A questão toca num debate importante e ligeiramente matizado na ciência
política. A resposta curta é que o Estado Novo foi, e é amplamente classificado
como, um regime autoritário, sendo esta a sua caracterização mais precisa e
específica do ponto de vista científico. Contudo, fazê-lo como uma ditadura não
é necessariamente errado, pois o termo "autoritário" pode ser visto
como um subtipo de "ditadura".
Uma sociedade adulta prima pela precisão terminológica e pela diferenciação
conceptual, recusando articulações adversativas que manipulem o discurso.
Passado meio século do golpe de 25 de Abril, impõe-se desideologizar e
despartidarizar o discurso público sobre a "revolução de Abril", dado
que a sociedade se encontra já numa fase estabilizada e merece um discurso mais
objectivo, menos manipulador.
Como se enquadra o Estado Novo
Analisemos as características do regime liderado pelo Dr. António de Oliveira Salazar à luz destas definições:
(a) Concentração de Poder: O Estado Novo foi, inegavelmente, um regime não democrático. A Constituição de 1933 criou um sistema que, na prática, concentrava enormes poderes no Presidente do Conselho (Salazar) e subordinava os poderes legislativo e judicial ao executivo. O Parlamento (Assembleia Nacional) e a Câmara Corporativa tinham funções extremamente limitadas.
(b) Partido Único e Desmobilização: A União Nacional, partido único do regime, não era um movimento de massas revolucionário. Pelo contrário, foi criado como uma plataforma de conservadorismo e controlo, não para mobilizar a população, mas para a manter passiva. Isto alinha-se perfeitamente com a ideia de "desmobilização política" típica de regimes autoritários.
(c) Ideologia e Legitimidade: A ideologia do Estado Novo, centrada no lema "Deus, Pátria e Família", era uma mistura de conservadorismo católico, nacionalismo e corporativismo. Ao contrário do que ocorre em regimes totalitários, a ideologia não era uma doutrina rígida que procurava transformar completamente a sociedade, mas sim um conjunto de valores tradicionais que legitimava o regime como um baluarte contra o "caos" da democracia liberal e do comunismo. Salazar rejeitou explicitamente o rótulo de "fascista", criticando o "culto da força" e a "exaltação da juventude" que caracterizavam regimes como o de Mussolini.
(d) Pluralismo Político Limitado: O regime de Salazar reprimiu ferozmente a oposição de esquerda, mas permitiu a existência de alguns grupos que aceitavam o status quo, como certos monárquicos ou conservadores, caracterizando o "pluralismo limitado" autoritário.
Exemplos
de oposição ao regime de Salazar:
- Movimento de Unidade Democrática (MUD): entre 1945 e 1948, funcionou como
estrutura de oposição tolerada, realizando comícios e publicando jornais. Foi
depois reprimida, mas existiu continuamente durante vários anos. Eu próprio
frequentei algumas conferências de Sá Carneiro.
- Candidaturas presidenciais de oposição: Norton de Matos (1949), Quintão Meireles (1951), Humberto Delgado (1958) e outros conseguiram, ainda que com limitações graves, fazer campanha pública. Lembra-me de ver a estrada que passa por Várzea para Arouca com frases de propaganda no asfalto, como “Viva Humberto Delgado”.
- A actividade do Partido Comunista Português (PCP): embora ilegal, manteve uma linha política divergente de forma contínua, com estruturas clandestinas e publicações periódicas, conseguindo influenciar sectores sociais como o movimento operário e estudantil. Penso que a ilegalidade do PCP se deve ao facto de defender a geopolítica da União Soviética contra a política de interesse nacional, pelo que estava sob especial vigilância da PIDE. O PCP não era democrático porque defendia a ditadura do proletariado.
- Greves e protestos públicos: a greve da CUF em 1962, as lutas académicas em Coimbra e Lisboa, a própria crise académica de 1969 são exemplos de acção colectiva que expressava uma linha política alternativa, mesmo que reprimida, com era o caso da atividade do Partido Comunista na clandestinidade.
No grupo dos regimes totalitários (como a Alemanha nazi ou a URSS estalinista), qualquer oposição organizada era sistematicamente aniquilada e não havia sequer candidaturas simbólicas. O facto de em Portugal terem existido eleições com listas de oposição (ainda que fraudulentas), jornais como o Diário de Lisboa ou República com críticas marginais, e movimentos como a Comissão Democrática Eleitoral, prova que o conceito de “oposição limitada” é adequado…
Concluindo
O Estado Novo de Salazar corresponde, com grande precisão, ao que a ciência política define como um regime autoritário. Embora seja também uma forma de ditadura porque a ausência de democracia é clara; o termo "autoritário" é o mais adequado cientificamente, pois capta as suas nuances específicas: a limitação do pluralismo, a desmobilização da sociedade e a legitimidade baseada em valores tradicionais. Neste contexto conta como atenuante o facto da disputa da independência das colónias se ter situado entre a defesa dos interesses de Portugal e os interesses das potências geopolíticas União Soviética e USA enquadrados na luta ideológica entre socialismo e capitalismo.
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em: Pegadas do Tempo https://antonio-justo.eu/?p=10944

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