Atualidade da matriz católica e da matriz protestante
A ideia leva à acção como garantia de desenvolvimento (1).
No atual conflito internacional (ocidente-oriente) devido à preponderância
ocidental mundial assiste-se à continuação do debate entre a matriz social/antropológica
católica e a matriz social/antropológica protestante. Estes são como que os dois polos de uma mesma realidade no processo de
desenvolvimento social e individual. Se por um lado no catolicismo se destaca o
movimento centrípeto (a comunidade) no protestantismo e na sociedade
anglo-saxónica acentua-se o movimento individual centrífugo em relação à
comunidade.
A sociedade e a natureza deixam-nos livres, mas também presos; nelas se
constata que a autonomia só é possível no relacionamento. Daí a emancipação ter
de ser vista num relacionamento processual de maturação recíproca e como
processo de complementaridade inclusiva. Antropológica
e sociologicamente tem como sujeito comum o humano em tensão entre comunidade e
indivíduo, tradição e inovação, entre terra e céu (Que seria da árvore sem a terra que a sustenta? A negação de uma
significaria o fim das duas!). Assim uma sociedade saudável terá de
integrar o fenómeno da individuação (autonomia) e da socialização (comunidade)
como processo de desenvolvimento recíproco. A sociedade ocidental tem-se
desenvolvido mais no sentido da individuação (afirmação do ego) mas tem
desprezado o seu aspecto comunitário (afirmação do nós) e deste modo em crise devido ao processo de autodestruição
porque afirma o “movimento de rotação” sem contemplar o “movimento de
translação” que incorpora aquele numa constelação ou sistema comunitário e sem
isso conduz a uma desconstrucção tornada inerente ao sistema.
Uma emancipação Voluntária (2) acontecerá entre a emancipação
familiar/social/individual e a emancipação legal/institucional e não numa conexão
de subjugação de uma em relação à outra. Se observamos o sistema solar poderemos
identificar os diversos planetas, mas todos eles recebem a consistência do Sol
(a Terra sem o Sol seria impensável). A verdadeira emancipação (autonomia individual)
não pode esquecer a sua natureza relacional, a necessidade de um habitat cultural
(Deus, “Pátria” e Família) doutro modo transforma-se em meteorito, fora de
órbitra, que se autodestrói devido à inércia e à resistência do espaço-tempo ou
acaba num buraco negro que tudo sorve!
De momento vivemos numa sociedade precocemente
envelhecida sem consciência do equilíbrio necessário das várias forças
condutoras que lhe dariam vitalidade e sustentabilidade. A emancipação terá de
ser entendida como processo individual e colectivo sem que um se oponha ao
outro. O relacionamento recíproco entre o indivíduo e o grupo acontece num
processo de autolibertação e desenvolvimento quer do indivíduo quer da comunidade
numa cumplicidade solidária de dar e receber! O processo de autoafirmação em oposição à
comunidade só poderá ser compreendido como fase adolescente numa conjuntura especial
de individuação, mas não como atitude sã e equilibrada permanente (a tensão
interpolar é o factor de desenvolvimento em intercâmbio). Como exemplo dos extremos de individuação e de
colectivismo temos o capitalismo e o socialismo, a sociedade ocidental e a
sociedade islâmica.
Enquanto
a sociedade islâmica se apropria da singularidade individual subjugando-a à
comunidade (aquisição de valor pela funcionalidade), a sociedade ocidental
destrói as ligações à comunidade de maneira à pessoa se tornar num indivíduo
sem características que o definam (e na consequência caminha-se para a
anonimidade da pessoa como um abstrato funcional pragmático sem capacidade de
autorresponsabilidade); na deficiência do caracter da comunidade ocidental
afirmar-se-á o islamismo de maneira avassaladora na europa para ocupar este
défice europeu e por outro lado o islão é aproveitado pelo globalismo mundial
por atribuir à pessoa apenas um caracter funcional, o que o que facilita o estabelecimento
de uma plutocracia mundial.
Um individualismo despersonalizado e demasiado
acentuado afirma-se à custa leva da
comunidade favorecendo a criação de uma pequena elite mundial de déspotas
iluminados que ditem normas e condutas de vida para as pessoas já
descaracterizadas e regiões também elas sem caracter próprio e anonimizadas.
Passo a referir-me às diferenças éticas (católica e protestante) para
melhor se entender os diferentes ideários entre os povos nórdicos e os povos do
sul da Europa e a luta a decorrer entre o polo ocidental e o polo oriental. Muitas vezes
combatemo-nos esquecendo que somos irmãos gémeos e de quem somos filhos. Diferentes teologias deram origem a diferentes éticas (salvaguardem-se
muitas interpretações e expressões diferentes).
Em geral, a ética protestante baseia-se na crença no trabalho árduo, na
economia e na necessidade de se submeter à vontade de Deus (aqui está
certamente um dos factores que levou os países protestantes a tornarem-se mais
ricos). Se a ética protestante acentua a consciência individual baseada na
Bíblia (o indivíduo), a Igreja católica baseada nos ensinamentos da Igreja
Católica acentua a autoridade transmitida através da igreja (a comunidade) e
das tradições. A ética protestante enfatiza a justificação só pela fé (aspecto
individual) e a ética católica além da fé acentua também a importância das boas
obras e da cooperação com a graça (aspecto comunitário). Se para o
protestantismo o importante é o relacionamento pessoal com Deus (distinção
individual) a ética católica afirma especialmente a importância da graça e dos
sacramentos (timbre comunitário) e não esquece a relação pessoal directa com
Deus na mística e a nível moral a consciência individual como juiz soberano.
Também no que respeita às virtudes há acentuações diferentes; se a ética
protestante acentua a importância de virtudes como diligência, economia e
responsabilidade pessoal, a ética católica enfatiza a importância de virtudes
como misericórdia, caridade e solidariedade. De resto, a ética protestante tem
uma forte incidência no trabalho e acentua a responsabilidade pessoal pelo
sucesso na vida, a ética católica acentua o amor e a misericórdia para com os
outros e a importância da comunidade e de defender os fracos (justiça social).
Neste sentido a ética católica frisa a importância de virtudes como humildade,
paciência, modéstia, bravura e justiça e convida os fiéis a viver e expressar
essas virtudes nas suas ações diárias; exorta os fiéis a expressar a sua fé por
meio das suas acções e a usar a razão no que toca a tomar decisões morais!
Também a cultura europeia não deveria tornar-se propriedade nem presa fácil
de sistemas alheios a ela nem de mundivisões internas de esquerda ou de direita.
Os dois polos para continuarem a ser integrais europeus ou globais terão de
respeitar-se como partes integrantes do todo: o combate recíproco serve a
autodestruição e a absorção por forças alheias mais fortes. O partidarismo
aferrado e não tático apressa a derrocada da cultura europeia. Embora a opinião
pública se deixe mover por posições extremas seria de pressupor nas elites
dirigentes critério suficiente para não se deixarem cair na mesma dinâmica.
A divisão da ética cristã abrangente em dois polos opostos estilhaça a
unidade e a perfeição cristã e com ela a alma cultural da Europa. Temos de nos
encontrar para voltar a reencontrar a Europa e as suas fontes e nela o mundo. O
cristianismo não ideologizado continua a ser a oferta integradora de indivíduos
e sociedades numa relação fraterna de povos, religiões e culturas. Comunidade e
individualidade são as rodas de um mesmo eixo que proporcionam o
desenvolvimento humano e histórico.
A matriz católica e a matriz protestante expressam uma certa atualidade nos
motivos da guerra a decorrer na Ucrânia onde se debate o sistema individualista
anglo-saxónico com o sistema comunitarista oriental.
Devemos encontrar um meio-termo que abarque os dois polos para que os dois
sistemas (um excessivamente individualista e outro excessivamente comunitário)
se combinem de forma complementar num caminhar comum e numa só direção
esperançosa (usamos o pé esquerdo e o pé direito, para avançarmos).
Neste sentido, a guerra na Ucrânia entre o Pólo Ocidental e o Pólo Leste é
um grande desfasamento da história e apenas manifesta a estupidez, a arrogância
e a falta de consciência das elites para com uma cultura que deveria começar por
reconciliar-se a si mesma na Europa (de Lisboa aos Urais ) para assim se se
possibilitar a reconciliação no mundo!
António CD Justo
Texto completo e notas em Pegadas do Tempo:
https://antonio-justo.eu/?p=8457