A Revolução
comunista em Portugal e a Contra-revolução partidária
António Justo
O 25 de Abril é passível de muitas interpretações. Tal
como afirma Josep Sánchez Cervelló, o objectivo do 25 de Abril (FMA) era a
descolonização e a instauração de um regime socialista em Portugal.
Na madrugada do 25 de Abril de 74, Portugal sonhou e a 25 de Novembro de 75
acordou para uma discussão entre forças radicais e moderadas que impediu uma
futura guerra civil entre as forças armadas divididas.
Fernando Rosas diz que a revolução portuguesa «foi a última revolução de
esquerda da Europa do século xx». O mesmo povo que possibilitou o início da
revolução impediu-a depois.
Do que observei, nos primeiros tempos da revolução poderia afirmar, que o que
se passava nas ruas era a expressão de um povo dominado que saia à rua para
cantar a liberdade.
Liberdade e libertinagem eram atitudes não claras tanto nos revolucionários
como no povo que os aclamava. A festa foi mesmo boa e à maneira portuguesa; mas
a liberdade e a desordem eram tão grandes que já assustavam os países vizinhos,
numa época de caos e de inovação onde imperava a esquerda e a extrema-esquerda
(Fase dos governos provisórios até ao fim do quinto governo de Vasco Gonçalves,
19 de setembro de 1975). Entretanto Mário Soares servindo-se também do cargo
de Ministro dos Negócios Estrangeiros para os contactos com o estrangeiro,
conseguiu, com o Grupo dos Nove, dar força à contrarrevolução que incluía
também os interesses da burguesia. Durante o VI Governo provisório do 1°
ministro Pinheiro de Azevedo e do Presidente Costa Gomes dá-se o golpe militar
do 25 de Novembro de 1975 propriamente manejado pelas forças inerentes ao
"Grupo dos Nove", as forças moderadas da esquerda e da direita; aqui
dá-se o fim dos sonhos da esquerda radical (prisões de militares e
desautorização do gonçalvismo e do otelismo). O PCP, Vasco Gonçalves e as
forças revolucionárias da esquerda, opta pela luta ideológica do domínio
político. Têm uma função de catarse no discurso político. O maquiavelista
Mário Soares “ambicioso sem princípios nem convicções” como desabafa Vasco
Gonçalves, pôde fortalecer os interesses dos parceiros europeus. Com o apoio
dos socialistas franceses, austríacos, do SPD alemão e da CIA americana,
conseguiu endireitar a revolução da esquerda radical. A Constituição
institucionaliza depois uma democracia partidária. Acaba-se a era dos líderes
militares para se iniciar a dos líderes políticos.
Com o começo do 1° Governo Constitucional (sob a chefia de Mário Soares a 23
de setembro de 1976) inicia-se uma política no sentido da integração europeia,
começando por devolver as terras e as casas ocupadas e as empresas
nacionalizadas aos seus proprietários. A Europa respira fundo porque vê
afastado o perigo de Portugal se tornar numa segunda Cuba.
Ainda me lembra de, na altura, haver expressões públicas contra a Europa, mas a
autoridade indiscutível dos partidos conseguiu manter o povo nas suas fileiras,
sem referendo tal como se fez com a integração de Portugal na zona euro (Na
altura mais que discurso político reinava o discurso ideológico e a
generalidade do povo não tinha ideia do que se estava verdadeiramente a
passar).O povo teve, porém, papel muito importante, logo no início do 25 de
Abril, porque com o seu acorrer às ruas impediu que os militares entrassem em
conflito imediato entre eles. A força partidária esteve extremamente
presente conseguindo domar à sua maneira, o caos “democrático” de um povo que
então se sentia à solta, de ocupação em ocupação. Nesta altura ainda não havia
verdadeiramente líderes onde o povo se pudesse alinhar, isso só veio a
acontecer com a organização partidária que conseguiu alinhar e chamar a si um
povo já de si desalinhado. Cantava-se, então, que o povo é quem mais ordena,
o que em parte acontecia até ao 25 de Novembro; este mesmo povo que repetia a
cantiga dos revolucionários cantava depois a cantiga dos Partidos organizados.
Aqueles que queriam uma revolução à maneira russa, de Mao Tsé-Tung ou cubana
perderam logo nas Eleições para a Constituinte, obtendo a maioria o PS com 37,8%
e o PPD com26,3%). O povo optou pela democracia representativa. Depois
manteve-se uma discussão extremista e muitas das palavras que se hoje ouvem
contra o fascismo são saudades frustradas de um tempo em que a revolução de
caracter totalitário foi de facto impedida por Mário Soares e pelas forças
inerentes ao grupo dos nove.
Foi um golpe de estado feito pelos capitães e não pela hierarquia militar
superior. Decisivo no sentido de impedir a divisão da instituição militar foi a
acção dos intermediários António de Espínola e Francisco Costa Gomes, tornados
chefes de estado até às eleições presidenciais de 1976. O que temos é fruto da
democracia de manifestações de interesses muito embora numa democracia formal.
Muitos, que antes atribuíam todo o bem adquirido ao 25 de Abril,
responsabilizam-no agora, fazendo dele um bode expiatório de todo o mal, tal
como foi feito outrora com o regime de Salazar. Também houve uma hiperbolização
do 25 de Abril como tudo se devesse a ele e não fosse possível desenvolvimento histórico
sem ele e como se não houvesse outros Estados na altura em condições
semelhantes às nossas e, apesar de não terem tido revolução, conseguiram
acompanhar o desenvolvimento dos tempos.
Os que fizeram a revolução aproveitaram-se dela (vejam-se os partidos e seus
membros relevantes que reservaram o amanhecer de Abril para eles e o anoitecer
para a maioria); a falta de formação política e cívica que não se pode adquirir
só na rua acentuou a dicotomia entre a História e o mito!
Instalou-se uma Partidocracia
A política, como “actividade nobre de servir os outros e governar o que é de
todos”, tem um senão: é obra de pessoas habituais e votada e criticada por 90%
de quem não entende de política nem de governação. Assim, em vez de uma
democracia orientada para o povo, como é o caso da Suíça, instalou-se uma
partidocracia todo-poderosa e incontrolável. Torna-se cínica a forma como os
nossos democratas falam dos privilégios do clero e da nobreza na Idade Média e
se reservam para si privilégios que a plebe democrática não tem. Seria
lógico que ganhassem mais mas que estivessem sujeitos aos mesmos direitos e
deveres que o normal do cidadão e de instituições sociais. Marinho Pinto,
bastonário dos advogados, relata, entre muitos privilégios dos partidos, os
seguintes: os partidos políticos estão isentos de IRC, IVA, IMI, imposto de
selo, imposto de doações e sucessões, isentos de imposto sob património, de
imposto de automóvel, de imposto municipal de transmissão de imóveis, de taxas
de justiça e de custas judiciais. “Tudo privilégios adquiridos às escondidas”.
Cada voto rende para os partidos 3,1 Euros por ano. O MRPP, devido aos votos
recebe mais de 15 mil euros por mês; o PSD vencedor das eleições irá receber
entre as últimas eleições e as próximas 38 milhões de euros; o PS vai receber
mais de 28 milhões; O CDS/PP 13 milhões; PCP e o VERDE mais de 10 milhões;
Bloco de Esquerda mais de 6 milhões; e não parlamentares como PCTP/MRPP mais de
777 mil euros e o Partido dos Animais e da Natureza recebe mais de 730 mil euros.
Além disso os partidos parlamentares receberam mais de 8,3 milhões de euros
para as despesas da última campanha eleitoral a dividir entre os partidos
segundo os resultados obtidos. Cada grupo parlamentar também terá direito a uma
subvenção anual para encargos de assessoria aos deputados no correspondente a
cerca de 2.000 euros por cada deputado; a Assembleia da República paga as
remunerações dos funcionários dos grupos parlamentares 2 milhões e 550 mil
euros por ano; o PS recebe 2milhoes 104mil euros o CDS 1 milhão e 200 mil e o
PCP 865 mil euros o bloco de esquerda 631 mil; e os Verde 244 mil euros. Além
dos 24 milhões de Euros ainda há verbas de 18 milhões e 500 mil euros para
apoiar as campanhas para a assembleia da república, assembleias legislativas
dos Açores e da Madeira parlamento europeu e depois ainda há outra verba para
as autárquicas.
Mudança de padrões de pensamento: da matriz de pensamento de direita
passou-se para a matriz de pensamento de esquerda
Passaram-se já 40 anos depois do canto de Grândola Vila Morena na Rádio
Renascença a 25 de Abril de 1974. Numa altura de crise e em que as
conquistas de Abril e os valores da civilização cristã são sistematicamente
destruídos por forças da esquerda e da direita, a comemoração da “revolução dos
cravos „ pode tornar-se cínica. Canta-se hoje o 25 de Abril como outrora se
cantavam as proezas da Constituição de Salazar em 1933. O processo
revolucionário caótico interrompido por Mário Soares e pelas forças em torno do
“Grupo dos nove” deu origem a outro processo que embora avançado, é escuro e
muito mais corrupto que o anterior. O 25 de Abril deu-se na confusão de forças
militares e partidárias continuando ambíguo.
O 25 trouxe-nos a paz e a democracia e direitos sociais e sindicais e criou
a plataforma para o progresso em diversos campos contribuindo para o melhor
bem-estar das pessoas, especialmente nos sectores da saúde, educação e
comunicação mas não conseguiu a suficiente inclusão que entusiasticamente
se propunha; pelo contrário fomentou a diferença dos mais ricos e dos mais
pobres. Quanto aos pobres manteve-os no assistencialismo, que os mantem a pouco
mais que a pão e água.
O alarido em torno da música de Abril conseguiu a grande adesão popular mas não
envolveu depois o povo no processo cívico. Há deficiências que se devem à falta
de formação política do povo mais configurado para a “res privada” do que para
a “res publica”; isto explica-se pela falta de responsabilidade da classe
política também ela demasiadamente condicionada por influências de grupos
alérgicos à gerência do seu comportamento na praça pública.
A situação em que nos encontramos e o estado de corrupção estatal/partidária é
tão grave que não seria responsável um discurso que pretende ajustar contas com
a direita ou com a esquerda. Neste sentido, já há muito deveria haver
coligações de maiorias governamentais de salvação nacional formadas pelos
partidos mais fortes. A palavra de ordem só pode ser de reconciliação,
responsabilização e metanoia.
A situação portuguesa não pode ser desintegrada da matriz económica da EU a que
nos unimos e que vincula esquerda e direita, como a economia dos USA e da China
que não nos deixa produzir artigos concorrentes em termos de preço. A
globalização capitalista liberal com a falência dos bancos… e a má
administração dos governos levaram Portugal à bancarrota, pondo-o nas mãos dos
credores. A riqueza desenfreada de alguns provoca a dessolidarização social do
Estado. A nível de infra-estruturas, apesar da crise económica, Portugal é um
dos países mais avançados.
25 de Abril – O Despertar de uma Ilusão
O 25 de Abril foi um acenar de revolução que deixou no ar um aroma de cravos e
liberdade. Seguiu depois a política dos embuçados que ocuparam a República sob
a mão duma mafia de luvas brancas e invisível que contamina a vida do Estado e
da Nação. Dá-se a repetição do que tinha acontecido na primeira república com a
sua maneira de estar e fazer jacobina maçónica e ideológica aliada a um
conservadorismo pedante de atitude medieval.
“Quem se deita com crianças acorda molhado!” O que se deu em Portugal ocorre
também noutros países atendendo ao facto da política ser uma questão da “res
pública”e 90% do povo não estar preparado para ser verdadeiramente “ser
político” mais predisposto para a alienação do que para a realidade e a utopia.
O Golpe de Estado deu oportunidade à revolução cultural (movimento 68) em
via nos USA, Alemanha, França, etc. O 25 de abril vulgarizou-a então por todas
as camadas sociais do povo português. O 25 de Abril torna-se socialmente também
no veículo político e social do Movimento 68. Despertou-nos da Bela Adormecida
para um mundo fandango.
Passou-se de uma matriz de pensamento paternalista de direita para uma
matriz de pensamento paternalista de esquerda. Um rigorismo paternalista deu
lugar a um conformismo rígido de opinião de esquerda. Passou-se da proibição de
opinião individual para a liberdade de pensar em bloco. O pensamento individual
e verdadeiramente aberto continua a ser uma pedra de tropeço neste sistema
democrático.
O golpe de Estado deu-se quando me encontrava a estudar teologia e pedagogia
social na Alemanha. Tive então um sentimento de libertação, esperançado em
novos tempos e numa nova humanidade.
Com o tempo notei que a liberdade, igualdade e fraternidade que os
revolucionários apregoavam eram as liberdades dos seus grupos de interesses não
a de todo o povo nem para todo o povo. Tratava-se de uma liberdade querida por
certas ideologias de panorama limitado à própria mundivisão e justiça sem ter
em conta a situação de cada pessoa. Vivia de encenações e proclamações duma
liberdade sem corpo nem alma, duma liberdade internacional abstracta, visível
em festas e comícios mas não na realidade. O atributo “facho” era na altura
distribuído com proficuidade e até com carinho porque a palavra fascista além
de agressiva era injusta. Em comícios, chegava-se a aguentar a liberdade de
opinião reservando-se a decisão para horas tardias onde então se protocolavam
opiniões dos restantes mais iguais. Quem não pensasse igual era julgado como
“facho” e como tal de opinião manipulada pelo antigo regime. A nova “censura”
(pensar politicamente correcto) marcava os seus pontos na sociedade. À
conformidade dum sistema segue-se a conformidade com o outro. Da conformidade
com o novo pensar surgia a oportunidade profissional.
O tempo de Salazar incorpora uma era da ordem rígida e de regras sociais
intransigentes adversas à mudança. Antes havia o paternalismo da censura depois
passou-se ao paternalismo das ideologias e do oportuno. Aos cães de guarda de
regras do decoro e da moral perante o povo e a juventude sucedem-se os novos
cães de guarda de ideologias. Os saneamentos efectuados nas instituições e a
penteação mental operada nas escolas e universidades deram pouca margem ao
surgimento de despenteados do pensamento: aqueles que promovem a mudança sem
lhe determinarem a orientação para a esquerda ou para a direita! Dos acomodados
tradicionalistas passou-se aos acomodados progressistas. Mudou-se o folclore, a
atitude permanece a mesma. Antes seguíamos a ordem do orgulhosamente sós para
depois seguirmos a ordem do valha tudo menos nós.
O discurso político faz mais parte do passatempo. Assim como só discutimos
superficialmente os tempos da primeira república e de Salazar assim se
branqueia o 25 de Abril. Cada época branqueia, irreflectidamente a sua, na
procura de culpas passadas que distraiam das suas.
Vive-se de uma história do passado e do futuro sem olhar crítico para o
presente. Os fracos e a demonização de um sistema chegaram para justificar
medidas irreflectidas e a lavagem de cérebro aos portugueses.
Havia um congestionamento de reformas, é verdade. O espírito da geração 68 do
ocidente empacotado no 25 de Abril a pretexto de saneamentos dos ” fachos” e
como estratégia de infiltração partidária iniciou a sua marcha através das
instituições. Este processo também se deu nas instituições europeias pelos
arautos da geração 68. A revolução ocidental dos jovens de 68 conseguiu chegar
à ribalta da história portuguesa e questionar hábitos e valores já com musgo.
Uma época da História com um ambiente a solicitar o florir de pessoas e
instituições continuava ainda manietada por regras e ordens desconformes ao
espírito que flui do mundo ocidental.
Neste contexto, tornamo-nos todos abrilistas, consciente ou inconscientemente.
Ao golpe de Estado de Abril junta-se uma revolução cultural. O projecto de
mudança social desencadeou um processo de esperanças e ideais. À leviandade com
que se operou o processo das independências junta-se o erro de mera aplicação
de ideologias internacionais já em processo decadente da rebeldia e do
preconceito vigente contra as instituições: contra Deus, pátria e família.
Também isto levou a nova classe política a desobrigar-se também porque deixou
de entender a diferença entre pecados sociais/culturais mortais e pecados
socias/culturais veniais!
O sentido da liberdade esgotou-se no questionar a ordem antiga. A razão
familiar, democrática e de opinião é despenteada a favor do liberalismo
histérico da economia e do mercado. A revolução apodera-se da liberdade e do
sexo que oferece a belo prazer sem apelar para a responsabilidade nem para as
consequências dos próprios actos. Liberta-se o instinto do animal e reduz-se a
pessoa ao indivíduo inocente sem roupa, nem cabeça na esperança de uma vida
natural de necessidades realizadas numa sexualidade que restabelece a vida
inocente de Adão e Eva antes da mordedura da maçã. Agora tudo corre à procura
de auto-realização num novo Homem sem consciência nem moral. Depois das aldeias
esvaziadas de sentido até à última aldeia das Cabras, passamos a sofrer de
liberdade abstracta. De recordar que na altura em que a revolução andava à
solta, a “juventude” da cidade, nas suas campanhas de esclarecimento popular se
deslocava às aldeias para politizar o povo (facto este que se não tivesse sido
ao serviço da ideologia seria uma boa iniciativa). (Neste contexto conheci um
episódio em que se organizou a desfloração de virgens em grupo, sendo para o
efeito escolhido democraticamente um jovem delicado para executar tão delicado
trabalho Conheci, na altura, um jovem que o fez, era ligada aos grupos de Otelo
e chegou a ter várias metralhadoras em casa). Tropeçamos na própria liberdade:
Uma falsa compreensão de emancipação espera agora por vingança. Alimentada de
valores e da fé numa democracia e numa liberdade elástica. A dança da liberdade
leve ameaça tornar-se numa dança de mortos na preparação de um apocalipse que
acontece ciclicamente no desenvolvimento da História. O caldeirão do consumo
torna-se num buraco negro que engole tudo, engole a razão, a liberdade e
equaciona a ética em termos de mercado e consumo, num mundo que se quer caótico
sem sujeitos individuais, sem políticos responsáveis nem estado. Um niilismo
nostálgico quer de sujeitos funcionários, só tipos numa realidade factual
meramente económica. Agora é o tempo dos nostálgicos na procura da inocência
perdida. Uns e outros com falta de realismo.
Socialismo espalhado com o aroma dos Cravos
A revolução tinha outras intenções com o seu golpe de estado. Os seus
realizadores queriam, como se pode verificar nos governos provisórios, a
mudança do regime autoritário para outro regime ainda mais autoritário mas de
caracter popular. Encenavam-se como heróis tornando-se autoridades morais em
nome duma consciência socialista internacional pronta a sacrificar a própria
nação.
Dos livros de ensino começam a substituir-se textos de portugueses consagrados
por textos da internacionalidade. A própria constituição deve ser a mais
progressiva e mais internacional possível. Celebravam por toda a parte a
salvação dum estado de sonho, dum povo liberto das heranças do passado. Um
povo que esperava liberdade foi amarrado à manjedoura da ideologia por
dançarinos do poder que de pacientes passaram a salvadores. Organizam-se
programas de reeducação popular no sentido de ideários socialistas que queriam
resgatar Portugal, expurgá-lo da pátria para o tornar internacional e popular.
Apresentam-se como vítimas legitimadoras duma nova identidade a criar. Não
chega lamentar e remediar o autoritarismo da ditadura anterior; precisa-se de
um fascista grande para argumentar e para isso comparámos Salazar com Hitler.
Com um Salazar monstro não precisamos de mudar a nossa conduta; apenas a
ideologia. Por mais que os erros da nova classe se levantem, nunca chegarão
àquela gravidade! E o povo acreditou nas promessas seguindo a voz do novo
canto. Um povo de abelhas vai seguindo o cantar da cigarra. Queria em nome do
marxismo criar uma nova sociedade com novas amarras. Os espíritos do velho
regime instalam-se com mais convicção no novo. A vergonha dum antigo regime
apressa a identificação com o socialismo internacional. Chega a cor para nos
dar o sentimento de pertença.
O impasse em que vivemos hoje deve-se a uma liberdade gratuita, prometida e que
se quer atingida sem o suor do próprio rosto. Uma libertação de tudo mas sem
saber para quê. Um mundo de abrilistas torna-se pioneiro da liberdade
prometendo felicidade. Em nome da liberdade dá-se oportunidade ao novo
oportuno: novos senhores exploradores ocupam agora o lugar dos antigos.
Dá-se também uma democratização da exploração, sendo agora possível um número
maior de exploradores do que antes. O Golpe de Estado efectuado não se orientava
pela realidade das pessoas e da nação mas seguia apenas ideologias mais ou
menos internacionais de fardas engomadas.
Portugal passou a albergar, especialmente no Alentejo, muitos peregrinos e
“refugiados” da civilização ocidental.
A revolução ao ser feita em nome da esquerda tornou-se sua propriedade; este
foi o seu busílis ao esquecer que o Homem consta de uma parte esquerda e outra
direita, uma parte inferior e outra superior. A revolução tinha boas
intenções mas ao polarizar-se desrespeita a pessoa e a nação, tal como fez o
regime anterior. Este foi um grande erro na estratégia de educação popular. Por
isso hoje já não é o povo quem festeja, quem festeja é o partido ou os
funcionários do Estado. A vivência da nova era sente-se no acto da compra no supermercado
e no sexo. Cai-se no vício de uma liberdade sem vontade.
O "movimento 68" resume a sua doutrina na frase “depois de Ausschwitz
não se pode acreditar mais num Deus bom e amoroso” quando a conclusão lógica a
tirar seria: depois de Auschwitz não se pode acreditar mais na bondade natural
do Homem. A primeira frase leva à desculpa e à ideologia, a segunda compromete
e responsabiliza cada pessoa.
Tal como uma árvore precisa de estrume no seu solo assim uma cultura precisa do
húmus da tradição para poder desenvolver-se e do sol da esperança que constrói
o presente com uma panorâmica gratificante. A liberdade precisa de um horizonte
e o húmus de que ele se alimenta é o cristianismo e o idealismo (idealismo
pensado na alternativa de pensamento alemão ao iluminismo francês). Para o
cristianismo cada pessoa é um ser singular único com uma consciência pessoal
com uma dignidade humana que o torna responsável e transcendente.
Desencantar e dessacralizar o mito de Abril
Cada nação precisa dos seus ideais e dos seus mitos; de facto precisamos de
utopia mas não da alienação. Em nome de uma superioridade moral vendemos o mito
da revolução. Portugal perde a guerra do ultramar e vende-a como libertação de
Portugal. A derrota de um ultramar entregado ao bloco soviético é
empacotada na cor dos cravos de Abril. Uma descolonização que já há muito
deveria ter sido feita, deu-se na confusão e na traição em nome da auto-estima.
Todos nós sofremos do mito de Abril que nos levou para onde nos encontramos.
Portugal ajoelhado não aos pés duma civilização, mas ajoelhado aos pés da
troika que apesar de tudo, com o seu ditado, ajudou Portugal a sair da
bancarrota (de que nos libertamos, esta semana, ao voltar aos mercado
financeiros internacionais).
Agora seria óbvia a era da recuperação da dignidade individual assumindo
responsabilidade pessoal. Primeiramente seria necessário desencantar os
feitores da revolução. Antes deixávamos o negócio do Vinho do Porto nas mãos
dos feitores portugueses a serviço das quintas inglesas. Com o 25 de Abril
entregamos o negócio da nação, primeiramente, a feitores da ideologia, aos
representantes soviéticos e à fé no movimento 68 para depois colocarmos o nosso
destino na EU. Abandonamos a consciência lusófona e de portugueses para
seguirmos a anónima internacional. Em nome da moral e contra a razão
endinheiraram-se os novos-ricos produzidos pelo Abril à custa do esvaziamento
cultural e da auto-estima da nação.
Para começarmos de novo teremos de deixar nas ruinas do “império” os seus
“heróis”, aqueles que lhe fizeram o enterro. Temos que da ruina da nação
enferma, agora ajoelhada erguer-nos de novo como noutros tempos contra os
interesses daqueles portugueses traidores que arquitectavam o seu futuro na
entrega de Portugal a Castela. 1640 é um dia do povo, agora que a liberdade
individual e do povo se encontra mais que nunca ameaçada, há que o restaurar.
Mandemos para o ferro-velho da história muitas das aquisições de Abril para
readquirirmos Portugal readquirindo-nos a nós. Não queremos já ideais floridos
nem a libertinagem enganadora; não precisamos da roupa velha mas duma vontade
firme para cada um se erguer. Também o entusiasmo e valores do 25 de Abril nos
poderão ajudar. Um estado que domina e mantem o povo á trela da ideologia e
das dívidas perde a confiança.
Talvez fosse melhor dizer adeus a alguns direitos para recuperarmos a nossa
dignidade ultrajada numa massa de ovelhas em que a perspectiva prometida era a
erva e o traseiro da “ovelha” vizinha. Para nos tornarmos cidadãos adultos
teremos de deixar de ser massa partidária, confessional ou nacional. Ter-se-á
de sair de novo para a rua para aí se construir o nosso Abril, um Abril de
liberdade para cada um. Uma rua trabalhada e enfeitada por todos mas sem
ladrões das flores e dos frutos e sem os protagonistas da nação apresentados na
imprensa e na televisão. Somos um povo a caminho à semelhança do de Israel a
realizar-se em comunidade.
RUMINAR A REVOLUÇÃO
A revolução não pode ser analisada apenas sob o aspecto moral; precisa
também de uma abordagem histórica séria que ainda não chegou à consciência
pública. Na análise da ditadura e da revolução exigimos dos protagonistas
que sejam heróis ou pelo menos pessoas admiráveis. Os que fizeram a revolução
revelaram-se muito normais (excepto Ramalho Eanes) e a nível de liderança será
difícil encontrar uma personalidade da craveira de Salazar. Seria hipocrisia
continuar-se a apostar numa “vítima de lavradores” como dizem os Alemães para
ilibarem os restantes, quando todos faziam parte do sistema. Karl Marx dizia “As
pessoas fazem a própria história, mas, sob circunstâncias auto-selecionadas,
não o fazem livremente”. Trata-se de viver uma cultura da memória com
capacidade para se rever no positivo e no negativo sem passar tudo a ferro nem
com heroizações.
É melhor uma controvérsia honesta que contribua para a construção de uma
sociedade civil crítica na continuidade da paz civil. Entretanto o 25 de Abril
tem-se tornado numa carga que transforma a mudança do nome da ponte Salazar
para ponte 25 de Abril numa usurpação. O armazém da memória da comunidade
democrática aguenta e deve ser resistente, na certeza de que não foi o 25 de
Abril que inventou a liberdade, a igualdade e a fraternidade e na consciência
que cada época tem os seus padrões e normas. Liberdade só o é se for ao mesmo
tempo uma conquista individual e social.
O sociólogo Laurene Peter fala de um princípio que pode explicar parte da
situação portuguesa. Fala de uma “sublimação sem barulho” e de um “cair pela
escada acima” uma pseudo-promoção. Segundo o Princípio de Peter, cada
funcionário tende a subir na carreira até atingir o seu grão de incompetência.
Enquanto não se atinge o grau da incompetência ganha-se aplauso, reconhecimento
e influência. Depois, uma vez atingido o último degrau, fica-se lá, em vez de
se ter ficado no grau anterior onde se era criativo e competente.
As novas gerações (pós 25 de Abril) receberam, gratuitamente, uma herança que
agora desemboca na crise e que é preciso ruminar. Acordamos num jardim
zoológico muralhado quando sonhávamos a liberdade de passarinhos sem gaiola nem
fronteiras. Julgávamos que o sonho era realidade e que a realidade era sonho.
Julgávamos que era possível uma sociedade só de académicos e por isso acabamos
coma as boas escolas comerciais e industriais de então. A revolução nascida
mais da ideologia do que da realidade desprezava o trabalho manual. A
discriminação do trabalho manual em relação ao intelectual levou-nos a onde nos
encontramos.
O 25 de Abril envelheceu deixando os mais velhos desiludidos dos marxistas,
maoistas, comunistas, anarquistas que queriam uma mudança radical. Constatou-se
que o sonho era só para eles, como podemos verificar nas suas posições,
remunerações e pensões. Tudo corria para o partido que dava mais.
Somos todos corresponsáveis. Quando um dedo da nossa mão aponta para a
responsabilidade dos outros pelo menos outros três apontam também para nós. Sou
crítico porque amo o meu país, procurando ver o porquê das coisas irem mal.
UM ESTADO ONTEM REFÉM DA NOBREZA E HOJE REFÉM DOS PARTIDOS
Portugal a partir do séc. XVII nunca foi reajustado encontrando-se ciclicamente
em derrocada como constatavam já Alexandre de Gusmão, Antero de Quental: “a
nutrir pançudos”. Faliu em 1892, e depois sob penhora durante a I República
tendo como consequência o golpe de Estado de 1926, altura em que Portugal se
encontrava de novo na falência.
A primeira república desqualificou os ideais liberais e democráticos a ponto de
chegar a produzir o provérbio “isto é uma república” com o significado de
desordem e actualmente a "Isto é uma república das bananas." O regime
de Salazar criou uma ditadura do “orgulhosamente sós”.
No tempo do “António Salazar” o pensamento era censurado, no regime do 25 de
Abril é penteado pelo pensar politicamente correcto, propagado pelo espírito do
tempo e laqueado pelos mass media.
O que se dá com as revoluções portuguesas é o mesmo que se tem dado com os
governos: é uma alternância dos senhorios do Estado português; antes nas mãos
da nobreza e depois nas mãos dos burgueses e novos-ricos. Transmitem-se os
mesmos vícios num conluio de conservadores e progressistas. A Ditadura
Nacional (1926-1933) termina em 1933 com a Constituição de 1933 e início da II
República (Estado Novo) até ao golpe de estado do 25 de Abril de 1974. A Constituição
de 1976 estabelece a democracia partidária. Nesta III República repetem-se os
erros tradicionais e estende os seus tentáculos de polvo partidário e
ideológico governa o país com leis e decretos ao sabor do tempo e das
influências.
Antes para servir nobrezas e burgueses insaciáveis, depois para servir as bocas
partidárias e de irmãos maçónicos boçais.
Um povo que não cresce organicamente vive dos golpes de Estado (revoluções)
que além de ajustes de contas se revelam num acerto ao tempo. Vivem de uma
lei fora de lei. Velhacos metem a mão à bolsa dos velhos e aos novos
pede-se-lhes para emigrar.
À beira da falência em 83 salvou-o a EU mas a megalomania esbanjadora de querer
viver à grande europeia mas com uma economia de terceiro mundo – uma economia
de grandes para grandes - só que depois o desflorou com a Troika em 2011.
Amoral encontra-se também ela em processo de emancipação, a consciência passa a
ser opinião destilada nos alambiques dos interesses grupais.
O povo e a massa cinzenta ocupam-se, à maneira tradicional, da comparação e do
maldizer dos novos velhos usurpadores, esquecendo que a situação é de tal
desespero que conduziria, a ser tomada a sério às conclusões e trágico fim de
um Antero de Quental. Do seu olimpo sob o sol do desespero a opinião elucidada
(tuba canora) julga da justiça social. No Olimpo tudo é grande, nele a grandeza
supera a corrupção, tudo passa a ser normal. Onde não há moral não há direito.
Por vezes, parecemos povo, filho de pai incógnito continuamente a olhar para o governo,
esperando reconhecer nele o pai. Diz-se o que não se pensa, pensa-se o que não
se diz!
António da Cunha Duarte Justo
Formado em Ciências da Educação (Português e
História)
Conferência proferida na sede da ARCADIA a 4 de Abril de 2014
Faz parte do início da conferência o artigo antes
publicado sob o título: 40° Aniversário do 25 de Abril
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