domingo, 16 de abril de 2023

SOCIALISMO E CAPITALISMO RESULTANTES DE DIFERENTES ÉTICAS - A CATÓLICA E A PROTESTANTE


Atualidade da matriz católica e da matriz protestante

A ideia leva à acção como garantia de desenvolvimento (1).

No atual conflito internacional (ocidente-oriente) devido à preponderância ocidental mundial assiste-se à continuação do debate entre a matriz social/antropológica católica e a matriz social/antropológica protestante. Estes são como que os dois polos de uma mesma realidade no processo de desenvolvimento social e individual. Se por um lado no catolicismo se destaca o movimento centrípeto (a comunidade) no protestantismo e na sociedade anglo-saxónica acentua-se o movimento individual centrífugo em relação à comunidade.

A sociedade e a natureza deixam-nos livres, mas também presos; nelas se constata que a autonomia só é possível no relacionamento. Daí a emancipação ter de ser vista num relacionamento processual de maturação recíproca e como processo de complementaridade inclusiva.  Antropológica e sociologicamente tem como sujeito comum o humano em tensão entre comunidade e indivíduo, tradição e inovação, entre terra e céu (Que seria da árvore sem a terra que a sustenta? A negação de uma significaria o fim das duas!). Assim uma sociedade saudável terá de integrar o fenómeno da individuação (autonomia) e da socialização (comunidade) como processo de desenvolvimento recíproco. A sociedade ocidental tem-se desenvolvido mais no sentido da individuação (afirmação do ego) mas tem desprezado o seu aspecto comunitário (afirmação do nós)  e deste modo em crise devido ao processo de autodestruição porque afirma o “movimento de rotação” sem contemplar o “movimento de translação” que incorpora aquele numa constelação ou sistema comunitário e sem isso conduz a uma desconstrucção tornada inerente ao sistema.

Uma emancipação Voluntária (2) acontecerá entre a emancipação familiar/social/individual e a emancipação legal/institucional e não numa conexão de subjugação de uma em relação à outra. Se observamos o sistema solar poderemos identificar os diversos planetas, mas todos eles recebem a consistência do Sol (a Terra sem o Sol seria impensável). A verdadeira emancipação (autonomia individual) não pode esquecer a sua natureza relacional, a necessidade de um habitat cultural (Deus, “Pátria” e Família) doutro modo transforma-se em meteorito, fora de órbitra, que se autodestrói devido à inércia e à resistência do espaço-tempo ou acaba num buraco negro que tudo sorve!

De momento vivemos numa sociedade precocemente envelhecida sem consciência do equilíbrio necessário das várias forças condutoras que lhe dariam vitalidade e sustentabilidade. A emancipação terá de ser entendida como processo individual e colectivo sem que um se oponha ao outro. O relacionamento recíproco entre o indivíduo e o grupo acontece num processo de autolibertação e desenvolvimento quer do indivíduo quer da comunidade numa cumplicidade solidária de dar e receber! O processo de autoafirmação em oposição à comunidade só poderá ser compreendido como fase adolescente numa conjuntura especial de individuação, mas não como atitude sã e equilibrada permanente (a tensão interpolar é o factor de desenvolvimento em intercâmbio).  Como exemplo dos extremos de individuação e de colectivismo temos o capitalismo e o socialismo, a sociedade ocidental e a sociedade islâmica.

Enquanto a sociedade islâmica se apropria da singularidade individual subjugando-a à comunidade (aquisição de valor pela funcionalidade), a sociedade ocidental destrói as ligações à comunidade de maneira à pessoa se tornar num indivíduo sem características que o definam (e na consequência caminha-se para a anonimidade da pessoa como um abstrato funcional pragmático sem capacidade de autorresponsabilidade); na deficiência do caracter da comunidade ocidental afirmar-se-á o islamismo de maneira avassaladora na europa para ocupar este défice europeu e por outro lado o islão é aproveitado pelo globalismo mundial por atribuir à pessoa apenas um caracter funcional, o que o que facilita o estabelecimento de uma plutocracia mundial.

Um individualismo despersonalizado e demasiado acentuado afirma-se à custa  leva da comunidade favorecendo a criação de uma pequena elite mundial de déspotas iluminados que ditem normas e condutas de vida para as pessoas já descaracterizadas e regiões também elas sem caracter próprio e anonimizadas.

Passo a referir-me às diferenças éticas (católica e protestante) para melhor se entender os diferentes ideários entre os povos nórdicos e os povos do sul da Europa e a luta a decorrer entre o polo ocidental e o polo oriental. Muitas vezes combatemo-nos esquecendo que somos irmãos gémeos e de quem somos filhos. Diferentes teologias deram origem a diferentes éticas (salvaguardem-se muitas interpretações e expressões diferentes).

Em geral, a ética protestante baseia-se na crença no trabalho árduo, na economia e na necessidade de se submeter à vontade de Deus (aqui está certamente um dos factores que levou os países protestantes a tornarem-se mais ricos). Se a ética protestante acentua a consciência individual baseada na Bíblia (o indivíduo), a Igreja católica baseada nos ensinamentos da Igreja Católica acentua a autoridade transmitida através da igreja (a comunidade) e das tradições. A ética protestante enfatiza a justificação só pela fé (aspecto individual) e a ética católica além da fé acentua também a importância das boas obras e da cooperação com a graça (aspecto comunitário). Se para o protestantismo o importante é o relacionamento pessoal com Deus (distinção individual) a ética católica afirma especialmente a importância da graça e dos sacramentos (timbre comunitário) e não esquece a relação pessoal directa com Deus na mística e a nível moral a consciência individual como juiz soberano. Também no que respeita às virtudes há acentuações diferentes; se a ética protestante acentua a importância de virtudes como diligência, economia e responsabilidade pessoal, a ética católica enfatiza a importância de virtudes como misericórdia, caridade e solidariedade. De resto, a ética protestante tem uma forte incidência no trabalho e acentua a responsabilidade pessoal pelo sucesso na vida, a ética católica acentua o amor e a misericórdia para com os outros e a importância da comunidade e de defender os fracos (justiça social). Neste sentido a ética católica frisa a importância de virtudes como humildade, paciência, modéstia, bravura e justiça e convida os fiéis a viver e expressar essas virtudes nas suas ações diárias; exorta os fiéis a expressar a sua fé por meio das suas acções e a usar a razão no que toca a tomar decisões morais!

Também a cultura europeia não deveria tornar-se propriedade nem presa fácil de sistemas alheios a ela nem de mundivisões internas de esquerda ou de direita. Os dois polos para continuarem a ser integrais europeus ou globais terão de respeitar-se como partes integrantes do todo: o combate recíproco serve a autodestruição e a absorção por forças alheias mais fortes. O partidarismo aferrado e não tático apressa a derrocada da cultura europeia. Embora a opinião pública se deixe mover por posições extremas seria de pressupor nas elites dirigentes critério suficiente para não se deixarem cair na mesma dinâmica.

A divisão da ética cristã abrangente em dois polos opostos estilhaça a unidade e a perfeição cristã e com ela a alma cultural da Europa. Temos de nos encontrar para voltar a reencontrar a Europa e as suas fontes e nela o mundo. O cristianismo não ideologizado continua a ser a oferta integradora de indivíduos e sociedades numa relação fraterna de povos, religiões e culturas. Comunidade e individualidade são as rodas de um mesmo eixo que proporcionam o desenvolvimento humano e histórico.

A matriz católica e a matriz protestante expressam uma certa atualidade nos motivos da guerra a decorrer na Ucrânia onde se debate o sistema individualista anglo-saxónico com o sistema comunitarista oriental.

Devemos encontrar um meio-termo que abarque os dois polos para que os dois sistemas (um excessivamente individualista e outro excessivamente comunitário) se combinem de forma complementar num caminhar comum e numa só direção esperançosa (usamos o pé esquerdo e o pé direito, para avançarmos).

Neste sentido, a guerra na Ucrânia entre o Pólo Ocidental e o Pólo Leste é um grande desfasamento da história e apenas manifesta a estupidez, a arrogância e a falta de consciência das elites para com uma cultura que deveria começar por reconciliar-se a si mesma na Europa (de Lisboa aos Urais ) para assim se se possibilitar a reconciliação no mundo!

António CD Justo


Texto completo e notas em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=8457

 

sexta-feira, 14 de abril de 2023

SERÁ QUE O SUL GLOBAL VIRÁ AJUDAR A REEDIFICAR A EUROPA?

 

Rivalidade entre sistemas que favorecem a individualidade e sistemas que favorecem a Comunidade

 

No momento crítico da História em que nos encontramos estamos a repetir, no âmbito geopolítico, a luta que se deu na Europa na passagem da Idade Antiga /Idade Média para a Idade Moderna/Idade Contemporânea. Duas mundivisões encontram-se hoje, como outrora, em luta rival: a mundivisão de caracter individualista e a mundivisão de caracter comunitário.

Em vez de se tentar uma relação equilibrada das forças da individualidade e das forças da comunidade as duas lutam bestialmente uma contra a outra (sociedades com estruturas sociais individualistas contra estruturas sociais medievais comunitárias, fazendo-se passar a ideia no povo de que a luta é entre liberdade e comunismo/autoritarismo quando se trata de dois polos de uma só realidade.

Os governantes europeus têm assumido no contencioso geopolítico uma posição irresponsável de ignorância cultural e da sua autonegação! Há um factor de erro e de crise comum nos dois tipos de sociedade em luta: a sociedade ocidental destruindo em si mesma a necessidade comunitária em favor do individualismo caótico e as sociedades orientais subjugando toda a exigência legítima de emancipação de um sistema comunitário abafador do indivíduo. No meio de tudo isto afirmam-se as arrogâncias e rivalidade dos poderes contra os povos e suas populações...

Hoje a cultura anglo-saxónica encontra-se em crise e na iminência de perder a sua hegemonia mundial para dar lugar a uma realidade global multipolar; apesar dos males e crises que as divisões criam talvez a actual crise se manifeste como a grande oportunidade para a Europa se reconsiderar e se reencontrar culturalmente de maneira integral deixando o caminho desintegrador iniciado pelos países protestantes no século XVI e levado ao extremo no iluminismo (modernismo) motivado hegemonicamente pela cultura anglo-saxónica que viu surgir o comunismo como tentativa de dar resposta à necessidade comunitária. O desenvolvimento e a cura deixaram de se dar na comunidade para iniciar a sua profanação e consequente fragmentação. O progressismo individualista oprimiu o desenvolvimento conservador de maneira a ser instalado um progressismo de bandeirantes como se observa hoje no agir de muitos grupos activistas!  ...

O Brexit foi um passo desastrado e quase de rutura com a Europa em favor da hegemonia anglo-americana e a União Europeia viu-se reduzida e à condição de ter de seguir, de cabeça baixa, os Estados Unidos. 

A cultura e a filosofia anglo-saxónica enfatizam a importância da liberdade e autonomia individual descurando o desenvolvimento comunitário (o estado social funciona mais como tapa buracos de um sistema por si polarizador) ...

...Na guerra da Ucrânia dá-se a luta entre a mundivisão emancipatória anglo-saxónica e a mundivisão comunitária oriental, faltando aqui a Europa com a função de papel moderador entre a afirmação do individualismo e do comunitarismo...

Se, na Europa, no renascimento e com o protestantismo a concepção de comunidade entrou em crise por sufocar o indivíduo, hoje a afirmação do indivíduo é tal que ameaça sufocar a comunidade de maneira a conduzi-la ao caos!...

Desta falta de inteligência e compreensão humana assistimos a nível geopolítico como exemplarmente se combatem as duas mundivisões (individualista e comunitária) de maneira catastrófica quando a tarefa seria de se aproximarem uma da outra...

António CD Justo

Texto completo em: Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=8450

 

quarta-feira, 12 de abril de 2023

QUEM SÃO OS RIVAIS SE A EUROPA É CONSIDERADA INEXISTENTE?

O Presidente Mácron solicita mais soberania para a Europa, irritando assim a Alemanha

 

Mácron busca um debate que até agora foi oprimido na Europa. Na entrevista no voo de volta da China, Mácron referindo-se ao conflito em Taiwan disse: “O pior seria pensar que nós, europeus, deveríamos seguir a liderança nessa questão e nos adaptar ao ritmo americano e ao exagero chinês”.

Indiretamente Mácron adverte também para a experiência com o conflito na Ucrânia provocado pelos EUA e pela Rússia e onde os interesses da Europa foram sacrificados a longo prazo.

 O presidente francês Mácron no seu discurso de visita à Holanda, também pede mais soberania europeia.

No próximo conflito, a Europa não deve cair na armadilha dos EUA, como aconteceu com a Ucrânia; doutro modo a Europa permanecerá sempre presa das crises geopolíticas externas.  Vai sendo tempo de as potências deixarem de afirmarem os seus negócios egoístas com a guerra em vez de negociarem a paz!

Se a Europa não acordar, os estados extremamente dependentes dos americanos tornar-se-ão em vassalos dos EUA e da China. A Europa mereceria ter uma palavra a dizer em questões geopolíticas se fosse fiel a próprios interesses e às suas populações, mas para isso, não poderia renunciar a ser a terceira posição geopolítica e assim poder contribuir para a construção da paz mundial.  Para tal, os governantes europeus teriam de renunciar a serem mercenários das guerras dos Estados Unidos assumindo uma atitude diferente em relação à Rússia, aos Estados Unidos e à China e, ao mesmo tempo, abandonar a velha atitude imperialista, imanente à política do regime americano.

Que a Alemanha se irrite com a mensagem de Mácron é natural porque ela não tem a possibilidade de privilegiar uma política europeia em relação aos Estados Unidos devido às condições pós-guerra que lhe foram impostas e ao facto da grande presença militar dos EUA na Alemanha ser avassaladora! Na Europa precisa-se uma influência mais latina e menos anglo-saxónica...

O governo alemão critica Mácron, acusando-o de se isolar da Europa, mas ignora que Mácron personifica melhor a voz, a situação e os interesses da Europa do que a Alemanha; esta encontra-se altamente comprometida pela presença militar americana. Devido aos fardos da guerra e às condições impostas pelos aliados vencedores, a Alemanha só pode ocupar na política mundial uma posiço intermediária vendo-se limitada ao poder económico e controlada no que respeita às relações económicas com a Rússia (recorde-se a espionagem de Ângela Merkel, o boicote económico do gasoduto Stream 2, pelos “amigos” americanos e a sabotagem explosiva de Stream 1 e 2! Também por isso o debate político na Alemanha obedece a certas coordenadas em relação aos EUA e também a Israel.

Na questão de Taiwan, trata-se primeiramente da luta de interesses entre os EUA e a China, tal como na Ucrânia, dos interesses da Rússia e dos Estados Unidos, onde a ingenuidade e o oportunismo europeu se envolvem na qualidade de ajudantes mas que durante e depois da guerra são responsabilizados por ela.  Já não basta repetir o mantra de que somos parceiros, é hora de usar-se o bom senso e velar pelos interesses europeus.

Quem são os rivais se a Europa é considerada inexistente? Não basta argumentar que os chineses são rivais sistêmicos por causa do socialismo. Os países internacionais que não fazem negócios com a guerra devem estar preparadas para o diálogo, pois tanto o capitalismo liberal como o socialismo precisam de um tratamento fundamental para se tornarem mais compatíveis com a dignidade humana e com os interesses humanos e estatais. É uma impertinência e uma exigência excessiva continuar a alimentar conflitos baseados em cosmovisões diferentes em vez de aferir e colocar as cosmovisões de forma convergente ao serviço de uma mudança radical a favor da paz e das pessoas. A discussão tinha que ser abrangente e não apenas ao serviço do ponto de vista de interesses egoístas. A Europa, goste ou não, a longo prazo,  será mais dependente da Rússia e da China do que dos EUA apesar do poder estratégico mais alto destes. O poder mais elevado deve ser o da paz (1) .

Na opinião pública europeia joga-se com cartas pró-americanas e antieuropeias ao impedir-se uma discussão pública diferenciada e crítica que permita formular interesses culturais europeus.

Macron visitou com Von der Leyen a China mas Mácron recebeu altas honras enquanto Von der Leyen, teve uma recepção de segunda classe; e isto certamente  porque ela não queria a China como mediadora, mas apenas como afiliada da OTAN.

É triste observar-se que os media fora da europa apresentem uma discussão mais crítica e objectiva em relação ao cenário geopolítico. Mácron incomodou muita gente da real política por ter levado a acompanhá-lo uma grande delegação empresarial! Naturalmente em política nunca há um lado limpo.

A política mundial oscila entre o leste e o oeste e os jornalistas, em vez de oscilarem entre a previsão e a comparação, adoram seguir o erro amenizado através de um misto de decepção e esperança.

 

António CD Justo

Pegadas do Tempo:  https://antonio-justo.eu/?p=8441

(1) MINISTÉRIO DA PAZ COM IGUAL ORÇAMENTO AO DO MINISTÉRIO DA DEFESA: https://antonio-justo.eu/?p=8429