segunda-feira, 21 de setembro de 2026
O EIXO CIVILIZACIONAL EM RUTURA
A RÚSSIA VOTOU E PUTIN SAI REFORÇADO
Segundo os resultados preliminares divulgados pela Comissão Eleitoral Central (20.09.2026),, depois de apurados 95,18% dos votos, o Rússia Unida alcançou 57,83% dos votos nas listas partidárias. Seguiram-se o Partido Comunista da Federação Russa, com 13,81%, o Partido Liberal Democrata, com 8,98% e o Novo Povo, com 7,96%...
O partido Rússia Unida deverá alcançar 355 dos 450 lugares da Duma, ultrapassando largamente os 301 necessários para uma maioria constitucional. Trata-se, a confirmarem-se os resultados, da maior representação parlamentar conseguida pelo partido, superior mesmo aos 343 deputados alcançados em 2016...
O resultado demonstra sobretudo a consolidação parlamentar do sistema político que dirige a Rússia... Bruxelas rejeita a validade da votação organizada nos territórios ucranianos ocupados pela Rússia.
Depois de mais de quatro anos de guerra, sanções económicas ocidentais, perdas humanas e crescente militarização da sociedade, não se verifica, pelo menos através destes resultados, a desagregação política do poder russo que alguns estrategas ocidentais esperavam e propagavam.
Pelo contrário, o Rússia Unida aumentou a sua votação relativamente aos 49,8% obtidos em 2021. A participação oficial também aumentou. Isto permite ao Kremlin apresentar as eleições como confirmação da unidade nacional em torno do poder num momento de confronto com o Ocidente...
Segundo as autoridades russas, mais de 1.600 drones foram intercetados durante a vaga de ataques, dos quais cerca de 450 se dirigiam à região de Moscovo. O ataque provocou vítimas e atingiu, entre outros alvos, uma refinaria. Independentemente da discussão sobre estes números e sobre os objetivos militares da operação, a coincidência com o último dia das eleições favoreceu inevitavelmente a narrativa do Kremlin de uma Rússia cercada e obrigada a defender-se...
Na memória histórica russa continua presente o colapso da União Soviética e o período caótico que se lhe seguiu. Para muitos russos, a estabilidade política poderá pesar mais do que o pluralismo segundo os padrões das democracias ocidentais... compreender uma sociedade exige distinguir aquilo que gostaríamos que acontecesse daquilo que efetivamente está a acontecer... As eleições fazem retirar a força à tese de que a guerra estaria a provocar uma fratura política capaz de obrigar Putin a mudar de rumo.
O paradoxo europeu está justamente aí. Quanto mais a NATO e a Rússia apresentam o confronto como existencial, menores parecem tornar-se os espaços para compromissos. Moscovo utiliza a ameaça ocidental para justificar a concentração interna de poder; no Ocidente, a ameaça russa é utilizada para justificar o aumento dos gastos militares e uma política de contenção prolongada. As duas narrativas alimentam-se mutuamente...
As eleições russas demonstram algo politicamente muito relevante: apesar da guerra, das sanções e das dificuldades internas, o sistema de poder russo não dá sinais eleitorais de fragmentação. Pelo contrário, sai destas eleições parlamentarmente mais concentrado...
Entre propaganda russa e propaganda ocidental existe uma realidade geopolítica que não desaparece por decreto: a Rússia continuará a ser uma potência europeia e nuclear com a qual, mais cedo ou mais tarde, será necessário encontrar uma forma de coexistência pacífica.
A política começa precisamente quando termina a propaganda, por isso não temos tido política séria.
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11409
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578
segunda-feira, 14 de setembro de 2026
RECOMEÇAR ENTRE HORMONAS E OUTRAS INTEMPÉRIES
Parece estranho, mas nas relações entre homem e mulher somos mais iguais do que se diz: ambos temos hormonas, ilusões e a mania de querer parecer mais jovens. A menopausa também já não é tabu; tabu é ainda haver quem a confunda com “má vontade”.
Hoje conheci um par que, após 15 anos de divórcio e de cada um ir experimentar novas paisagens, se voltou a unir. Nos rostos via-se a história: ele com mapa de estradas, ela mais adivinhada que real. Serviu-me isto para penar que andamos todos num processo de desconstrução/reconstrução; muitas vezes, na primavera os corpos interessam-se, depois, no verão, desavêm-se nas ideias e os laços vão-se desfazendo como nós cegos.
Quer-se começar de novo, mudar algo. As hormonas anunciam que os sonhos de verão devem tornar-se realidade e, para não faltar emoção, mandam também ondas de calor. A natureza tem ritmos: sol na montanha revigora, mas suores intensos, insónias, irritabilidade, alterações psicológicas, dificuldades de concentração e secura vaginal não são “problema psicológico” arrumado num canto. Começam muitas vezes aos 40 e pedem atenção.
Vale a pena escutar os sinais, sobretudo a irritabilidade: pode ser o findar de ilusões passadas e o início de criação nova. No fundo, homens e mulheres são iguais na confusão; a diferença é que umas recebem boletim meteorológico interno e outros acham que é só calor.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©: https://antonio-justo.eu/?p=11399
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578
terça-feira, 8 de setembro de 2026
OS DESABRIGADOS DA POLÍTICA
Do Escândalo democrático do povo se atrever a não obedecer aos seus defensores
Em tempos de humor negro e de fé vermelha, as eleições europeias revelam-se o cúmulo do humor...
No fim, todos procuram abrigo debaixo da mesma palavra mágica “democracia”, mas o busílis da questão é que cada qual parece trazer a escritura de propriedade no bolso.
Curiosamente, o tão censurado discurso do «nós e dos outros» não é exclusivo daqueles que dividem o mundo entre nacionais e estrangeiros. Também os autoproclamados guardiões da democracia gostam do seu “nós”, do “ nós, os democratas”, “nós, os esclarecidos”, “nós, os europeus de bem” e consideram do outro lado, “eles, os populistas”, “os enganados”, “os atrasados”, “os perigosos”, etc... Enfim, muda a fronteira, conserva-se a alfândega moral.
Assim, enquanto uns proclamam «nós, os nacionais, contra os estrangeiros», outros respondem «nós, os democratas, contra eles». A gramática é assustadoramente parecida e o que muda é apenas o dicionário...
Assiste-se então ao espetáculo dos que se consideram do lado bom da democracia contra os habitantes do lado mau, como se a democracia tivesse bancada VIP e porteiro à entrada. A argumentação cede lugar à narrativa, a análise à indignação e o ódio, devidamente penteado e perfumado, apresenta-se em público com o respeitável nome de “consciência democrática” que em dicionário adverso significa “oportunista” ...
Entretanto, os senhores da realidade erguem-se contra ela. Espantam-se com o crescimento dos partidos a que chamam populistas, mas raramente perguntam quanto desse crescimento foi adubado pelas políticas que eles próprios defenderam...
votar como previsto, há sempre quem conclua que o defeito está na realidade.
Em muitos governantes e funcionários da liturgia europeia, mais do que competência, começa a notar-se atrevimento, que se expressa naquele admirável talento de explicar aos eleitores por que razão estes votaram mal...
António da Cunha
Duarte Justo
Pegadas do Tempo : https://antonio-justo.eu/?p=11386
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578
domingo, 6 de setembro de 2026
A ECOLOGIA ENTRA NO CORAÇÃO DA TEOLOGIA
sexta-feira, 4 de setembro de 2026
DO CONTROLO ESTABILIZADOR AO DESCONTROLO DEMOCRÁTICO
O Dilema da Informação na Era da Emoção e consequências para o aparelho do Estado
Vivemos um período de transição especial. Durante décadas, os meios de comunicação tradicionais, imprensa e televisão, desempenharam um papel de filtragem da informação, conduzindo a opinião pública por corredores seguros alinhados com os poderes estabelecidos. Com a consolidação da União Europeia, esta influência estendeu-se ao meio governativo e académico, moldando currículos e privilegiando certas correntes de pensamento. No século XXI, as agências noticiosas globais uniformizaram a narrativa, tornando-a repetitiva em todo o espaço europeu, enquanto Bruxelas transformava o conhecimento num bem comercializável e dirigível...
Assim nasceu a realidade pós-factual ou pós verdade com o relativismo vigente que lhe dá forma. O objetivo é reduzir a sociedade a uma massa de clientes, cuja capacidade intelectual se mede pela efemeridade do "like" e das estatísticas sociológicas. Este novo método de arrazoamento substitui o conhecimento pelo sentimento e a verdade pelo impacto...
Vivemos, por isso, num sótão com janelas para o mundo, mas sem alicerces na vida real.
Esta fase intermédia gera insegurança tanto nos cidadãos como nas estruturas estatais. A revolução da Inteligência Artificial acelera a passagem do modelo analógico para novas formas de relação social e política, com implicações profundas no aparelho do Estado...
As mesas de voto presenciais, especialmente para os portugueses na diáspora, tornaram-se peças arcaicas de um modelo analógico... A substituição por um sistema de voto eletrónico seguro, editável e acessível deixou de ser uma opção para se tornar uma necessidade premente...
O governo poderá realizar referendos consultivos ainda muito mais intensivos do que o atual modelo suíço, diluindo o poder central em associações regionais ou locais...
A grande questão que se coloca é: conseguiremos dominar a Inteligência Artificial e o voto digital antes que sejam monopolizados pelos mesmos senhores da política e da informação artificial? O futuro da nossa democracia e a credibilidade do nosso Estado dependem de recuperarmos o espaço para a razão e para a participação inclusiva, num mundo cada vez mais dominado pelo afeto digital e pela rigidez de estruturas ultrapassadas.
António da
Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo © : https://antonio-justo.eu/?p=11376
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578
quinta-feira, 27 de agosto de 2026
NÃO ESTAMOS PREPARADOS PARA AS MUDANÇAS TURBULENTAS QUE A IA TRAZ
Will Gates, otimista de sempre, mostra-se preocupado. Para ele, a IA não é só inovação, é uma "transição turbulentíssima" que vai deixar rastos indeléveis na história.
O principal aviso é que “não estamos preparados”. Enquanto o mundo acelera por interesses geopolíticos e económicos, os mais frágeis vão pagar a factura porque os jovens ficarão sem vagas de entrada e os trabalhadores substituídos por robôs mais baratos.
A solução que ele propõe é polémica e direta: taxar os robôs e os tokens de IA, porque o sistema atual incentiva as empresas a despedir pessoas para deduzir máquinas nos impostos.
Isto vai mudar tudo. Ou será "o maior equalizador" ou "a pior fonte de injustiça". O que é certo é que não podemos ficar indiferentes.
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11367
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

