quinta-feira, 27 de agosto de 2026

NÃO ESTAMOS PREPARADOS PARA AS MUDANÇAS TURBULENTAS QUE A IA TRAZ

 Will Gates, otimista de sempre, mostra-se preocupado. Para ele, a IA não é só inovação, é uma "transição turbulentíssima" que vai deixar rastos indeléveis na história.

O principal aviso é que “não estamos preparados”. Enquanto o mundo acelera por interesses geopolíticos e económicos, os mais frágeis vão pagar a factura porque os jovens ficarão sem vagas de entrada e os trabalhadores substituídos por robôs mais baratos.

A solução que ele propõe é polémica e direta: taxar os robôs e os tokens de IA, porque o sistema atual incentiva as empresas a despedir pessoas para deduzir máquinas nos impostos.

Isto vai mudar tudo. Ou será "o maior equalizador" ou "a pior fonte de injustiça". O que é certo é que não podemos ficar indiferentes.

António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11367
ORCID:
https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

 

 Pode ser uma imagem de uma ou mais pessoas

HEGEL ENTRE A RAZÃO SISTEMÁTICA E O MISTÉRIO DO REAL

 O legado de um pensador em processo para além do “ou… ou”

Georg Wilhelm Friedrich Hegel nasceu há 251 anos, a 27 de agosto de 1770, em Estugarda, e a sua sombra e brilho continua a ser um luzeiro na filosofia contemporânea. Mais do que celebrar um monumento intelectual, importa reconhecer nele um pensador que fez da contradição o motor do pensamento, lição que permanece extraordinariamente viva.

Hegel ensinou-nos que "tudo o que é racional é real e tudo o que é real é racional", fórmula tantas vezes mal compreendida como defesa do status quo, quando na verdade constitui um chamamento à inteligibilidade do mundo. O seu grande contributo foi resgatar a filosofia do pensamento binário do "ou… ou" para a elevar à tensão fecunda do "e… e": a realidade não se esgota em opções excludentes, mas revela-se no movimento dialético que inclui a contradição.

O pensamento hegeliano é, antes de mais, um pensamento em processo. Esta intuição, que a verdade não é uma posse, mas uma caminhada, repercute profundamente a espiritualidade cristã, nomeadamente na sua compreensão trinitária da relação como categoria última do real. O Professor Dr. Joaquim Teixeira, com a lucidez que lhe é própria, aponta, contudo, para o calcanhar de Aquiles hegeliano, porque ao tematizar o Espírito fora do elemento da consciência, Hegel teria traído a fenomenologia pela lógica, sacrificando a pessoa singular, descontínua e irredutível, ao altar do Sistema.

Uma crítica à ontologia grega que aprisiona o divino

Esta tensão leva-me a uma reflexão que gostaria de acrescentar. A ontologia hegeliana, na sua génese, permanece presa a uma arquitetura filosófica de raiz grega, nomeadamente à herança de Parménides e de Aristóteles, que privilegia o ser como presença, como identidade, como fundamento estável. O "Sistema" hegeliano é a apoteose dessa herança: tudo deve encontrar o seu lugar, tudo deve ser reconduzido à coerência da Ideia.

Mas será esta a única forma de arquitectar o pensamento? Haverá modos de abordagem à realidade que escapem ao primado da identidade e à violência da síntese?

Creio que sim. Há uma tradição, que poderíamos chamar, com cautela, "mística", que nos ensina a habitar a realidade de modo distinto. Não se trata de abandonar a razão, mas de reconhecer que o real nos ultrapassa, que há um excesso que o conceito não captura, que a verdade se manifesta tanto na negação que abre (apophasis) como na afirmação que delimita (cataphasis).

O elemento místico, que frequentemente associamos ao "feminino", não no sentido biológico, mas simbólico (necessário na nossa matriz antropológica que deveria ser uma matriz antropoginelógica): abertura, acolhimento, relação, não-dominação, oferece-nos uma chave hermenêutica mais universal do que a dialéctica hegeliana o faria supor. A mística não se opõe à razão; antes, recorda-lhe os seus limites. Onde Hegel constrói pirâmides conceptuais, a mística reside nas grutas de silêncio. Onde Hegel procura a totalidade, a mística celebra o fragmento que remete para o Todo sem o pretender conter.

Pensemos em autores como Pseudo-Dionísio, Mestre Eckhart, ou mesmo, no nosso tempo, Eugen Drewermann, Raimon Panikkar, Simone Weil (1), todos eles nos lembram que o acesso ao real se faz também por uma epistemologia do não-saber, por uma razão que se abre à transcendência sem a reduzir a conceito. Esta tradição, infelizmente, permaneceu marginal no grande edifício hegeliano, precisamente porque nele o Espírito é pensado fora da consciência viva, como se a verdade se realizasse nas entrelinhas da história, independentemente da experiência concreta das pessoas.

Hegel deixa a necessidade de uma razão encarnada

Não pretendo, com isto, rejeitar Hegel. Seria ingratidão e cegueira. Dele aprendemos que o pensamento é histórico, que a verdade se faz no tempo, que a contradição é fecunda, que a realidade é a-perspectiva e , nesse sentido, passível de ser sempre observada de um ponto de vista renovado. O que proponho é uma releitura: uma apropriação crítica que saiba integrar a mística como dimensão indispensável do pensar.

O Professor Joaquim Teixeira tem razão ao afirmar que Hegel "não soube pensar a pessoa como descontínua, singular e única". Talvez lhe tenha faltado precisamente essa sensibilidade mística que reconhece no outro uma alteridade inassimilável, um rosto que não cabe na totalidade do conceito. Talvez o seu sistema seja demasiado masculino, no sentido de arquitectónico, vertical, de domínio conceptual e demasiado pouco feminino, pouco religioso no sentido de acolhedor, horizontal, relacional.

Husserl, ao colocar no seu gabinete o letreiro "Aqui não entra a Dialéctica", não negava a importância de Hegel; antes, reivindicava um espaço para a experiência vivida, para a consciência intencional, para aquilo que escapa à engrenagem conceptual. É esse espaço que também nós devemos preservar.

O verdadeiro é também o não-dito

Celebrar Hegel aos 251 anos é reconhecer que o seu pensamento, como tudo o que é vivo, continua em processo. A dialéctica não se esgota na obra do mestre de Estugarda; ela exige ser continuada, repensada, talvez mesmo traída para ser fiel ao seu espírito mais profundo.

O "verdadeiro é o todo", mas o todo só o é se incluir também o que não se deixa dizer, o que permanece misterioso, o que só se revela na relação e no silêncio. A filosofia futura terá de aprender a dialogar com a mística, a integrar o elemento feminino na arquitectura do pensar, a reconhecer que a realidade tem tantos rostos quantos os humanos que a contemplam e talvez ainda mais.

Nesse sentido, Hegel continua a ser um companheiro indispensável, desde que saibamos ler nele também o que ele não disse, ou não pôde dizer. A sua grandeza está em nos ter aberto o caminho do processo; a nossa responsabilidade está em continuá-lo, com a humildade de quem sabe que a verdade não se possui, mas se procura e que a procura, ela mesma, já é parte da verdade.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo © : https://antonio-justo.eu/?p=11359
ORCID:
https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

(1) Para uma aproximação à mística e ao "elemento feminino" na filosofia, é recomendável ainda:
Simone de Beauvoir - O Segundo Sexo (para uma crítica filosófica à tradição patriarcal)
Luce Irigaray - Ética da Diferença Sexual
Julia Kristeva - Histórias de Amor (sobre o amor e o sujeito na mística)
Edith Stein - Ser Finito e Ser Eterno (fenomenologia e mística)
Eugen Drewermann - Alles ist Gnade (Tudo é Graça) (2025)

 Outro artigo: 250° ANIVERSÁRIO DO GRANDE FILÓSOFO HEGEL  https://antonio-justo.eu/?p=6073



sábado, 22 de agosto de 2026

A DESFOLHADA NA BARROCA E A PRÁTICA DO TERÇO

 Cantam vivas, vivamente,
As mulheres na Barroca,
Entre o milho reluzente,
Onde a lua o campo toca.

Vêm rapazes de outras bandas,
Serandeiros no serão,
Trazem fúrias, trazem danças,
Cobiçando algum coração.

E na força do gigo cheio,
Que se carrega ao canastro,
Grita a moça sem receio,
Sob o brilho de algum astro.

Casar cedo… dor (1) ou espanto,
Cantam quadras sem ter medo,
Pois a vida tem mais manto,
Se se acorda este brinquedo.

Cai a noite, cai o dia,
Senta a mesa a santidade (2);
Onde a conta da agonia
Vira prece de verdade.

Beijo dado, bênção posta,
Toda a mágoa ali fenece…
Deus segura a corda oposta,
E a Várzea adormece.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo © :  https://antonio-justo.eu/?p=11336
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

(1) Alusão às cantigas talvez pedagógicas, marotas nas desfolhadas à volta das espigas do milho: “Minha mãe casai-me cedo, que me dói a passarinha! – Ó filha coç’à c’o dedo, que eu também cocei a minha!” Ao descascar o milho, aquele que encontrava uma espiga de milho-rei tinha a sorte de ir à roda abraçar e beijar todos.
(2) Referência ao costume da reza do terço, como momento de entrega e paz à noite para encerrar o dia.
Barroca é uma quinta da freguesia de Várzea.

 

A INSTRUMENTALIZAÇÃO DA POBREZA E A CEGUEIRA SELECTIVA

 

A Pobreza não é Moeda Política dos de Ontem nem dos de Hoje

 

Observa-se, no debate público português a tendência preocupante da utilização da pobreza do passado como arma de arremesso político. Fotografias de miséria de outrora são ciclicamente recuperadas para, por contraste, glorificar o presente ou desacreditar o regime anterior. Esta estratégia, no entanto, peca por uma omissão gritante que é o esquecimento dos pobres de hoje.

A lógica é perversa. Ao fixar o olhar na fome de antigamente, desvia-se a atenção da fome que ainda existe, dos sem-abrigo que pernoitam nas nossas cidades, das famílias que recorrem aos bancos alimentares. Será que a crítica ao passado mata a fome do presente? Certamente que não porque os que fazem uso disso não são os pobres, mas sim os que se aproveitam do atual sistema. Trata-se, pura e simplesmente, de instrumentalização política. Falar mal do ontem serve para branquear as máculas do hoje e justificar os beneficiários do sistema atual, criando uma cortina de fumaça que impede a análise crítica da realidade contemporânea.

Esta abordagem revela uma pobreza intelectual e moral. Ao reduzir a História a um jogo de "nós contra eles", esquece-se que tanto ontem como hoje o mundo serve as elites. A diferença reside na forma, não na essência da exploração ou do esquecimento. Enquanto os partidários de um regime apontam o dedo ao adversário, os verdadeiros problemas estruturais, como seja a precariedade laboral, o custo de vida, a emigração qualificada, permanecem na sombra. É necessário um exercício de honestidade que consta em reconhecer as luzes e as sombras de todos os ciclos políticos, sem cair na armadilha de discutir quem foi pior, mas sim como podemos melhorar a vida de todos hoje.

 

A Armadilha da Memória e a Necessidade de Espírito crítico

A repetição exaustiva das mazelas do passado que se observa em narrativas partidárias tem um objetivo claro: criar uma narrativa binária que divide o país entre "bons" e "maus", servindo interesses partidários legítimos, mas não o povo. Ao transformar a pobreza num cartão de visita político, distrai-se a população do naco de pão que recebe dos senhores de ontem e de hoje. A intenção subjacente a estas fotos e discursos é fazer com que nos distraiamos do mal presente, aquele que deveria realmente importar-nos e de que seria oportuno falar.

Custa ver tantas referências aos pobres de antigamente e tão poucas referências aos pobres de hoje. A realidade mostra que, apesar do crescimento económico, a pobreza persistiu e adaptou-se. Os bairros de barracas de Lisboa ou Almada são a prova viva de que a fotografia social só difere nas pessoas, não na exclusão. No entanto, a energia necessária para observar a própria situação e procurar mudá-la é desviada para debates estéreis sobre a terra de cada um ou a qualidade de vida no Alentejo de 1960 ou imagens da emigração.

É importantíssimo que as pessoas acordem para esta manipulação. Comparações críticas são positivas se servirem o povo, mas são nefastas se estiverem ao serviço de uma opção partidária. Precisamos de mais espíritos críticos em serviço de toda a nação e menos soldados de causas alheias, que marcham ao som de interesses que não são os seus. A pobreza mental, que nos torna repetidores de slogans, é o maior obstáculo à mudança.

Precisa-se de valentia, como se pôde observar nos emigrantes que para o serem tiveram a coragem de quererem melhorar a vida; também para melhorar o país, é preciso ter a coragem de ver para além da propaganda e exigir políticas para os pobres de hoje, não apenas lamentos pelos pobres de ontem.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo : https://antonio-justo.eu/?p=11339
ORCID:
https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

O INFERNO, A LINGUAGEM DA ETERNIDADE E A ESPERANÇA DA RECONCILIAÇÃO UNIVERSAL

 

Entre a fidelidade às Escrituras, a responsabilidade hermenêutica e o primado do amor

 

... A pergunta decisiva não deveria ser simplesmente: «Existe o inferno?», mas antes: que realidade designam as diferentes palavras que as traduções acabaram por reunir sob a única palavra “inferno”? E, mais profundamente ainda: como podem as afirmações bíblicas acerca do juízo ser compreendidas à luz do centro da revelação cristã que é Jesus Cristo crucificado e ressuscitado, no qual Deus reconcilia o mundo consigo?...

O Sheol hebraico designa, sobretudo nas camadas mais antigas do Antigo Testamento, a morada dos mortos...

É significativo que a própria tradição católica reconheça esta distinção: ao explicar a expressão do Credo segundo a qual Cristo «desceu aos infernos», o Catecismo identifica esses «infernos» com o Sheol hebraico e o Hades grego, isto é, a morada dos mortos e não com o inferno dos condenados... Confessamos que entrou verdadeiramente na morte humana e que nenhuma profundidade da existência permaneceu exterior à ação salvadora de Deus.

A antiga imagem cristã da “descensus ad ínferos” possui, portanto, uma extraordinária força teológica: Cristo procura o ser humano precisamente onde este parece definitivamente perdido...

Jesus emprega hipérbole, parábola, imagens apocalípticas e linguagem simbólica. O fogo pode representar julgamento, destruição, purificação, manifestação da verdade ou consumação. O contexto e que deve decidir o seu significado...

No centro da discussão encontra-se o adjetivo grego αἰώνιος (aiōnios), particularmente importante em Mateus 25,46: “E irão estes para o castigo aiōnios e os justos para a vida aiōnios.”... As palavras adquirem significado dentro das frases, dos textos e dos universos culturais. A questão de Mateus 25,46 não pode, portanto, ser resolvida apenas por etimologia... No Evangelho de João, a vida eterna começa já na comunhão com Deus. É uma qualidade de existência antes de ser simplesmente uma quantidade infinita de tempo...

Para o cristianismo, Deus não é uma hipótese metafísica acerca da qual Jesus nos fornece posteriormente algumas informações. Deus revela-se em Jesus Cristo e por isso, toda a escatologia cristã deve ser cristológica... Paulo escreve que aprouve a Deus «reconciliar consigo todas as coisas» por Cristo, «pacificando pelo sangue da sua cruz tanto as coisas da terra como as dos céus» (Cl 1,19-20).

Em 1 Coríntios, depois de apresentar Cristo como o novo Adão, Paulo conduz a história da salvação para uma extraordinária conclusão: “para que Deus seja tudo em todos” (1 Cor 15,28)... E a carta aos Romanos desenvolve uma impressionante simetria entre Adão e Cristo: se a humanidade é atingida pela solidariedade do pecado, muito mais radical é a graça manifestada no novo Adão.

É impossível construir honestamente uma teologia do destino humano considerando apenas os textos de julgamento e silenciando estes textos de universalidade... Existem textos de advertência radical e existem textos de esperança universal. Uma teologia madura não mutila nenhum deles...

Uma intuição, permanece teologicamente provocadora. Se Deus é realmente Deus, poderá o mal possuir a última palavra sobre uma parte da criação? Se Cristo veio vencer o pecado e a morte, será a vitória escatológica de Cristo apenas parcial? Se Deus é amor, em que sentido deve ser compreendida a justiça divina?...

O universalismo cristão não pode significar que o mal seja irrelevante... A reconciliação exige justiça, mas a justiça de Deus não necessita de ser concebida segundo a lógica humana da vingança.

Na cruz, Deus não derrota os inimigos, tornando-se semelhante a eles. Cristo vence o ódio suportando-o sem devolver ódio; responde à violência sem reproduzir a violência; entra na morte e transforma-a a partir de dentro.

A cruz é, portanto, a crítica cristã definitiva de qualquer representação de Deus como vingador...

A objeção clássica ao universalismo é a liberdade. Deus oferece amor, mas o ser humano pode recusá-lo. Se Deus obrigasse finalmente todos a aceitá-lo, não destruiria a liberdade que ele próprio criou?...

A tradição cristã oferece outra possibilidade. Quanto mais alguém conhece a verdade e ama o bem, mais livre se torna. Mas deste modo, Deus não é uma opção arbitrária entre outras, porque se Deus é o Bem absoluto, a Verdade e o fundamento do nosso ser, então afastar-se definitivamente de Deus não seria a perfeição da liberdade, mas a sua tragédia.

O pecado é entendido precisamente como liberdade ferida porque escolhemos contra nós próprios... O medo pode produzir submissão, não pode produzir amor, como refere João: «no amor não há temor; o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor supõe castigo» (1 Jo 4,18)...

Uma criança que aprende que Deus observa os seus pensamentos para puni-la pode tornar-se adulta e continuar interiormente diante de um tribunal. A imagem de Deus converte-se então numa voz interior acusadora e pode atravessar gerações... a maneira como falamos de Deus entra na estrutura psíquica das pessoas e por isso, a linguagem nunca é inocente. Quem prega possui uma responsabilidade enorme...

Também merece atenção a linguagem de Deus como Pai; o aramaico Abba significa linguisticamente «pai» e exprime relação filial e proximidade... Deus transcende masculino e feminino e ambos pertencem à criação.

Além disso, a própria Bíblia utiliza imagens maternas para falar de Deus: Deus consola como uma mãe (Is 66,13); não esquece o filho do seu ventre (Is 49,15); Jesus compara o seu desejo de reunir Jerusalém ao de uma ave que recolhe os pintainhos debaixo das asas (Mt 23,37)... Deus é chamado Pai não porque seja homem, mas porque é origem, relação, dom e amor e até a palavra «Pai» permanece uma analogia. Deus é sempre maior do que os nossos nomes para Deus e o nosso falar sobre Deus é sempre de caracter humano...

Na tradição dos evangelhos, misericórdia não significa relativismo moral. Significa que a verdade sobre uma pessoa nunca se reduz ao seu pecado.

«Não julgueis, para não serdes julgados» (Mt 7,1) não elimina o discernimento moral. Elimina a pretensão de ocuparmos o lugar último de Deus perante outra consciência...

A doutrina do inferno deve recordar ao ser humano que Deus é o juiz, não podendo declarar quem estaria condenado...

A doutrina oficial da Igreja Católica continua a afirmar a existência e a eternidade do inferno, entendido fundamentalmente como “separação eterna de Deus”. Afirma igualmente que Deus não predestina ninguém ao inferno e relaciona a perdição com a recusa livre e definitiva da misericórdia... O cristão não necessita de afirmar dogmaticamente: “Eu sei que todos serão salvos.” E também não tem qualquer obrigação espiritual de desejar que alguém seja condenado...

O universalismo dogmático afirmaria possuir conhecimento antecipado do destino final de todas as criaturas. A esperança universal entrega esse destino ao mistério de Deus, mas atreve-se a esperar que a misericórdia consiga aquilo que nós julgamos impossível.

A esperança não elimina o julgamento, porque espera que o julgamento pertença à misericórdia.

Não elimina o inferno, mas espera que o inferno não tenha a última palavra. Não elimina a liberdade, esperando que a graça possa finalmente libertar toda a liberdade escravizada. Também não chama bem ao mal, na esperança que Deus vença o mal sem perder eternamente aquele que o praticou...

A frase mais audaciosa de toda a escatologia cristã permanece certamente a de Paulo: “Para que Deus seja tudo em todos.” (1 Cor 15,28) ... Paulo na carta aos Colossenses emprega linguagem semelhante quando fala da reconciliação de «todas as coisas» em Cristo. Isto não permite resolver mecanicamente todos os textos bíblicos de julgamento, mas impede-nos de transformar a condenação numa espécie de segundo princípio eterno ao lado da redenção... Paulo diz que o último inimigo a ser destruído é precisamente a morte (1 Cor 15,26) ... Se existisse eternamente uma região da criação definitivamente entregue à morte, ao ódio e ao desespero, em que sentido poderia dizer-se que “a morte foi destruída” e que Deus é «tudo em todos»?...

Uma pastoral contemporânea responsável não necessita de apagar a palavra inferno; o que necessita é de purificá-la... Não existe região humana tão escura que Cristo não possa atravessar...

A questão última é cristológica. O Deus dos cristãos possui o rosto daquele que come com pecadores, toca leprosos, procura a ovelha perdida, conta a parábola do pai que corre ao encontro do filho antes que este consiga terminar a sua confissão, perdoa os inimigos e entra na própria morte para a vencer.

Isto não torna o pecado pequeno e torna a graça imensa. Uma Igreja que esquece o juízo transforma a graça em banalidade. Mas uma Igreja que esquece a graça transforma Deus num tirano. A mensagem cristã encontra-se para além dessas duas deformações. O juízo significa que a nossa vida importa eternamente e a misericórdia significa que o nosso pecado não é maior do que Deus.

Por isso, talvez a pergunta pastoral mais cristã não seja: “Quem irá para o inferno?” Mais adequada seria: “Até onde está Deus disposto a ir para encontrar aquilo que se perdeu?”... A última palavra do Evangelho não é inferno, é Cristo e Cristo não é condenação, mas sim ressurreição... A fé, quando finalmente se liberta do desejo humano de condenar, descobre que não lhe compete estabelecer os limites da misericórdia divina, mas sim anunciá-la, vivê-la e esperá-la...

António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo © : https://antonio-justo.eu/?p=11330
ORCID:
https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

O DILEMA INSOLÚVEL DO ESTADO DE DIREITO PERANTE ISLAMISTAS

                                    Entre negócio e desorientação moral e jurídica
 
O caso do pagamento de 6.000 euros a islamistas perigosos para que abandonem a Alemanha e regressem à Síria não é, como se pode apressar a concluir, um mero sintoma de desorientação governamental ou um ato de pura insensibilidade moral...
Manter um suspeito de terrorismo sob vigilância 24 horas por dia, sete dias por semana, com equipas dedicadas, escutas telefónicas, análises de inteligência e, posteriormente, um processo judicial que pode arrastar-se por anos, custa facilmente centenas de milhares de euros por indivíduo, para não falar do desgaste psicológico dos agentes envolvidos e do risco permanente de falha humana.
Esta opção ganha contornos ainda mais nítidos quando se olha para os números que o Estado alemão tem pela frente. Só na Alemanha, segundo o Serviço Federal de Polícia Criminal (BKA), as autoridades mantêm sob vigilância apertada cerca de 410 indivíduos islamistas considerados um risco iminente (dados de julho de 2026). Mas este número é apenas a ponta do iceberg: estima-se que todo o espectro islamista no país abranja aproximadamente 28.645 pessoas, repartidas entre o Salafismo (11.200), o movimento Millî Görüş (10.000), a Irmandade Muçulmana / Comunidade Muçulmana Alemã (1.450) e o Hezbollah (1.250), para além de outras estruturas mais difusas ou indivíduos não enquadrados nestes grupos. Perante um universo tão vasto, alocar dezenas de agentes e recursos judiciais a cada um dos 410 casos mais críticos revela-se um pesadelo logístico e financeiro.
Pagar 6.000 euros para que o indivíduo saia voluntariamente do país não é, neste contexto, uma recompensa pelo crime; é um custo que aposta na redução imediata de um perigo concreto em solo alemão, libertando recursos para vigiar os restantes 28.235 que permanecem no meio islamista...
Porém, reduzir a segurança pública a uma equação contabilística é um atentado à alma do Estado de Direito. Quando o cidadão comum, que acorda cedo, trabalha honestamente e desconta todos os meses para o sistema, vê um criminoso perigoso receber dinheiro público para "voltar para casa", a mensagem subliminar é devastadora porque o crime compensa, e a justiça é uma mercadoria que se compra e vende.
Os números também pesam neste prato da balança, mas de forma diferente. Se o Estado já tem 410 indivíduos sob vigilância e cerca de 28.645 no universo islamista, então esta medida de pagamento pode ser interpretada não como uma solução, mas como um sintoma de que as políticas de prevenção e integração falharam redondamente. Está-se a pagar para gerir a ponta do iceberg, enquanto a base permanece intacta e, em muitos casos, a crescer. O argumento de que este pagamento poderá financiar um novo passaporte e o regresso do indivíduo à Europa não é um alarmismo vazio, mas sim um risco geopolítico real. Além disso, esta política cria um precedente perigoso, comunicando assim aos extremistas que o Estado alemão está disposto a negociar com aqueles que o ameaçam, fragilizando a dissuasão e alimentando a narrativa de que "o Ocidente está em decadência". Quando a solução para o extremismo é, afinal, um bilhete de avião e um envelope com dinheiro, a política de asilo e de integração parece perder o norte e render-se ao óbvio...
O Estado deve ser firme nos seus princípios, e não pode dar a impressão de que se rende à chantagem ou de que trata os criminosos com mais clemência do que trata os cidadãos cumpridores... Esta medida só se torna aceitável se for tratada como exceção absoluta, devidamente fundamentada por um tribunal, com a imposição de sanções acessórias (como a proibição vitalícia de regresso ao espaço Schengen) e com a obrigação de o Estado investir as poupanças geradas em programas robustos de desradicalização nas comunidades de origem, sobretudo nos 11.200 salafistas e nos restantes grupos que constituem o viveiro do extremismo...
Os números do BKA não mentem: gerir 410 casos de alto risco no meio de um universo de 28.645 é uma tarefa hercúlea, e qualquer governante, por mais fiel a princípios que seja, acaba por ser confrontado com escolhas dolorosas... O verdadeiro fracasso do Estado não é pagar 6.000 euros a um criminoso, mas sim fazê-lo sem explicar ao cidadão honesto que este dinheiro é uma aposta desesperada na sua própria segurança imediata e não um prémio pelo mau comportamento e, sobretudo, é fazê-lo sem um plano credível para lidar com os restantes 28.645 que permanecem...
António da Cunha Duarte Justo
Artigo completo em Pegadas do Tempo © : https://antonio-justo.eu/?p=11325

sábado, 15 de agosto de 2026

SENHORA DA ASSUNÇÃO


Símbolo religioso e existencial da dignidade da mulher

 

A solenidade de Nossa Senhora da Assunção encerra, na simplicidade da devoção popular, uma profunda teologia do ser humano, do corpo, da mulher e do destino último da criação. Ao celebrar Maria elevada em corpo e alma à glória celeste, o cristianismo não contempla apenas um privilégio concedido a uma mulher singular: contempla antecipadamente aquilo a que toda a humanidade é chamada.

Maria assunta ao Céu é ícone da humanidade redimida. Nela, a esperança da ressurreição encontra já uma realização antecipada. A matéria não é desprezada nem o corpo abandonado: ambos estão destinados à transfiguração. Esta afirmação adquire especial significado numa história em que o corpo, particularmente o corpo feminino, foi tantas vezes reduzido a objeto, mercadoria ou instrumento de poder.

A Assunção proclama precisamente o contrário: o corpo pertence à dignidade da pessoa e está chamado à glória.

A tradição cristã viu também em Maria a nova Eva. Assim como Cristo, novo Adão, restaura a humanidade ferida, Maria responde à graça com o seu fiat: «Faça-se em mim segundo a tua palavra». Esse “sim” não representa submissão servil, mas uma liberdade que escuta, discerne e se entrega confiadamente a Deus. O fiat de Nazaré acompanha-a até ao Calvário: a mulher que disse “sim” é também a mulher que permanece de pé junto à cruz.

Maria não é, portanto, símbolo de passividade. No Magnificat manifesta-se como mulher profética: proclama um Deus que derruba os poderosos dos seus tronos, exalta os humildes e enche de bens os famintos. A ternura mariana não exclui a força; a humildade não significa ausência de consciência nem de coragem.

É também neste horizonte que a devoção mariana adquire uma importância particular para a própria Igreja. A estrutura eclesial desenvolveu-se historicamente com uma configuração predominantemente masculina. A dimensão mariana recorda-lhe permanentemente que a Igreja não se reduz à instituição, à autoridade, à organização e ao governo. Antes de ensinar, a Igreja deve escutar; antes de governar, servir; antes de agir, acolher.

A devoção a Maria exprime, assim, uma dimensão feminina indispensável à experiência cristã, não em oposição ao masculino, mas em igualdade e como complementaridade que o humaniza e completa. Qualidades como acolhimento, cuidado, relação, interioridade, fecundidade e misericórdia não pertencem exclusivamente às mulheres, como força e autoridade não pertencem exclusivamente aos homens. Contudo, o símbolo mariano recorda à Igreja dimensões que uma estrutura predominantemente masculina corre sempre o risco de secundarizar.

Maria introduz no coração da Igreja não a lógica do poder, mas a lógica da fecundidade: não conquista, mas acolhe; não domina, mas gera; não se impõe, mas oferece-se. Maria não ocupa o centro, abre espaço para que Outro possa nascer.

Numa cultura que continua a debater e, infelizmente, a violar a dignidade feminina, a Assunção constitui um poderoso contra-símbolo. No imaginário cristão, a criatura humana mais exaltada depois de Cristo não é um imperador, um guerreiro, um filósofo ou um homem poderoso, mas sim uma mulher simples de Nazaré.

Esta realidade deveria interpelar também a Igreja. A veneração de Maria não pode transformar-se numa compensação simbólica para uma insuficiente valorização das mulheres concretas. Seria contraditório coroar Maria nos altares e diminuir as mulheres na vida; cantar a dignidade da Mãe de Deus e não reconhecer suficientemente a voz, a inteligência, os carismas e a responsabilidade das mulheres na Igreja e na sociedade.

A verdadeira devoção mariana conduz necessariamente ao respeito pela mulher concreta.

Quem honra Maria deve reconhecer a dignidade da mãe e da filha, da jovem e da idosa, da intelectual e da trabalhadora, da mulher pobre, migrante, esquecida, explorada ou violentada. Não porque cada mulher seja uma reprodução de Maria, mas porque toda a pessoa possui uma dignidade que nenhuma estrutura social, política, económica ou religiosa tem o direito de diminuir.

Maria, porém, não substitui Cristo nem constitui uma divindade feminina ao lado de Deus (a palavra Deus Pai no original aramaico não é masculina,   inclui a feminidade e a masculinidade). Toda a sua grandeza remete para Ele: «A minha alma glorifica o Senhor». Uma mariologia madura preserva simultaneamente a centralidade absoluta de Cristo e a extraordinária dignidade concedida à sua Mãe. Cristo é o Redentor; Maria é a criatura redimida em plenitude e antecipação daquilo que esperamos ser.

A Assunção não convida a fugir da Terra olhando simplesmente para o Céu. Pelo contrário: transforma a esperança futura numa responsabilidade presente. Se o corpo está destinado à glória, deve ser respeitado agora. Se os humildes serão exaltados, a sua dignidade deve ser defendida agora. Se Deus glorifica aquilo que o mundo despreza, o cristão não pode conformar-se com estruturas que humilham.

Não basta colocar coroas sobre as imagens de Nossa Senhora se permitimos coroas de espinhos sobre mulheres vivas. Não basta proclamar a glória do corpo de Maria se toleramos a exploração do corpo humano. Não basta chamar-lhe Rainha se continuamos a tratar tantas mulheres como servas.

A Assunção é, finalmente, uma festa de Maria que se transforma numa festa da humanidade. Nela contemplamos a criatura reconciliada com o Criador, o corpo reconciliado com o espírito, a liberdade reconciliada com a graça e a humanidade chamada à plenitude.

Nossa Senhora da Assunção torna-se, assim, símbolo religioso e existencial da dignidade da mulher e, através dela, da dignidade de todo o ser humano.

Ela não nos manda simplesmente olhar para o Céu. Ensina-nos a olhar de outra maneira para a Terra.

Porque, se uma mulher da nossa humanidade já participa plenamente da glória prometida, nenhuma mulher pode ser considerada inferior, nenhum corpo pode ser tratado como coisa e nenhuma existência humana pode ser considerada insignificante.

Na mulher assunta ao Céu, a Igreja contempla aquilo que espera vir a ser, e a humanidade entrevê aquilo para que foi criada: a matéria tornada glória, a fragilidade transformada em força, o amor levado à plenitude e a vida que, em Deus, vence a morte.

António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11322
ORCID:
https://orcid.org/0009-0003-6251-1578