terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

A NUVEM E O ALTIFALANTE

Enquanto os do Olimpo se alimentam da claridade que fabricam, os da Névoa navegam na bruma que lhes deixam e ambos, sem o saber, são reflexo um do outro: o poder feito mito, o povo feito abstração, numa dança onde o alto e o baixo são dois movimentos do mesmo rio parado.

No alto do Olimpo (1) moderno, não há partidos. Há o Poder, que é uno, coerente, invisível como o ar e pesado como o granizo. Os que lá vivem, acima das nuvens, compartilham um sol constante. A sua missão é ordenar a massa informe que vagueia sob a tempestade.

Lá em baixo, a Nuvem é permanente. Chuva e desolação são o clima da existência entre altas e baixas pressões. Os cidadãos da névoa alimentam-se das palavras que caem dos altifalantes; de palavras filtradas, processadas, transformadas em pão papoila para a indecisão. Dizem-lhes que os ventos tóxicos são necessários, que sem eles, o caos devoraria tudo. E eles acreditam, porque o medo é o condimento de todas as suas refeições.

Dois pés gigantes, um chamado Conservador e o outro Progressista avançam inabaláveis o caminho da História; os dois caminham sobre a nuvem, alternando passos. Quando um tropeça, a voz do Olimpo explica: “O sistema é complexo”. E segue, pisando um pouco mais forte.

Um dia, um homem da névoa, de nome O Ouvinte, cansou-se de mastigar palavreado. Olhou para as instituições corroídas, para a política sem alma, macha e abusadora, e perguntou em voz baixa: “E se o bem não estiver em nenhum dos pés que nos esmaga?”

A pergunta circulou como um sopro raro. Alguém lembrou as palavras de um pensador chamado Bento: “A política é a arte do possível. O critério não é a opinião, mas a consciência”. Um outro citou Seabra: “Aqui não há verdades finais, só consensos. E consenso pressupõe compromisso com o adversário”.

Compreenderam então: a política não é religião. Não se faz catequese. É um bem menor, um instrumento (em que os adversários espelham o próprio mal no outro, afirmando o bem partido). Aceitá-la como tal era o primeiro passo para a renovar. Não se tratava de derrubar o Olimpo, missão impossível, mas de parar de olhar para ele como fonte de salvação. O bem devia ser o objetivo do Estado e do povo, mas não propriedade de quem fala do alto.

A nuvem não se dissipou, mas dentro dela, começaram a surgir pequenas frestas de claridade. Não era o sol dos deuses, era uma luz própria, feita de consciência crítica que vinha da soberania da pessoa. E nessa luz, mesmo fraca, vislumbraram uma democracia que não fosse apenas dois pés a caminhar, mas muitas mãos a construir.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo  ©  : https://antonio-justo.eu/?p=10725

https://poesiajusto.blogspot.com/2026/02/a-nuvem-e-o-altifalante.html

 

 (1) O Monte Olimpo, o pico mais alto da Grécia, era na mitologia o lar sagrado dos doze deuses olímpicos, liderados por Zeus. O seu cume, envolto em nuvens, simbolizava o centro divino do poder e do governo do universo, um “lugar onde reina a felicidade” que influenciava profundamente o cotidiano e a espiritualidade dos gregos.
Ao longo da história, é possível observar que pequenas elites, em diversas sociedades e instituições, procuraram criar o seu próprio “Olimpo”, um panteão simbólico de poder e distinção.
No entanto, para além das alegorias que construímos, importa reconhecer que tanto na natureza como na sociedade a realidade é feita de montes e vales.
Mais do que ilustrar a matriz intrínseca da sociedade, esta imagem alerta-nos para a estrutura estratificada da vida coletiva e convida a uma vigilância crítica em relação aos pretensos "deuses" que habitam as modernas capitais "olímpicas", de Washington a Pequim, de Bruxelas a Moscovo e cuja influência ecoa e se espalha pelo planeta.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

FÁBULA PARA O NOSSO TEMPO BASEADA NO ENIGMA DE TEBAS

Na Europa, uma nova Esfinge (1) ergue-se sobre as cidades. Não tem corpo de leão nem rosto de mulher, mas sim ecrãs de plasma, programas e algoritmos silenciosos. Habita não num penedo isolado, mas nas redes que conectam todas as casas e fazem delas salas de instrução e de espetáculo. O seu enigma não é pronunciado em voz alta, mas sugerido em milhares de imagens, notícias, postagens e análises que inundam os dias.

Esta Esfinge moderna pergunta: "Que criatura caminha sobre quatro apoios na infância, dois na idade adulta, e três na velhice, mas em todas as idades aceita as sombras como luz?"

A multidão, formatada para a urgência, nem percebe que lhe é colocada uma questão. E assim é devorada diariamente, não por um monstro mitológico, mas por uma resignação silenciosa que destrói a capacidade de distinguir facto de opinião, análise de propaganda, consenso de partidarismo.

Os Édipos modernos chegam cheios de confiança. Um jovem programador cria uma aplicação que promete "descodificar a narrativa mediática". Um académico publica um tratado sobre "a desconstrução do discurso hegemónico". Um ativista organiza fóruns de "verificação de factos". Cada um acredita ter desvendado o enigma, afirmando: "A criatura é o Cidadão Contemporâneo! Pois ele consome informação não para compreender, mas para confirmar; não para refletir, mas para pertencer!"

Mas aqui a fábula diverge do mito antigo. Estas Esfinges não se atiram dos penhascos. Aplaudem. Incorporam as "soluções" nos seus algoritmos (2). O programador vende a sua aplicação a um conglomerado mediático. O académico é contratado como comentador. O ativista recebe likes suficientes para se sentir vitorioso. E a maldição persiste, mais sofisticada, adaptando-se a cada tentativa de a destruir.

Jocasta, a rainha viúva, não é uma pessoa, mas uma Nostalgia perigosa, a memória coletiva editada, que faz chorar por um passado que nunca existiu como lembramos ou faz acreditar num futuro que idealizamos. E muitos, pensando libertar o povo, acabam por casar com esta Nostalgia ou alegria, sem perceber o parentesco ideológico que os une.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10709

 

(1) O ENÍGMA DE TEBAS: Em Tebas vivia a Esfinge, que era um monstro alado com corpo de leão e rosto de mulher, devorava quem não resolvesse o seu quebra-cabeças: "Que criatura anda sobre quatro patas pela manhã, duas ao meio-dia e três à noite?" Toda a cidade vivia aterrorizada porque quem falhasse era engolido. Um dia chega a Tebas Édipo e conseguiu desvendar o enigma dizendo que essa criatura é o "Homem", que engatinha na infância, anda sobre dois pés na vida adulta e usa bengala (três pés) na velhice. A Esfinge então despenhou-se de um penedo e Édipo, libertador da maldição da cidade, recebeu o trono e a mão da rainha Jocasta, viúva do falecido rei Laio, casando-se sem saber com a própria mãe. A vitória de Édipo sobre a Esfinge representa o triunfo da inteligência humana, isto é, do conhecimento, sobre a força bruta da burla e do preconceito e do que nos levam a acreditar.

(2) Os algoritmos detetam hoje o que investigadores como Byung-Chul Han descrevem: uma sociedade já não disciplinada por proibições externas, mas por um imperativo de transparência e positividade que esgota. A Esfinge atual não ameaça com violência, mas com exclusão social, com a invisibilidade algorítmica.
As Inteligências Artificiais de processamento linguístico identificam nos discursos públicos europeus um aumento de 73% em polarizações binárias, o pensar só a preto e branco, desde 2010, segundo estudos do MIT Media Lab. As redes neuronais na lógica do limiar (semelhantes aos neurónios do cérebro humano criam conexões que movimentam camadas ocultas) mapeiam como certos termos ("liberdade", "segurança", “populismo”, "tradição", "progresso") são semanticamente usurpados por campos opostos, tornando o diálogo quase impossível.
A cada enigma, há múltiplas narrativas possíveis, não uma, mas mil respostas. A inteligência artificial, ironicamente, revela o que há de mais humano: Urge fomentar a capacidade de recombinar, reimaginar, encontrar caminhos não previstos pelos dados que se apresentam.
O verdadeiro enigma será: Como construir pontes quando o discurso público e os algoritmos nos mostram apenas abismos?
Tal como Édipo, estamos condenados a responder, mas ao contrário dele, sabemos que cada resposta gera novas perguntas. A libertação não está num trono conquistado, mas na coragem de permanecer na interrogação, na tolerância pela resposta do outro, mesmo e especialmente, quando discorda da nossa.
A maldição de Tebas moderna só será quebrada quando entendermos que o monstro não está no penedo, mas na nossa resignação em aceitar enigmas e afirmações como verdades finais. E que às vezes, a sabedoria começa não com uma resposta inteligente, mas com uma pergunta humilde: "E se eu estiver errado?"

 

sábado, 31 de janeiro de 2026

GRATIDÃO A DOM BOSCO PAI MESTRE DA JUVENTUDE E AMIGO

Hoje é dia de memória viva,
De um sonho que se fez pátio e jubilação.
De um homem que à Juventude cativa
Disse: “És minha riqueza, minha dedicação.”
Dá-me as almas”, era toda a sua ânsia,
O resto? Folhas ao vento a voar.
Era a liturgia do amor na infância,
A santa missão de fazer brotar.

 

O seu sistema? Simplicidade pura:
Amor que é vínculo, colo e lar,
Razão que escuta e à fronte dá altura,
Religião que é bússola e ensina a caminhar.

Não era “amar para educar”, ele nos dizia,
Mas "educar porque se ama", seiva e flor.
E eram os recreios uma sinfonia,
Sem a qual a escola é casa sem calor.

 

Era o ouvido atento no rebuliço,
A palavra ao ouvido, suave e certa,
O olhar de bondade, um doce precipício
Que mais vale que uma repreensão aberta.
“Que saibam que são amados!” Este o alicerce.
E a manga arregaçada no suor,
No jogo, no trabalho que entusiasse,
No “Boa Noite” que acalma o temor.

 

Era prevenir, nunca reprimir com força,
Ver no menino mais difícil um jardim.
Acreditar que a semente boa torça
E rompa o cimento que há em todo o limo.
“Reprovemos os erros, mas com respeito…”
E suportar de bom grado o nosso igual.
Esta era a sua pedagogia, o seu feito:
Um oratório aberto a todo o mal.

 

E hoje, Pai Bosco, a minha voz se eleva
Numa gratidão que o tempo não consome:
Por cada assistente que em mim semeava
Não um dever, mas um afeto de homem.
Por cada “Bom Dia” que era um compromisso,
Por cada sorriso que curava a solidão…
Vivi no vosso espírito o paraíso
Da Alegria que é vocação e missão.

 

Neste dia, como eco em meu peito,
Quero dizer, por ti que me guiaste:
Obrigado, Arouca e Mogofores,
Manique, Mongúncia, Izeda e Lisboa,
Kaiserslautern, Munique, Paris, Murches…
Lugares benditos desta geografia santa,
Onde a semente do Oratório se plantou.
Cada nome, um capítulo da mesma história;
Cada chão, um altar onde o vosso amor se achou.

 

Obrigado pelo pátio, pelo canto,
Pela família que me deste em herança.
O carisma salesiano, em todo o canto,
É a vossa eterna, jovem, confiança.
E assim, entre razão, amor e fé,
O sistema preventivo é flor e fruto:
Um homem que acredita no que vê:
No rosto de cada jovem, o Absoluto.

 

Um louvor, pois, a ti, Dom Bosco,
E a cada continuador, irmão e amigo,
Que vive e transmite, sem cansaço,
Este espírito de família, de alegria,
De fé no amanhã que tem nome de Juventude.
Um feliz e eterno dia de Dom Bosco

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10697

Artigos que escrevi relativos a Dom Bosco:

Sistema Preventivo na Educação dos Jovens: https://antonio-justo.eu/?p=1305

DOM BOSCO E A PEDAGOGIA DA ALEGRIA: https://antonio-justo.eu/?p=2675

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

PRESIDENCIAIS NA DIÁSPORA


Quando a distância ajuda a ver melhor

A democracia é celebrada enquanto repete o discurso do poder;
quando pensa por conta própria, passa a ser tratada como um erro de sistema.

 

O candidato mais votado no estrangeiro foi André Ventura (Chega), com 40,93%, seguido de António José Seguro (PS) com 23,69 % . (1)

Os resultados da primeira volta das eleições presidenciais na diáspora dizem mais do que aquilo que os números, por si só, parecem anunciar. Vistos com alguma distância, essa que a emigração ensina, revelam um eleitorado menos permeável aos consensos fabricados e às coreografias habituais do poder.

Talvez por viverem fora do ambiente político-mediático nacional, talvez por lidarem diariamente com outras realidades e outros sistemas, muitos emigrantes parecem continuar a votar com a cabeça própria. Não por rebeldia gratuita, mas por aprendizagem: depois de décadas de governos e promessas, muitos perceberam que votar ciclicamente nos representantes do mesmo sistema se tornou, muitas vezes, uma forma elegante de abstenção disfarçada.

Curiosamente, isto acontece apesar de, em muitos países de acolhimento, os meios de comunicação social, frequentemente apoiados por verbas públicas, se alinharem de forma pouco discreta com uma determinada visão política. Ainda assim, os emigrantes não parecem muito impressionados. Talvez porque quem emigra aprende cedo a desconfiar das verdades embaladas em papel de presente.

O que já surpreende menos é a reação que se segue: quando o voto não coincide com as preferências dos instalados, rapidamente surgem rótulos. Antidemocratas, populistas, extremistas, perigosos. A democracia é exaltada, desde que produza os resultados certos. Quando não produz, o problema deixa de ser o sistema e passa a ser o eleitor.

É particularmente triste ver este discurso reproduzido dentro da própria emigração, como se houvesse emigrantes de primeira e de segunda categoria, dependendo do boletim de voto. A pluralidade, tão celebrada nos discursos, torna-se incómoda quando ganha forma concreta.

Os números são claros: André Ventura foi o candidato mais votado no conjunto do estrangeiro, enquanto António José Seguro venceu em vários países europeus e africanos. Há diversidade de escolhas, geografias políticas distintas e até níveis de abstenção que convidam a uma reflexão séria, como em França, onde apenas cerca de 5% dos recenseados votaram. Tudo isto mereceria debate sereno. Em vez disso, prefere-se o ruído.

Talvez porque o ruído seja mais confortável do que escutar uma voz que não pede licença. A voz do povo, quando não repete o refrão habitual, passa a ser tratada como dissonância. Mas a democracia não é um coro afinado: é, por natureza, polifónica e às vezes desafinada.

Como escrevi noutros versos, fomos durante muito tempo alunos de um tom único, repetidores de palavras gastas. Talvez a diáspora, por estar fora da sala, tenha começado a ouvir o silêncio entre as frases.

Mais espaço para a voz do povo, portanto, mesmo quando ela incomoda e menos barulho por parte de quem confunde poder com razão e consenso com virtude.

É sabido que a distância do poder ensina aquilo que a proximidade costuma apagar: pensar não é desobedecer.

António da Cunha Duarte Justo

Dados estatísticos em nota em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10688

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

PRESIDENCIAIS SOB TENSÃO ALTA - UM LEVANTAMENTO DA SITUAÇÃO

 Esquerda defensora do poder adquirido e Direita dividida

A candidatura presidencial de André Ventura, pelo partido CHEGA, coloca em evidência questões estruturais sobre o funcionamento da democracia portuguesa e a qualidade do debate político contemporâneo. O seu discurso, centrado no combate à corrupção, no reforço da autoridade do Estado e na crítica ao sistema partidário dominante, procura canalizar o descontentamento popular resultante de falhas governativas e de sucessivos casos que fragilizaram a confiança nas instituições. Também na União Europeia, durante campanhas se faziam acusações semelhantes; Giorgia Meloni foi repetidamente rotulada como antieuropeia, neofascista e nacionalista, entre outros epítetos marcados pelo preconceito e pela retórica do poder. No exercício do governo, porém, Meloni desmentiu essas narrativas, revelando-se uma líder ponderada e uma defensora consistente dos interesses europeus...

A tendência para classificar candidatos como "antidemocráticos" apenas por se oporem ao bloco político dominante empobrece o espaço público e contradiz o princípio fundamental da soberania popular...

O peso da história e a hegemonia discursiva

Desde a repressão ideológica pré-1974 até à hegemonia discursiva consolidada no período democrático, verificam-se continuidades que merecem reflexão crítica. Neste contexto, a emergência de candidaturas disruptivas (que rompem com o status quo e o tom político socialista) pode ser interpretada menos como perigo sistémico e mais como sintoma das tensões entre o poder institucionalizado e setores da sociedade que se sentem excluídos do processo político.

O debate contemporâneo é profundamente influenciado pelas formas de comunicação e pelo enquadramento dos discursos que moldam a interpretação da realidade social...

Este fenómeno condiciona a perceção pública e contribui para a consolidação de um clima de desconfiança generalizada, com impactos negativos na qualidade do diálogo democrático.

Exigências institucionais e fragmentação política

Questões como o alinhamento militar de Portugal no quadro europeu, as relações com os países de língua portuguesa e o posicionamento numa geopolítica crescentemente multipolar exigem reflexão estratégica aprofundada (a sua ausência do discurso político revela que Portugal perdeu a consciência histórica europeia e a sua vocação marítima que deveria pressupor maior empenho  nas relações com as antigas colónias e na perspetiva geopolítica o envolvimento mediador  nos interesses do Ocidente e dos BRICS)...

Contudo, a delimitação do campo democrático à presença socialista levanta questões relevantes quanto aos critérios que se têm usado contra a legitimidade da candidatura de Ventura.

Os limites do discurso de exclusão

A oposição estabelecida entre "democracia moderada" e "extremismo" pressupõe uma definição normativa de democracia que tende a excluir, à partida, candidaturas posicionadas fora do eixo político dominante. Classificar determinados candidatos como intrinsecamente antidemocráticos, sem que tenham efetivamente violado mecanismos constitucionais, contribui para um empobrecimento do debate público e para a transformação da democracia num sistema de legitimação restrita, mais centrado na preservação do poder instituído do que na soberania popular...

Uma democracia saudável exige autocrítica permanente e abertura à renovação.

Corrupção: entre demagogia e exigência legítima

A exigência de maior eficácia do sistema judicial e de reforço da transparência institucional não implica, por si só, um ataque ao regime democrático, pelo contrário, constitui uma tentativa de o aprofundar.

Para além do fantasma autoritário

A crítica ao funcionamento do sistema democrático não equivale à rejeição da democracia enquanto regime, nem implica um desejo de regressão histórica. Uma sociedade democraticamente madura deve ser capaz de integrar discursos críticos sem os reduzir automaticamente a ameaças existenciais...

A democracia portuguesa não está em perigo pela existência de vozes críticas e de rupuras de padrões que rompem com o status quo. O verdadeiro risco reside na incapacidade de promover um debate plural, rigoroso e respeitador da dignidade de todos os intervenientes, condição essencial para a vitalidade de qualquer regime verdadeiramente democrático.

António da Cunha Duarte Justo

Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10679

domingo, 25 de janeiro de 2026

MULTIPOLARIDADE E COLAPSO DAS ILUSOES NA EUROPA

 

Vivemos uma mudança histórica de grandes proporções. A ordem mundial que emergiu após a Segunda Guerra Mundial e se consolidou com o fim da Guerra Fria está a desfazer-se. O mundo caminha para uma realidade multipolar e a Europa não estava preparada.

Durante décadas, o Ocidente acreditou poder ditar as regras globais. Hoje, essa convicção esbarra numa realidade incontornável que é o poder a redistribuir-se. Estados Unidos, China, Índia e Rússia são actores centrais de um novo equilíbrio multipolar instável. Fingir que esta transformação não existe é um erro estratégico grave e que tem levado a EU a um caminho errado.

A Europa distraiu-se; não considerou a realidade geopolítica e em nome da abertura desestabilizou-se. No plano interno, a política da União Europeia, marcada por numerosas medidas intervencionistas sobre as tradições culturais dos Estados-Membros e obrigação  de imigração descontrolada, revelou-se como promotora de um projeto de desconstrução da identidade cultural europeia, ao serviço de um ideal internacionalista, socialista e globalista. Essa orientação gerou um amplo descontentamento social, mobilizando cidadãos tanto da esquerda como da direita. Tal convergência de críticas provocou uma significativa desorganização no panorama partidário, ao esbater as linhas divisórias tradicionais e revelar afinidades inesperadas entre forças políticas historicamente antagónicas. Na consequência, criou uma certa miscelânea entre capitalismo e socialismo assistindo-se à diluição das clivagens ideológicas clássicas. Deste modo aproximou discursos associados ao capitalismo e ao socialismo e enfraqueceu as fronteiras que anteriormente os separavam. Esse fenómeno provocou particular inquietação e agitação na esquerda, que via emergir, a partir dessa promiscuidade ideológica, o reforço da chamada direita populista.

A esquerda europeia, habituada a expor-se com brilho nos corredores do poder, encontra-se desorientada na era iniciada por Trump que congrega em sua volta as forças contra o globalismo. Também a sua base eleitoral tradicional, ligada ao trabalho, à indústria, à mobilidade social através do ensino superior, fragmentou-se. A promessa de ascensão social via universidade já não convence como antes. Em muitos países, o futuro deixou de ser visível nos lugares onde a esquerda costumava encontrar apoio.

Entretanto, as elites políticas e económicas parecem interessadas em enfraquecer a classe média e os sectores pensantes da sociedade. Quanto menor a capacidade crítica, mais fácil se torna a governação por pequenos círculos de poder, uma espécie de troika informal que decide acima dos povos. Até o jornalismo, por vezes, reflecte este espírito do tempo: um pedantismo travestido de igualitarismo, onde tudo é medido pela mesma rasoura, eliminando nuance e profundidade para se acomodar ao Zeitgeist e ao politicamente correcto.

A Europa enfrenta um dilema existencial. Aceitar a multipolaridade não significa abdicar da soberania nem entregar o controlo a potências externas. Significa, isso sim, pensar estrategicamente. A cooperação europeia tem de ser reforçada e isso inclui relações pragmáticas com a Rússia, se a Europa quiser manter influência global e evitar guerras económicas ou hegemónicas de motivação geopolítica.

A alternativa é ficar refém do jogo imprevisível dos Estados Unidos ou das rivalidades entre grandes potências. Nenhuma dessas opções serve os interesses europeus.

Respeitar fronteiras continua a ser essencial, não apenas geográficas, mas também culturais. Isso não impede a coexistência; pelo contrário, torna-a possível. A harmonia nasce do reconhecimento da diferença, não da sua negação. Naturalmente, que a diferença que se fecha no gueto, deve ser feita com espírito atento.

Num mundo em transformação acelerada, a Europa precisa de pensamento claro, liderança responsável e uma esfera pública menos intoxicada pela emoção e mais orientada pela razão. Sem isso, arrisca-se a tornar-se espectadora da História, quando deveria ser uma das suas protagonistas.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10662

sábado, 24 de janeiro de 2026

ONDE ESTÃO OS INTELECTUAIS QUANDO A DEMOCRACIA PRECISA DELES?

Quem cede o terreno das ideias, entrega o mundo aos que não pensam

Durante demasiado tempo, os intelectuais aceitaram um lugar confortável: o da sala de aula, o do livro especializado, o do seminário fechado. É um lugar respeitável, sem dúvida, mas insuficiente. Num tempo de inquietação social profunda, de polarização política e de discursos simplistas que dominam a esfera pública e um discurso político-social por vezes primitivo, a ausência dos intelectuais do debate vivo tornou-se um problema democrático.

Todas as profissões contribuem directamente para a sociedade. Trabalhadores, técnicos, empregados e profissionais de todas as áreas colocam diariamente o seu saber ao serviço do colectivo. Qual é a razão por que os intelectuais, filósofos, sociólogos, pensadores, académicos, se resignaram a ver o seu conhecimento filtrado pelas elites políticas e económicas, que o instrumentalizam de acordo com interesses próprios?

A função histórica do intelectual foi sempre a de clarificar o pensamento, de desmontar falsos dilemas, de resistir à manipulação ideológica. Hoje, porém, o espaço público está saturado de ruído emocional e cada vez mais dominado pelos megafones da confusão. A política deixou de se orientar pela razão e passou a disputar audiências através do medo, da indignação e da moralização simplista. Tanto à esquerda como à direita, triunfam os apelos emocionais, porque rendem mais votos do que a clareza, ficando o povo cada vez mais na mesma.

A democracia paga um preço elevado por isso. Reduzida a uma aritmética grosseira, a maioria decide, a minoria obedece, perde a sua essência mais profunda: a democracia é, antes de tudo, cooperação, deliberação, reconhecimento da pluralidade. Não é um ponto de vista imposto, mas um processo partilhado.

Também os activistas precisam de reaprender esta lição. A militância que se limita à afirmação de pertença, à rotulação ou à indignação permanente empobrece o espaço público. Sem reflexão, sem teoria, sem capacidade de escuta, o activismo transforma-se em mais um ruído incómodo na praça mediática.

As redes sociais revelam, paradoxalmente, que existe interesse por debates mais profundos. Muitos cidadãos, mesmo aqueles jovens focados na carreira, no sucesso económico ou na realização pessoal, seguem discursos que escapam ao maniqueísmo dominante. O problema não é a falta de público; é a falta de mediadores intelectuais dispostos a sair da sua bolha. Naturalmente a tal decisão não é coisa fácil devido à exposição a ataques baixos.

Nos estúdios televisivos, a política tornou-se espectáculo com bastidores de cores narcisistas. Políticos hiper-activistas vivem da superfície e, como consequência, superficializam o público. A classe média, outrora espaço de reflexão e mediação social, adopta cada vez mais formas de comunicação rudimentares, empobrecendo o debate democrático, ao submeter-se ao espírito do tempo que nivela atitudes e hábitos pelo padrão mais baixo.

Onde estão os filósofos, os pensadores, os intelectuais capazes de criar pensamento claro num mundo cada vez mais nebuloso? A situação é tão doentia e confusa que seria de perguntar: estão ao serviço de quem?

O abandono da arena das ideias é uma capitulação silenciosa aos que as distorcem. A clareza pensante tem o dever de ocupar o espaço público, ou será tragada pela névoa do ruído e pelas sombras da ação cega.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10658