O rosto masculino da agressão: 94% da população reclusa
O rosto masculino da agressão revela-se de forma gritante nas estatísticas:
os homens dominam as tabelas do abismo, representando 94% da população reclusa
e concentrando os mais alarmantes índices de violência. Perante este cenário,
impõe-se uma conclusão inadiável: precisamos de uma mudança de paradigma. Não
se trata de substituir o masculino pelo feminino, mas de transcender a lógica vigente,
rumo a um novo modelo, feminino-masculino, que reconheça a complementaridade
como alicerce do desenvolvimento humano e social.
A coexistência harmoniosa entre a feminilidade e a masculinidade, tanto nos
homens como nas mulheres e na própria organização da sociedade, é hoje
inviabilizada por uma matriz profundamente enraizada que molda o nosso
pensamento e a nossa existência. Esta matriz, de feição exclusivamente
masculina, confinou o elemento feminino aos domínios do natural e do religioso,
despojando-o do seu legítimo lugar na esfera pública e intelectual.
Paralelamente, ao impor uma mentalidade materialista e práticas orientadas
unicamente para o progresso funcional, a eficiência e o lucro, esta estrutura
reprime a dimensão espiritual e emocional do ser humano (vive-se no âmbito das
teorias - masculinidade - sem encarnação em virtudes). As mulheres, para
ocuparem espaços de decisão, são muitas vezes coagidas a atuar contra o seu
próprio princípio feminino, integrando-se apenas ao nível do funcionamento
mecânico da sociedade, um mecanismo cujo leme permanece firmemente nas mãos do
masculino. O homem age, assim, quase exclusivamente sobre os sintomas da
desumanização, mas nunca sobre as causas profundas que alimentam a brutalidade,
a beligerância e a indiferença perante o sofrimento.
Observa-se, por todo o lado, uma escalada preocupante da agressão, quer nas
instituições quer nas relações interpessoais. Numa era em que o princípio
masculino é exacerbado por belicistas, por potentados sedentos de poder e por
personalidades controladoras, a teimosia unilateral é não apenas tolerada, mas
ativamente incentivada. Os números, particularmente os que emergem das
estatísticas alemãs, são inequívocos: a agressão tem rosto masculino. Como
documenta Boris von Hessen na sua obra “O
que os homens custam”, os homens são responsáveis pelo dobro dos
acidentes rodoviários, pela maioria esmagadora dos crimes e por 94% da
população prisional. São eles os protagonistas de 75% das mortes relacionadas
com o álcool e de mais de 80% dos casos de violência doméstica. Para além do
sofrimento humano incalculável, estes dados traduzem-se em custos sociais
astronómicos, que ascendem a mais de 60 mil milhões de euros anuais. Estamos
perante uma realidade que clama por uma reflexão radical.
Face a esta realidade sombria e à aptidão bélica de uma sociedade que
privilegia uma cultura de guerra em detrimento de uma cultura de paz, impõe-se
uma pergunta incómoda e urgente: o que é que correu mal connosco, homens?
Porque razão nos agarramos, com tamanha obstinação, a esta matriz masculina,
sem a questionar, e nos apegamos a papéis que sistematicamente recompensam a
dureza, a dominância e a exagerada propensão para o risco? Se não rompermos com
este padrão arcaico, todas as estratégias de prevenção e as reformas
institucionais se tornarão letra morta, servindo apenas para paliar os estragos
ou, pior ainda, para consolidar e perpetuar a própria matriz que gera o
problema.
Urge, por conseguinte, forjar uma nova compreensão, uma consciência
renovada no âmbito da sociologia e da antropologia. Necessitamos de um modelo
que integre, em plena igualdade, os princípios da feminilidade e da
masculinidade na ordem do indivíduo e da sociedade, sem que um se sobreponha ao
outro. A crise civilizacional que assola a Europa é, no fundo, a crise de uma
ênfase tradicional excessiva no masculino, herdeira de um patriarcado que nos
conduz, irremediavelmente, para o precipício. Para superar este atavismo, é
imperativo reformar profundamente a antropologia vigente. Proponho, assim, uma
nova abordagem, a que chamo antropoginelogia (ou antropoginaikologia),
um modelo em que o masculino (Antropos) e o feminino (Gyne) sejam
representados em pé de igualdade, como energias vivas, complementares e
indissociáveis, que habitam e se expressam em cada homem e em cada mulher.
Desta simbiose, emergirá um novo padrão de orientação ética e existencial, uma
verdadeira logia do ser humano completo, capaz de reequilibrar o nosso
destino coletivo e de devolver à vida a sua plenitude reflexiva e compassiva.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo © https://antonio-justo.eu/?p=11124
Alguns artigos
relativos ao tema
Para além da
matriz masculina: https://www.gentedeopiniao.com.br/opiniao/para-alem-da-matriz-masculina
Outros artigos: https://bomdia.lu/dia-da-mulher-vale-a-pena-lutar/
A necessária transição
: https://antonio-justo.eu/?p=1082
Mulheres em
sociedade: https://www.gentedeopiniao.com.br/opiniao/artigo/das-mulheres-na-sociedade-e-na-igreja-e-dos-usos-e-costumes-que-as-oprimem
O poder normativo:
https://abemdanacao.blogs.sapo.pt/actividade-politica-e-consciencia-1412458
Humanismo e
ética: https://dialogosdosul.operamundi.uol.com.br/humanismo-e-etica-para-a-construcao-de-uma-cultura-de-paz-global/
O dia
internacional da mulher: https://antonio-justo.eu/?p=2206
Burca uma acusação
ao patriarcado e ao homem: https://abemdanacao.blogs.sapo.pt/a-burca-1227532
Was Männer Kosten: https://www.amazon.de/dp/3453606248?ref=cm_sw_r_ffobk_cso_wa_apan_dp_VVVAQ71QM0K2SSDPCZ1Z&social_share=cm_sw_r_ffobk_cso_wa_apan_dp_VVVAQ71QM0K2SSDPCZ1Z&bestFormat=true