Belém o ponto de encontro de Oriente e
Ocidente
O Natal, simbolizado pelo presépio de Belém, revela-se como ponto que rasga
fronteiras, como o ponto de encontro entre o Oriente e o Ocidente, um espaço
onde cada pessoa é convidada a iniciar uma caminhada conjunta rumo a uma
cultura de paz. Na narrativa do presépio, as contradições humanas encontram-se
integradas, revelando a união entre matéria e espírito, entre o divino e o
humano e a necessidade de Ocidente e Oriente se encontrarem num espírito
inclusivo...
Num presépio simples, que acolhe humanos e animais, Jesus manifesta a
vontade do Pai de habitar nos corações, não no vazio ou num lugar distante...
O Natal inaugura uma história inclusiva, que acolhe todas as narrativas e
as coloca em relação, sem exclusões. O nascimento de Jesus em Belém, uma cidade
rica em simbolismo para os judeus, e um sinal também para toda a humanidade,
transforma o presépio numa casa universal...
É como se todos passássemos a ouvir o nosso próprio canto na voz dos
passarinhos ou víssemos as cores das flores como parte de nós, debaixo do mesmo
arco-íris com espírito de sintonia.
No presépio, Jesus faz parte do mundo sem ser
idêntico a ele...
As aparentes contradições da vida onde nos perdemos no nosso dia-a-dia – o
divino e o humano, a matéria e o espírito – são reconciliadas no presépio...
No presépio, Deus manifesta-se em Jesus Cristo, mas esconde-se no mundo
para dar aos seres humanos a possibilidade de se definirem...
O presépio simboliza esse novo mundo, onde o divino se revela no humano e a
criação se plasma em harmonia. Jesus, o protótipo da humanidade e da criação,
une o divino e o humano numa síntese perfeita. O presépio é o berço da
humanidade, onde a diversidade e as contradições convivem em liberdade e paz.
A presença dos reis magos – representantes de diferentes regiões e
mundividências – reforça essa visão universal do presépio...
O pensamento do Extremo Oriente, desprovido de entidades sobrenaturais,
encara a vida como uma mera caminhada...
O Ocidente, pelo contrário, busca transcender a imanência cíclica da vida,
procurando dar-lhe um sentido linear, com princípio e fim, considerando o mundo
também sua casa. No gesto dos reis magos, emerge um espaço de diálogo entre
essas duas visões: a vida como caminhada e a vida com uma meta (com princípio e
fim) ...
Eles encontram ali, de maneira antecipada, a realidade e o sentido do
mundo, compreendendo que a cultura é o campo onde o espírito lavra para unir as
diferenças num solo comum...
No presépio, a história linear do Ocidente e a fluidez cíclica do Oriente
encontram um ponto de convergência, simbolizando a criação de um novo espaço
onde a diversidade não é rejeitada, mas integrada.
Neste contexto de Natal e de Presépio, o mundo criado torna-se o verdadeiro
templo de Deus e do humano, um espaço sagrado onde tudo o que foi criado
encontra o seu lugar e o seu sentido. O presépio, símbolo do Natal, revela-se
como a morada onde matéria e espírito, razão e fé, se reconciliam numa cultura
de paz e pertença.
Natal encontra-se por realizar enquanto a maldade humana continuar a
afirmar-se, do homem contra o homem,
através de uma cultura da guerra afirmada contra a cultura da paz que
permanece ainda reservada ao foro privado-individual.
António da Cunha Duarte Justo
Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=9650