domingo, 8 de março de 2026

A Necessária Transição da Matriz Social Masculina para uma Matriz Masculino-Feminina


Para além da Flor de Jardim e do Punho agressivo

Uma reflexão analítica sobre o Dia Internacional da Mulher e o paradoxo da luta feminina num mundo estruturalmente masculino

 

O Colonialismo Mental da Matriz Masculina

Entre a flor simbólica oferecida à mulher e o punho cerrado que expressa a lógica da força, desenha-se uma das contradições mais profundas da sociedade contemporânea. Apesar das conquistas alcançadas na igualdade de direitos, continuamos a viver dentro de uma estrutura social marcada por uma matriz predominantemente masculina. A verdadeira emancipação feminina não poderá limitar-se à integração das mulheres nesse sistema.  Uma verdadeira evolução social exige uma transformação mais profunda que significaria a passagem para uma matriz social capaz de integrar, em equilíbrio, as qualidades do feminino e do masculino. Neste sentido urge uma reflexão crítica sobre o “colonialismo mental” da matriz masculina e a pergunta se estaremos verdadeiramente a honrar o que a mulher é e representa, ou limitamo-nos a prestar vassalagem a uma data que a própria estrutura social dominante transformou em formalismo inocente?

A questão que proponho é mais profunda e, para muitos, desconfortável: a sociedade contemporânea encontra-se enredada num paradoxo fundamental. Enquanto se proclama a igualdade de género e se celebram conquistas no campo dos direitos das mulheres, a estrutura profunda que organiza o pensamento, o poder e a economia permanece fundamentalmente masculina na sua essência. Este "colonialismo mental", como o designei em reflexões anteriores publicadas em jornais e no blog “Pegadas do Tempo”, não poupa homens nem mulheres, condicionando o desenvolvimento humano e social a padrões determinados por uma lógica de afirmação, competição e domínio.

O presente artigo propõe-se analisar criticamente esta matriz antropológica e sociopolítica, argumentando que a verdadeira emancipação feminina e, por extensão, a verdadeira evolução humana, não passará pela integração das mulheres nas estruturas existentes nos termos masculinos, mas sim pela transformação radical dessas mesmas estruturas rumo a um equilíbrio dinâmico entre os princípios da feminilidade e da masculinidade.

1. A Matriz Masculina é uma Arquitetura Invisível da Desigualdade

1.1. As Raízes Evolutivas e Históricas

Quando analisamos a organização social contemporânea, dificilmente escapamos à constatação de que ela assenta sobre aquilo a que podemos chamar uma "matriz masculina". Esta matriz não é um complô ou uma conspiração deliberada de homens contra mulheres, mas antes o produto de uma longa evolução histórica que remonta aos primórdios da humanidade.

Nos primórdios, a divisão de tarefas entre caça e recolha estabeleceu padrões de especialização cognitiva e social. O homem caçador desenvolveu capacidades de visão estratégica, pensamento abstrato, capacidade de risco calculado e ação decisiva, características que associamos ao princípio masculino. A mulher recolectora especializou-se na atenção ao próximo e ao concreto, na gestão do espaço doméstico, na nutrição e no cuidado, características do princípio feminino.

Esta diferenciação inicial, produto de necessidades adaptativas, não era hierárquica, mas complementar. Duas leis evolutivas operavam em equilíbrio: a lei da afirmação seletiva (competição, domínio) e a lei da colaboração (cooperação, inclusão, interdependência). Ambas eram necessárias à sobrevivência do grupo.

O período neolítico, com o culto da deusa-mãe, testemunhou talvez o último momento histórico de equilíbrio real entre os princípios feminino e masculino nas estruturas simbólicas e de poder. Foi com o desenvolvimento da metalurgia, da guerra organizada e das primeiras estruturas estatais complexas que se iniciou a progressiva masculinização das estruturas de poder.

1.2. A Economia como Motor da Masculinização Social

A Revolução Industrial marcou um ponto de viragem crucial. A transição dos modelos agrícola e artesanal para a produção industrial em larga escala exigia mão-de-obra, e as mulheres constituíam uma reserva estratégica. Contudo, para serem integradas no mundo industrial, tiveram de se adaptar à lógica masculina da produção que se resumem em  competição, eficiência, hierarquia rígida, separação entre trabalho e vida.

A pílula anticoncepcional, significativamente criada para as mulheres, não para os homens, simboliza esta instrumentalização: permitia às mulheres entrarem no mercado de trabalho nos termos masculinos, controlando a reprodução para não interromper a produção. A maternidade, princípio feminino por excelência, tornava-se um "problema" a gerir sob o signo da masculinidade.

Paradoxalmente, enquanto as estruturas se masculinizavam, o marketing descobria na sensibilidade feminina um filão a explorar. As mulheres, mais orientadas para a dimensão relacional e para o consumo, tornaram-se alvos privilegiados da indústria. Mas esta "valorização" da feminilidade era, na verdade, mais uma forma da sua instrumentalização ao serviço do princípio masculino: o lucro, a expansão, o crescimento pelo crescimento.

2. O Paradoxo da Luta feminina é combater o Masculino com Armas masculinas

2.1. A Falsa Dialética da Luta de Géneros

Eis o cerne da questão que tenho vindo a desenvolver nos meus artigos para o BOM DIA Luxemburgo, ContraCultura, na Revista Triplov e em muitos outros media: a própria luta feminina pelo equilíbrio entre feminilidade e masculinidade é, contraditoriamente, conduzida geralmente por princípios masculinos, sem que a ordem social seja transformada e a feminilidade seja tratada com equidade.

O antigo princípio político e militar "divide para reinar" (divide et impera) encontra na questão do género uma aplicação particularmente insidiosa. Tal como na luta entre ricos e pobres, a dialética entre homens e mulheres é frequentemente enquadrada em termos de conflito, competição e conquista de poder, numa palavra, em termos masculinos de carácter meramente sociológico .

Grande parte do ativismo feminista contemporâneo, embora animado por legítimas reivindicações de justiça, adota estratégias de luta de carácter extremamente masculino: afirmação agressiva, confrontação, conquista de territórios de poder. Esta contradição performativa de lutar pela valorização da feminilidade com armas masculinas, revela até que ponto a matriz masculina colonizou até os movimentos que pretensamente a contestam. (Talvez aqui se trate também de contrariar a ideia de que contra a força não há resistência com energias da própria força).

2.2. A Naturalização do Paradigma Militar

A naturalidade com que se discute hoje a introdução do serviço militar obrigatório também para mulheres constitui um sintoma revelador. O modelo militar, hierarquia rígida, obediência, violência organizada, sacrifício individual ao coletivo abstrato, representa a quintessência do princípio masculino. Que a "igualdade de género" se afirme através da integração das mulheres neste modelo, em vez de questionar o próprio modelo, demonstra o grau de internalização da matriz masculina.

Observamos hoje mulheres em cargos de liderança que tendem frequentemente a ser mais agressivas, mais "masculinas" na sua gestão do que muitos homens. Este fenómeno não é acidental: numa estrutura masculina, as mulheres sentem necessidade de "provar" o seu valor adotando e exacerbando os códigos masculinos. É uma forma de compensação que, tragicamente, perpetua o sistema que as limita.

A verdadeira igualdade não virá de mulheres que se tornam "homens honorários", mas da transformação das estruturas para que possam acolher genuinamente o princípio feminino.

3. O Machismo Estrutural como Problema Inconsciente e Coletivo

3.1. Para Além da Intenção Individual

Um dos equívocos mais persistentes no debate sobre a igualdade de género é a personalização do problema. Tendemos a identificar o machismo com comportamentos individuais grosseiros, com a figura do "macho" arcaico e ostensivamente discriminador. Esta abordagem, além de redutora, é profundamente enganadora.

Para evitar esta estratégia do machismo sistémico se desculpar no machismo individual o O machismo intrínseco à nossa matriz social deve ser decomposto e encarado como um problema inconsciente e coletivo. Não se trata apenas de más intenções individuais, mas de estruturas de pensamento, sistemas de valor e modelos organizacionais que, independentemente da vontade dos atores, perpetuam a dominância do princípio masculino que impede tanto o desenvolvimento integral do homem como da mulher.

As mulheres que ascendem a posições de poder e adotam comportamentos tipicamente masculinos não o fazem por traição à sua natureza, mas porque o sistema as obriga a isso. Os homens que gostariam de desenvolver a sua dimensão feminina (emocionalidade, cuidado, expressividade) frequentemente veem-se constrangidos por expectativas sociais que os aprisionam. Homens e mulheres são, assim, igualmente vítimas desta matriz que a todos coloniza.

3.2. A Mutilação contemporânea cria Homens efeminados e Mulheres masculinizadas

Observamos hoje homens aparentemente mais "efeminados", o que é frequentemente interpretado como sinal de feminização da sociedade. Esta leitura é duplamente equivocada. Primeiro, porque confunde efeminação (caricatura da feminilidade) com feminilidade genuína (princípio de integração, cuidado, relação). Segundo, porque estes homens não são agentes de uma mudança estrutural, mas sintomas e vítimas do ‘zeitgeist’, manifestações de uma crise de identidade masculina que não altera a dominância da matriz masculina nas estruturas de poder.

Paralelamente, observamos mulheres que se masculinizam para sobreviver em ambientes profissionais hostis. Este duplo movimento, homens que perdem a sua masculinidade autêntica sem verdadeiramente ganharem feminilidade, mulheres que sacrificam a sua feminilidade sem verdadeiramente ganharem poder é o trágico resultado de uma sociedade que, proclamando a igualdade, aprofunda a confusão identitária e fomenta doenças sociais próprias.

4. A Mulher para Além da Aparência: As Qualidades Femininas como Valor Estruturante

4.1. A Redução Estética da Mulher

Numa altura em que os homens levantam os punhos e mostram os músculos em gestos guerreiros, até a feminilidade tende a ser definida em termos másculos de guerra. A mulher não pode ser encarada apenas como beleza admirável ou como jarro de enfeite ou de mera inspiração, porque as suas qualidades vão muito além da aparência física.

A redução da mulher à sua dimensão estética é uma das formas mais sutis e eficazes de a desqualificar como agente social pleno. Quando a mulher é celebrada apenas pela sua beleza, pelo seu poder de inspirar artistas ou pelo seu papel decorativo, está a ser-lhe negada a participação na construção ativa do mundo.

4.2. A Inteligência Emocional como "Superpoder" Feminino

Estudos contemporâneos confirmam o que a sabedoria ancestral já intuía: o verdadeiro "superpoder" feminino é o coeficiente de inteligência emocional, que tem como pilares a autoconsciência, a autorregulação e a autodireção. Apesar de homens e mulheres terem igualmente potencial emocional, as mulheres demonstram maior empatia quando em posições de gestão e apoiam mais o bem-estar dos colaboradores.

Esta inteligência emocional não é um "defeito" a corrigir para ter sucesso num mundo masculino, mas uma competência superior que o mundo necessita urgentemente. A capacidade de reconhecer, compreender e gerir as próprias emoções e as dos outros, é uma competência estratégica para enfrentar os desafios complexos do nosso tempo.

4.3. Para Além da Funcionalidade

A mulher não é apenas funcionalidade, não é apenas "recursos humanos" ou "capital" a ser otimizado. A visão puramente economicista da participação feminina na sociedade, de quantas mulheres nos conselhos de administração, quantas em cargos de liderança, qual o seu contributo para o PIB, embora importante, segue o risco de reproduzir a lógica masculina da quantificação e da eficiência.

O que está em causa não é apenas a presença física de mulheres em determinados espaços, mas a transformação qualitativa desses espaços pela presença feminina genuína. Não se trata de "gerir melhor" o existente, mas de criar um novo paradigma de gestão, de relação e de organização social.

5. A Necessária Transição para uma Matriz Masculino-Feminina

5.1. O Reconhecimento da Bivalência de Cada Pessoa

O primeiro passo para a mudança estrutural é reconhecer que cada pessoa, independentemente do sexo biológico, é portadora de características masculinas e femininas. A masculinidade (afirmação, análise, abstração, competição) e a feminilidade (integração, síntese, materialidade, colaboração) não são propriedades exclusivas de homens e mulheres, mas dimensões da psique humana (Animus e Anima) e princípios organizadores da sociedade.

Esta perspetiva, que tenho vindo a desenvolver em diferentes artigos e diversos meios, permite superar a visão essencialista que prende as pessoas a papéis predeterminados e abre caminho para uma compreensão mais rica e complexa da identidade humana.

5.2. A Crise da Visão Masculina do Mundo

O modelo masculino dominante, focado na afirmação imediata e na conquista de objetivos a curto prazo, mostra-se crescentemente inadequado face aos desafios contemporâneos e ao desenvolvimento integral humano. As crises ecológica, climática e de sustentabilidade exigem precisamente as qualidades do princípio feminino: cuidado com o longo prazo, atenção aos efeitos sobre o todo, responsabilidade relacional, prudência e repensar o princípio progressista.

A incapacidade das nossas estruturas políticas e económicas de responderem adequadamente a estes desafios não é acidental, é estrutural e como tal produto da dominância da matriz masculina. A transição para uma matriz masculino-feminina não é, portanto, apenas uma questão de justiça para com as mulheres, mas uma condição de sobrevivência para a humanidade.

5.3. Da Cultura da Guerra à Cultura da Paz

A consequência mais profunda e promissora desta transição seria a substituição de uma cultura da guerra por uma cultura da paz. A matriz masculina, na sua expressão desequilibrada, tende para a resolução de conflitos pela força, para a afirmação pela dominação, para a expansão pela conquista. A matriz feminina, pelo contrário, tende para a negociação, para a inclusão, para a resolução pacífica de tensões, numa lógica de afirmação e adaptacao.

A Europa enfrenta hoje, de novo, o fantasma da guerra. Assistimos a um preocupante rearmamento e a um discurso belicista que se pretende apresentar como "bom senso “. Este regresso a uma cultura de guerra é a expressão máxima do desequilíbrio da matriz masculina. Se as qualidades femininas de negociação, prudência e cuidado tivessem peso equivalente nas decisões geopolíticas, o mundo seria seguramente diferente.

6. Propostas para uma Nova Abordagem

6.1. A Desconstrução da Matriz como Tarefa Coletiva

Se o problema é estrutural e inconsciente, a solução não pode ser apenas individual. A desconstrução do machismo estrutural exige um esforço coletivo de tomada de consciência e de transformação das instituições. Não basta "empoderar" mulheres nos termos existentes; é preciso transformar os termos em que o poder é exercido.

Esta desconstrução passa pela educação, pela socialização das novas gerações, pela revisão dos modelos de liderança, pela reavaliação do que consideramos "sucesso" e "realização". Passa, sobretudo, por questionar a naturalidade com que aceitamos que o mundo funcione segundo princípios de competição, hierarquia e dominação.

6.2. Valorização do Feminino sem Essencialismos

Importa aqui um cuidado: valorizar o princípio feminino não significa cair em essencialismos que aprisionam as mulheres num destino biológico. O que está em causa não é uma suposta "natureza feminina" imutável, mas um conjunto de qualidades e perspetivas que foram historicamente associadas às mulheres e que o desenvolvimento da civilização relegou para segundo plano.

A inteligência emocional, a capacidade de cuidado, a orientação para a relação e para a comunidade, a visão de longo prazo, a preferência pela negociação sobre o confronto, são qualidades que o mundo necessita, independentemente de quem as exerça. A sua valorização não é uma "concessão" às mulheres, mas uma necessidade civilizacional.

6.3. O Papel dos Homens nesta Transição

A construção de uma matriz masculino-feminina não é tarefa exclusiva das mulheres. Os homens têm um papel crucial a desempenhar, tanto na desconstrução da sua própria socialização masculina como na abertura a dimensões da sua personalidade que a cultura dominante os levou a reprimir.

Homens que choram, que cuidam, que exprimem as suas emoções, que recusam a competição como único modo de relação, que valorizam a qualidade de vida sobre a acumulação de poder,  estes homens não são "efeminados", são humanos completos a reconquistar a totalidade da sua humanidade.

7. O Verdadeiro Significado do Dia da Mulher

O melhor caminho para celebrar o Dia Internacional da Mulher seria introduzir na matriz masculina que todos seguimos características mais femininas, no intuito de construir uma matriz social equilibrada entre as qualidades em torno dos princípios da feminilidade e da masculinidade. Uma verdadeira abordagem no sentido da mulher implica a necessidade de superar a matriz masculina na sociedade.

Sem combater a matriz masculina que homens e mulheres seguem, o Dia da Mulher torna-se apenas uma formalidade,  um dia de flores e discursos que não altera a estrutura profunda da desigualdade. Apesar de tudo, "vale a pena lutar" por uma sociedade mais justa e inclusiva, mas numa perspetiva e estratégia de carácter feminino, não seguindo a estratégia masculina de confronto e dominação.

A luta pela igualdade requer uma desconstrução do machismo estrutural e a valorização da inteligência emocional feminina. A verdadeira evolução social depende de uma mudança na mentalidade coletiva. Não se trata de "dar lugar às mulheres" num mundo construído por homens, mas de construir, juntos, um mundo novo onde masculino e feminino possam finalmente dançar em equilíbrio.

Talvez então, quando homens e mulheres se libertarem da matriz que a ambos aprisiona, possamos verdadeiramente celebrar não apenas um dia, mas uma nova forma de estar no mundo, isto é,  uma forma onde a paz não seja a exceção, mas a regra; onde a competição não seja o único motor, mas um entre muitos; onde o cuidado não seja desvalorizado, mas reconhecido como a mais alta forma de inteligência.

É essa a reflexão que deixo, não apenas neste Dia da Mulher, mas para todos os dias em que ousarmos imaginar um mundo diferente.

 

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo Social

© Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10828

Nota: Desenvolvi este artigo a partir de reflexões que expus em múltiplos ensaios e publicações ao longo dos anos, procurando sintetizar e aprofundar uma perspetiva crítica sobre a matriz social dominante e o lugar da mulher na contemporaneidade. A luta da mulher pela sua integração no sistema patriarcal tem tido efeitos a nível meramente funcional, mas uma transformação substancial da matriz masculina terá de partir de outros pressupostos que não seja apenas os da integração, perspetiva esta demasiadamente masculina que nos pauta e a criação de uma matriz masculina-feminina não se pode alcançar apenas a nível de sintomas; trata-se de uma visão integral de homem e mulher e de passar da estratégia da funcionalidade para a relacional. 

 

quarta-feira, 4 de março de 2026

A CEGUEIRA ESTRATÉGICA DO OCIDENTE E O SISTEM ISLÂMICO IRANIANO


O conflito entre Israel, os Estados Unidos e o Irão no quadro da disputa geopolítica contemporânea

A situação no Irão e no Médio Oriente inscreve-se num quadro mais amplo de disputa geopolítica, estruturado em torno de dinâmicas de poder, controlo territorial e interesses económicos estratégicos. À semelhança do conflito na Ucrânia, trata-se de uma confrontação de natureza eminentemente geoestratégica, com implicações diretas para a Europa. Em causa está a garantia de acesso a matérias-primas essenciais, bem como o controlo das respetivas rotas de transporte e escoamento.

Neste contexto, o Irão assume particular relevância geográfica e estratégica no quadro das políticas ocidentais de contenção ou equilíbrio face à afirmação da China como potência global. Paralelamente, Israel ocupa uma posição central na articulação de interesses concorrenciais entre a Europa e o mundo árabe...

A Guarda Revolucionária como herdeira dos assassinos na história

Desde 1979, a República Islâmica construiu um modelo onde religião, nacionalismo e resistência ao Ocidente formam uma identidade política coesa e a pressão externa reforça essa identidade.

A Guarda Revolucionária assume no Irão a tarefa que os "assassinos" desempenharam no Islão através dos séculos (1) e que era a de protetores do espírito islâmico contra as ameaças externas e internas. Esta função, que aos olhos ocidentais parece contraditória, pois como podem "assassinos" proteger algo espiritual, tem profundas raízes na história islâmica. O Islão nasceu e expandiu-se pela espada e a mesma espada que o expandiu é a que o defende...

Este é o grande problema para o Ocidente porque não tem muito que possa oferecer como atração própria do mundo secular (a não ser a liberdade da pessoa humana que o sistema islâmico oprime). Oferecemos democracia, mas ela parece cada vez mais disfuncional até para nós...

Veja-se o exemplo do Kuwait onde o mundo ocidental se apinha para passar lá férias!...

Quem classifica os regimes islâmicos como medievais revela não ter compreendido o Islão, nem a natureza da sua própria posição no mar da história.

Quem classifica os regimes islâmicos como medievais revela não ter compreendido no mínimo o Islão, nem a natureza da sua própria posição no mar da história...

A lógica que o Ocidente não compreende

A lógica dos argumentos que o Ocidente defende não é aceite pelos aiatolas, porque o islão parte de um pensamento uniforme, não fragmentado como o nosso. Sabe que as diferentes lógicas, a jurídica, a moral, a política e a económica, servem para criar divisões e explorar contradições...

O regime socialista procurou também ele unir política e ideologia fazendo desta uma espécie de religião (certamente que aqui há aspetos afins da esquerda com o islão), mas falta à ideologia socialista, um elemento essencial do homem que é a coerência espiritual.

O Islão, em geral, associa os interesses nacionais à missão divina...

Esta fusão entre interesses nacionais e missão divina confere aos líderes iranianos vantagens operacionais significativas, como: capacidade de decisão rápida, controlo absoluto da informação e mecanismos de repressão eficientes que atuam sem constrangimentos legais ou morais. A isto acresce uma capacidade de mobilização popular que os líderes ocidentais apenas podem sonhar, uma vez que estes estão limitados por sondagens, debates internos intermináveis, uma opinião pública volátil e a inevitável pressão dos ciclos eleitorais.

Por outro lado, o Islão, através da sua rede de mesquitas e grupos extremistas, consegue uma presença social integrada (impossível de romper), tanto a nível interno como externo, que qualquer sistema de espionagem ocidental não consegue replicar. Isto porque os serviços de inteligência do Ocidente são aparelhos exteriores ao tecido social, frutos da lei decretada e da burocracia estatal, ao contrário do Islão, que está organicamente entranhado nas comunidades onde atua.

O Ocidente, apesar de todos os seus erros, tem em mente que "quem vive pela espada, morre pela espada". Perante a realidade islâmica, esta visão torna-se numa consciência trágica porque limita a ação do Ocidente, impedindo-o, em parte, de levar até ao fim as lógicas que desencadeia; isto baseia-se no princípio humanista cristão que distingue entre servir a César e servir a Deus. Assim o Ocidente avalia sempre a situação de forma estratégica, com dois pesos e duas medidas, porque as prioridades mudam constantemente. Hoje a Rússia é inimiga, amanhã pode ser aliada contra a China. Hoje o Irão é o alvo, amanhã pode ser necessário para equilibrar a Arábia Saudita e possivelmente como local estratégico no afirmar-se em relação à China.

A questão de Israel e a persistência de guerra e guerrilha

Tal como a situação se apresenta com o programa do Irão de extermínio dos judeus, uma retórica que infelizmente persiste em setores do regime iraniano, não se descortina haver, neste momento, alternativa à guerra...

Por outro lado, encontram-se interesses ocidentais geoestratégicos na defesa de Israel (possíveis rivalidades futuras entre Europa e o mundo islâmico).

Mas a guerra, por mais inevitável que pareça, não resolverá os problemas fundamentais...

E, no final, a situação poderá ser ainda pior do que no Iraque, na Líbia, na Síria e no Afeganistão. Se a Guarda Revolucionária se mantiver no poder, o terror contra a sua própria população tornar-se-á ainda mais desumano. O povo que ambicionava a liberdade terá ainda mais dificuldades.

E o busílis da questão permanece porque tanto o Ocidente como o Islão são hegemónicos.

O mundo invertido

Vivemos num mundo invertido, onde o caos cria confusão, o que torna o poder útil e permite que os governantes se escondam na lealdade dos Nibelungos, essa fidelidade cega a líderes que conduzem os povos à destruição...

Nenhum dos blocos, chamem-se eles capitalistas ou socialistas, Ocidente ou Oriente, Rússia ou EUA, Israel ou Irão, pode ser tomado como referência moral...

A necessidade de uma ética superior

Quando se toma uma posição inflexível, nega-se uma ética superior e deste modo impede-se o desenvolvimento qualitativo, porque não há equilíbrio entre o desenvolvimento interior, espiritual, do ser  e a mera acumulação exterior de possuir ou ter...

Há várias modalidades de intenção entre o militarismo, o empenho genuíno e a procura sincera de soluções. Cabe-nos distingui-las, num tempo em que a propaganda e a desinformação tornam essa distinção cada vez mais difícil ou mesmo impossível.

 

António da Cunha Duarte Justo

Texto completo e notas em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10820

 

domingo, 1 de março de 2026

REFLEXÃO QUARESMAL E O CLIMA INTERIOR

 

Entre a tempestade do mundo e a paz que vamos aprendendo a cultivar

Há dias em que o vento sopra de tal modo que parece atravessar as paredes. Não tanto o vento meteorológico, mas sobretudo o vento das notícias, das discussões ideológicas, dos meandros do poder e das urgências artificiais. Ainda antes do café abro o telemóvel e sinto o seu zunir constante, como se o mundo estivesse sempre a bater-me à porta e a querer desabar...

Quanto mais clareza intelectual criamos sobre os sistemas digitais, económicos e políticos, mais descemos à cave da nossa própria inquietação existencial.

Tudo isto me faz lembrar uma tarde junto ao mar na praia da Costa Nova. As ondas avançavam com força e retiravam a areia sob os meus pés. Por instantes perdi o equilíbrio e como reação fechei os olhos. A sensação era simples e, ao mesmo tempo, reveladora porque quando o chão se move, não é o mar que precisa de estabilidade, quem precisa dela sou eu...

Com o tempo percebi que começava a reagir a cada notícia que achava relevante como se fosse uma convocatória pessoal. Mas o mais fatal é que uma guerra distante se tornava ansiedade próxima e uma decisão política se transformava em revolta íntima. Sentia-me parte de uma engrenagem gigantesca e, ao mesmo tempo, impotente....

Entretanto veio-me à ideia a imagem do mito de Sísifo que condenado pelos deuses a empurrar uma enorme pedra montanha acima, quando chegava ao topo, a pedra rolava de volta, e ele tinha de começar novamente. Empurramos montanha acima diariamente a pedra da produtividade, do desempenho e da validação social, apenas para a ver rolar novamente na manhã seguinte. A repetição exaustiva passa a substituir o sentido deixando a impressão que tudo se reduz a atrito como se a fricção fosse o sustento da vida. Não será essa a metáfora perfeita da nossa época? Trabalhamos, opinamos, partilhamos, reagimos e, na manhã seguinte, tudo recomeça, mas tudo parece ficar cada vez mais na mesma...

Num tempo em que o peso dos dias se faz sentir com especial intensidade, entre as exigências do trabalho, as inquietações que vêm do mundo e as perguntas sem resposta que acompanham o silêncio de cada um, há que encontrar conforto num espaço espiritual ou nalgum recanto do espírito, como referia o físico Max Planck, ao falar que cada um precisa de ter um ponto firme, de uma posse que não nos pode ser tirada, isto é, uma atitude pura e a boa vontade. À primeira vista, pode parecer quase ingénuo. Como pode a boa vontade fazer frente à aspereza do real? Como pode resistir à violência, à atitude maldosa, à pressa, ao ruído do mundo? Não é fácil, mas a força da boa vontade estará no facto de não competir, de não se impor, mas de simplesmente manter-se na consciência de que não se trata de concorrer, mas de resistir...

Observo também que muitas ideologias prometem segurança identitária, mas cobram um preço elevado que se manifesta na rigidez do coração...

Vivemos uma época em que a democracia, para alguns, já só soa a nostalgia, pois o poder parece, além de cruel,  distante e as decisões globais ultrapassam a nossa influência direta.

Para mantermos a saúde psíquica somos cada vez mais condicionados a vivermos com humor e a virar-nos para o espaço interior que é o território onde continuamos soberanos...

Esse centro não elimina a tempestade; apenas impede que eu me torne parte dela...

Só quem encontra paz dentro de si consegue atravessar a tempestade sem perder a alma e pode contribuir para uma cultura de paz fora de si...

António da Cunha Duarte Justo

Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10817

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

ZÉ DO TELHADO E ROBIN DOS BOSQUES

 

“Ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão”

A lógica da “justiça invertida”

O dilema simbolizado nas figuras Zé do Telhado e Robin Hood e expresso no provérbio “Ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão” coloca em tensão três dimensões fundamentais, ou seja, moralidade, legalidade e ordem social. Expressa a tensão entre monopólio estatal da justiça e responsabilidade pessoal, pelo poder exercido (1).

De facto, se alguém rouba quem já roubou, o ato deixa de ser moralmente condenável, porque se trata de uma ética de retribuição popular, baseada na ideia de que o sistema formal falhou porque o injustiçado não tem acesso à justiça institucional e o ato de intervenção directa tenta corrigir um desequilíbrio. Zé do Telhado e Robin Hood encarnam essa lógica.  Anulam simbolicamente a culpa porque a sua ação de fazer justiça pelas próprias mãos é vista como reposição de justiça.

O problema é que lhe falta legitimidade porque é uma narrativa imaginária, não jurídica e fora de uma regra universal.

O paradoxo na democracia contemporânea

No Estado, a justiça deixa de ser privada e passa a ser institucional.

Se o “povo” assume o papel de Robin coletivo, surge um paradoxo porque se age fora da lei e para corrigir injustiças, mina o próprio sistema que lhe garante direitos mas se se respeita integralmente a ordem vigente, pode perpetuar injustiças estruturais.

A questão estará em como transformar a ordem injusta sem destruir a ordem necessária à convivência?

A diferença entre herói individual e ação coletiva

Em sociedade o herói solitário funciona como mito corretivo. O coletivo, porém, quando age sem mediação institucional, pode gerar: ausência de normas tendo como consequência instabilidade social ao substituir uma arbitrariedade por outra; o que no indivíduo é romantizado, na massa pode tornar-se desagregador.

Uma possível resolução do dilema

Atendendo à situação humana e à situação social a solução não está na justiça pelas próprias mãos, mas na transformação estrutural de maneira a instituição canalizar tensões, indignação, etc. também à imagem do que acontece da sublimação da guerra no jogo de futebol. Nesse sentido pode funcionar um voto mais consciente, maior participação cívica, maior presença pública e nas instituições maior transparência, fortalecer a responsabilização e independência judicial. Também maior desobediência civil ética ajuda o sistema em ações públicas desde que não violentem e assumam responsabilidade com o intuito de reformar e não de destruir o sistema. No caso de Robin dos Bosques ele quer substituir o sistema enquanto a cidadania activa pretende transformá-lo.

O problema da anonimidade do poder

No concreto, o cidadão, sem uma estrutura de defesa individual para a generalidade do cidadão, depara-se com o problema da anonimidade do poder dando lugar à diluição da responsabilidade dado as decisões serem coletivas; a burocracia fragmenta competências, a lei é geral e abstrata e a responsabilidade se tornar institucional, não pessoal.

Isto cria um paradoxo porque por um lado o dano é concreto e individual e por outro a responsabilidade é difusa e impessoal. Politicamente, isto gera frustração porque a estrutura do Estado protege a estabilidade do sistema, mas pode falhar na reparação existencial do indivíduo.

 

Responsabilidade pessoal dos governantes?

Naturalmente uma desejável responsabilização pessoal dos políticos quando há falhas graves, embora fosse moralmente desejável, levanta questões complexas porque um político responde por decisões políticas gerais, mas a aplicação concreta da lei depende de juízes, funcionários, regulamentos. O problema seria de determinar onde começa e onde termina a culpa pessoal. E isso poderia ter como consequência governos paralisados pelo medo de responsabilidade pessoal, uma judicialização excessiva da política e um populismo punitivo.

O problema crítico, porém, é a imunidade que consiste em ignorar completamente a responsabilidade pessoal (sistémica) que gera cinismo democrático.

O fenómeno Robin dos Bosques e Zé do Telhado têm uma dimensão simbólica forte na relação entre estado/política e cidadão. Sim, até porque a lei é muitas vezes percebida como injusta e, pelo menos para uma parte do cidadão, o Estado é visto como distante ou aprisionado por forças de interesse e o povo sente que a moralidade não coincide com a legalidade.

O fora-da-lei torna-se herói porque restaura uma justiça moral quando a justiça formal falha, mas isto é sintoma de falha estrutural e não a solução.

Falta de lógica prática na justiça e cidadão sem rosto perante o poder

O problema teórico aqui abordado é mais de caracter filosófico e teológico do que jurídico. Existe uma dissociação entre a lógica normativa (lei geral) e a lógica vivida (sofrimento concreto). O foque dos interesses seria a tentativa concreta de conciliar a lei que opera por abstração e a dor que opera por singularidade (corresponderia a integrar a abordagem dedutiva com a indutiva). Isto porque quando o sistema não consegue reconciliar essas duas dimensões, instala-se a sensação de injustiça estrutural. Para evitar esse hiato estaria a exigência de coerência ética entre poder e responsabilidade. No meio de tudo isto há também que considerar a estrutura sistémica e natural da natureza humana e instituições pois têm como base o “pecado original” e ao personalizar demasiado os problemas a própria responsabilidade poderia obscurecer a natureza sistémica dos problemas.

A injustiça muitas vezes não nasce da má intenção individual de um governante, ou de um cidadão, mas de a injustiça, muitas vezes, da própria natureza, de estruturas complexas, de incentivos perversos, de excesso de burocracia, de lentidão institucional e das falhas culturais.

Punir indivíduos pode aliviar simbolicamente, mas não resolve necessariamente o mecanismo que produziu o dano.

O que está realmente em causa não é apenas responsabilidade jurídica, mas reconhecimento. Quando alguém sofre dano e o sistema responde com linguagem abstrata, sente-se: invisível, dissolvido na estatística e sem rosto perante o poder.

Nestas condições como pode um Estado manter legitimidade moral se não responde pessoalmente ao sofrimento concreto?

A questão entre a legitimidade moral do estado e o sofrimento individual do cidadão vem da natureza da instituição e da natureza do indivíduo que no palco da existência se legitimam mutuamente tornando tudo processo e como tal praticamente intangível. Isto implicará sempre um processo dialético entre filosofia, teologia, jurisprudência e psicologia.

O Estado não é uma entidade externa como uma rocha ou uma árvore, porque existe enquanto relação. Ele é processo, não substância. Georg Wilhelm Friedrich Hegel, para quem o Estado não é apenas máquina administrativa, mas manifestação histórica do espírito coletivo. O indivíduo forma o Estado, e o Estado forma o indivíduo. Não há um sem o outro e daí nasce a dor que é o preço de vivermos em comunidade organizada.

Assim enquanto o indivíduo é concreto, sofre no corpo, vive no tempo biográfico, sentindo a injustiça como ferida. Por seu lado a instituição opera por abstrações, pensa em categorias, age por normas gerais e preserva estabilidade sistémica.

Como compromisso adequado poderia o estado criar instituições jurídicas fortes (de caracter Zé do Telhado) com autoridade independente que assumam os casos em que o cidadão se sente lesado. Quando o sofrimento singular se debate com a norma geral, surge fricção. A legitimidade moral do Estado depende da sua capacidade de converter dor concreta em resposta institucional. Mas a sua própria natureza abstrata impede-o de responder como a pessoa que responde a pessoa. Naturalmente isso cria um vazio experiencial. De facto, tudo se encontra em processo, quer a justiça e  a legitimidade, quer a própria identidade social. Tudo está em mediação constante, mas o problema é que o sofrimento não é processual, mas imediato e essa assimetria cria sofrimento.

A dialética entre filosofia, teologia, jurisprudência e psicologia

O problema não pode ser resolvido dentro de um único campo porque filosofia e teologia questionam legitimidade e sentido; a jurisprudência organiza normas e responsabilidades e a psicologia explica perceção de injustiça, ressentimento e confiança. Sem esta triangulação, qualquer resposta será parcial.

De facto, uma solução jurídica pode ser formalmente correta, mas psicologicamente insatisfatória. Uma resposta emocional pode ser politicamente destrutiva e uma solução filosófica ou teológica pode ser impraticável institucionalmente.

O trágico da vida humana tem de ser aceite e até reconhecido porque se trata de uma condição estrutural da vida política e do caracter antropológico e sociológico humano. O hiato entre norma e vida não se pode eliminar, apenas reduzir porque permanece um conflito permanente. E isto porque há sempre um resto conflituoso humano e natural num sentimento de injustiça não absorvido, numa dor não traduzível em artigo legal e uma responsabilidade que se dilui no sistema. O ser humano é estruturalmente imperfeito (“pecado original” ou falha natural ou sistémica).

A legitimidade moral do Estado não consista em eliminar o sofrimento individual, mas em reconhecer publicamente à sua inevitabilidade, criar mecanismos de responsabilização claros, manter transparência e preservar e criar espaços onde o indivíduo seja ouvido e defendido como cidadão singular. Temos que honestamente reconhecer e admitir que a tensão entre indivíduo e instituição não é falha do sistema, mas consequência inevitável de vivermos em comunidade organizada.

Uma sociedade acordada debate-se hoje de maneira especial com a vigilância digital em massa, o uso de dados biométricos (batimentos cardíacos, reconhecimento facial, padrões emocionais), concentração de poder em Estados ou grandes corporações e IA aplicada à análise comportamental. Tudo isto, num tempo de tendências globalistas tende a ameaçar a integridade e a dignidade humana. Uma vez que a vigilância biométrica se torna normalizada, abre-se a porta a regimes potencialmente autoritários. Como exemplo temos as medidas da pandemia de COVID-19, implementada pelo SMS da ONU onde se pode observar que crises aceleram a adoção de tecnologias de vigilância, e que medidas temporárias podem tornar-se permanentes. Isto são cenários possíveis dado o Estado ter tendência para expandir controlo.

A instituição já tem capacidade de monitorizar emoções, antecipar dissidência e como se vê na discussão pública sobre populismo muitos governantes já classificam cidadãos por risco ideológico.

Com esta prática estão a violar o espaço interior da pessoa.

Síntese

O provérbio inicial expressa uma justiça emocional enquanto a democracia exige uma justiça institucional.

O dilema resolve-se quando se compreende que: A verdadeira “justiça popular” não é a vingança coletiva, mas a capacidade a adquirir pelo povo para reformar a ordem sem abdicar da ordem.

Assim, o “Robin comunitário”, o nosso Zé do Telhado, não pode ser um fora-da-lei coletivo, mas um povo politicamente maduro, capaz de transformar estruturas sem dissolver a convivência social. Enquanto este processo não se acelerar dá-se sustentabilidade ao domínio de grupos oligárquicos e à afirmação do autoritarismo dado os seus recursos hoje à mão são de ordem ainda não registada no decurso da história humana.

O risco vem da combinação entre tecnologia avançada, crises sociais, medo coletivo, e instituições sem limites claros

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo Social

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10809

(1) O povo renunciou à justiça pelas próprias mãos em favor da ordem do Estado. Aqui  há uma referência  à lógica do contrato social, desenvolvida por pensadores como Thomas Hobbes, John Locke e Jean-Jacques Rousseau. A ideia central é simples: para evitar o caos e a vingança privada, os indivíduos transferem ao Estado o poder de julgar e punir. Se o Estado assume o monopólio da justiça, então também deve assumir plenamente a responsabilidade pelas falhas dessa justiça.

 

 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O CUSTO DE SER FAMÍLIA


Na Alemanha ter Filhos está a tornar-se um Luxo

A decisão de ter filhos é profundamente pessoal, mas é também influenciada por fatores estruturais, económicos e ideológicos. Na Alemanha, um país conhecido pelo seu forte sistema de apoio social, observa-se um crescente sentimento de insegurança financeira que está a deixar as famílias em compasso de espera. De acordo com uma pesquisa do instituto Insa, a maioria dos alemães acredita que formar uma família se tornou um luxo inacessível, levantando questões urgentes sobre o futuro do país e as prioridades do Estado.

Segundo a Perceção da nova Geração "Não dá para ter Filhos"

Os números da pesquisa são um sinal de alerta claro. Para 55% dos inquiridos pelo Insa, a resposta é taxativa: já não se pode ter filhos devido aos custos envolvidos. Apenas 34% discordam desta afirmação, enquanto 11% se mostram indecisos.

Além de uma mentalidade hedonista transmitida socialmente, o principal motor deste pessimismo é o aumento generalizado do custo de vida. Para 81% dos que veem a família como impraticável, a culpa estaria na escalada de preços em áreas essenciais como habitação, alimentação e energia. Este sentimento atinge o seu pico na faixa etária mais propensa a planear uma família. Segundo o chefe da Insa, na faixa etária entre os 30 e os 49 anos, 60% dos inquiridos consideram que ter filhos é financeiramente inviável.

Um dos fatores ideológicos expressa-se certamente na discussão em torno do aborto. Uma iniciativa civil, constituída por organizações progressistas não governamentais e financiada com dinheiro público, tem pressionado a União Europeia para a criação de um fundo europeu destinado ao aborto. Esse fundo financiaria o acesso ao aborto por cidadãs europeias noutros países-membros, o que, na prática, poderia contornar as diferentes legislações nacionais em matéria de prazos e de aconselhamento obrigatório.

Quanto Custa sustentar uma Criança?

Esta perceção de "carestia" não é infundada e encontra eco nas estatísticas. Segundo dados do Departamento Federal de Estatística (Destatis), citados por várias análises, o custo médio para criar um filho na Alemanha até aos 18 anos ronda os 164.808 euros. Este valor traduz-se numa despesa mensal média de cerca de 763 euros, que varia consoante a idade, ou seja, 679 euros para crianças dos 0 aos 6 anos, 786 euros para dos 6 aos 12 e 953 euros para adolescentes até aos 18.

É importante notar que este cálculo inclui não só gastos diretos (roupa, comida, brinquedos), mas também os custos indiretos significativos, como a necessidade de uma habitação maior ou o aumento do consumo de energia.

Perante estes números, o Estado alemão disponibiliza um conjunto de apoios. O mais conhecido é o Kindergeld (abono de família), que em 2026 sofreu um ligeiro aumento, fixando-se nos 259 euros mensais por criança. Paralelamente, existe a dedução fiscal por filhos (Kinderfreibetrag), que em 2026 é de 6.828 euros anuais por criança, um mecanismo que tende a beneficiar mais as famílias com rendimentos mais elevados.

Apesar destes apoios, o sentimento de desânimo persiste. A discrepância entre o custo real (679 euros para um bebé) e o valor do abono (259 euros) é evidente, mesmo considerando que o Estado também subsidia fortemente outras áreas, como o custo das creches (Kita), que na Alemanha é um dos mais baixos da Europa, representando apenas 1% do rendimento familiar para famílias com dois filhos.

O Paradoxo do Investimento e o Fantasma do Envelhecimento

A Alemanha não é um país que poupe nas famílias. Dados do Instituto Alemão de Economia (DIW) mostram que o país gasta mais de 1.600 euros por habitante em benefícios familiares, um valor que é quase o dobro da média da União Europeia. Então, porque persiste a sensação de que "não dá"?

A resposta pode estar na convergência de várias crises como, a inflação pós-pandemia, a crise energética e o aumento das rendas, que corroem o poder de compra e tornam o planeamento familiar um exercício de alto risco. A confiança no futuro está em baixo, e a perceção é a de que o apoio estatal, embora existenta, não acompanha o ritmo galopante das despesas.

Este cenário é particularmente preocupante num país que enfrenta um acelerado envelhecimento populacional. Tradicionalmente, a imigração tem sido usada como um instrumento para mitigar este desequilíbrio demográfico. No entanto, como os dados da pesquisa Insa sugerem, confiar apenas na imigração é uma estratégica míope se o ambiente para as famílias nativas e imigrantes não for atraente.

Menos Armas, mais Apoio à Vida e menos Propagação ideológica

É neste contexto que surge a proposta de uma mudança de paradigma. Se o futuro da sociedade depende das novas gerações, o investimento nelas e na própria cultura deveria ser prioridade absoluta. Tal implica, para muitos, uma redefinição das prioridades orçamentais do Estado, nomeadamente o redireccionamento de fundos massivos, como os que são atualmente canalizados para o setor militar e de armamento, para políticas de apoio à família.

Entre as medidas concretas necessitadas de investigação que poderiam inverter a atual tendência de desânimo, destaca-se a criação de um salário mensal digno para as mães (ou pais) durante os primeiros quatro anos de vida da criança, idade determinante para a configuração da personalidade da criança em relação ao seu equilíbrio futuro. Uma medida desta natureza reconheceria, por um lado o trabalho invisível e essencial do cuidado na primeira infância,  por outro compensaria a perda de rendimento num período crítico, onde as despesas com o bebé são altas e, frequentemente, um dos progenitores reduz o seu horário de trabalho ou abandona o emprego e valorizaria a família no seu contributo fundamental para a sociedade, e não como um "problema" ou um "custo" individual.

A Alemanha tem demonstrado, através do seu investimento em creches e abonos, que entende a importância de apoiar as famílias. No entanto, a perceção pública, cristalizada na pesquisa da Insa, mostra que o atual pacote de medidas já não é suficiente, tendo muito embora em conta que o problema não é apenas de natureza económica, mas sobretudo de crise cultural.

O desafio para os governos não é apenas ajustar valores, mas sim criar uma nova arquitetura de suporte que ofereça segurança e estabilidade genuínas aos jovens casais. Se a preocupação com o futuro é real, ele começa a ser construído hoje, não em campos de batalha, mas no berço e na estabilidade financeira de quem ousa, ou gostaria de ousar, ser pai ou mãe.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10804

 

 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

REFLEXÃO SOBRE INFORMAÇÃO-GUERRA E HIPOCRISIA

 

A guerra é suja e suja quem se envolve nela seja directamete seja a nível de discurso! É com profunda tristeza que verifico como os média oficiais na Europa estão mais virados para a formatação da opinião pública do que para a criação de espíritos livres e críticos. A informação é confecionada de maneira a que o público desenvolva uma mente preconceituosa, incapaz de ver a realidade para além dos rótulos pré-estabelecidos, fixando-a apenas em categorias emocionais como se os povos não fossem capazes de mais.

A Estratégia da "Trégua Limitada"

Observemos o momento atual: fala-se agora em conversações para uma "trégua limitada" de paz, em vez de se procurar um verdadeiro acordo de paz duradouro. Quando Putin recusa, a narrativa dominante é simples afirmar que "o mau do Putin não quer". Mas será esta a leitura correta? Não. Ele não quer porque percebe que uma trégua limitada, neste contexto, apenas serviria para dar à UE e ao Reino Unido tempo e espaço para se rearmarem e se prepararem para uma guerra mais efetiva no período pós trégua.

Bruxelas e Londres mantêm o mesmo espírito de autojustificação moral: a crença inabalável de que são os "bons e honestos" e o outro lado é invariavelmente o agressor. Esta tática e postura impedem qualquer progresso real e tem sido fundamentada sistematicamente numa narrativa pós-fática.

O Interesse Camuflado da UE na Ucrânia

A verdade, que raramente é contada, é que a União Europeia sempre teve interesse em apossar-se da Ucrânia, seja economicamente, seja geopoliticamente. E tem feito tudo para que não se chegue a acordos sérios que possam estabilizar a região sem a sua hegemonia. O mais lamentável de tudo é que, devido a uma estratégia contínua de informação pós-fática, onde os factos são moldados para servir narrativas, o povo europeu foi de tal maneira emocionalizado que em geral perdeu a capacidade de discernimento.

Hoje, o cidadão comum pensa, de forma simplista, que o mal está do lado da Rússia e o bem do lado da Europa. No entanto, se formos ver as coisas com isenção, a Europa tem vivido melhor do que outros povos não apenas pelo seu trabalho e engenho, mas também e em grande medida, devido à sua hipocrisia nas relações internacionais.

A Hipocrisia e a Miopia coletiva

Há uma máxima que se aplica bem a esta realidade que assenta na lógica de certas ideologias dominantes, mesmo a mentira, se servir os propósitos do poder, passa a ser tratada como verdade (islão). A Europa, que tantas vezes critica o outro, adota esta prática de forma sistemática nas suas relações externas.

Sei que, ao expor esta visão, serei apelidado de ingénuo ou de "putinista" por aqueles que estão formatados numa única versão dos factos. Quanto a mim estou consciente da brutalidade russa, ocidental e ucraniana não podendo uma justificar a outra. Mas sinto que é um dever de consciência chamar a atenção para a necessidade de maior independência e dignidade de opinião. Não se trata de defender um lado contra o outro, mas sim de recusar a manipulação para que cada cidadão baseado em factos e não em interpretação unilateral deles possa formar uma opinião qualificada e não reduzida a uma gota da enxurrada.

A Necessidade de Memória Histórica

Para percebermos os interesses camuflados do Ocidente, bastaria recordar a guerra na antiga Jugoslávia. Ali, países da NATO intervieram com bombardeamentos que violaram tratados internacionais e o direito internacional, tudo em nome de uma intervenção "humanitária" que, na prática, serviu para reconfigurar a região de acordo com os interesses geopolíticos de quem bombardeava.

Acompanhei atentamente o desenvolvimento das relações internacionais antes da Reunificação da Alemanha. Cheguei a visitar a região como integrante de uma delegação de cidades-gémeas da RDA e da RFA, verificando o interesse acautelado de ambos os lados, numa altura em que a relação era entre o comunismo e o capitalismo.

Lembro-me bem da conferência de Putin  no Bundestag, que ilustra essa complexidade omitida e da vontade russa de ser integrada no bloco ocidental.

Com a queda da União Soviética, a União Europeia e os Estados Unidos agiram de forma a sabotar a Ucrânia.

Em vez de buscarem acordos diplomáticos, os EUA e a EU tinham como objetivo a expansão da NATO para Leste (através da "incardinação" da Ucrânia).

O comportamento foi sempre arrogante, a ponto de o Reino Unido e a UE terem sabotado os Acordos de Minsk e as tentativas de negociação na Turquia.

Sei que, numa lógica dominada por interesses ferozes e por defensores acérrimos desses mesmos interesses, tudo o que observei e aqui descrevo é imediatamente rotulado como "apologia da Rússia" mas respeito porque estou consciente de que cada um de nós, na sua opinião se encontra refém da informação que tem. Não defendo a Rússia nem a NATO porque sei que todos jogam com a miséria e a brutalidade na defesa de interesses. É um apelo ao pensamento crítico, à recusa da manipulação e à redescoberta de uma informação que sirva a verdade e não os interesses mesquinhos de quem nos governa e de oligarquias globais.

Após observar tudo isto, sou forçado a concluir que já não existe verdade nem interesse genuíno por ela. O que impera é a baixeza e os interesses mesquinhos, independentemente das barbaridades cometidas por todos os lados envolvidos: Rússia, EUA, União Europeia e NATO. No meio dos interesses envolvidos não há hipótese de se sair da situação de maneira honrada. Estamos todos enlameados e salpicados com sangue alheio!

Manipulação Pós-Fática e a Morte do Pensamento Crítico

A informação pós-fática é hoje tão contínua e envolvente que os espectadores ficam sujeitos a um condicionamento permanente. O resultado é o reinado absoluto do preconceito: a certeza de que "o nosso lado" tem sempre razão, sem que reste qualquer espaço para a análise ou a reflexão.

Quando ouvimos a opinião da grande maioria, não estamos perante pareceres próprios, mas sim opiniões meramente apropriadas, interiorizadas sem consciência do real. As pessoas reagem emocionalmente, como que a vomitar aquilo que engoliram sem digerir, repetindo slogans e narrativas pré-fabricadas como se fossem convicções profundas.

Já não há pensamento, há apenas regurgitação. Já não há debate, há apenas afirmação automática de verdades inconscientemente impostas. Esta é a tragédia da nossa era: uma sociedade que se julga informada, mas que apenas repete, como um eco, aquilo que lhe foi soprado.

Quem quer proteger a Europa tem de pôr fim a esta política de escalada e apostar finalmente na diplomacia bem-intencionada, na proteção das fronteiras e na responsabilidade nacional.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10785

 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

MUTILAÇÃO GENITAL FEMININA


O Martírio silencioso e a Urgência de ver e atuar 

 

Um relógio humano marca, a cada onze segundos, uma mutilação genital feminina no mundo. Este não é um dado estatístico distante mas sim o ritmo de um sofrimento profundo que tece silêncios em pleno século XXI. Quanta mulher destruída e quantos traumas como marcas da vida. Imagine-se a barbaridade que os outros animais na qualidade de irracionais  não fazem? Enquanto Estados se concentram em indicadores económicos e conflitos geopolíticos, uma violação íntima e brutal contra milhões de mulheres e meninas persiste, muitas vezes à sombra de tradições ou da indiferença. Quando chegará o dia em que o Homem e a política se concentrem em curar as feridas humanas?

Em sociedades de matriz predominantemente masculina, os problemas existenciais das mulheres são frequentemente relegados para as franjas da discussão pública. A mutilação genital feminina (MGF) é talvez o exemplo mais cristalino desta cegueira seletiva. É imperativo que este tema saia da zona do tabu e entre na esfera da ação coletiva e da consciência emocional. Tabus silenciados endurecem as vidas.

 

A Anatomia de um Sofrimento oculto

As meninas, muitas vezes antes dos cinco anos, têm os seus órgãos genitais externos amputados, sem anestesia, em condições barbáries e precárias. A escala da violência varia: do corte do clítoris à extração total dos órgãos e à subsequente costura da abertura vaginal (infibulação). Isto implica um procedimento com consequências devastadoras para toda a vida...

Este crime não conhece fronteiras. Trata-se de um drama transnacional: famílias que viajam de férias para a Somália, Eritreia ou Djibuti... e regressam com as suas filhas mutiladas. Em 2022, estimava-se que 15.000 meninas na Alemanha estavam sob ameaça iminente de sofrer esta violência...

 

Ver a Pessoa para além do Número

Um pouco de humanismo  exige que ouçamos os detalhes que os números silenciam, como testemunhou Ibrahim Ishaq Hussein em Kassel: em família,  os rapazes crescem a normalizar o sofrimento das mulheres, pois acham normal que mães, irmãs e avós demorem tempos intermináveis na casa de banho e vivam com dores constantes...

 

Entre a Tradição e a Lei: O Caminho para a Proteção

Contudo, o respeito cultural não pode ser uma capa para a barbárie... Se uma menina de cinco anos com mutilação genital chegar a um hospital, o silêncio dos profissionais não pode ser uma opção. Aqui, os professores também deveriam estar atentos, atendendo a que há cada vez mais pessoas que vêm de culturas em que essas práticas são comuns.

Felizmente, há luz na escuridão. Em Kassel, centros como a Mädchenhaus e o departamento de saúde da cidade trabalham há anos contra este ritual, oferecendo proteção e aconselhamento especializado. A lei alemã deu um passo crucial: desde 2013, o §226a do Código Penal pune a mutilação genital feminina com, no mínimo, um ano de prisão, classificando-a juridicamente como agressão física grave...

 

O Desafio para Portugal e para a Europa é não fechar os Olhos

A pergunta que se impõe é: As autoridades portuguesas, e europeias em geral, estarão preparadas para lidar com esta questão? Fazer vista grossa é cumplicidade. Fechar os olhos na Europa é fomentar a barbárie dentro das nossas fronteiras, sob o falso pretexto do relativismo cultural...

Proteger os mais fracos  e entre eles, as crianças, é um imperativo civilizacional universal que exige: legislação clara e aplicada; formação especializada para profissionais; apoio e proteção às meninas em risco e às suas famílias e campanhas de sensibilização dentro das comunidades...

Urge que este tema saia da sombra e entre na luz da ação política, do debate público e da proteção humana...

António da Cunha Duarte Justo

Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10766