sexta-feira, 12 de março de 2010

REESTRUTURAÇÃO DAS COMUNIDADES CRISTÃS



A Paróquia é um Terreno em Obras
António Justo
Na Alemanha, tal como em muitos outros países, as paróquias católicas e protestantes encontram-se em profunda reestruturação devido a falta de recursos económicos, a elaboração de novos perfis pastorais e à falta de párocos (no caso dos católicos).

A crise de comunidades paroquiais devida à falta de padres torna-se cada vez mais aguda. Em vez de se adaptar a estrutura pastoral eclesiástica às necessidades da comunidade, adapta-se a comunidade à falta de padres. Acelera-se um fenómeno de desenraizamento e de abandono dos cristãos das práticas litúrgicas e uma certa identificação territorial. A relação pároco comunidade dificulta-se. A comunidade de base insurge-se contra a reunião de paróquias sob um só pároco, mas em vão. O padre passa a ser um pastor de multiplicadores. Este processo oferece pouca resistência porque muitos dos párocos já só visitavam os “fregueses” quando solicitados. A necessidade em vez de se dar em favor dos membros da comunidade recorrendo-se à ordenação de pessoas casadas, de diáconos e diaconisas recorre-se à estratégia estrutural do mesmo pároco fazer serviço em várias freguesias ou em juntá-las. Naturalmente que também o reajustamento de paróquias traz as suas vantagens. Geralmente da necessidade nasce a virtude.

Com a fusão de paróquias o trabalho será mais estruturado e a rede de serviços torna-se mais lata. Por outro lado com estas medidas petrificam-se posições conservadoras que não aceitam párocos casados nem diaconisas. A lobi administrativa reduz a lamentação dos fiéis, que vêem a sua comunidade ameaçada, a um luto que passa. Mais que investir na mudança das estruturas seria de investir na vida espiritual das comunidades e na criação de Unidades Pastorais de serviços específicos. A preocupação das estruturas da igreja parece ser outra: pensa em sistemas de representação da Igreja a nível local, como se a comunidade cristã não fosse ecclesia mas fosse apenas parte duma sociedade. Enganam os fiéis com a ideia de democratização e de responsabilização dos leigos no lugar como se a comunidade não continuasse centrada no padre. Ou será que os actuais párocos são um impedimento de desenvolvimento de actividades laicas que na sua ausência se tornarão possíveis? Naturalmente que se há paróquias em que o padre só se limita à administração dos sacramentos, neste caso a subjugação dessa paróquia a uma outra parecerá legítima. Temos o Mammon e a instituição por vezes em concorrência com a pastoral e com a eclesiologia. A igreja tem uma responsabilidade ad intra et ad extra. Esta pressupõe o respeito por comunidades vivas e unidas, emocional, social e espiritualmente; essa responsabilidade deve estender-se ao pároco muitas vezes abandonado ao isolamento. Nunca é demais louvar o trabalho abnegado de assistência social e pastoral que os padres prestam ao povo e ao Estado apesar do ressentimento presente em ideologias que se apoderam do Estado e pretendem carta branca para a imposição dos seus interesses contra aqueles.

Critérios indispensáveis a uma Comunidade
Uma paróquia pode continuar a ter várias comunidades, como já acontece com os diferentes horários de missas, com diferentes músicas, diferentes públicos e até, por vezes com diferentes padres. As condições para que haja comunidade são: o seu testemunho de fé (martyria), a vivência da caridade (diakonia) e o louvor a Deus (Eucharistia) que se expressam na comunhão de todos (Communio) e se realiza e experimenta no Reino de Deus (Missio). Ecclesia (comunidade) pode naturalmente acontecer independentemente dum lugar determinado.

A revista alemã para pastoral e praxis na comunidade nº. 3 de 2010 www.anzeiger-für-die-seelsorge.de refere o resultado duma investigação científica em que se enumeram os critérios necessários para que uma Comunidade (ou paróquia) seja viva. Os oito critérios têm que ser cumpridos simultaneamente e são: direcção que autoriza, realização (execução em colaboração) de orientação carismática, espiritualidade entusiasta, relações amorosas, estruturas convenientes, liturgias inspiradoras, pequenos grupos íntegros e evangelização relevante.

Daqui se conclui a necessidade duma planificação abrangente. Além disso purismos são inconvenientes; o “trigo” deve “crescer com o joio”; só mais tarde se poderá ver. Uns fiéis trazem e sustentam os outros. Os espaços paroquiais ou da comunidade poderão ser usados por diferentes grupos de música e de arte, canto, cursos de formação, viagens, peregrinações, exposições, e grupos de meditação e outros em situações mesmo contraditórias, projectos ligados a necessidades específicas sejam elas família, idosos, etc..

Com padres casados ou com padres celibatários o importante é que a comunidade se abra à vida e não se fixe em hábitos rotineiros mas que se reduzem a não deixar morrer alguma iniciativa. Descobrir os próprios carismas e os dos outros numa estrutura com buracos estruturais que permitam oportunidades para a actuação do Espírito Santo.
Com a reforma antecipada há muitas pessoas cristãs e não cristãs interessadas em colaborar honorificamente ou apresentar projectos.

© António da Cunha Duarte Justo
http://antonio-justo.eu/
(continua no próximo (5) texto sob o título “A Igreja tem-se limitado a ver a Banda Passar”)

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