sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

NELSON MANDELA – UMA LENDA NOS MEANDROS DO PODER



Uma voz da Consciência no Deserto
António Justo

Com Nelson Mandela, a voz da África produziu um eco harmónico no mundo, na luta contra o racismo (regime-apartheid) e no fomento de uma sociedade arco-íris mais justa.

Nelson Mandela encarna o grito de África pela libertação e justiça; é um luzeiro que se apaga na idade de 95 anos, a 05.11.2013, sendo ao mesmo tempo filho e pai da África do Sul.

O condutor da revolução dos negros contra a ditadura dos brancos filiara-se em 1944 no movimento da resistência ANC (African National Congress). Tinha o objectivo de criar uma África do Sul em que a cor do rosto não contasse, propagava a desobediência civil pacífica e o ataque às infraestruturas do regime branco.

Com o massacre de 1961, do regime branco contra os negros, em que a polícia matou 69 demonstrantes pacíficos e perante a proibição do ANC, Mandela radicaliza-se e funda o grupo militante “Lança da Nação”. O “inquietador” Mandela protela aqui a sua atitude de paz e torna-se assim o líder da ala armada do movimento de libertação ANC.

Em 1962 é aprisionado, sendo posto em liberdade, 27 anos depois, pelo presidente de Klerk em 1990; este declara ao mesmo tempo o fim do Apartheid e levanta a proibição do ANC. Em 1993 Mandela e de Klerk recebem o prémio nobel da paz. Em 1994 Mandela foi eleito presidente da república e em 1999 renuncia ao poder e distancia-se da política. No seu mandato, preocupara-se com a reconciliação e desenvolveu projectos e iniciativas de repartir terras e distribuir casas baratas aos negros pobres.

A política parece não ter espaço para heróis da liberdade nem para pessoas honestas e sinceras. Numa África constituída por sociedades paralelas não se torna fácil a governação. A insatisfação surgiu ainda na presidência de Mandela e aumenta cada vez mais.

O governo-ANC que durante os últimos 19 anos tem liderado os destinos do país e que prometera postos de trabalho, igualdade e o fim da pobreza depara-se com a insatisfação generalizada de negros e brancos. Mais de 50% dos jovens encontram-se desempregados e as infraestruturas da nação em mau estado. É lamentável que o ANC confirme hoje todos os clichês dos preconceitos de racistas brancos.

A corrupção e a falta de consciência democrática escurecem o futuro da África do Sul. O actual presidente, com quatro mulheres, embora tivesse sido companheiro de Mandela na luta, lidera o país no meio da corrupção.

Mandela certamente que entrará no rol da História de grandes homens como Luther king, Ghandi, Oskar Schindler e Aristides de Sousa Mendes.

Mandela foi influenciado pelo amigo de longa data Walter Sisulu, testemunhando: "Nasci para ser um governante, devido à minha ascendência, mas Sisulu ajudou-me a perceber que a minha verdadeira vocação era servir o povo”. Tentou ser sempre livre provando esta qualidade num momento em que o poder o queria comprar, respondendo: “só as pessoas livres podem negociar”.

O legado político de Mandela não encontra terreno fértil nos meandros do poder. Resta esperar que a África não só produza políticos como Mandela mas que volte a produzir grandes homens da cultura como Agostinho de Hipona e Tertuliano.

António da Cunha Duarte Justo
www.antonio-justo.eu

terça-feira, 5 de novembro de 2013

A Solução será cristianizar o Socialismo



A China investiga as Causas do Progresso ocidental
A Solução será cristianizar o Socialismo

António Justo  
China, o grande gigante, acorda e quer compreender a razão do progresso ser conduzido pelo Ocidente e não ter sido originado pela China. O economista do governo chinês, Zhao Xiao (赵晓), tem-se dedicado ao estudo desta questão. (http://www.danwei.org/business/churches_and_the_market_econom.php). A China começa a reconhecer o Cristianismo como fonte do progresso ocidental. Por isso vai abrindo as portas ao cristianismo e teme cada vez mais o islão.

Zhao Xiao (赵晓) chega à conclusão que a causa do progresso ocidental (desenvolvimento económico-financeiro e seu papel de liderança mundial) está no cristianismo que fomentou a ciência, a técnica e o capitalismo. O cristianismo ao criar uma cultura da confiança num Deus que é verdade e amor fomenta a virtude e domestica as tendências humanas baixas e da corrupção. Educa para a dignidade humana e ao colocar como ideal o amor ao próximo e ao definir o próximo como o que está fora do grupo, esforça-se por deitar abaixo os muros do egoísmo e o fanatismo dos grupos fechados.

Assim, o cidadão não é niilista e a pessoa é soberana. O desenvolvimento de corpo e alma é parte inerente ao seu ideário. A Igreja católica foi a mãe das universidades, com mestres e alunos de vários países, uma inovação institucional na história da humanidade que apressou o desenvolvimento das ciências humanas e das ciências naturais.

No mestre de Nazaré encontra-se o fundamento da soberania individual; por sua vez, a Igreja Católica lançou as bases de uma sociedade global de humanismo integral.

A actual cultura da batota, da corrupção e da sorte

Zhao Xiao (赵晓), na sua observação comparativa tem a oportunidade de observar uma sociedade que, embora de matriz cristã, se encontra num momento de desbaratamento da sua ética interior, para seguir um pragmatismo niilista e vácuo, de caracter oriental, que contradiz a kénosis cristã, onde o vazio do sepulcro é promessa de esperança e ressurreição e não de retrocesso e negação.

O turbo-capitalismo e o socialismo materialista, numa aliança desgraçada, destroem sistematicamente o património ético humanista cristão que levou tantos séculos a construir.

Na fase culturalmente destrutiva em que a Europa se encontra, a relação pessoal é substituída pela relação técnica cronometrada e a relação individual pela relação burocrática, sem dedicação pessoal. Tudo actua em função de tempo e do lucro.

O globalismo ocidental é anticristão e abandona Deus, com tudo o que Ele representa, para se afirmar como cultura da batota, da corrupção e da sorte. Esta cultura acarinha os pecados capitais da cultura ocidental: Avareza (ambição), Ira (sede de vingança), Gula, Luxúria, Soberba (arrogância), Preguiça, Vaidade.

Vai sendo tempo de se iniciar uma disputa séria sobre as consequências de um socialismo e de um capitalismo selvagens que em nome da liberdade, da fraternidade e da democracia se têm apoderado dos Estados e aproveitado do cidadão mediante a deturpação da pessoa.

Consequentemente, o melhor meio de defesa do progresso será a cristianização do socialismo. O melhor caminho que a China poderá encetar será imbuir-se, à sua maneira, de cristianismo, para poder dar continuidade à obra europeia!

António da Cunha Duarte Justo

sábado, 2 de novembro de 2013

Celebrações comemorativas dos Emigrantes - Uma Proposta



MINHA VIDA NA MALA
Proposta para as Celebrações comemorativas dos Emigrantes

António Justo
Uma organização de exposições sob o título “MINHA VIDA NA MALA”, no âmbito de celebrações comemorativas dos emigrantes portugueses, poderia tornar-se num factor de promoção e revitalização de associações e iniciativas nobilitadoras da presença portuguesa.

O objectivo principal do projecto seria focar o itinerário e o papel da vida migrante; celebrar a presença dos portugueses nos diferentes países e motivar a nova geração de emigrantes a desenvolver o associativismo e o portuguesismo universalista. Criar recursos lusos de apoio e fomentar sinergias entre associações e as mais variegadas instituições. Contribuir para espalhar a festa portuguesa.

Conteúdo do projecto: Num trabalho de rede de consulados, missões, associações, artistas, professores, assistentes sociais e multiplicadores culturais, activar entre os emigrantes iniciativas concretas viradas para diferentes públicos.

Um apoio financeiro poderia provir do MNE, União Europeia, bancos, etc.

Resultados a esperar: celebração da emigração, fortalecimento da consciência migrante, intercomunicação e fortalecimento operacional das associações e inclusão das mais variadas personalidades em actividades das associações. Fortalecer a consciência dos emigrantes.

A coordenação poderia ser feita pela Secretaria de Estado para as Comunidades, Instituto Camões, consulados, missões, alguma universidade, associações e possíveis parcerias sob um comité ad hoc.

O projecto poderia constituir uma oportunidade para reflectir sobre a identidade portuguesa e possibilitar a objectivação de histórias de famílias que partem e que ficam.
Cada pessoa ou família envolvida no projecto poderia apresentar uma mala, a ser exposta e elaborada com materiais, imagens, objectos, documentos, lembranças, tudo relacionado com uma vida entre paragens e em que a mala se tornou símbolo de vida e companheira. Trata-se de conhecer e divulgar, também com postais, cartas, músicas, etc., o contributo da emigração em termos geográficos e sociológicos valorizadores do nosso povo e das nossas terras. Nas associações ou iniciativas seria importante envolver artistas a apoiar a elaboração das malas.
Naturalmente que um tal projecto poderia assumir proporções regionais, nacionais ou mesmo internacionais. A estender-se o projecto a Portugal (por exemplo ligação com a festa migrante) implicaria que as repartições da cultura das Câmaras, bancos, alguma faculdade universitária e os meios de comunicação social se tornassem, possivelmente, promotores do projecto. Este projecto, depois de realizado nos diferentes locais, poderia tornar-se depois numa exposição itinerante.
Não há família nenhuma em Portugal sem experiência migrante. A migração marca a paisagem e a alma de Portugal. É uma constante característica de organização da vida familiar portuguesa e do seu Estado. A emigração é, na realidade, uma das cinco quinas que marcam o país.
Este é um contributo para um “Brain” de ideias que poderia preparar um projecto a ser assumido pelo Senhor Secretário de Estado Dr. José Cesário e pelos deputados, conselheiros da emigração e outras parcerias.
Fica aqui a ideia e o apelo!
António da Cunha Duarte Justo

terça-feira, 22 de outubro de 2013

União Europeia contra o Patriotismo das Nações - O Porquê da Crise!



Da Monocultura latifundiária pragmática contra a Pluralidade do Habitat cultural
António Justo
Enquanto países asiáticos e de cultura árabe se vão arranjando numa estratégia de autoafirmação apostando na força da sua identidade cultural (patriotismo cultural da comunidade muçulmana, da Rússia, da China, da Índia), o Ocidente e em especial a União Europeia esvaem-se num “patriotismo cosmopolítico” baseado na filosofia económica globalista e na moeda como tecto metafísico do conglomerado. A negligência da filosofia enciclopédica e da ética cristã humanista coloca a EU numa posição favorável para negociar a integração da Turquia na EU e para se autoafirmar hegemonicamente no âmbito económico e militar; por outro lado, essa negligência revela-se ingénua num mundo em formação em torno das culturas. Para mais quando em democracia o povo é o elemento importantíssimo em questões de estabilidade política e este elabora a sua identidade em torno de espiritualidades.

Por outro lado, a União Europeia encontra-se num dilema ao impor-se um patriotismo cosmopolítico sem ter ainda alcançado uma consciência de patriotismo europeu, vendo-se, para isso, interessada em destruir os patriotismos das nações europeias e tradições culturais específicas (Patriotismo é uma virtude ao contrário do nacionalismo!). Quer-se construir uma soberania europeia masculina, sem alma, procurando para o efeito fomentar-se uma condição de povo anónimo. A anonimidade popular e a destruição da soberania política das pátrias europeias conseguem-se através do fomento de uma filosofia política relativista (pensar correcto) e pragmatista. Em nome da diversidade cultural, a política exige dos seus cidadãos a deslealdade para com a própria cultura e a renúncia a símbolos cristãos. A EU encontra-se na fenda entre os patriotismos e os nacionalismos. Também o seu missionarismo político em favor dum cosmopolitismo político democrático não tem dado resultado, como se observa no norte de África, pelo contrário, as rebeliões fortaleceram o fascismo. A ideia do globalismo corresponde a uma filosofia católica original mas para a qual o mundo ainda não está preparado. Há razões, mais que suficientes, para nos questionarmos se a praxis turbo-capitalista aliada à estratégia marxista serão o melhor meio para se impor o globalismo (Neste aspecto, a China estaria já numa posição vantajosa).

O modelo da Europa para o mundo encontra-se numa crise profunda de valores e de sentido; cada vez lhe falta mais a congruência cultural e consequentemente a visão e motivação. Uma política de rejuvenescimento da europa através da imigração revela-se míope e perigosa devido aos grandes contingentes de muçulmanos que embora com imensa juventude se revelam contraproducentes devido à sua vida determinada pelo gueto religioso e hegemónico; enquanto o cidadão europeu não encontra motivos para se definir em termos de identidade europeia, os imigrantes muçulmanos que constituem a maioria dos imigrantes afirmam-se em termos de fronteira patriota religiosa. A classe política, para evitar conflitos populares adopta uma política pragmática em relação às exigências daqueles, implicando o recuo em relação a posições laicas e risco num contexto de reivindicações políticas no futuro.

O fomento dum “cosmopolitismo enraizado” como pretende Kwame Anthony Appiah no sentido do desenvolvimento de um burguesismo mundial, não se revela possível, numa EU em que a natalidade muçulmana supera qualquer crescimento estatístico de nativos em relação a outras confissões religiosas e seculares. Segundo estatísticas sérias, a explosão demográfica muçulmana aponta para o desenvolvimento da Europa no sentido de uma Eurábia. O politicamente correcto cala isto para não amedrontar o povo, já preocupado; é um facto que as estatísticas demográficas possibilitam previsões científicas mais exactas que quaisquer outras. As guerras do Ocidente em países árabes só alimentam a ganância económica e fomentam a imigração árabe para a Europa. Quem se encontra cada vez mais desenraizado na EU são os países europeus e não os guetos muçulmanos que sofrem, na própria terra,  por verem as suas aspirações hegemónicas contrariadas pelos Estados Unidos da América que, por razões estratégicas fomenta a rivalidade entre as confissões muçulmanas dos Sunitas e dos Xiitas. 

O mutismo intercultural e inter-religioso entre as nações é mais que sintomático da impossibilidade dum encontro a nível de direito moral. O relativismo cultural e ética só pega nas nações ocidentais. As vitórias do secularismo europeu contra o cristianismo transformar-se-ão em vitória do extremismo religioso muçulmano e doutros extremismos dentro dos muros europeus. Temos a melhor lição na primavera árabe que, em nome da liberdade e dum certo relativismo, se tem revelado como um serviço ao absolutismo religioso. Estas nações para chegarem ao tal cosmopolitismo precisariam de um desenvolvimento económico, cultural e social como se deu na Europa dos anos 60 aos anos 90 e na luta cultural provocada pelo protestantismo do séc. XVI e mesmo assim comportar-se-iam diferentemente porque são portadores de uma outra antropologia e sociologia. A sua sociologia assenta em princípios contrários aos da sociedade de características ocidentais. Não é sem razão que a Turquia, Egipto, etc. contrariam o fomento de cristãos nos seus quadros estatais superiores e noutros países muçulmanos, se chega a considerar os cristãos como espiões dos USA. 

Só quem está interessado num pragmatismo de consenso superficial poderá passar por cima da realidade em que a Europa vive; facto é que a realidade internacional e do desenvolvimento global assentam nas culturas e especialmente nas suas filosofias que são as religiões; o sistema económico é apenas uma consequência da razão filosófica destas. Há que explorar e contextualizar melhor o capitalismo e o socialismo que, como filhos pródigos do judeo-cristianismo têm instabilizado uma mundivisão, que, purificada de excessos e na complementaridade, poderia servir de modelo para um globalismo mais justo.

Gregor Gysi, o número um do partido comunista na Alemanha, é um ateu declarado, e disse algo notável num programa da TV alemã: "Foi um fracasso histórico dos comunistas perseguir o cristianismo. Pois a essência dos cristãos: amor ao próximo, igualdade (diante de Deus) e a observância dos mandamentos são muito semelhantes aos ideais do comunismo.”  

Sempre me admirei por irmãos se combaterem, pelo simples facto de um olhar muito para o céu e o outro olhar demasiado para a terra. Uma simples olhadela não determina a realidade e não faz de um, espírito, nem do outro, matéria! Torna-se importante não esquecer que também a verdade é feita de céu e terra. E o mais importante para a europa é a sua união cultural e deixando de se autodestruir em guerrilhas ideológicas de leigos contra fiéis par reconhecerem a própria riqueza na numa relação de complementaridade. 

O pensar baseado no politicamente correcto tem fomentado uma discussão teórica e uma tolerância infantil mais interessadas em encobrir os problemas, do que em ajudar a resolvê-los duma forma humana e justa. Há monstros a dormir nas sociedades que ressurgirão no momento em que as crises políticas se generalizarem. O movimento secular e o cristianismo de expressão moderada serão os que mais sofrerão as consequências da falsa política social e económica que se seguiu depois da última grande guerra. 

A procura de valores globais, como sugere Hans Küng , exige mais da política do que ela está disposta a dar. De faco, o seu mero recurso a um pragmatismo de políticas locais, limitadas a dar respostas locais aos problemas populacionais e interculturais mais urgentes, sofre de miopia. Aqui empanca o tal cosmopolitismo que, sem teto metafísico, quer viver de capelanias de pontos de vista limitados, fomentadores de cabeças viradas para uma terra, cada vez, menos mãe. É verdade que a consciência para a gravidade da situação surge no foco e não na periferia e os problemas da humanidade continuam a ser focados como problemas abdominais.

Quer-se uma ética urbana para um mundo, na grande maioria, rural e estranho a intelectualismos e a éticas generalistas ou de nível elevado. Não há uma sociedade mundial tal como não há um biótopo mundial. A coerência dos biótopos sociais não pode ser alcançada por uma rede económica frágil e injusta, nas mãos de poucos e à margem duma literatura mundial. A natureza continua a mostrar, na sua inter-relação de biótopos naturais como protótipo dos “biótopos” culturais. Para já, seria apressada a ideia de querer, sob a mesma atmosfera, igualar as diferentes regiões climáticas (culturais) sem atender às suas especificidades, e para mais num tempo em que as tendências hegemónicas das culturas entre si ainda são tabu ou apenas relegadas para o sector económico ou religioso. Neste sentido é absurda a ideia de que o negócio universal e a moeda se possam transformar em elementos criadores duma identidade global. A ideia de um cosmopolitismo político torna-se numa estratégia para distrair intelectuais. Como se pode defender a floresta quando nela não só se cortam e arrancam as árvores mas também destrói o seu húmus cultural?

A moderna missionação ocidental com o seu centro de gravidade na democracia e nos direitos humanos, não se revela tão eficiente como seria de esperar, dado, duma sociedade para a outra, sociológica e antropologicamente, mentalidades e modos de vida, se revelarem quase antagónicos. O conceito duma sociedade aberta para se chegar a um cosmopolitismo não se encontra aferido, nem à sociedade ocidental, porque a empobrece culturalmente, nem às outras sociedades porque as não respeita. É preciso trabalhar no sentido duma terceira via. A lusofonia oferece uma oportunidade para se trabalhar neste sentido. Para isso fica o apelo da História no sentido de se superar a humilhação envergonhada e a exaltação orgulhosa.
 
O cosmopolitismo, em via, mostra erros sociologicamente análogos aos da revolução industrial do séc. XIX e XX, focalizado num materialismo ideológico (marxismo) e prático (consumismo) expresso na economia financeira internacional fomentadora duma mentalidade proletária de aspiração burguesa a florescer num globalismo financeiro mundial que tudo reduz a mercado de clientelismo anónimo. Isto conduz a um pragmatismo sem horizonte destruidor de qualquer fé política ou religiosa que não se subordine ao pensar do correcto oportuno. Com uma fachada liberal destrói biótopos culturais e espirituais para criar um novo habitat de género latifundiário e de monocultura proletária.
 
A Europa encontra-se num grande impasse; destrói sistematicamente a sua identidade ao colocar a economia financeira como leitmotiv da civilização. Isto é constatável se observamos o seu pragmatismo selvagem que não reconhece na Constituição os seus pilares éticos do judeo-cristianismo, do direito romano e da filosofia grega para se abrir ao desconhecido e à anarquia do voto do braço erguido. A ganância económica e o lucrativo negócio com as armas justificam uma imigração selvagem criadora de grandes problemas para as gerações futuras e a destruição de aquisições humanas que se pensavam irreversíveis.

(Que uma sociedade aberta como a europeia renuncie a fronteiras é consequência do seu desejo de se formar como bloco perante outros blocos. O seu maior erro está, porém, em renunciar às colunas que constituem a civilização ocidental. O trágico está na irreversibilidade da situação que se criou já não baseada numa filosofia consistente mas no imperativo do pragmatismo factual que segue um liberalismo económico desrespeitador de tudo o que é pessoal e cultura adquirida. Devido à sua proximidade com a Europa e à, cada vez maior incapacidade de discernimento dos povos europeus, a longo prazo, a beneficiada desta filosofia pragmatista, será a cultura árabe, a não ser que se forme nela uma camada social média abrangente, fruto duma revolução religiosa cultural, à imagem da revolução protestante na europa, que a liberte de restrições religiosas a nível de ética e hábitos e em que a antropologia ganhe relevância sobre a sociologia.)

Necessita-se uma política antropológica contrária à ideologia económica monetarista e ao liberalismo vencedor desencarnado. Naturalmente que o reconhecimento do outro também mexe com a própria identidade; esta revelou-se a vantagem da civilização ocidental perante outras civilizações: uma abertura com significado e sentido. Nesta base será possível determinar novas políticas. Johan Baptist Metz, fundador das Novas teologias políticas, defende a valorização da Autoridade do Sofredor na humanização do mundo. Neste sentido, seria óbvia uma ética que reconheça o rosto da verdade nos pobres e que distribua a riqueza pelos continentes. 

Não se trata de criar identidades submersas mas de integrar a própria diversidade na unidade duma realidade integral à maneira da complementaridade da verdade expressa na fórmula trinitária. 

Daqui resultam direitos e deveres – responsabilidade ética - de cada um perante todos e de todos perante cada um (pessoa simultaneamente individuo e colectivo). A pessoa alcança um caracter universal e, como parte dele, é portador da sua dignidade. Há que voltar à reflexão cultural. A redescoberta da fórmula trinitária poder-se-ia tornar numa plataforma da complementaridade das partes num grande todo sem lugar para hegemonia duma cultura/religião sobre a outra, dado a diversidade natural e cultural serem a melhor condição possibilitadora de desenvolvimento individual e colectivo. Torna-se urgente a formulação de uma política do diálogo intercultural neste sentido.
A apreensão da realidade, tal como a sua moldação, depende do ponto de vista ou da perspectiva, como dizem os jesuítas. A sabedoria está em reconhecer a complexidade das diferentes necessidades e usos. Uma anedota relativamente inofensiva, que li no “manager magazine” 10/2013, conta que um beneditino, um dominicano, um franciscano e um jesuíta se encontravam a rezar na Igreja. De repente, apagam-se as luzes. O beneditino continuou a rezar firmemente as orações do seu breviário, porque ele sabia-as de cor. O dominicano quer liderar um debate sobre a luz e as trevas na Bíblia. O franciscano louva  Deus por ter dado a escuridão ao povo. E o jesuíta levanta-se e vai mudar o fusível. Todos têm razão, na medida em que agem em função do todo. A atitude pragmática do jesuíta revela-se eficiente e apresenta-se como uma perspectiva duma realidade que se modela diferentemente.

©António da Cunha Duarte Justo
www.antonio-justo.eu