Segundo os resultados preliminares divulgados pela Comissão Eleitoral Central (20.09.2026),, depois de apurados 95,18% dos votos, o Rússia Unida alcançou 57,83% dos votos nas listas partidárias. Seguiram-se o Partido Comunista da Federação Russa, com 13,81%, o Partido Liberal Democrata, com 8,98% e o Novo Povo, com 7,96%...
O partido Rússia Unida deverá alcançar 355 dos 450 lugares da Duma, ultrapassando largamente os 301 necessários para uma maioria constitucional. Trata-se, a confirmarem-se os resultados, da maior representação parlamentar conseguida pelo partido, superior mesmo aos 343 deputados alcançados em 2016...
O resultado demonstra sobretudo a consolidação parlamentar do sistema político que dirige a Rússia... Bruxelas rejeita a validade da votação organizada nos territórios ucranianos ocupados pela Rússia.
Depois de mais de quatro anos de guerra, sanções económicas ocidentais, perdas humanas e crescente militarização da sociedade, não se verifica, pelo menos através destes resultados, a desagregação política do poder russo que alguns estrategas ocidentais esperavam e propagavam.
Pelo contrário, o Rússia Unida aumentou a sua votação relativamente aos 49,8% obtidos em 2021. A participação oficial também aumentou. Isto permite ao Kremlin apresentar as eleições como confirmação da unidade nacional em torno do poder num momento de confronto com o Ocidente...
Segundo as autoridades russas, mais de 1.600 drones foram intercetados durante a vaga de ataques, dos quais cerca de 450 se dirigiam à região de Moscovo. O ataque provocou vítimas e atingiu, entre outros alvos, uma refinaria. Independentemente da discussão sobre estes números e sobre os objetivos militares da operação, a coincidência com o último dia das eleições favoreceu inevitavelmente a narrativa do Kremlin de uma Rússia cercada e obrigada a defender-se...
Na memória histórica russa continua presente o colapso da União Soviética e o período caótico que se lhe seguiu. Para muitos russos, a estabilidade política poderá pesar mais do que o pluralismo segundo os padrões das democracias ocidentais... compreender uma sociedade exige distinguir aquilo que gostaríamos que acontecesse daquilo que efetivamente está a acontecer... As eleições fazem retirar a força à tese de que a guerra estaria a provocar uma fratura política capaz de obrigar Putin a mudar de rumo.
O paradoxo europeu está justamente aí. Quanto mais a NATO e a Rússia apresentam o confronto como existencial, menores parecem tornar-se os espaços para compromissos. Moscovo utiliza a ameaça ocidental para justificar a concentração interna de poder; no Ocidente, a ameaça russa é utilizada para justificar o aumento dos gastos militares e uma política de contenção prolongada. As duas narrativas alimentam-se mutuamente...
As eleições russas demonstram algo politicamente muito relevante: apesar da guerra, das sanções e das dificuldades internas, o sistema de poder russo não dá sinais eleitorais de fragmentação. Pelo contrário, sai destas eleições parlamentarmente mais concentrado...
Entre propaganda russa e propaganda ocidental existe uma realidade geopolítica que não desaparece por decreto: a Rússia continuará a ser uma potência europeia e nuclear com a qual, mais cedo ou mais tarde, será necessário encontrar uma forma de coexistência pacífica.
A política começa precisamente quando termina a propaganda, por isso não temos tido política séria.
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11409
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

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