porque, se o enfrentasse, teria de admitir que a reforma é, na melhor das hipóteses, um mal que atenta contra a lógica da língua.
4. O "tempo" não cura contradições lógicas
Por fim, a maior fragilidade da posição do historiador é assumir que o tempo é uma espécie de alquimia que transforma o errado em certo. Se uma regra é internamente contraditória hoje, continuará a sê-lo daqui a 100 anos. As pessoas podem habituar-se à contradição porque o cérebro humano normaliza o absurdo, mas isso não faz dela uma boa regra. A História que ele invoca não é um juiz que absolve os erros; é um arquivo que os regista.
Quando ele diz que "a língua não obedece a decretos", e simultaneamente defende que os decretos devem permanecer só porque foram aplicados, ele está a contradizer a sua própria premissa. Se a língua é orgânica, ela rejeitaria espontaneamente as más soluções. Ora, o que vemos é que a língua não rejeitou porque a tecnologia e a escola a amoleceram. Estamos perante uma língua em estado de "vida assistida", não de evolução natural.
Em suma, o texto de Paulo Freitas do Amaral é uma magnífica peça de oratória para silenciar críticos, apelando à paciência histórica. Mas a verdade é que um linguista ou um filólogo sério não precisa de esperar 900 anos para saber se uma reforma faz sentido; precisa apenas de olhar para o paradigma verbal, para a derivação sufixal e para a economia cognitiva da escrita. E, nesse olhar, o Acordo revela-se frágil, incoerente e profundamente dependente de "deus dará" – ou, pior, do "deus algorítmico" dos corretores ortográficos. Na qualidade de historiador Paulo Freitas do Amaral pronuncia-se sobre um assunto que não faz parte da sua especialidade e deveria reconhecer que a filosofia da História não deve seguir o cunho político/partidário porque obedece a uma outra lógica.
António da Cunha Duarte Justo
Continua em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11207

quarta-feira, 22 de julho de 2026

A TRINDADE COMO RELAÇÃO DAS RELAÇÕES E O CONTEXTO DA FÍSICA QUÂNTICA


Se a Trindade é relação pura, então o real não se deixa aprisionar em guetos disciplinares. Ciência, teologia e arte não são linguagens rivais, mas modos complementares de tecer o mesmo véu. Aparentes contrários como o empírico e o metafísico, o cálculo e o símbolo, a precisão e o mistério, não se anulam; antes, articulam-se numa tensão fecunda. Reconhecer essa complementaridade e o processo de acesso à realidade não é um gesto de conciliação ingénua, mas a atitude fundamental de quem se dispõe a olhar para a realidade sem a despedaçar em caixinhas separadas.
O conceito trinitário de Deus, definido como relação pura (relação das relações), oferece um paradigma teórico e arquetípico capaz de fundamentar a transdisciplinaridade. Nesse quadro, conciliam-se sob uma mesma matriz relacional os distintos regimes de apreensão do real: o científico, o teológico e o artístico.
A trindade como a relação das relações
No debate teológico, o conceito-chave reside na interpenetração mútua das três Pessoas divinas (pericorese), articulada à definição tomista de que, na Trindade, as pessoas são relações subsistentes. Se o Transcendente (Deus) e o Encarnado (o Cosmos/Cristo) se definem como pura relação, então a realidade deixa de ser um conjunto de 'coisas' estáticas para se configurar como um tecido de conexões.
Quando se define a realidade desta forma, a transdisciplinaridade torna-se obrigatória. Se tudo é relação, nenhum método isolado consegue capturar o todo. A teologia, a filosofia e a física quântica tornam-se simplesmente diferentes comprimentos de onda ou perspetivas para observar a mesma rede relacional.
O ponto de encontro dos modelos e das imagens
A nova física é indissociável de seus construtos teóricos (símbolos). Ademais, constitui um facto epistemológico incontornável que qualquer ferramenta utilizada para abordar a realidade recorre inevitavelmente a imagens.
No que toca a Modelos e Metáforas, nem a física quântica vê o electrão em si, nem a teologia vê Deus em si. A física serve-se de construtos matemáticos e imagens (como "ondas", "partículas", "spin" ou "campos") para esquematizar o comportamento da matéria. A teologia serve-se de imagens e mitos (como "Pai", "Filho", "Sopro-Espírito") para delinear o mistério do Ser. (1)
No que se refere à ilusão do Método Puro, o grande erro do cientificismo clássico foi o dogmatismo metodológico, ou seja, acreditar que o método científico era a própria realidade e não apenas uma ferramenta de tradução. Quando nos libertamos dessa fixação cega, percebemos que tanto o físico como o teólogo estão a criar modelos representativos para decifrar as relações constituintes do universo.
Onde reside o problema e qual a razão de ele existir?
Se esta convergência é tão lógica, porque é que ela encontra tanta resistência? O problema não é de ordem do ser (ontológica), mas sim do estar (existencial), institucional e cultural! O busílis da questão vem:
a) do apego ao Poder Epistémico (teoria do conhecimento) onde historicamente, as disciplinas defendem as suas fronteiras para manter a sua autoridade. O cientificismo rejeita a teologia por medo do regresso ao dogmatismo religioso; a teologia, por vezes, isola-se por medo de ver os seus mistérios reduzidos a meros fenómenos psicológicos ou físicos;
b) da confusão de Níveis de Realidade. O físico Basarab Nicolescu, um dos pais da transdisciplinaridade, explica que a realidade é composta por diferentes níveis. O erro acontece quando se tenta aplicar as leis de um nível (como as equações matemáticas da física) diretamente noutro nível (como a experiência existencial do sagrado), gerando uma tradução literal e grosseira em vez de um diálogo transdisciplinar simbólico. (2).
Ao assumir a "relação das relações" como a base de tudo, valida-se que a ciência capta a dimensão mensurável dessa relação, enquanto a teologia e a mítica captam a sua dimensão de sentido profundo, sem que uma precise de anular a outra.
A física quântica ao resgatar o papel de observador (e da imagem) na construção da realidade está precisamente a seguir o modelo místico de acesso à realidade presente na teologia. O busílis mais revolucionário da epistemologia contemporânea situa-se precisamente no facto que é o colapso da separação absoluta entre o sujeito que conhece e o objeto conhecido. Ao colocar o observador no centro da constituição do real, a física quântica rompe com o ideal mecanicista de Newton e Galileu e aproxima-se, estruturalmente, do modelo místico e teológico de acesso à realidade.
O observador na física e na mística
Na física clássica, o cientista era um espectador neutro a olhar através de uma janela para um mundo mecânico preexistente. Na física quântica, o observador torna-se participante:
O Efeito do Observador: No nível subatómico, as partículas existem numa sobreposição de possibilidades (onda). É o acto de medição, a interferência do observador, que colapsa essa onda numa realidade concreta (partícula). O real não está "lá fora" à espera de ser descoberto; ele coemerge com a observação. (3)
A Experiência Mística: Na teologia mística (como na tradição de Mestre Eckhart ou no Pseudo-Dionísio), o conhecimento de Deus não acontece por via de uma análise exterior e distante. O mistério só se revela através da participação e da união. O místico sabe que o seu próprio olhar e o seu estado de consciência alteram e moldam a perceção do Divino. O sujeito e o objeto fundem-se na experiência.
O resgate da imagem e do símbolo
A física quântica, ao lidar com uma realidade que não pode ser vista diretamente (como os quarks ou as cordas) é forçada a abandonar o literalismo e a abraçar a linguagem simbólica, tal como a teologia:
A Imagem como Ponte: Como o ser humano não consegue conceber algo que seja onda e partícula ao mesmo tempo, a física usa estas "imagens" como metáforas matemáticas para aproximar a nossa mente de uma realidade irrepresentável.
O Ícone Teológico: Na teologia, a imagem (o ícone, o mito, o dogma) nunca é a realidade última (Deus), mas sim o veículo necessário que permite ao observador humano relacionar-se com o Transcendente. Ambos os campos compreendem que a imagem não é a coisa em si, mas a única forma de o observador interagir com o invisível.
A realidade como coocorrência
Penso que é possível criar linhas de pensamento em que a realidade, seja ela a matéria quântica ou a transcendência encarnada, funciona sob um princípio de coocorrência. Não há uma realidade objetiva pura sem uma consciência que a testemunhe, nem há uma consciência sem uma realidade para se manifestar.
O "problema" metodológico desaparece quando compreendemos que a mística usa a intuição, a contemplação e o símbolo para aceder ao Todo, enquanto a física quântica usa o formalismo matemático e a experimentação laboratorial para aceder à textura relacional da matéria. O essencial em tudo isto é que tanto a Teologia cristã (fórmula trinitária da realidade) como a nova física (física Quântica) chegam à mesma conclusão de que a separação é uma ilusão e que o fundamento do ser é a interação. (A física quântica provou que o mundo não é sólido, fixo ou objectivo, mas sim um campo dinâmico de possibilidades).
O físico e filósofo Bernard d'Espagnat, com o seu conceito de “Realismo Velado“ propõe o princípio que a realidade última está escondida e só se mostra através das nossas estruturas conceituais. Por seu lado Alfred North Whitehead com a Teologia do Processo reformulou a ideia de Deus a partir deste dinamismo e interdependência quântica.
A Teologia do Processo, a Teologia da Libertação e o pensamento cosmoteândrico de Raimon Panikkar convergem para equacionar a realidade de forma complementar através de um paradigma relacional e participativo. Em vez de excluírem a física, estas três correntes integram-na como a descrição material e estrutural dessa mesma rede de relações. Por seu lado, também a física reconhece que não sobrevive sem recurso à simbologia...
António da Cunha Duarte Justo

UE retira Financiamento à Bienal de Arte de Veneza devido à Participação da Rússia


A União Europeia, através da Agência Executiva Europeia para a Educação e a Cultura (EACEA), cancelou definitivamente um subsídio de dois milhões de euros destinado à Bienal de Veneza...
O motivo invocado foi a decisão da organização da Bienal de admitir a participação da Rússia na 61.ª edição da exposição internacional de arte contemporânea, que decorre de 9 de maio a 22 de novembro...
O porta-voz da Comissão Europeia, Thomas Regnier, declarou que “os eventos culturais financiados pelo dinheiro dos contribuintes europeus devem salvaguardar os valores democráticos, promover o diálogo aberto, a diversidade e a liberdade de expressão, valores que não são respeitados na Rússia atual” ...
A decisão gerou também críticas por parte do governo italiano, com a subsecretária da Cultura, Lucia Borgonzoni, a classificar a medida como “mais um ataque político e ideológico” a uma instituição cultural...
A Bienal sublinhou ainda que a decisão “não tem impacto significativo no orçamento, nas contas ou nas atividades previstas”, e reiterou que foi fundada com base nos princípios de “abertura, diálogo e rejeição de qualquer forma de encerramento ou censura”. O presidente da Bienal, Pietrangelo Buttafuoco, argumentou que “se a Bienal começar a selecionar não as obras, mas os bens, não as visões, mas os passaportes, deixaria de ser o que sempre foi: o lugar onde o mundo se reúne” ...
A decisão da União Europeia suscita várias questões e uma análise crítica. Em primeiro lugar, a própria Bienal sublinha que os fundos em causa não se destinavam à exposição de arte propriamente dita, mas a outras atividades culturais. A suspensão do financiamento por razões alheias ao objeto do subsídio pode ser vista como uma medida desproporcionada.
Em segundo lugar, a argumentação da EU, de que a cultura financiada com dinheiros públicos deve “promover e salvaguardar valores democráticos”, coloca a questão de saber quem define o que são esses valores e como devem ser promovidos. A decisão corresponde a um entendimento segundo o qual o poder político se arroga o direito de definir os limites da liberdade artística, o que contradiz o próprio princípio da liberdade de expressão que a UE diz defender.
Em terceiro lugar, a medida levanta a questão da seletividade: a UE focou exclusivamente a participação da Rússia, apesar de também terem ocorrido protestos contra a presença de Israel na Bienal. Esta aparente disparidade de critérios pode ser interpretada como uma aplicação política e não de princípios lógicos como os valores invocados.
Por fim, a decisão penaliza os artistas e a instituição cultural, sem que estes tenham necessariamente responsabilidade direta pelas decisões geopolíticas que motivaram o corte de financiamento. A cultura, enquanto espaço de diálogo e encontro entre povos, corre o risco de se tornar instrumento de uma política que, ao pretender defender valores, acaba por cercear a própria liberdade que diz proteger.
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11199

segunda-feira, 20 de julho de 2026

SOMOS MÁSCARA E VULCÃO

Cada pessoa é um mistério insondável, uma gruta que recua sempre um passo mais fundo do que a luz da nossa vela consegue alcançar. E porque o poço não tem fundo visível, cada um se apressa a construir, sobre a boca do abismo, uma máscara, não para mentir, mas para não cair. A máscara é o primeiro gesto de sobrevivência do mistério perante o mundo.

Chamamos "real" àquilo que se vê, e, no entanto, o que se vê é apenas o facete que a luz do momento escolheu iluminar num caleidoscópio que gira sem parar. Somos feitos de mil cacos coloridos, mágoas, ternuras, ambições, silêncios e a cada volta da roda um desenho novo se compõe, sempre parcial, sempre provisório. Confundir esse desenho fugaz com a totalidade de quem somos é confundir a sombra projectada na parede com o corpo que a projecta, como sugestionava Platão na imagem projectada nas paredes da caverna.

E ainda assim é preciso descrever a máscara. Só que a máscara que se debruça sobre si mesma, tentando conhecer-se, não pode fazê-lo senão a partir de outra máscara, a do próprio autoconhecimento. É o espelho colocado diante do espelho: as imagens multiplicam-se em corredores infinitos, cada vez mais pequenas, cada vez mais fiéis à ideia de fundo e cada vez mais longe de o tocar. Conhecemo-nos, sim, mas conhecemos o rosto pintado, nunca a argila anterior à pintura.

Resta a intenção. É ela quem lança sobre o gesto o manto pesado e luminoso da verdade, como quem cobre com um pano de altar uma mesa qualquer e a transfigura. Mas o manto não muda a madeira por baixo: a acção, vestida de boa intenção, continua presa aos limites estreitos da consciência que a gerou, e raramente coincide com a Acção maior, aquela que seria plena, livre, sem sombra de cálculo ou de medo. Entre o que queremos fazer e o que verdadeiramente fazemos corre sempre um fio de água que se perde entre pedras.

E isto porque somos amassados, ao mesmo tempo, com barro de Deus e com barro do Diabo, o que fica à superfície, o que os outros, também mascarados, conseguem ler em nós, é sempre uma liga das duas argilas, nunca uma só. Há quem, ao olhar-nos, veja sobretudo o brilho: chamemos-lhe os que descobrem mais Deus. Há quem repare primeiro na fenda escura: os que descobrem mais o Diabo. E há ainda os mafarricos, os olhos treinados apenas para a fuligem, que por mais luz que uma alma ofereça, insistem em não enxergar senão o fumo. O espelho que cada um nos estende devolve sempre a sua própria cegueira, tanto quanto a nossa verdade.

No fundo, todos andamos, mafarricos incluídos, à procura de nós mesmos, tacteando no escuro de um corredor de espelhos. Mas a máscara tecida de Deus e de Diabo, a máscara que somos e que os outros veem, é precisamente aquilo que nos impede de tocar o fundo de nós próprios. Falamos com orgulho de autoconhecimento, como quem fala de uma terra já conhecida e, no entanto, o que conhecemos, quando muito, são as máscaras e as suas funções, o rosto que usamos no trabalho, o que usamos em casa, o que usamos sozinhos diante do espelho, que também é máscara, só que mais íntima.

Isto explica-se porque no mais interior de nós mesmos não há sala iluminada, há vulcão. Há um magma de amor que não conhece lei nem moral, um fogo anterior a qualquer código, que a crosta, a máscara e a pele endurecida da nossa história, tanto precisa de conter, de nomear, de vestir com regras, precisamente para poder existir à superfície do mundo sem se dissolver nele. E tal como o magma da terra só ganha forma no próprio acto de irromper, arrefecendo em contacto com o ar até se tornar rocha, pedra, paisagem, também o nosso amor mais fundo só se torna forma, gesto, rosto reconhecível, no instante em que sobe até à crosta e se exterioriza. Antes disso é apenas potência incandescente, sem nome, sem contorno, informe de tão vasta.

Eis o paradoxo em que vivemos: buscar a face nua sob a máscara é um projecto tão impossível como pedir ao magma que se mostre magma, e não rocha, sem deixar de correr. O que resta, então, não é a queixa de nunca chegarmos ao fundo, mas o assombro de que exista fundo, existia um vulcão de amor a arder em cada um de nós, mesmo quando tudo o que os outros e nós próprios conseguimos ver é a crosta que ele, generosamente, criou para se dar a ver.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©: https://antonio-justo.eu/?p=11192

sábado, 18 de julho de 2026

EUROPA VISTA SOB PERSPECCTIVA AFRICANA

O Cardeal Robert Sarah, numa lectio magistralis no Parlamento Europeu, em Bruxelas, apelou a que as palavras «homem», «mulher» e «família» sejam reconhecidas como realidades ontológicas e não como construções sociais manipuláveis. Durante a intervenção, o purpurado guineano classificou a ideologia de género e o fundamentalismo islâmico como «duas bestas apocalípticas» que ameaçam a dignidade humana.

Sarah centrou a sua reflexão naquilo que designou como uma «crise do logos» (da razão e da linguagem), argumentando que as instituições europeias utilizam uma semântica ambígua, como «saúde sexual e reprodutiva» ou «igualdade de género», para impor, através de tratados e ajudas financeiras, políticas contrárias à visão antropológica africana, num autêntico neocolonialismo cultural e económico. O cardeal alertou que quem controla o significado das palavras controla o resultado das negociações, sem que a outra parte se aperceba.

Para sustentar a sua tese, Sarah articulou o magistério de três Papas: Bento XVI (sobre a razão e o direito natural), Francisco (sobre a «colonização ideológica» e a defesa da família) e Leão XIV (sobre a necessidade de palavras que expressem realidades certas e unívocas). Denunciou ainda o que chamou de «sistema de três níveis» de condicionalidade, normativo (resoluções da UE sobre aborto e políticas LGBT+), jurídico-convencional (Acordo de Samoa) e financeiro (instrumento NDICI de 200 mil milhões de euros), citando o caso do Uganda como exemplo claro de pressão externa para alterar a legislação soberana de um país.

A nível educativo, criticou a imposição de uma visão gender-transformative que ensina as crianças a considerar a identidade sexual como fluida e desligada do corpo. Por fim, Sarah apelou a que a União Europeia faça um exame de consciência: «Escutem África. Respeitem a soberania cultural», oferecendo uma cooperação livre de agendas ideológicas, e lembrou que o continente africano, com a sua fé viva e o seu sentido de família, pode ajudar o Ocidente cansado a reencontrar o seu próprio logos.

Notícia completa em https://www.infocatolica.com/?t=noticia&cod=55525&utm_medium=email&utm_source=boletin&utm_campaign=bltn260717

António da Cunha Duarte Justo

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