terça-feira, 9 de março de 2010

PADRES A MENOS E PASTORES A MAIS



Celibato – Ontem uma Bênção – Hoje um Problema (1)

António Justo
A Igreja Católica conta com 1.131.000.000 católicos no mundo e dispõe de 407.262 padres e de 815.237 membros de ordens religiosas (estatísticas de 2008).

As comunidades cada vez contam com menos padres. A frequência dominical diminui também. Enquanto na Polónia 40% da população vai regularmente à missa, na Alemanha, dos 25,461 milhões de católicos só frequentam regularmente a missa dominical 17%, isto é 3,492 milhões (estatísticas de 2008).

Pelo contrário, a Igreja Evangélica, onde não há obrigatoriedade de celibato para os seus pastores, vê-se obrigada a dividir um tempo inteiro de pároco por dois pastores, com meio tempo para cada um, pelo facto de ter pastores e pastoras em superabundância. A Igreja Católica, por seu lado, encontra-se numa situação desesperada de luta com a falta de padres.

As Igrejas ortodoxas russa e gregas, nas quais os padres se podem casar, não têm problemas de formação e angariação de padres. Tradicionalmente as famílias de padres fornecem também novos padres. Os bispos são recrutados, geralmente, das ordens religiosas.
Em Portugal conta com 81,10 % de católicos. Segundo a Agência Ecclesia, em 2006 havia 2.894 padres distribuídos por 21 dioceses em 4.366 paróquias. Por cada dois padres que morrem é ordenado um. A Igreja, para responder ao problema organiza “Unidades Pastorais” com equipas de sacerdotes responsáveis por várias paróquias; além disso recorre à formação de diáconos casados.

Até ao século XX, a obrigação do celibato para os párocos revelou-se como medida inteligente, na Igreja Católica. Duma maneira geral, a Europa era constituída por uma sociedade de classes, fechadas em si mesmas. O povo não tinha acesso às classes superiores nem à cultura das elites, não podendo, por isso, assumir lugares de responsabilidade pública. As grandes famílias distribuíam o poder (postos) entre elas. O sacerdócio celibatário impedia a concentração do poder eclesiástico em famílias tendo sido, ao mesmo tempo, um elemento democrático no meio do clero, da nobreza e da burguesia.

A extensão da obrigação celibatária das ordens (clero regular) às paróquias (clero secular) possibilitou uma solidariedade entre elites e povo. O padre, que, geralmente, provinha das classes populares tinha hipótese de subir e fazer parte do alto clero. A sua presença contesta a prática secular das grandes famílias nobres/burguesas e possibilita a subida da classe desfavorecida aos postos superiores da sociedade eclesiástica, impedindo que se formasse uma oligarquia sem base popular. O povo, através do sacerdócio, trazia sangue novo e renovador à oligarquia da Igreja, solidarizando-a com o povo. Aqueles que não aguentavam com o jugo do celibato e abandonavam o seminário ou o cargo, provindos embora do povo, passavam para a sociedade secular onde ocupavam cargos relevantes e deste modo assumiam também uma presença popular nela.

Quando se fala de padres e de celibato é necessário distinguir entre os celibatários por vocação, (membros de ordens e congregações religiosas) e os celibatários por encargo aos quais a legislação eclesiástica impõe o celibato como condição de acesso ao exercício da missão sacerdotal paroquial. O celibato para os párocos foi tornado obrigatório pela Igreja Católica na idade média. A Igreja Ortodoxa não aderiu a esta medida disciplinar. Apenas exige o celibato aos bispos. A ligação do exercício do sacerdócio ao celibato não tem fundamento bíblico. Pelo contrário, a Bíblia opõe-se ao ascetismo exagerado e à proibição do casamento aos padres (cf. 1Tim3,1-13 e 4, 1-5).

Entretanto o celibato tornou-se no principal factor impedidor da abundância de padres. O benefício que o celibato traz para a estratégia administrativa é adquirido contra a integração cultural e estrutural do cristianismo nas estruturas seculares. Uma mentalidade fechada e ingénua tem levado as elites da administração eclesiástica a adiar o problema em detrimento da Ecclesia semper reformanda e da integração religiosa nas estruturas culturais. A estruturação da sociedade hodierna exige não só novas medidas em relação ao clero mas também uma nova estratégia de presença cristã nas sociedades. A sua nova reestruturação não pode ser feita apenas para dar resposta à falta de padres. O papel dos leigos numa comunidade viva consciente e activa não pode esquecer a importância do testemunho de vida e missão na sociedade em que estão inseridos.

Clericalismo e anti-clericalismo são sintomas de Sociedades desintegrada
Nas sociedades nórdicas, a influência dos pastores casados e suas famílias está muito presente a nível cultural e político-social nas nações. O seu contributo cultural para a sociedade secular faz lembrar o contributo cultural de alto nível dos judeus, no seio dos povos onde se encontram inseridos. É importante constatar-se que, nos povos nórdicos, não há o anti-clericalismo que se encontra em países latinos. Isto tem a ver naturalmente com a integração social e o relevo cultural dados pelas famílias dos padres evangélicos às nações. É frequente ouvir-se políticos tomar posição em público fundamentada em princípios cristãos e isto tanto em partidos de esquerda como de direita.

Nas nações latinas, tradicionalmente de maioria católica, os padres também contribuíram muito para a cultura secular dos países; faltou-lhes porém a disputa com a vida concreta do dia a dia, o enraizamento familiar e a consequente influência. O povo nas sociedades latinas são mais indiferentes e mais dependentes da opinião momentânea do que os povos das nações nórdicas. Os filhos dos pastores evangélicos foram muitas vezes pioneiros a nível de cultura e movimentação política crítica, integrando-se nas mais diversas expressões da arte, da ciência e da religião. Deste modo a Igreja torna-se indirectamente a guardiã do progresso e ao mesmo tempo a defensora de valores tradicionais e humanos.

Clericalismo e anti-clericalismo são fenómenos doentios de sociedades mais desintegradas.

Cidadãos e crentes têm que suportar as estruturas e suportar-se a si também!

© António da Cunha Duarte Justo
http://antonio-justo.eu/
(continua no próximo (2) texto sob o título “DO PODER DIVINO PARA O PODER POLVO”)

domingo, 7 de março de 2010

Discurso Masculino contra o Feminino


Por um Discurso mais Feminino (4)

Através da imaginação ultrapassa-se a situação real, encara-se a realidade para lá da via causa efeito. Para lá das palavras e das ideias encontram-se imagens, panoramas da alma. Por isso para mudar sentimentos e comportamentos recorre-se a imagens.

A comunicação acontece no âmbito verbal e não verbal. A zona mais próxima ao sentimento é a das imagens; a primeira apreensão da realidade talvez se dê através da inteligência emocional. A imaginação é a chave para secções da personalidade. A imaginação é um instrumento que pode desenvolver a atitude racional. Nas câmaras da cave do nosso cérebro encontram-se armazenadas as mais diferentes imagens, à imagem de pinturas rupestres, que uma vez estimulados deixam representar a cor local de então como se fossem filmes reais. Ao pensar criam-se associações ligadas ao panorama da imagem.

A parte esquerda do cérebro é responsável pelo pensar lógico, de orientação causal e determinista, tem a competência da língua e da actividade verbal, como ler, escrever, matemática, decorar e processos analíticos. É o centro do pensar racional, ao mesmo tempo ordenador e orientado para uma meta.

O hemisfério cerebral direito tem a competência da compreensão de imagens. Não é lógico, e corresponde a uma visão de conjunto, criativa, global, de carácter fotográfico panorâmico, de carácter intuitivo emocional numa relação de indução. Esta parte cerebral é desprezada a nível escolar, político e económico e mesmo no sistema de pensamento, dando-se mais importância à inteligência racional (carácter mais masculino, firmamento) do que à inteligência emocional (carácter mais feminino, terra). Repete-se o defeito da dialéctica na relação entre Realidade e ideia. Assiste-se à ciência contra a arte e contra a religião, ao patriarcado contra o matriarcado. É o hemisfério cerebral esquerdo contra o direito. Continua-se no diálogo rectilíneo, quando o a realidade é complementar e acontece em triálogo.

Podemos fazer uma comparação extrema para a apreensão da realidade. A parte esquerda do cérebro podíamos designá-la do homem em nós e a direita de mulher em nós. Imaginemos que homem e mulher se encontram num extremo dum jardim sem caminhos e querem atingir o outro extremo. O homem chega naturalmente primeiro! Ele com o seu pensar lógico só via o fim (o firmamento) pisando muitas das flores e arbustos para lá chegar rapidamente. A mulher chegou mais tarde mas não estragou e chegou mais rica porque pode descrever muitas das flores e arbustos que observou ao contornar. Ela tem a visão individual e quer manter o todo intacto, o seu estar é um estar em relação. O homem tem a visão abstracta, tem no sentido a meta, provoca a dor mas consegue chegar mais rápido, o seu estar é distante.

A Escola, o Estado, o Pensamento e até a Religião, continuam a cultivar uma cultura masculina, um discurso exclusivo do “ou…ou” quando a Realidade é integral, necessitando nós duma cultura do “não só…mas também.” As duas forças juntas conseguem reunir o princípio da selecção e da colaboração (osmose) numa parceria de complementaridade em relação de igualdade. Trata-se de ver o mundo não só segundo uma dimensão de uma perspectiva (masculina ou feminina, dedutiva ou indutiva) mas também da dimensão a-perspectiva, porque a perspectiva é sempre redutora, tal como a definição. A paz e a harmonia no sentido evolutivo realizam-se então na dança da mulher e do homem, da imagem e da palavra, num processo contínuo de emancipação dos dois, num jogo de ejaculação e gestação, de tensão e relaxe. Na complementação dos dois se dará à luz uma nova realidade, uma cultura da paz e não da guerra. A estratégia a seguir será o reconhecimento da complementaridade da feminilidade e da masculinidade de forma equitativa.

© António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

sábado, 6 de março de 2010

O Verbo é a Informação ainda não formatada


Por um Discurso mais Feminino(3)
António Justo
O mundo físico é uma expressão fenomenal (uma forma da Realidade), tal como o pensamento (um molde da realidade física).

A palavra vem do pensamento, o pensamento vem da imagem e a imagem vem da informação não formatada (Verbo), da verdade de gerar ou enformar. Se, por um lado, se dá o processo evolutivo espiral ascendente, por outro lado, temos o momento do processo descendente, da Palavra que se encorpa num processo trinitário e não apenas numa dimensão linear de afirmação pelo contradição dual. A Realidade que é a divindade interage na relação Pai, Filho e Espírito. No princípio era o Verbo… O Espírito seria analogicamente o princípio criador maternal. Em Jesus encarnou a Palavra e com ela a carne entra num processo de espiritualização, expressa na natureza de Cristo, onde se transcende a consciência espacio-temporal, a consciência bipolar do bem e do mal.

A fixação na palavra, tal como a fixação na imagem, aprisiona a realidade a uma vertente. Uma cultura quanto mais iconoclasta é mais masculina se torna. Quanto mais puro o monoteísmo mais machista é!

Imaginação é a força que está por detrás do poder de abstracção, a inteligência. Ideia é representação no palco do conhecimento. A relação abstracta, se por um lado é libertadora por outro é redutora, meramente binária, o mundo e eu.

A dialéctica afirma-se pela contradição quando a estrutura da Realidade e do diálogo é trinitária, como a teologia previa e a física quântica parece confirmar. Esta superou o determinismo e o mecanismo dogmático da física clássica. O processo é complexo não se deixando reduzir à realidade do plano bidimensional da coisa (outro), do eu e da consciência, quer próprio quer do outro. Eu sou mais que ser com. O meu estar com o estar do outro possibilita a minha presença, a vivência de não só estar mas também ser. A presença do outro leva-me a ser. Ser o espaço entre o meu estar e o estar do outro numa correspondência tripla Eu-Tu-Relação (mais que vivência/ideia): Pai-Filho-Espírito. Husserl também constata que para lá do nível da realidade “plana” se encontra a “dimensão da espiritualidade viva”. O espírito humano revela-se na língua pela possibilidade de dizer tu. Revela-se na capacidade de reconhecer um tu, no limiar do “pecado” de Adão e Eva, como reconhece a Bíblia. O reconhecimento leva à fala que permite então o encontro. Oh feliz culpa!... No argumento e contra argumento, cada interlocutor reduz a coisa à sua imagem fixa, cristalizando-a na própria diferença, ou aspecto, truncando-a da imagem viva que é movimento.
© António da Cunha Duarte Justo
http://antonio-justo.eu/
(continua no próximo texto (4) sob o título “Discurso Masculino contra o Feminino”)

sexta-feira, 5 de março de 2010

A Palavra petrificada para o Povo no Deserto do Sinai


Por um Discurso mais Feminino (2)
António Justo
É verdade que a Sarça-ardente de Moisés (1.400 a.C.), sem a palavra dos Mandamentos, neste caso, uma espécie de materialização do espírito, não expressaria a Verdade da Sarça ardente, do Mistério. Moisés, o iniciado, que experimentou o mistério que o prostrou, manifesta a sua sombra na força da imagem, na realidade do fogo. A Verdade experimentada por Moisés só podia ser transmitida, duma forma distante, democratizada através da palavra, dos mandamentos, ao povo. A sua experiência do todo (Verdade) prostra-o por terra, desfigurando-o.

Moisés não confia no povo e resiste a Deus, não reconhece no povo a capacidade de se subordinar à religião nem ao direito. Desfigura-se e reconhece depois que a integralidade da verdade (Realidade) pode encontrar o mais elementar acesso a ela através da janela da palavra, nos mandamentos. Não chega a mera palavra; esta tem de se espiritualizar num processo de errar pelo deserto da vida antes de atingir a Terra Santa, que Moisés mesmo depois de 40 anos (uma vida inteira de procura) não chega a atingir. O primeiro degrau no acesso à verdade dá-se pelas palavras, a folhagem do pensamento. A realidade (verdade) em fluxo na Sarça-ardente só se torna acessível à generalidade através da experiência (de Moisés) petrificada nas palavras e deste modo adaptada ao receptor. O povo não tem acesso directo à imagem e menos ainda à realidade que prostrou Moisés. A verdade transcende a sua petrificação nas pedras do Sinai e nas pedras do cérebro. Ela é dinâmica como a Sarça-ardente sempre em processo a acontecer. Por isso há que despir as palavras da “mentira” que as envolve, tirar-lhe a ilusão das pedras da lei. O processo de libertação da “escravidão do Egipto” pressupõe o ajuntamento e a subida ao Sinai. Mesmo a lei libertadora não garante a chegada.

Se a palavra é a janela do conhecimento a imagem é a janela do sagrado. Entre os dois acontece a realidade. Pela janela da palavra descortina-se o irromper da paisagem do mistério, de que também ela faz parte. Ela fica no limiar do Segredo e do Espírito. Não somos só filhos incógnitos do pensamento, do “penso logo sou”. Ao eu – imagino da selva segue-se o eu – falo, o eu sou em sociedade. Este foi o grande caminho especialmente do Ocidente que frutificou nos direitos humanos e que precisa da referência oriental à imagem, à mãe. Primeiro está a paisagem do nós e depois o indivíduo nela. Este ao sair dela tem a possibilidade de se reflectir dentro do diálogo e em diálogo passar ao triálogo. Somos filhos do mistério e com ele continuaremos a ser definidos. Pela palavra temos acesso ao mar do mistério mas ela é apenas a sua onda. A palavra sem a imagem é vida em segunda mão. A Palavra (Verbo, não é só sujeito e objecto) é acontecer, é processo tal como o esperma e o óvulo na dimensão dum ventre a dar à luz. Ela não pode ser reduzida a um flatus duma verdade meramente espacio-temporal, a uma crosta da crosta. A palavra seria então a objectividade enquanto que a imagem a subjectividade duma realidade para lá das duas.

Os caminhos do Homem marcam a sua presença na selva da realidade à maneira de caminhos feitos sobre o alcatrão da palavra que em contexto de imagem se pode tornar também realidade. A palavra, ao mesmo tempo pegada e caminho em “contexto” deveria transcender os holofotes da lógica dialéctica redutora e determinista, de causa – efeito, para atingir uma Realidade, não só de diálogo (dialéctica pura do “ou… ou”) mas sobretudo de triálogo (trinitária) do “não só… mas também”. Esta será o pressuposto duma nova cultura, dum novo mundo.
© António da Cunha Duarte Justo
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(continua no próximo texto (3) sob o título “O Verbo é a Informação ainda não formatada”)

quarta-feira, 3 de março de 2010

ENTRE A PALAVRA E A IMAGEM


Por um Discurso mais Feminino (1)
António Justo
“Nada de novo sob o Sol” diziam já os antigos. Isto não nos deve impedir de, à sombra das imagens, nos aquecermos no fogo das palavras e nelas aumentar o espectro das perspectivas.

No princípio estava o Verbo que é mais que a palavra. Ele, mais que abstracção, é acção na complementação, é encarnação. O verbo, o logos é biótopo, é ao mesmo tempo razão e natureza, abstracção e experiência do todo, no sentido do todo (Alfa e Ómega), para lá dum simples ordenar de letras do alfabeto. Da palavra surgiu a cultura, numa metamorfose esforçada contra a natura.

A interpretação da realidade numa dinâmica (sentido) de palavra contra a imagem, de masculino contra o feminino, de cidade contra o campo, tem sido redutora duma realidade que é Verbo. A imagem é a-perspectiva e aponta para a fonte profunda da cultura.

Primeiro está a imagem e depois vem a palavra. A imagem é indutiva, parte da experiência directa enquanto que a palavra é dedutiva, resultando duma elaboração intelectual emancipada. Pelas duas se pretende apalpar e expressar a realidade, as duas são informação, encontrando-se numa relação de autonomia complementar.

Primeiro está a imagem que encobre muitos conceitos. Sem a palavra o conceito não seria dado à luz e ficaria submerso na imagem, perdido na ramagem da floresta primitiva, reduzido ao ulular da selva animal. O pensamento torna-se num andaime de que as palavras são os ferros. A imagem cria a necessidade do suporte.

A língua vive das suas metáforas tecidas de imagens. Por detrás das palavras escondem-se imagens, as ideias. As ideias são para Platão imagens protótipo, são as coisas do mundo das aparições, dos fenómenos. Para Kant são os reguladores do esforço humano, provenientes da razão, sem realidade objectiva mas que possibilitam a construção de imagens fechadas do mundo, ultrapassando a possibilidade da experiência nas ideias de Deus, liberdade e imortalidade.

Na imagem eu não falo, sou falado… ela é o lugar da poesia e da religião. O discurso não se forma numa roleta das palavras ao gosto dum linguarejar unidimensional masculino. A palavra só é verdadeira, se encarnada. Não chega a informação do sémen (a palavra) é necessária também a imagem, o útero que lhe dá consistência. Só assim ela é completa, é verbo. De resto, reduziríamos a palavra a uma tautologia do quem esteve primeiro, o galo ou a galinha, se quem está na origem é o esperma ou o óvulo. Não passaríamos de guarda-livros da vida! Entre o Esperma e o Óvulo encontra-se uma outra Dimensão da Realidade.

Sem a matriz da selva, sem a fantasia não haveria agir humano, nem arte nem mitologia. A geração, a criatividade dá-se na união e não na divisão. A sociedade patriarcal, a civilização, domina mediante a afirmação exagerada da palavra contra a imagem. A palavra real emancipa-se, da imagem, abstraindo-a mas mantendo ao mesmo tempo uma relação de filiação com ela. É uma relação de necessidade que leva o espírito à gruta, o espírito ao corpo gerado pelo espírito e ao mesmo tempo transformado em lugar de nascimento da divindade. Aí, o ser integra o estar, num processo de ser, ao mesmo tempo parido e parturiente. No eu da minha palavra reúne-se o grito, a ressonância do encontro, o intermédio, o sentido surgido entre imagem e palavra. De mim vazio, entrelinha, torno-me imagem e grito (palavra) do mundo para com ele nascer no outro, à luz do encontro trinitário, na complementaridade do eu e do tu a expressar-se no nós sempre a acontecer.

O eu e o tu ganham forma e transcendem-se no nós. O eu, tal como a palavra que o consciencializa, pressupõe não só a voz mas também o eco no tu, na imagem dum eu primordial. Imagem e palavra encontram-se em correlação, tal como praxis e teoria, tal como mulher e homem, matéria e espírito, tempo e espaço, natureza e cultura, na coexistência e interferência complementar, sempre a caminho e a gerar uma terceira dimensão, na relação do todo integral.

O andaime é veículo, diríamos, é a lógica que não se deixa reduzir à palavra porque faz parte da imagem. Antes da palavra está o balbuciar, o gaguejar do pensar que é a expressão das dores de parto, da noite sem sonho, no dormir do estar sem ser, para depois começar a sonhar e a aparecer. No grito treme, ao mesmo tempo, o espírito e a matéria que, nas pegadas do tempo, deixam o eco sempre repetido na palavra.

Também o mar das emoções gera as ondas do sentimento. Emoção, sentimento e palavra são diferentes níveis de expressão duma realidade comum. Veículo e veiculado encontram-se em relação de necessidade mútua.

A realidade da árvore não se deixa definir pelas folhas como as folhas não se definem pela árvore. O mesmo se diga do pensamento e das palavras. O andaime não se deixa limitar a veículo; ele faz parte integrante dum processo vivo. A palavra, como o ferro do andaime, realiza, desde que enquadrada no processo de que ela se torna também mensageira. Se olho para a folha vejo também ramos e talvez uma perspectiva da árvore.

A palavra realiza-se e redime-se na medida em que revela ou dá acesso ao conceito, à ramagem da árvore e a conduz à imagem inicial. A palavra é mais que código, mais que veículo.
© António da Cunha Duarte Justo
http://antonio-justo.eu/
(continua no próximo texto (2) sob o título “A Palavra petrificada para o Povo no Deserto do Sinai”)

terça-feira, 2 de março de 2010

Conselho d Área Consular de Frankfurt

CONSELHO CONSULTIVO DA ÁREA CONSULAR DE FRANKFURT
Sua Constituição

O Vice-cônsul Abílio Dias Ferreira convocou as associações e os professores da área consular para uma reunião de eleição de pessoal, a nomear pelo titular do posto consular, para o Conselho Consultivo da Área Consular de Frankfurt. Após a reunião efectuada no Consulado, a 25 de Janeiro de 2010, o Vice-cônsul Abílio Dias Ferreira apresentou a lista do Conselho que consta dos seguintes membros:

Abílio Dias Ferreira, Vice-cônsul
Irene da Glória Rodrigues, Assistente Adm. Especialista do Consulado
Fátima Veiga
Maria de Jesus Krämer
Teo Ferrer Mesquita
António da Cunha Duarte Justo
Bruno Lopes
Dina Maria André
José Apolinário Madeira Pires
José Luís Coelho
Manuel Rubens da Costa


O número de conselheiros depende, segundo a lei, do número de portugueses inscritos no Consulado.

É da competência do conselho “produzir informações e pareceres sobre matérias que afectem os portugueses residentes” e “elaborar e propor recomendações respeitantes à aplicação das políticas dirigidas às comunidades portuguesas”, como refere o Artigo 16° do Decreto-Lei n.º 71/2009 de 31 de Marco..

O conselho funciona por um período de dois anos e meio. Reúne-se ordinariamente três vezes por ano e “extraordinariamente por iniciativa do seu presidente ou a requerimento de, pelo menos, um terço dos seus membros”.


António da Cunha Duarte Justo
antoniocunhajusto@googlemail.com

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

TEMPO DE FITNESS PARA CORPO E ALMA


A Quaresma corresponde a Nível Social ao Inverno da Natureza
António Justo
A natureza recolhe-se no Inverno para florir na Primavera. O Homem recolhe-se na reflexão para poder possibilitar a gestação e florir no Espírito.

Quarta-feira de Cinzas inicia o período da penitência pública de 40 dias de jejum, a Quaresma. Ela começa com o fim do Carnaval e estende-se até à noite pascal. O começo do tempo de interiorização e de penitência (Quaresma) é antecipado pelo tempo do Carnaval, em que vale a exteriorização, vale a carne. Trata-se agora de fazer um balanço e de adquirir o equilíbrio entre as necessidades de corpo, alma e espírito: A harmonia duma “ alma sã em corpo são”. Esta é uma necessidade existencial. Se observamos a natureza verificamos que ao seu período de activismo (Carnaval) se segue um período de recolha e calma (a Quaresma), o período de Outono e Inverno. Esta é a época da preparação que possibilita a floração do espírito.

Muitas pessoas aproveitam este período para repousarem e fazerem um balanço da vida. Na Alemanha, como em muitos países de tradição cristã, muitas pessoas, crentes e não crentes, vão passar uns dias de repouso em conventos beneditinos e noutros. Podem participar na vida da comunidade, no canto dos 150 salmos que os monges cantam, de semana a semana, e participar em cursos de meditação e outras iniciativas. Há comunidades que disponibilizam estadia já a partir de 10 euros por dia.

Este pode ser um tempo de purificação, de queda de toda uma folhagem que impediria a transformação e a abertura para o novo. Entre essa folhagem, a cair, podem-se encontrar dogmas, ideologias e certezas que parasitariamente se agarram à casca da nossa existência e nos roubam a capacidade de sensibilidade ao Sol da vida que raia.

O período da Quaresma corresponde aos 40 dias que Jesus passou no deserto (tempo de preparação) e recordam o peregrinar dos israelitas do Egipto para a Palestina. É o tempo em que cada pessoa tem oportunidade de sair da roda de hamster do dia a dia. Páscoa é o tempo de passagem e a vida também!

Neste período não se trata de se mortificar ou de emagrecer; trata-se de proporcionar uma viagem ao interior de si mesmo, duma avaliação da própria vida e de entrar num processo de libertação. Trata-se de descobrir o que é que me impede de ser eu mesmo e de seguir o que a minha consciência me diz. O carrossel do dia a dia entrava, por vezes, a percepção de si mesmo e do próximo, arrancando-nos do processo que é a vida.

Em atitude de reflexão e de calma observa-se o próprio stress e descobrem-se as próprias mazelas. Ao olhá-las de frente e aceitá-las, como parte de si mesmo, abre-se uma chance à mudança. Então o Sol brilhar não só na nova folhagem a despertar mas passa a correr também por dentro de nós, na própria seiva. Então tornámo-nos nós mesmos. Livres e libertadores somos Páscoa, Sol também para os outros, a passar e a aquecer.

DIETA - JEJUM

No Inverno a natureza, depois de deixar cair a carga da folhagem que já serviu, entra num período de dieta, de preparação. Com a “Quaresma” a sociedade consciente da realidade entra em período de jejum.

Jejum (dieta) é um meio de facilitar a meditação e de se tornar consciente da própria corporalidade e espiritualidade; é o tempo propício ao encontro do essencial, é a oportunidade para a descoberta da natureza de Cristo em si mesmo e descobrir o eu numa relação de descoberta do tu e da vivência do nós que se realiza na comunidade peregrinante. Teologicamente poder-se-ia expressar esta consciência processo na realidade trinitária de que fazemos parte. Tal como a natureza, cada pessoa, cada povo, cada cultura, cada religião encontra uma forma própria, um ritual que o integra num processo de caminhada, de Páscoa universal.

Segundo estatísticas o jejum das pessoas, nesta época, expressa-se por ordem decrescente na renúncia a álcool, doces, fumo, carne, TV, computador, etc. Especialmente durante o tempo de Quaresma, os crentes são convidados a partilhar os seus bens com os mais pobres.

Na Idade Média, Quarta-feira de cinzas era o dia do início da penitência pública da igreja. Os penitentes, ricos e pobres, vestiam o traje (saco) da penitência e eram polvilhados com cinza.
A partir do século X o hábito da penitência pública começou a tornar-se mais raro restando o rito simbólico de quarta-feira de cinzas em que o padre faz uma cruz na testa dos concelebrantes com cinza. A cinza é proveniente de ramos de palmeira e de oliveira do ano anterior (Domingo de Ramos). A cruz que o padre assinala na testa dos crentes é acompanhada com as palavras “lembra-te ó Homem que és pó e em pó te hás-de tornar”.

A Igreja cristã solicita dos crentes jejum, penitência e meditação, especialmente durante estes 40 dias, e a renúncia à carne, pelo menos às sextas-feiras. Um estômago demasiado pesado impede a meditação e a percepção do corpo e da alma no seu todo e não predispõe à mudança, à metanóia, não se abre ao outro.


António da Cunha Duarte Justo
antoniocunhajusto@googlemail.com