sábado, 24 de novembro de 2007

Advento

Advento é o tempo constituído pelas quatro semanas antes do nascimento de Jesus. Faz parte dos tempos coesos, como é o caso do tempo da Quaresma. São tempos da preparação, da intimidade, do voltar a si, da purificação e do acordar, em que se evitam as folias públicas. O advento, que inicia o ano litúrgico, é o tempo da noite que precede o surgir da luz.

Advento é o tempo da tensão entre o já chegado e o ainda não realizado. Deus entrou com Jesus na História e, deste modo, numa comunidade de destino connosco. Assim como Jesus rebentou com as fronteiras de cima para baixo, também nós estamos chamados a superar os limites da nossa realidade, de baixo para cima e em todos os sentidos. Para isso temos que descobrir e notar primeiramente a humanidade em nós e aquilo onde somos só número, papel, missão, figurantes ou objectos para se poder tornar possível uma transformação. “Vencer a desertificação da vida através da conversão”, como diz o Pe. Delf no seu livro “Im Angesicht des Todes”.

Deus está sempre a vir e a acontecer, ele torna-se realidade no encontro com Jesus. Jesus torna-se verdadeiro no encontro com o Homem, e nós tornar-nos-emos homens completos, vivos e livres, no encontro com Cristo. Então reconhecer-se-ão as cadeias do medo, do ego, das ideologias; os limites e a culpa do homem são reconhecidas e superadas. Assim como Deus, através da incarnação se tornou impotente, também o homem tem de perder o brilho exterior do poder, para entrar numa nova plenitude da vida e assim poder despertar para uma nova consciência. A consciência do “tudo em todos”.

O Advento é, como o tempo da gravidez, um tempo fechado e completo, onde a vida já palpita. O dar à luz pressupõe um poder de síntese, a união do simples para criar o novo, o complexo. A vida e o mundo trazem em si os vestígios do infinito. Deus encarnou-se em toda a natureza, não só no homem.

Advento é o tempo do encontro, da experiência de Deus. O encontro acende-se no coração, de modo que já não estamos sós, passando a ter em nós a experiência da plenitude da vida. “Já não sou eu que vivo”, o Mundo vive em mim.

Embora nos encontremos a caminho já nos é dado “agora” conhecer, experimentar e realizar a meta que Jesus nos viveu antecipadamente e continua a viver em nós nele. O mistério do ano litúrgico apresenta-nos a aparência do eterno retorno do ciclo exterior fechado. No encontro o ser humano supera as exterioridades deste ciclo de modo a já viver em Deus a plenitude da história e, no corpo místico, o Reino de Deus.

António da Cunha Duarte Justo

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