Para além do medo de um colapso democrático
António da Cunha
Duarte Justo
Portugal atravessa uma transformação profunda do seu sistema político. O tradicional bipolarismo, assente na alternância entre PS e PSD, está a dar lugar a um tripolarismo em formação, marcado pela afirmação do Chega, pela reconfiguração da direita e pela fragmentação da esquerda. Esta evolução não significa necessariamente o colapso da democracia, como frequentemente se receia, mas poderá conduzir a uma instabilidade política prolongada, com governos minoritários, dificuldades na formação de maiorias e crescente incapacidade para estabelecer compromissos duradouros.
O medo desempenha aqui um papel paradoxal. Por um lado, leva muitos cidadãos a preferirem a continuidade, mesmo quando reconhecem as insuficiências dos governantes e indirectamente a necessidade de reconhecer a nova realidade geopolítica determinada por potências concorrentes . Por outro, a insatisfação acumulada alimenta forças políticas que contestam a ordem estabelecida. O medo conserva o poder enquanto o descontentamento prepara a mudança.
O cansaço eleitoral, a centralidade da imigração no debate público, a influência das redes sociais e a crescente simplificação do discurso político contribuem para esta transformação. Num ambiente dominado por reacções emocionais e confrontos partidários, a apresentação de projectos para o país é frequentemente substituída pela desvalorização sistemática dos adversários.
A política como confronto e a importância das instituições
A luta pelo poder sempre fez parte da organização das sociedades. Carl Schmitt identificou na distinção entre amigo e inimigo uma dimensão fundamental do político; Pierre Bourdieu mostrou como os actores sociais se afirmam pela diferenciação; e René Girard explicou como os rivais, ao disputarem o mesmo objectivo, acabam por se transformar em obstáculos recíprocos.
Estas perspectivas ajudam a compreender por que razão tantos partidos parecem necessitar de adversários permanentes para mobilizar os seus apoiantes. Os seus «cães de guarda» partidários assumem a tarefa de defender a identidade do grupo e atacar os concorrentes, contribuindo para uma cultura política de confrontação.
Este comportamento não pertence exclusivamente à direita ou à esquerda. Conservadores e progressistas participam da mesma dinâmica, frequentemente convencidos de representar o bem enquanto atribuem ao adversário a responsabilidade pelos males colectivos.
Importa, contudo, distinguir claramente a competição democrática da repressão ditatorial. Durante o Estado Novo, a censura, a polícia política e a ausência de eleições livres transformavam a oposição numa actividade sujeita à perseguição e à perda da liberdade. O 25 de Abril de 1974 estabeleceu uma arquitectura institucional radicalmente diferente, baseada no pluralismo, nas liberdades fundamentais e na alternância governativa.
A democracia não elimina a ambição, a propaganda ou os abusos de poder. A sua conquista fundamental consiste em permitir que os conflitos sejam resolvidos pela palavra, pelo voto e pelas instituições, impedindo que a derrota política se transforme legitimamente em perseguição.
O verdadeiro perigo começa quando a rivalidade deixa de reconhecer a legitimidade do adversário e enfraquece os mecanismos institucionais destinados a limitar o poder.
Portugal numa ordem internacional em transformação
A evolução portuguesa não pode ser compreendida isoladamente das mudanças geopolíticas. Tal como o sistema partidário nacional abandona progressivamente uma estrutura bipolar, também a ordem internacional atravessa uma reorganização profunda.
Depois da bipolaridade entre Estados Unidos e União Soviética e do período de predominância norte-americana, a ascensão da China, a reafirmação estratégica da Rússia e o protagonismo de outras potências anunciam uma realidade multipolar.
As alianças tornam-se mais flexíveis, os interesses mais diversificados e os conflitos menos previsíveis. A competição desenvolve-se não apenas no campo militar, mas também através de pressões económicas, disputas tecnológicas, ataques cibernéticos e confrontos pelo controlo de recursos estratégicos.
Existe uma semelhança estrutural entre a competição partidária e a rivalidade internacional: quem pretende conquistar influência começa frequentemente por questionar a legitimidade de quem já detém o poder. Esta lógica repete-se, embora com consequências muito diferentes, desde as relações individuais até à geopolítica.
Para Portugal, país de dimensão relativamente pequena e recursos estratégicos limitados, estas transformações exigem especial prudência. A participação na União Europeia e na NATO continua a constituir um elemento fundamental da sua segurança e influência internacional. Simultaneamente, a ligação histórica e cultural aos países da Lusofonia oferece possibilidades de diálogo e mediação que importa valorizar.
A crescente afirmação dos BRICS e a reorganização dos centros económicos mundiais exigem igualmente uma leitura estratégica que ultrapasse os horizontes habituais do debate partidário português (e até da narrativa oficial portuguesa que se encontra demasiadamente arreigada no povo e pode tornar-se impedimento para vistas e interesses mais amplos.
A política externa não pode ficar inteiramente dependente das oscilações eleitorais nem de interesses momentâneos das potências geopolíticas. Um país com a dimensão e as características de Portugal necessita de continuidade diplomática, capacidade de negociação e consensos mínimos sobre os seus interesses permanentes.
A necessidade de uma nova cultura de compromisso
É precisamente neste contexto que a fragmentação partidária portuguesa se torna preocupante. A alternância democrática é saudável e necessária; o problema surge quando a rivalidade impede a construção de orientações estratégicas duradouras.
A consolidação de entendimentos mais coerentes no espaço da direita e no espaço da esquerda poderia contribuir para maior estabilidade governativa, sem eliminar a diversidade democrática. Mais importante ainda seria a capacidade de estabelecer compromissos nacionais em matérias que ultrapassam os ciclos eleitorais.
Portugal necessita de uma cultura política menos provinciana, capaz de relacionar os seus problemas internos com as grandes transformações europeias e mundiais. A economia, a imigração, a segurança, a soberania e a coesão social não podem ser discutidas apenas como instrumentos de confronto eleitoral.
Também a esquerda, se pretende recuperar capacidade de mobilização, terá de ultrapassar as suas divisões e apresentar um projecto económico e social convincente, em vez de se limitar à oposição aos adversários. Da mesma forma, a direita terá de demonstrar capacidade de transformar a contestação em responsabilidade governativa e unir-se estrategicamente como faz geralmente a esquerda em questões de poder.
O futuro democrático dependerá menos da vitória de uma determinada força política do que da capacidade de todas reconhecerem limites à disputa pelo poder.
A experiência histórica demonstra que nenhuma corrente possui o monopólio da virtude. Em todas as organizações humanas coexistem tendências para a cooperação e para o conflito. O que distingue uma democracia sólida é a existência de instituições capazes de conter os abusos, proteger a dignidade humana e permitir a renovação política.
O verdadeiro risco para a democracia portuguesa
O cenário mais plausível para Portugal não será, portanto, uma ruptura democrática repentina, mas a habituação gradual a uma instabilidade permanente que se prevê de governos frágeis, polarização crescente, dificuldades de compromisso e erosão da confiança dos cidadãos nas instituições.
Esta evolução poderá tornar-se particularmente problemática num momento em que a Europa enfrenta desafios estratégicos profundos e a ordem internacional procura novos equilíbrios embora de maneira provocante.
O medo da mudança continuará a favorecer a conservação do poder, enquanto o desgaste dos partidos tradicionais alimentará novas formas de contestação e até de organização do poder como já está a acontecer na colaboração de partidos contrários como o AfD e o BSW. Estas tendências não se excluem; podem coexistir e reforçar-se, prolongando a tensão política neste especial período de transição.
A questão decisiva será saber se as instituições democráticas conseguirão transformar essa tensão numa renovação construtiva ou se permitirão que ela se degrade numa confrontação permanente.
A democracia não exige a ausência de adversários. Exige que os adversários não sejam transformados em inimigos absolutos. A estabilidade não nasce da eliminação do conflito, mas da existência de instituições suficientemente fortes para o regular e suficientemente abertas para permitir a mudança.
Pelo que se observa, o maior perigo para Portugal poderá não ser o fim súbito da democracia, mas a sua transformação gradual num sistema cada vez mais conflituoso, menos dialogante e menos capaz de responder aos problemas reais dos cidadãos.
Evitar esse destino exige mais do que vencer eleições. Exige recuperar a consciência de que a política deve ser, antes de tudo, uma forma de construir o bem comum, e não apenas uma técnica de conquistar e conservar o poder.
António da Cunha Duarte Justo
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