Símbolo religioso e existencial da dignidade da mulher
A solenidade de Nossa Senhora da Assunção encerra, na simplicidade da devoção popular, uma profunda teologia do ser humano, do corpo, da mulher e do destino último da criação. Ao celebrar Maria elevada em corpo e alma à glória celeste, o cristianismo não contempla apenas um privilégio concedido a uma mulher singular: contempla antecipadamente aquilo a que toda a humanidade é chamada.
Maria assunta ao Céu é ícone da humanidade redimida. Nela, a esperança da ressurreição encontra já uma realização antecipada. A matéria não é desprezada nem o corpo abandonado: ambos estão destinados à transfiguração. Esta afirmação adquire especial significado numa história em que o corpo, particularmente o corpo feminino, foi tantas vezes reduzido a objeto, mercadoria ou instrumento de poder.
A Assunção proclama precisamente o contrário: o corpo pertence à dignidade da pessoa e está chamado à glória.
A tradição cristã viu também em Maria a nova Eva. Assim como Cristo, novo Adão, restaura a humanidade ferida, Maria responde à graça com o seu fiat: «Faça-se em mim segundo a tua palavra». Esse “sim” não representa submissão servil, mas uma liberdade que escuta, discerne e se entrega confiadamente a Deus. O fiat de Nazaré acompanha-a até ao Calvário: a mulher que disse “sim” é também a mulher que permanece de pé junto à cruz.
Maria não é, portanto, símbolo de passividade. No Magnificat manifesta-se como mulher profética: proclama um Deus que derruba os poderosos dos seus tronos, exalta os humildes e enche de bens os famintos. A ternura mariana não exclui a força; a humildade não significa ausência de consciência nem de coragem.
É também neste horizonte que a devoção mariana adquire uma importância particular para a própria Igreja. A estrutura eclesial desenvolveu-se historicamente com uma configuração predominantemente masculina. A dimensão mariana recorda-lhe permanentemente que a Igreja não se reduz à instituição, à autoridade, à organização e ao governo. Antes de ensinar, a Igreja deve escutar; antes de governar, servir; antes de agir, acolher.
A devoção a Maria exprime, assim, uma dimensão feminina indispensável à experiência cristã, não em oposição ao masculino, mas em igualdade e como complementaridade que o humaniza e completa. Qualidades como acolhimento, cuidado, relação, interioridade, fecundidade e misericórdia não pertencem exclusivamente às mulheres, como força e autoridade não pertencem exclusivamente aos homens. Contudo, o símbolo mariano recorda à Igreja dimensões que uma estrutura predominantemente masculina corre sempre o risco de secundarizar.
Maria introduz no coração da Igreja não a lógica do poder, mas a lógica da fecundidade: não conquista, mas acolhe; não domina, mas gera; não se impõe, mas oferece-se. Maria não ocupa o centro, abre espaço para que Outro possa nascer.
Numa cultura que continua a debater e, infelizmente, a violar a dignidade feminina, a Assunção constitui um poderoso contra-símbolo. No imaginário cristão, a criatura humana mais exaltada depois de Cristo não é um imperador, um guerreiro, um filósofo ou um homem poderoso, mas sim uma mulher simples de Nazaré.
Esta realidade deveria interpelar também a Igreja. A veneração de Maria não pode transformar-se numa compensação simbólica para uma insuficiente valorização das mulheres concretas. Seria contraditório coroar Maria nos altares e diminuir as mulheres na vida; cantar a dignidade da Mãe de Deus e não reconhecer suficientemente a voz, a inteligência, os carismas e a responsabilidade das mulheres na Igreja e na sociedade.
A verdadeira devoção mariana conduz necessariamente ao respeito pela mulher concreta.
Quem honra Maria deve reconhecer a dignidade da mãe e da filha, da jovem e da idosa, da intelectual e da trabalhadora, da mulher pobre, migrante, esquecida, explorada ou violentada. Não porque cada mulher seja uma reprodução de Maria, mas porque toda a pessoa possui uma dignidade que nenhuma estrutura social, política, económica ou religiosa tem o direito de diminuir.
Maria, porém, não substitui Cristo nem constitui uma divindade feminina ao lado de Deus (a palavra Deus Pai no original aramaico não é masculina, inclui a feminidade e a masculinidade). Toda a sua grandeza remete para Ele: «A minha alma glorifica o Senhor». Uma mariologia madura preserva simultaneamente a centralidade absoluta de Cristo e a extraordinária dignidade concedida à sua Mãe. Cristo é o Redentor; Maria é a criatura redimida em plenitude e antecipação daquilo que esperamos ser.
A Assunção não convida a fugir da Terra olhando simplesmente para o Céu. Pelo contrário: transforma a esperança futura numa responsabilidade presente. Se o corpo está destinado à glória, deve ser respeitado agora. Se os humildes serão exaltados, a sua dignidade deve ser defendida agora. Se Deus glorifica aquilo que o mundo despreza, o cristão não pode conformar-se com estruturas que humilham.
Não basta colocar coroas sobre as imagens de Nossa Senhora se permitimos coroas de espinhos sobre mulheres vivas. Não basta proclamar a glória do corpo de Maria se toleramos a exploração do corpo humano. Não basta chamar-lhe Rainha se continuamos a tratar tantas mulheres como servas.
A Assunção é, finalmente, uma festa de Maria que se transforma numa festa da humanidade. Nela contemplamos a criatura reconciliada com o Criador, o corpo reconciliado com o espírito, a liberdade reconciliada com a graça e a humanidade chamada à plenitude.
Nossa Senhora da Assunção torna-se, assim, símbolo religioso e existencial da dignidade da mulher e, através dela, da dignidade de todo o ser humano.
Ela não nos manda simplesmente olhar para o Céu. Ensina-nos a olhar de outra maneira para a Terra.
Porque, se uma mulher da nossa humanidade já participa plenamente da glória prometida, nenhuma mulher pode ser considerada inferior, nenhum corpo pode ser tratado como coisa e nenhuma existência humana pode ser considerada insignificante.
Na mulher assunta ao Céu, a Igreja contempla aquilo que espera vir a ser, e a humanidade entrevê aquilo para que foi criada: a matéria tornada glória, a fragilidade transformada em força, o amor levado à plenitude e a vida que, em Deus, vence a morte.
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11322
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

Sem comentários:
Enviar um comentário